O “estudo produz humildade” (vidya vinayam dadati). Esta frase
é conhecida em toda a Índia. A ausência de auto-importância é a marca de uma
pessoa realmente estudiosa e culta. Mas esta frase também se presta à
interpretação de: "o estudo conduz à disciplina" - não uma disciplina imposta
externamente por livros sagrados ou outra autoridade, mas a disciplina do
não-eu. Do ponto de vista espiritual, todo estudo deve ser um processo de
aprendizagem e não uma absorção de idéias de outras pessoas, de memorizar
passagens e acumular informações. A aprendizagem deve fazer surgir uma mudança
interior e um crescimento do entendimento.
Se o estudo não conduz à pureza do altruísmo, não há
verdadeira aprendizagem. Pois quando há aprendizagem a disciplina surge
naturalmente com ela. Podemos tomar como exemplo o estudo do assunto da unidade
da vida. Se o estudo for teórico nada é conseguido. Mas se aprendemos através do
estudo a refletir sobre nossas experiências na vida diária, e somos guiados por
um sentimento de unidade em nossos relaciona¬mentos, podemos viver vidas mais
tranqüilas e disciplinadas. O sentimento de unidade fortalece atitudes
compreensivas e piedosas e nos impede de fazer certos tipos de ações. Quando a
unidade é sentida, é possível ferir outrem - não somente outro ser humano, mas
também um inseto ou um animal? Ações prejudiciais são impossíveis para quem é
sensível à verdade da unidade. Assim, a disciplina de ser inofensivo torna-se
uma parte natural de nossa vida, na medida em que a unidade seja
experienciada.
Muitas pessoas, especialmente nos países ocidentais, não
gostam da palavra "disciplina". Sentem que ela é uma invasão à sua liberdade. No
Oriente, onde as pessoas aceitam a idéia de uma vida disciplinada, os deveres
são cumpridos como parte de uma rotina religiosa e não se dá muita atenção aos
relacionamentos. Entretanto, nesta era da informação, ambas as sociedades,
ocidentais e orientais, encontram-se caóticas, com o crescente aumento da
indisciplina do egoísmo.
Procurar conhecimento avançado mas ignorar a necessidade
de disciplina é uma forma de ignorância. O conhecimento brota do interior, do
Eu, que é um estado de Conhecimento ou Sabedoria. Mas para que esse Conhecimento
se manifeste, o que é chamado de personalidade ou eu inferior deve ser
disciplinado e subordinado ao verdadeiro Eu. A personalidade muitas vezes foi
comparada a cavalos indóceis e a macacos agitados. Se permitirmos que ela assuma
o controle, irá afastar-nos do conhecimento. Mas com disciplina, ela aprenderá a
servir ao Mestre interior.
De acordo com H.P.B., a instrução que conduz à Sabedoria
Divina não pode ser obtida a menos que certas condições sejam preenchidas e
rigorosamente cumpridas durante anos de estudo. Verdadeiros instrutores
espi¬rituais não aceitam discípulos que relutam em cumprir as condições
necessárias.
H.P.B, dá uma lista do que ela chama de os meios mais
eficientes de atingir o verdadeiro conhecimento e preparar-se para o recebimento
da sabedoria superior: meditação, abstinência, prática de deveres morais,
pensamentos benévolos, boas ações e palavras amáveis, boa vontade com tudo e
completo esqueci¬mento do eu. Nas Cartas dos Mestres e em
outros textos há listas semelhantes. Quaisquer dessas orientações posta em
prática toma a consciência do estudante muito mais receptiva e sensitiva. Aí
então, toda instrução recebida de um instrutor ou de uma fonte externa é
assimilada e transforma-se em ensinamento que damos a nós mesmos. É o mesmo que
nossa natureza-sabedoria nos diz. Nenhuma disciplina é eficaz se não surgir de
nossa própria compreensão e estudo.
Muitos ensinamentos importantes são bastante simples, mas
as pessoas preferem desconsiderá-los. Por exemplo, o ensinamento sobre a
não-violência é conhecido pelos cristãos que foram advertidos "não matarás"; a
disciplina budista proíbe fazer dano; outras religiões também apóiam o princípio
da não-violência. Mas muitos interpretam estas instruções conforme sua
conveniência e, portanto, suas práticas religiosas não conseguem transformá-los.
Somente adotando uma maneira de vida que acalme o cérebro e a mente e conduza à
lucidez da percepção, pode a instrução teórica tornar-se verdadeiro
conhecimento.
Os assuntos referidos por H.P.B, podem ser rejeitados como
banalidades. Podemos dizer "sabemos que devemos ter pensamentos bondosos", mas
realmente refletimos sobre a importância destas duas palavras, não somente por
nós, mas para o mundo? Para a construção de um mundo agradável deve haver
pensamentos gentis.
Como dissemos, o sério estudo sobre a unidade da vida
elimina a atividade agitada e prejudicial. Da mesma forma, o estudo do Karma, se
seriamente buscado, causará uma mudança em nossas vidas e irá conduzir-nos a um
estado de paz e harmonia. Compreender o karma significa abster-se de toda
espécie de maldade e ter cuidado para que as influências que recebemos sejam
boas e úteis. A última condição que H.P.B, menciona - completo esquecimento do
eu - não acontecerá de um momento para outro, mas quando os outros pontos forem
atingidos, o eu inferior será controlado e a mente irá tornar-se humilde e
naturalmente disciplinada e desta forma aberta à Sabedoria
superior.
Extraído da revista The Theosophist, março 1998.
Tradução: Izar Tauceda. MST, Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS