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Radha Burnier
A harmonia é de importância vital para a Humanidade.
Estar sem sintonia com outras pessoas, com o meio ou com nós mesmos, é fazer
enorme dano aos relacionamentos e ao nosso próprio progresso. O dano que fazemos
a nós mesmos nunca pode estar separado do dano que fazemos aos outros. Somos
responsáveis pelo todo. Aqueles que estão interiormente bem harmonizados e
integrados irradiam harmonia e felicidade onde quer que estejam e em tudo que
fazem.
Por outro lado, quando há discórdia interna, ela
alimenta a discórdia externa. Além disto, como diz A Voz do Silêncio: "Antes que
a alma possa ver, deve-se atingir a harmonia interior." Toda discórdia cega a
visão e retarda o progresso humano. O Universo não é um caos mas um cosmo, tão
perfeitamente sintonizado que aqueles que o compreendem através do estudo e da
contemplação ficam sem fala, completamente assombrados.
Em seu livro Apenas Seis Números, com o subtítulo de
"As Profundas Forças que Modelam o Universo", o autor Sir Martin Rees escreve
sobre seis números, alguns deles muito pequenos e outros muito extensos, que
constituem a "receita" para o Universo. Se qualquer deles fossem aumentado ou
diminuindo mesmo em pequena escala, não haveria estrelas nem vida. Por exemplo,
se a razão existente entre a gravidade e a energia que se expande tivesse sido
ligeiramente diferente, o Universo deveria ter desaparecido há muito tempo, nem
galáxias ou estrelas poderiam ser formadas. Fazemos a pergunta: "Esta harmonia é
apenas um fato irracional, uma coincidência?"
De acordo com os antigos indianos, a ordem cósmica
era chamada de Rta. Um nível superior e inimaginável de harmonia que mantém a
ordem cósmica em relação não somente com os fatos percebíveis e mensuráveis dos
quais os cientistas tomam conhecimento, mas que existe em dimensões sutis com as
quais a ciência não se ocupa.
Para os antigos, Rta era a harmonia total, a base
para todos os fenômenos nos campos e nas dimensões visíveis e nas profundezas
invisíveis da existência. David Bohm deve ter tido uma visão deste aspecto
quando escreveu em A Totalidade e a Ordem Implícita sobre a totalidade indivisa
no movimento harmonioso e numa ordem implícita que "constitui um aspecto
fundamental da realidade".
O ouvido de um músico hábil é tão sensível que ele se
torna consciente até mesmo do menor desvio na harmonia dos sons. Ele escuta
diferenças leves que seus ouvintes podem não notar e cada vez que seja
necessário ajusta a corda para manter harmonia perfeita. Cada músico de uma
orquestra também cuida para manter a excelência musical: por integrarem o Todo,
mesmo leves nuanças são importantes.
A ordem cósmica ou Rta, numa escala vasta e quase
inescrutável, pode ser semelhante. Há uma inteligência e um poder criativo (o
músico chefe) que restaura a harmonia do Universo, mesmo se ele for perturbado
em escala muito pequena. Este é o trabalho do Karma ou Karma-Nemesis, como a
Sra. Blavatsky o chamou em A Doutrina Secreta. Ela diz que "o único decreto do
Karma – um decreto eterno e imutável – é a Harmonia absoluta no mundo da Matéria
bem como no mundo do Espírito. Contudo, não é o Karma que nos recompensa ou
pune, ao agirmos através e com a Natureza, obedecendo leis das quais dependem a
harmonia, ou – quebrando-as." (DS II.368).
HPB também diz neste contexto que enquanto o efeito
de haver perturbado "o menor átomo no Infinito Mundo de Harmonia" não tenha sido
reajustado, o "fazedor do mal" sofre o que ele pensa ser retribuição. Ele
experimenta o que chamamos de "dor" e luta para fugir dela, e, por ignorar o que
acontece, age de tal maneira que cria mais perturbação.
A tradição antiga também afirma que, invisível à
nossa percepção, existem muitos tipos de seres, dotados de inteligência em
medidas variadas, que estão num estado de harmonia inconsciente com a Natureza e
que espontaneamente fazem o "Grande Trabalho". Eles alegremente cumprem seu
papel na sinfonia cósmica.
Assim fazem todas as criaturas subumanas que
conhecemos. Somente para os seres humanos surge a indagação de como estar em
sintonia com o Universo. Nós, que estamos tão fora de sintonia, sentimos a
infelicidade de disputar e almejar a paz, o amor e a beleza.
Mas felizmente a consciência humana tem o poder de
observar, pensar e entender suficientemente o Universo no qual se encontra para
compreender a responsabilidade do indivíduo na preservação da harmonia. Por
nosso próprio esforço em ver e entender a vida, devemos compreender que as
condições caóticas da sociedade humana resultam de contradições em nós mesmos.
Por conseguinte, o remédio está em nossas mãos. Se tentarmos entender, nossa
consciência poderá fazer a transição para um novo nível de conhecimento da ordem
universal, de seu significado e de sua beleza.
A evolução não é simplesmente um crescimento do menor
para os grandes graus de complexidade da forma, mas também um florescimento da
consciência em níveis mais altos de percebimento. Este percebimento inclui uma
apreciação das energias fundamentais do cosmo e não se refere necessariamente ao
conhecimento dos detalhes. É uma visão dos princípios divinos que se manifestam
em cada detalhe bem como no fluxo geral. Diz a tradição que a omnisciência de
Buddha consiste no poder de saber tudo em vez de conhecer detalhes, como quantos
fios de cabelo existem na cabeça de um homem!
O fluxo da manifestação revela estes princípios
divinos em vários graus através dos vários fenômenos e funções. No fluxo de uma
cachoeira vemos um movimento firme embora haja alteração constante. A cintilação
mudando em oposição ao fundo num estado uniforme, nos permite experimentar um
deleite e um sentido de algo novo a cada instante. A sombra, ou mundo
fenomênico, é movimento e mudança infindáveis, mas sob o movimento está o imóvel
e perpétuo Ser – um paradoxo que se repete de outras maneiras.
A ordem do Universo abarca uma diversidade imensa de
formas e padrões. A energia criativa que o mantém, produz constantemente novas
coisas; pois nada se repete, nem mesmo uma folha de árvore é igual à outra. A
Natureza parece abominar a clonagem e a conformidade. Ainda assim, em meio à
surpreendente diversidade da vida, existe um misterioso elo unindo todas as
coisas num todo. O ser humano é como uma gota na vastidão e profundeza do oceano
da existência, aparentemente separado mas inseparável dele.
Estes paradoxos são todos parte da música das
esferas. A grande sinfonia da Natureza é tocada por diversos instrumentos,
músicos, melodias, ritmos, etc. Uma parábola sufi conta a seguinte história: o
grito agudo de um corvo encomodou algumas pessoas, e estas, irritadas, o
enxotaram. Então, o Senhor convocou seus auxiliares e perguntou por que um
membro de sua orquestra estava faltando. Podemos dizer, desta forma, que cada
elemento específico tem seu valor por enriquecer o todo, mas é o todo que é a
"música das esferas".
É maravilhoso pertencer à raça humana porque podemos
aproveitar a beleza e a novidade de todos os elementos diferentes e também
compreender que eles fazem parte da totalidade. De fato eles são o Todo
mostrando uma parte de sua natureza, assim como a Luz mostra as cores do
arco-íris. Cada unidade tem o potencial da diversidade, e todas as diversidades
desaparecem na unidade. O problema do homem é que nossas contradições internas
têm sua base no grande paradoxo da manifestação, enquanto o Supremo mostra-se
apenas como Ele.
O Visconde de Nouy, em seu livro Destino Humano, como
outros pensadores, especulou sobre os objetivos essenciais da evolução e sugeriu
que eles incluem harmonia, liberdade e individualidade. Na média humana, a
afirmação da individualidade destrói a harmonia e aparece para firmar a
liberdade. A diversidade de formas e espécies é um meio para evoluir cada vez
mais as caraterísticas individuais.
Por exemplo, há enorme diferença entre um mosquito e
um elefante, não apenas pelo tamanho, mas porque no primeiro dificilmente há
individualidade, enquanto o último é notoriamente individual na aparência,
comportamento e inteligência. O ser humano avançou ainda mais longe nesta
direção. Mas através de milênios, a evolução da consciência também desenvolveu a
liberdade e um sentido de harmonia. Organicamente houve evoluções: o animal é
fisicamente mais livre do que a planta, e a Humanidade é ainda mais
livre.
Internamente também o progresso está sendo feito em
direção à liberdade. Contudo, nas vidas da maioria dos seres humanos há a
aparente contradição entre a necessidade de harmonia de um lado e a
individualidade do outro lado. Isto foi resolvido nos primeiros estágios
pré-humanos pelos próprios ajustes da Natureza. Mas no ser humano autoconsciente
há conflito e luta. Ele quer relacionamentos, e ainda assim seu egoísmo arruina
as oportunidades de experimentá-los alegremente. A afirmação da individualidade
(que é egoísmo), é a causa primordial de nossa desarmonia. Semelhantemente
queremos liberdade, mas também precisamos de ordem – este dilema não é apenas
individual, mas também um dilema social e nacional.
Portanto nosso maior problema é: Podemos ser livres
sem criar situações caóticas e dolorosas? Podemos alimentar a latente
singularidade em nós, sem estarmos lutando? Muito depende de como entendemos a
nós mesmos e aos valores que estão na substância básica do Universo.
Os valores universais e infinitos do cosmo são
desligados e independentes das coisas externas. Como disse um poeta:
"Paredes de pedra não fazem uma prisão nem barras
de ferro uma jaula."
Um prisioneiro é tão livre quanto o homem
supostamente livre mas escravo da paixão, da cobiça, da raiva ou da inveja. Da
mesma forma, a verdadeira individualidade não é apenas mostrar importância ou
exibir conhecimento. O que chamamos de valores fundamentais – liberdade,
singularidade, harmonia, felicidade e paz – são caraterísticas da alma. Elas não
dependem de algo externo para existir.
Acreditar que podemos encontrá-las fora, manipulando
relacionamentos, adquirindo propriedades ou alterando as circunstâncias, é causa
de discórdia e sofrimento. Estes valores são facetas de nossa verdadeira
natureza e da consciência universal. Quando compreendermos nossa verdadeira
natureza, estaremos em sintonia absoluta com o Universo.
Extraído da revista The Theosophist, de
maio de 2001 Tradução: Izar G. Tauceda, MST Loja
Jehoshua, Porto Alegre, RS

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