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 A DISCILINA DO NÃO EU

Radha Burnier

 
O “estudo produz humildade” (vidya vinayam dadati). Esta frase é conhecida em toda a Índia. A ausência de auto-importância é a marca de uma pessoa realmente estudiosa e culta. Mas esta frase também se presta à interpretação de: "o estudo conduz à disciplina" - não uma disciplina imposta externamente por livros sagrados ou outra autoridade, mas a disciplina do não-eu. Do ponto de vista espiritual, todo estudo deve ser um processo de aprendizagem e não uma absorção de idéias de outras pessoas, de memorizar passagens e acumular informações. A aprendizagem deve fazer surgir uma mudança interior e um crescimento do entendimento.

Se o estudo não conduz à pureza do altruísmo, não há verdadeira aprendizagem.      Pois quando há aprendizagem a disciplina surge naturalmente com ela. Podemos tomar como exemplo o estudo do assunto da unidade da vida. Se o estudo for teórico nada é conseguido. Mas se aprendemos através do estudo a refletir sobre nossas experiências na vida diária, e somos guiados por um sentimento de unidade em nossos relaciona¬mentos, podemos viver vidas mais tranqüilas e disciplinadas. O sentimento de unidade fortalece atitudes compreensivas e piedosas e nos impede de fazer certos tipos de ações. Quando a unidade é sentida, é possível ferir outrem - não somente outro ser humano, mas também um inseto ou um animal? Ações prejudiciais são impossíveis para quem é sensível à verdade da unidade. Assim, a disciplina de ser inofensivo torna-se uma parte natural de nossa vida, na medida em que a unidade seja experienciada.

Muitas pessoas, especialmente nos países ocidentais, não gostam da palavra "disciplina". Sentem que ela é uma invasão à sua liberdade. No Oriente, onde as pessoas aceitam a idéia de uma vida disciplinada, os deveres são cumpridos como parte de uma rotina religiosa e não se dá muita atenção aos relacionamentos. Entretanto, nesta era da informação, ambas as sociedades, ocidentais e orientais, encontram-se caóticas, com o crescente aumento da indisciplina do egoísmo.

Procurar conhecimento avançado mas ignorar a necessidade de disciplina é uma forma de ignorância. O conhecimento brota do interior, do Eu, que é um estado de Conhecimento ou Sabedoria. Mas para que esse Conhecimento se manifeste, o que é chamado de personalidade ou eu inferior deve ser disciplinado e subordinado ao verdadeiro Eu. A personalidade muitas vezes foi comparada a cavalos indóceis e a macacos agitados. Se permitirmos que ela assuma o controle, irá afastar-nos do conhecimento. Mas com disciplina, ela aprenderá a servir ao Mestre interior.

De acordo com H.P.B., a instrução que conduz à Sabedoria Divina não pode ser obtida a menos que certas condições sejam preenchidas e rigorosamente cumpridas durante anos de estudo. Verdadeiros instrutores espi¬rituais não aceitam discípulos que relutam em cumprir as condições necessárias.

H.P.B, dá uma lista do que ela chama de os meios mais eficientes de atingir o verdadeiro conhecimento e preparar-se para o recebimento da sabedoria superior: meditação, abstinência, prática de deveres morais, pensamentos benévolos, boas ações e palavras amáveis, boa vontade com tudo e completo esqueci¬mento do eu.  Nas Cartas dos Mestres e em outros textos há listas semelhantes. Quaisquer dessas orientações posta em prática toma a consciência do estudante muito mais receptiva e sensitiva. Aí então, toda instrução recebida de um instrutor ou de uma fonte externa é assimilada e transforma-se em ensinamento que damos a nós mesmos. É o mesmo que nossa natureza-sabedoria nos diz. Nenhuma disciplina é eficaz se não surgir de nossa própria compreensão e estudo.

Muitos ensinamentos importantes são bastante simples, mas as pessoas preferem desconsiderá-los. Por exemplo, o ensinamento sobre a não-violência é conhecido pelos cristãos que foram advertidos "não matarás"; a disciplina budista proíbe fazer dano; outras religiões também apóiam o princípio da não-violência. Mas muitos interpretam estas instruções conforme sua conveniência e, portanto, suas práticas religiosas não conseguem transformá-los. Somente adotando uma maneira de vida que acalme o cérebro e a mente e conduza à lucidez da percepção, pode a instrução teórica tornar-se verdadeiro conhecimento.

Os assuntos referidos por H.P.B, podem ser rejeitados como banalidades. Podemos dizer "sabemos que devemos ter pensamentos bondosos", mas realmente refletimos sobre a importância destas duas palavras, não somente por nós, mas para o mundo? Para a construção de um mundo agradável deve haver pensamentos gentis.

Como dissemos, o sério estudo sobre a unidade da vida elimina a atividade agitada e prejudicial. Da mesma forma, o estudo do Karma, se seriamente buscado, causará uma mudança em nossas vidas e irá conduzir-nos a um estado de paz e harmonia. Compreender o karma significa abster-se de toda espécie de maldade e ter cuidado para que as influências que recebemos sejam boas e úteis. A última condição que H.P.B, menciona - completo esquecimento do eu - não acontecerá de um momento para outro, mas quando os outros pontos forem atingidos, o eu inferior será controlado e a mente irá tornar-se humilde e naturalmente disciplinada e desta forma aberta à Sabedoria superior.
 
Extraído da revista The Theosophist, março 1998.
Tradução: Izar Tauceda. MST, Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS

 

 

 

 

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Pensamento

Ocultismo não é magia, embora a magia seja um de seus instrumentos. 

Ocultismo não é aquisição de poderes, psíquicos ou intelectuais, embora ambos sejam seus servos.

Ocultismo também não é a busca da felicidade, da maneira como os homens entendem a palavra, pois seu primeiro passo é o sacrifício, o segundo, a renúncia. 

A vida é feita do sacrifício do individual para o todo.

Cada célula no organismo vivo deve sacrificar-se para a perfeição do todo; quando ocorre de outro modo, doenças e morte forçam a lição. 

Ocultismo é a ciência da vida, a arte de viver. 


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