| |
Ricardo Lindemann
Para educar para a reta cidadania, devemos estar em
sintonia não somente com nossa nação em particular e com o mundo em geral, mas
também com o Universo e suas leis. Isto porque as leis universais são
manifestações da Mente Universal – também chamada de Deus – e somente quando
tentamos nos sintonizar com o Todo podemos encontrar harmonia real e paz com
todos os seres.
A reta cidadania não se refere apenas à nossa nação e
a seus interesses. Guerras têm ocorrido por causa deste equívoco. Como a
história tem demonstrado, o nacionalismo mal compreendido é causa de guerras e
de outros conflitos internacionais, mas a educação para a reta cidadania deve
auxiliar a evitar este perigo potencial. O aspecto mais importante da educação
para a cidadania é criar condições para desenvolver o tipo de inteligência ou
discernimento que esteja em sintonia com a Inteligência universal e seu plano de
evolução.
Como diz Aos Pés do Mestre: “O que é realmente
importante é este conhecimento – o conhecimento do plano de Deus para os homens.
Pois Deus tem um plano, e esse plano é a evolução. Quando o homem o tiver visto
uma vez, e realmente o conhecer, não poderá deixar de cooperar com ele,
tornando-se uno com ele, por ser tão glorioso e tão belo. Assim, porque sabe,
ele está ao lado de Deus, mantendo-se no bem e resistindo ao mal, trabalhando
para a evolução e não por egoísmo. Se está ao lado de Deus, é um dos nossos, e
não tem a menor importância que ele se denomine hinduísta ou budista, cristão ou
maometano, se é um indiano ou um inglês, um chinês ou um russo".
A segunda coisa a enfatizar é que este discernimento
ou inteligência tem de agir como um antídoto contra os pensamentos falsos e as
idéias insensatas que existem por toda parte. Nos dias atuais é muito fácil
obter muita informação via internet sobre quase tudo, e as pessoas estão sendo
continuamente influenciadas pela propaganda da mídia, pela moda, etc. Obviamente
não podemos educar as crianças em isolamento como numa estufa, porque estas
influências do mundo, quer boas ou más, estão por toda parte. Assim, o
discernimento claro sobre os valores verdadeiros deve ser desenvolvido como um
antídoto contra os pensamentos falsos – um discernimento que é um tipo de
inteligência desperta capaz de reconhecer e negar rapidamente o que é
falso.
Sobre esta importante faculdade do discernimento, diz
a mesma obra citada acima: “Precisas distinguir entre a verdade e a falsidade...
Primeiro em pensamento; e isto não é fácil, pois há no mundo muitos pensamentos
falsos, muitas superstições insensatas, e ninguém que estiver escravizado por
eles poderá fazer progresso. Portanto, não deves acolher um pensamento
simplesmente porque muitas outras pessoas o acolhem, nem porque se tenha
acreditado nele por séculos, nem porque esteja escrito em algum livro que os
homens julguem ser sagrado; tu tens de pensar sobre a questão por ti mesmo, e
julgar por ti mesmo se ela é razoável. Lembra-te que, embora um milhar de homens
concorde sobre um assunto, se eles não souberem nada sobre aquele assunto a sua
opinião não tem valor. Aquele que quiser trilhar a Senda tem de aprender a
pensar por si mesmo, porque a superstição é um dos maiores males do mundo, um
dos grilhões dos quais, por ti próprio, deves te libertar
completamente".
Somente numa atmosfera de liberdade de pensamento e
de questionamento inteligente este discernimento pode ser estimulado, por essa
razão é vital propiciar esta atmosfera em nosso sistema educacional. A velha
tendência de exigir que os alunos memorizem o conhecimento sem raciocinar e as
avaliações nela baseadas devem dar lugar ao desenvolvimento do discernimento.
Por conseguinte, a educação deve enfatizar o discernimento e a inteligência, em
vez da memorização e da ação mecânica.
É importante, em educação, focar a atenção do aluno
no Bom, no Verdadeiro e no Belo, conforme o conselho de Platão, mais
propriamente do que lutar contra as tendências opostas. Encontramos nos
Yoga-S|tras de Patañjali a mesma idéia na técnica básica de meditação: “Quando a
mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os
opostos (é o remédio)”.
É interessante notar que, mesmo nos estágios mais
avançados da Senda para a iluminação pela dissipação da ignorância (Avidy2), a
mesma faculdade é necessária: “A prática ininterrupta do percebimento do Real é
o meio para a dispersão [de Avidy2].”
Nestas passagens da clássica codificação do R2ja-Yoga
de Patañjali, de aproximadamente 2600 anos atrás, vemos a importância dada à
atenção para o desenvolvimento do bem que é Real e Eterno, em vez da luta contra
o mal, que é irreal e transitório.
Além disto, Patañjali enfatiza a necessidade de
tornar-se indiferente aos vícios, visando não lhes dar energia, o que faríamos
se lhes déssemos atenção lutando contra eles. Com referência a isto ele diz: “A
mente torna-se clara pelo cultivo de atitudes de cordialidade, compaixão,
alegria e indiferença diante da felicidade, miséria, virtude e vício,
respectivamente.”
O fato é que, quando nos identificamos, pela projeção
de nossa atenção, com algo, nós transferimos, por assim dizer, parte de nossa
real natureza, que é eterna, ao objeto, que é temporário. E assim damos
realidade a um pensamento com nossas energias, mesmo quando o pensamento não tem
realidade per se, mas é apenas um produto de nossa imaginação.
Assim também em educação devemos dar atenção às
qualidades do aluno e não às suas fraquezas, porque quer acolhendo estas
fraquezas ou as reprimindo, damos-lhes energia e elas tornam-se cada vez mais
fortes. Encontramos a mesma idéia no Ocultismo Prático de H.P.
Blavatsky:
“A energia acumulada não pode ser aniquilada, deve
ser transferida para outras formas, ou ser transformada em outros tipos de
movimento; ela não pode permanecer para sempre inativa e ainda assim continuar a
existir. É inútil tentar resistir a uma paixão que não podemos controlar. Se a
sua energia acumulada não for conduzida para outros canais, crescerá até que se
torne mais forte que a vontade, e mais forte que a razão. Para controlá-la, tu
tens de conduzi-la para um outro canal superior. Desse modo, o amor por alguma
coisa vulgar pode ser modificado, transformando-o em amor por algo elevado, e o
vício pode ser transmutado em virtude, se seu curso for alterado. A paixão é
cega, vai para onde for conduzida, e a razão é um guia mais seguro para ela que
o instinto. A ira contida (ou o amor) acabará por descobrir algum objeto sobre
o qual descarregar sua fúria, de outro modo poderá produzir uma explosão que
destruirá o seu agente; após a tempestade vem a bonança. Os antigos diziam que a
natureza tem aversão ao vácuo. Não podemos destruir ou aniquilar uma paixão. Se
ela for expulsa, uma outra influência elemental tomará o seu lugar. Não
deveríamos, portanto, tentar destruir o inferior sem por algo em seu lugar, mas
de fato deveríamos substituir o inferior pelo superior; o vício pela virtude, e
a superstição pelo conhecimento.”
De certa maneira, a verdadeira educação é semelhante
ao cultivo de um jardim. Não estamos na realidade ensinando ou criando algo.
Estamos apenas nutrindo as boas sementes e estimulando-as a crescer e a
florescer. Algumas vezes também precisamos remover as ervas daninhas, como disse
o Mestre: “Se outra pessoa te encarregar de ensiná-la, pode tornar-se teu dever
falar-lhe gentilmente de suas faltas.” E acrescenta: “ Exceto em tais casos,
cuida de teus assuntos e aprende a virtude do silêncio.” Deste modo aqui,
novamente, há a sugestão indireta de permanecer indiferente ao vício quando não
formos responsáveis pelo assunto.
A maneira mais poderosa de estimular e nutrir as boas
sementes em qualquer criatura é através do amor, porque através dele, mesmo
inconscientemente, damos o melhor de nossa atenção. Freqüentemente, o amor
expressa-se como paciência, que é uma maneira de respeitar e ter cuidado com o
ritmo natural de outro ser. Pessoas sem paciência não podem ser bons educadores.
Como já foi dito: “... aquele que esqueceu sua infância e perdeu a simpatia
pelas crianças não é o homem que as possa ensinar ou auxiliar.”
Ao condenar as fraquezas dos outros e a sua tendência
a entregar-se às seduções dos sentidos, geralmente só causaremos dano. Nosso
amor deve ser demonstrado para que possamos ajudar o outro a superar suas
limitações, como nos ensina Luz no Caminho: “...não condenes o homem que cede;
estende-lhe a mão como a um irmão peregrino, cujos pés se tornaram pesados com a
lama.”
Através do amor e da paciência todas as limitações
podem ser superadas, porque elas são de natureza ilusória e temporária. Devemos
aprender a nutrir as boas sementes que são a expressão dessa “...tênue estrela
que arde no interior. Enquanto vigias e adoras com perseverança, sua luz
crescerá cada vez mais brilhante. Então tu poderás saber que encontraste o
início do caminho. E quando tiveres chegado ao seu fim, sua luz se transformará
subitamente na luz infinita.”
Esta pode ser a própria essência da educação: saber
pelo autoconhecimento que todas as limitações são apenas parte dos veículos da
consciência, e que elas são ilusórias e temporárias. Mas o homem interno, o Eu
real pode superar quaisquer destas limitações porque ele é eterno, e tem todo o
tempo do Universo para aprender como superá-las.
Diz, assim, Aos Pés do Mestre: “Pois tu és Deus, e
tu queres somente o que Deus quer; mas deves penetrar fundo dentro de ti mesmo
para encontrar Deus dentro de ti e ouvir a Sua voz, que é a tua voz. Não
confundas teus corpos contigo mesmo – nem o corpo físico, nem o astral, nem o
mental. Cada um deles pretende ser o Ego, para obter o que deseja. Precisas,
porém, conhecê-los todos, e conhecer-te a ti mesmo como senhor deles.” “...
Aprende a distinguir a Deus em todos os seres e em todas as coisas, não
importando quanto mal possam aparentar superficialmente. Podes auxiliar o teu
irmão através do que tens em comum com ele, que é a Vida Divina; aprende como
despertá-la nele, aprende a invocá-la nele; assim tu salvarás teu irmão do
erro.”
Extraído da revista The Theosophist, de
maio de 2001 Tradução: Izar G. Tauceda, MST Loja
Jehoshua, Porto Alegre, RS
|