Bertolt Brecht escreveu que.algumas pessoas lutam durante um
dia por uma causa nobre, e isto é algo valioso; outros lutam durante um ano, o
que é melhor; mas há os que lutam a vida inteira, e estes últimos são
indispensáveis. A Sociedade Teosófica no Brasil perdeu, nos primeiros meses de
I998, três trabalhadores que dedicaram suas vidas inteiras à causa dos Mestres e
à Fraternidade Universal. Ficam conosco, no entanto, seus exemplos
inspiradores.
Brito: Uma Fonte de Paz e Fraternidade
Treze dias depois do Festival de Wesak ou Vaisakh, faleceu no
dia 24 de maio passado o teósofo João Batista Brito Pinto, que presidiu a Seção
Nacional da Sociedade Teosófica no Brasil durante os anos 80.
Amável e ponderado, Brito era um centro de paz onde quer que
se encontrasse. Nascido a 24 de junho de 1912, foi testemunha de quase todo o
século IX, e manteve-se voltado sempre para a luz e a fraternidade universal.
Espírita desde jovem, ingressou na Sociedade Teosófica logo que soube da sua
existência. Cinqüenta anos atrás, na década de 1940, já era um dos líderes
teosóficos mais ativos do país, atuando a partir da Loja Teosófica Fraternidade,
de São Paulo.
João Batista Brito Pinto -ou simplesmente Brito, como era
conhecido - dedicou-se na parte final de sua vida à pesquisa sobre a História do
movimento teosófico no Brasil. Ele estabeleceu o ano de 1896, quando foi
publicado o primeiro texto sobre teosofia em nosso país, como o momento inicial
do movimento teosófico brasileiro. Brito completou o primeiro volume dos seus
Subsídios sobre a Historia da Sociedade Teosófica no Brasil (1896-1946), e
trabalhou até pouco antes de morrer no segundo volume da pesquisa.
Vale a pena encerrar esta nota com algo que Brito escreveu em
1985 sobre o futuro da civilização humana, e que foi publicado na revista Logos,
número 14:
"Mesmo diante de problemas quase insolúveis de nosso mundo,
poderíamos admitir que há um processo de transição, uma vez que o estado de
coisas atual chegou ou deve chegar a um fim, e uma nova forma vislumbra-se à
frente como sucessora natural, uma nova possibilidade de atingir metas mais
perfeitas. Um dos sinais deste processo pode ser as mostras de um crescente
anseio por toda parte por novas formas de cultura, novas faces da vida, caminhos
outros. Podemos creditar esta situação emergente ao papel atribuído à fundação
da S. T. há pouco mais de um século, como pioneira no processo transformador
(...) e nós, como membros da S.T., podemos ser em nosso viver diário agentes
desta transmissão, porque afinal de contas a S.T. será como nós, seus membros,
formos”.
Uma das filhas de Brito, Marília Andrade Pinto, é a atual
diretora do Centro Teosófico Raja, em São Paulo, e tem trabalhado com força,
equilíbrio e êxito para que haja mais sabedoria e menos sofrimento no
mundo.
Yvênnia Rodrigues: Personificando as
Paramitas
Ao deixar o plano físico no dia 25 de janeiro de 1998, a irmã
Yvênnia Rodrigues levou um pedaço da alegria presente no movimento teosófico de
Brasília desde a sua origem, várias décadas atrás. Em compensação, deixou a
presença inspiradora do seu exemplo de vida, porque, como na melhor tradição
pitagórica, Yvênnia ensinava sobretudo pela sua própria conduta.
O caminho da sabedoria eterna nos fala das paramitas, que são
as qualificações necessárias ao aspirante. Yvênnia irradiava poderosamente a
energia vital das paramitas. Ela possuía Vírya, a intrépida energia que das
limitações terrenas abre caminho até a verdade suprema; tinha Vairagya,
indiferença ao prazer e à dor; tinha kshanti, a doce paciência inalterável; e
Dana, a chave do amor imortal - entre as suas virtudes mais
notáveis.
Nascida no Rio de janeiro em 10 de outubro de 1923, Yvênnia
Rodrigues ingressou na Sociedade Teosófica em dezembro de 1974 e desde então
trabalhou incansavelmente em diversas instâncias do movimento. "Para mim" -
explica a irmã Olinda Pugliesi, que dirige a Instituição Pitágoras, em São Paulo
- "Yvênnia foi uma musa inspiradora da alegria e da espiritualidade sem
barreiras. Onde ela estava, havia coragem, alegria, fé, amor. Yvênnia nasceu
para ajudar o mundo. Ela foi um anjo, e era mais do que uma irmã. Nela eu me
fortalecia e me encorajava".
Edna Guerra de Macedo, de Brasília, admite, como muitos
outros: "Yvênnia foi, mais do que qualquer outra coisa, um exemplo vivo em minha
vida".
Nelly Campiglia, diretora do Depto. do Livro, conta que "com
sua alegria e vontade de viver Yvênnia tirava qualquer pessoa do desânimo ou da
depressão. Mas era uma vontade de viver para servir, não para outras coisas".
Quando Nèlly sugeriu a Yvênnia que descansasse mais e trabalhasse menos pela
S.T., para preservar sua saúde, Yvênnia respondeu: "Nelly, minha vida é a S.T.
Eu trabalho para os Mestres. Não posso parar". E assim foi até o final. Ela não
media esforços e não conhecia o desânimo.
Para a irmã Vanisa Costa Lins, do Rio de Janeiro, Yvênnia foi
uma grande trabalhadora que não só dedicou sua vida à S.T., mas também foi
sempre fraterna e respeitosa para com todos, e tinha sempre uma palavra de apoio
e de incentivo. "Era uma amiga leal, sincera, de coração", conta
Vanisa.
Dahyl Muniz Bastos e o trabalho em Minas.
Faleceu em Belo Horizonte em 19 de maio passado, oito dias
depois do plenitário de Wesak, a irmã Daryl Muniz Bastos, da Loja Hamsa. Nascida
em 02 de abril de 1917, Dahyl foi um ponto de luz do trabalho teosófico para
Minas Gerais desde o seu ingresso na S.T., quarenta anos atrás, em fevereiro de
1958. "Ela manteve sempre acesa a chama do amor pela causa", conta Olinda
Pugliesi, de São Paulo. "Foi uma expoente do trabalho teosófico. Mesmo doente,
prosseguiu ativa. Quando não pôde ir mais à sede da S.T., fazia reuniões em sua
casa", explica Olinda. Os irmãos de Belo Horizonte perdem uma irmã de todas as
horas, mas fica com eles o exemplo inspirador de Dahyl.