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Prezado Irmão, aproveitamos sua pergunta e juntamos com outra já formulada e já respondida por nosso irmão Silvio Seno
Chibeni.
Questões:
1. Dentro dos conceitos atuais da ciência e
da filosofia, como poderíamos classificar o Espiritismo? O que lhe parece a
clássica apresentação do Espiritismo como uma doutrina de conseqüências
cientificas, filosóficas e religiosas?
2. Considerando essa forma de apresentar a
doutrina, segundo seus aspectos básicos, qual seria a diferença entre dizer-se
“conseqüências religiosas” e “conseqüências morais”?
3. No GEAE (Grupo de Estudos Avançados de
Espiritismo) tem-se discutido a aplicação da designação de religião para o
Espiritismo; aparentemente, não há divergências quanto à sua classificação como
ciência e filosofia. Segundo a filosofia, o que caracteriza uma religião? Quais
os limites entre ciência, filosofia, moral e religião? O Espiritismo é uma
religião?
Respostas:
A
perspectiva para a compreensão do Espiritismo apontada no item (a) parece-me
correta, desde que se mude um pouco a forma de expressão. Dizer que ele é uma
doutrina “de conseqüências” científicas, filosóficas e morais implica
considerá-lo como uma quarta coisa, da qual decorreriam essas conseqüências. Na
verdade, poderíamos afirmar que ele constitui uma ciência associada a uma
filosofia e a um sistema moral, ou, mudando a ênfase, uma filosofia com bases
científicas e implicações morais.
Quanto
aos itens (b) e (c), cumpre lembrar inicialmente que a moral (ou ética) é uma
das áreas da filosofia, investigada com atenção por filósofos de todas as
épocas, desde a Grécia Antiga até nossos dias. De modo muito simplificado,
poderíamos defini-la como o estudo do bem e do mal. Seu problema fundamental é o
estabelecimento de critérios pelos quais se possam distinguir as ações em boas e
más, certas e erradas, ou, sob outro ângulo, avaliar criticamente os critérios
propostos para tal fim pelas diferentes religiões, ideologias, sistemas
políticos, etc.
Nunca
houve uma sociedade humana civilizada totalmente destituída de códigos morais
que estabelecessem limites para as ações dos indivíduos. Nos primórdios da
civilização tais códigos usualmente baseavam-se nas concepções religiosas
vigentes, a seu turno amplamente dependentes do ensino de indivíduos
considerados especiais, tais como profetas, pitonisas, gurus, etc. Tais pessoas
muitas vezes alegavam dispor de meios incomuns, sobrenaturais, de comunicação
com a própria Divindade ou divindades; suas doutrinas eram, pois, tidas como
“revelações”.
Especialmente
a partir do Renascimento (séculos XV e XVI), a autoridade moral das religiões
estabelecidas em tais bases começou a ser mais e mais questionada. O movimento
intelectual de valorização das faculdades cognitivas naturais – a razão e a
observação – encontrou terreno preparado pelas fragilidades teóricas do
revelacionismo religioso que, ademais, havia tantas vezes conivido, legitimado
ou participado diretamente de ações em franco desacordo com um certo sentido
ético natural do ser humano (discriminações, perseguições, torturas,
assassinatos, etc.).
Sob
a influência vigorosa de grandes filósofos do período moderno, entre os quais
cumpre destacar o inglês John Locke (1632-1704), as legislações civis dos povos
mais esclarecidos foram se dissociando dos sistemas religiosos, quaisquer que
fossem. Pontos altos desse processo foram, por exemplo, as revoluções inglesa
(1688) e francesa (1789), e a assinatura da Constituição Americana (1789). Em
todos esses episódios, os códigos de direitos e deveres dos cidadãos resultaram
de deliberações e acordos tácitos ou explícitos de grupos laicos. Os filósofos
acadêmicos modernos desenvolveram seus estudos éticos sob perspectivas diversas
e nem sempre compatíveis umas com as outras, mas que em geral excluem consciente
e explicitamente quaisquer fundamentos religiosos, teológicos ou
místicos.
A
moral sempre constituiu parte integrante das religiões. No entanto, estas não se
resumem à proposição e defesa de sistemas morais, incluindo, de modo típico,
cultos, liturgias e rituais diversos, hierarquias, princípios teológicos
abstratos sem relação direta com a questão da conduta humana, etc. Foi essa
bagagem-extra, aliás, o que mais repulsa causou aos chamados
“livres-pensadores”, responsáveis pela renovação da filosofia e da ciência a
partir do Renascimento, tendo conduzido, por um processo compreensível de
exacerbação, ao ateísmo e ao materialismo, em graus sem precedentes na história
da humanidade.
Perdidas
as bases religiosas tradicionais, a ética teve dificuldades para estabelecer
princípios de conduta objetivos. Nasceu daí uma vertente bastante visível na
sociedade hodierna, que é o chamado relativismo ético, segundo o qual o que é
certo ou errado, bom ou ruim, depende da pessoa, do grupo social, da época, etc.
De forma oportunista, intelectuais (ou pseudo-intelectuais) têm explorado esse
canal para tentar legitimar os mais aberrantes comportamentos individuais ou
grupais, contribuindo assim decisivamente para a degeneração das estruturas
psicológicas e sociais.
No
campo da filosofia acadêmica, existem propostas éticas não-religiosas que
procuram refutar o relativismo, dividindo-se em duas grandes classes: os
sistemas éticos racionalistas, ou aprioristas, como o de Immanuel Kant
(1724-1804), e o utilitarismo, que encontra raízes em Locke, mas só foi
desenvolvido mais explicitamente por Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart
Mill (1806-1873). Pode-se afirmar com razoável segurança que o efeito prático
dos sistemas éticos do primeiro tipo sobre as sociedades contemporâneas é quase
nulo, por razões que não vem ao caso examinar aqui. Quanto à segunda proposta,
embora a palavra ‘utilitarismo’ tenha impropriamente adquirido uma conotação
negativa fora dos círculos filosóficos, é inegável que repercutiu de forma
profunda no estabelecimento dos melhores sistemas sociais existentes, quer do
ponto de vista material, quer dos direitos humanos e do fomento às artes,
ciências e filosofia. Mesmo nessas sociedades, porém, assiste-se hoje a
crescente desvalorização das avaliações a longo prazo das ações humanas e ao
esquecimento dos princípios filosóficos seguros que nortearam os seus
fundadores, abrindo amplo espaço para o referido relativismo
moral.
Quando
devidamente compreendido, o Espiritismo traz contribuições importantes para todo
esse panorama da ética, tão imperfeitamente esboçado aqui. Refinando e
estendendo o conhecimento acerca do ser humano, ele permite a elaboração de uma
ética objetiva e clara, explorando, com adaptações, a vertente de Bentham e
Mill. Tratei desse assunto nos artigos “Os fundamentos da ética espírita” e “A
excelência metodológica do Espiritismo” (seção 5), que devem ser consultados
para o desenvolvimento ulterior desta resposta.
Em
diversas de suas obras, Kardec deu grande importância ao estabelecimento da
moral espírita, abordando o assunto em profundidade. Mostrou que com o
conhecimento científico espírita a moral deixa de ser uma questão de
especulações abstratas ou de opiniões, estando indissociavelmente ligada ao
estudo das conseqüências das ações humanas, em conexão com a busca da
felicidade, objetivo comum de todos os seres humanos. Ressaltou ainda que o
corpo de princípios morais obtidos por essa via da razão e da experiência
coincide com aquele proposto por Jesus. Conforme registrou no parágrafo 56 do
primeiro capítulo de A Gênese, o Espiritismo “[dá] por sanção à doutrina cristã
as próprias leis da Natureza”.
Ora,
na medida em que fornece ao homem conhecimento seguro das regras de conduta
capazes de harmonizá-lo consigo mesmo e com os demais seres, o Espiritismo
torna-se “o mais potente auxiliar da religião”, conforme nota Kardec nos lúcidos
comentários adidos às questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos. A religião
aqui aludida não se confunde, evidentemente, com as doutrinas religiosas
tradicionais, com suas hierarquias, dogmas inquestionáveis e práticas
exteriores, sendo antes uma religião no sentido próprio do termo, a re-ligação
da criatura ao Criador.
A
velha questão de se o Espiritismo é ou não uma religião não admite, pois,
resposta unívoca, dada a duplicidade semântica do termo ‘religião’. Esse ponto
foi lucidamente estudado e, a meu ver, esgotado, no artigo de Kardec intitulado
justamente “Le Spiritisme est-il une religion?”, que apareceu na Revue Spirite
de 1868. Para encerrar, vejamos estes parágrafos do famoso
texto:
[...]
o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a
doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em
uma simples convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da
Natureza.
Por
que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que
há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a
opinião geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando
unicamente uma idéia de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer
relação. Se se tivesse proclamado uma religião, o público nele não veria senão
uma nova edição, ou uma variante, se quisermos, dos princípios absolutos em
matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e
privilégios; não o distinguiria das idéias de misticismo e dos enganos contra os
quais se está freqüentemente bem instruído.
Não
apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz
simplesmente uma doutrina filosófica e moral.
No
próximo artigo desta série começarão a ser abordadas algumas questões acerca da
ciência espírita e temas correlacionados.
Referências:
* CHIBENI,
S. S. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988,
p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378. (Disponível no site do Grupo de
Estudos Espíritas da Unicamp:
http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482.)
* ––. “Os
fundamentos da ética espírita”, Reformador, junho de 1985, p.
166-9.
* KARDEC,
A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro,
Federação Espírita Brasileira, s.d.
* ––. A
Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro,
23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.
d.)
* ––. Le Spiritisme est-il une religion? In: L’Obssession.Extraits textuels des Revues Spirites de 1858 a 1868.
Farciennes, Bélgica, Éditions de l’Union Spirite, 1950. (Uma tradução confiável
para o vernáculo, de Ismael Gomes Braga, pode ser encontrada no Reformador de
março de 1976.)
Notas:
[1] O conteúdo do texto corresponde, com algumas adaptações, a parte de
entrevista concedida por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de
Espiritismo), pioneiro na divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista
foi publicada no Boletim n. 300 (edição extra), que circulou em 7/7/1998,
podendo ser encontrado no site http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao
GEAE a anuência para o aproveitamento do material nesta série de artigos. Sou
especialmente grato aos seus membros Ademir L. Xavier Jr., pela iniciativa da
entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido as relevantes e
oportunas questões.
Fonte:
O Reformador, set/1999

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