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Ísis Maria Borges de
Resende
Esta apresentação se baseia no quarto capítulo do
livro Os Ideais da Teosofia, de Annie Besant, publicado recentemente
pela Editora Teosófica.
Ela começa o capítulo afirmando que há uma mensagem
que a Sociedade Teosófica repete e que, de alguma forma, este tem sido o seu
dever: reabrir o Caminho antigo, reabri-lo até a Porta antiga, dizer aos homens
como podem atingir a estatura do Homem Perfeito.
Todos nós, de alguma forma, buscamos a felicidade,
procuramos “consertar” aquilo que nos causa dor, num processo extremamente
humano. Seguidamente procuramos “consertar” os outros, a sociedade, etc.
Procuramos por soluções que nos tragam a felicidade. Reabrir o caminho até a
porta antiga significa que tenhamos claro que o que realmente precisamos
“consertar” somos nós mesmos, as nossas infantilidades que trazem sofrimento a
nós próprios e aos outros ao nosso redor. Saber que podemos atingir “a estatura
de Homens Perfeitos” significa acreditar que todas as nossas limitações que nos
causam infelicidade podem ser superadas, desta forma centrando nossos esforços
na direção correta e não deixando de atacar a verdadeira causa, perdendo o alvo,
como nos coloca a tradição cristã.
Vale a pena ressaltar que a palavra PECADO vem do
grego, AMARTIA, que significa literalmente errar o alvo, tentamos “consertar” as
exterioridades, deixando de lado o verdadeiro problema.
Annie Besant, neste livro maravilhoso, nos explica
que havia, no passado, Escolas de Mistérios que cumpriam um papel que ficou a
descoberto pelo fechamento das mesmas durante a era cristã:
“… nos Mistérios, os homens aprendiam os segredos da
vida e da morte, aprendiam a realidade da imortalidade, aprendiam que o homem é
uma inteligência espiritual habitando um corpo terreno, e que a perfeição estava
ao alcance daquele que era suficientemente hábil para conhecer, suficientemente
forte para agir, suficientemente audaz para ousar, suficientemente discreto para
guardar silêncio…”
Com o fechamento dos Mistérios como instituições
reconhecidas, desapareceu a última indicação pública que, por assim dizer,
apontasse para aquele grande Caminho da Santidade que leva à perfeição humana,
embora durante todo este tempo houvesse Sociedades Secretas, tanto no Oriente
como no Ocidente. Elas tinham formas menos elevadas de Iniciação e, partindo
destas, uma após outra avançava pelo Caminho superior. Mas essas sociedades
secretas eram difíceis de achar, e era difícil ingressar nelas.
A Fraternidade da Maçonaria se remonta a séculos
passados e é a última sobrevivência dos Mistérios antigos, que aos ouvidos do
conhecedor revelam a sua origem e mostram o que é que se pretende
conservar.
Blavatsky teve especificamente esta missão de
proclamar a realidade dos Mestres; outra vez se anunciou o fato de que se podiam
encontrá-los; outra vez se apontou a porta exterior para além da qual está o
caminho que conduz à interior.
“Os Mistérios existem, e sabemos que existem, podemos
falar-vos deles. Eles não existem porque nós sabemos que eles existem, mas
porque os Mestres existem sempre e estão prontos a aceitar
discípulos.”
Neste sentido nunca é demais lembrar que Blavatsky
teve um trabalho pioneiro de alta relevância pois:
“... é preciso que alguns falem e arquem com o
ridículo, para que aqueles que hoje nascem no mundo, e conheceram no passado
estas verdades, ouçam, claramente dita, a chamada que, feita aos seus novos
corpos, neles acordará o conhecimento daquele passado.” Há uma passagem das
Cartas dos Mestres de Sabedoria, transcritas e compiladas por C. Jinarajadasa,
Ed. Teosófica, pp. 25 e 29, especificamente o último parágrafo da Carta 4 para
Francesca Arundale, no qual um dos Mestres responsáveis pela fundação da
Sociedade Teosófica explica:
“Vocês pensam que a verdade lhes foi mostrada apenas
para seu próprio benefício? Que quebramos o silêncio de séculos para proveito de
apenas um punhado de sonhadores? As linhas convergentes de seus Karmas
conduziram a cada um e todos para esta Sociedade como para um foco comum, de
modo que cada um pudesse auxiliar a produzir os resultados interrompidos na
encarnação anterior. Nenhum de vocês pode ser tão cego a ponto de supor que este
é o seu primeiro contato com a Teosofia. Devem compreender, certamente, que isto
seria o mesmo que dizer que os efeitos são gerados sem causa. Saibam, portanto,
que agora depende de cada um de vocês se daqui para a frente deverão lutar sós
em busca da sabedoria espiritual, através desta e da próxima encarnação, ou em
companhia de seus atuais associados, e grandemente auxiliados pela simpatia e
aspiração mútuas. Bênçãos a todos – que as merecem.”
Estas palavras fazem muito sentido para mim, me é
bastante claro que as pessoas que freqüentam normalmente a Sociedade Teosófica
têm ideais muito elevados, mas a nossa vida no dia-a-dia não é tão diferente
daquelas que levam as pessoas que sequer têm tantos ideais.
Concluo que se nós não tivéssemos interrompido nossos
esforços no passado, já seríamos santos, mas ainda estamos um pouco longe
disto.
Há muitas indicações que demonstram que o perfil
básico do teósofo é o de um sonhador, alguém que sonha com um mundo melhor, com
ajudar os Grandes Seres que guiam a Humanidade rumo ao bem e a outros ideais
deste calibre. A princípio esta característica é ótima, mas o problema é que
geralmente não sonhamos só com estes ideais. Sonhamos também que uma relação
perfeita de homem e mulher nos trará a felicidade búdica que buscamos. Sonhamos
em nos converter em estadistas de renome, onde não só faremos um grande trabalho
pela Humanidade, como a Humanidade toda reconhecerá a grandeza do nosso
trabalho. Sonhamos que tudo na vida deveria ser certinho e arrumadinho, isto sem
falar na propensão a ver as coisas de maneira excessivamente cor-de-rosa, e na
hora que surge o primeiro problema, aí vem a decepção, a desilusão. Criamos
muitas expectativas, e quando nos defrontamos com as primeiras dificuldades, aí
aquele modo de ver as coisas cor-de-rosa já não funciona tão bem.
Com isto concluo que na verdade há uma grande
relevância em que seja anunciado para pessoas como nós a possibilidade de que
completemos o nosso trabalho, para que, no devido tempo, possamos nos converter
em Homens Perfeitos.
Quais são as credenciais para passar aquela porta
exterior? Qual o fim com que se pode querer passá-la?
A Dra. Besant nos mostra que a visão cor-de-rosa
efetivamente se dissipa, e que nossos ideais precisam ser mais do que meras
expectativas irrealistas:
“Porque esta senda não oferece nenhum dos prêmios que
os homens buscam e desejam. Não oferece os louvores humanos, mas antes o
escárnio e o ridículo dos outros. Não oferece riqueza, nem posição, nem fama,
mas antes envolve falência, dificuldades e trabalhos.”
Parece que um só momento de vislumbre em relação ao
Eterno faz com que tudo o que o mundo pode oferecer se torne como uma bolha de
sabão, que uma criança lança para se divertir, uma mera ninharia, como os
objetos brilhantes com que uma criança pequena se adorna.
Mas se as coisas que o mundo pode oferecer não têm
valor, por que os homens continuam a buscá-las e a colhê-las? É bastante
interessante a forma como ela descreve os prêmios humanos:
“Quando adquiris riqueza, ficais aborrecidos no meio
do vosso ouro; quando ganhais fama, ficais isolados, e o vosso coração
insatisfeito; quando conseguis ter poder, sois objeto de inveja e de ciúme, e
aqueles a quem quereis ajudar recebem o vosso auxílio desconfiadamente; na
verdade, por detrás de cada flor da terra está ‘uma serpente enrolada’, e, à
medida que a flor vai fanando, vão vendo que estão vazias as mãos que julgaram
possuir um prêmio. Perante a beleza enorme do Um, perante o esplendor do Eterno,
o temporal perde a sua atração, e a grande ilusão o seu poder de
iludir.”
Suponhamos que nos sentimos um pouco cansados desses
prêmios terrenos, suponhamos que esta vida ordinária se tornou vazia para nós,
com aquele bendito vácuo que tem quando vista do seu lado superior, mas tão
desolador enquanto esse lado superior não é conhecido. Que temos de fazer para
entrarmos na Porta exterior, para nos tornarmos candidatos a trilhar o Caminho
estreito e antigo?
É também muito interessante a maneira como a Dra.
Besant responde a esta questão:
“A maneira de bater a essa Porta exterior é o Serviço
dos vossos semelhantes. É essa a pancada que acorda o guarda dessa Porta; é essa
a Palavra de Poder que faz com que ele vô-la abra. Dizeis-me: ‘Mas então a
oração, a meditação, mas então os ritos e os cerimoniais da religião, mas então
a floresta, e a caverna, e a vida de renúncia’ – o que é feito delas? Falais de
serviço, mas isso tem de ser feito no mundo exterior; isso toma tempo,
pensamento e energia. Como pode o serviço ser o método, quando o serviço tem de
ser feito entre os homens? É certo, e contudo o método é esse.”
E vai adiante:
“Aqueles a quem nós chamamos Mestres não repousam
felizes em indolência e descanso porque ganharam a libertação. Trabalham
constantemente para o mundo que deixaram. Trabalham constantemente para o bem
das massas humanas. Tentam constantemente aliviar o duro fardo que pesa sobre as
nações, e guiá-las no caminho da paz. Por que tomam Eles discípulos, por que se
apoquentam Eles com discípulos, discípulos tão fracos, volúveis, indiferentes e
pequenos como somos? Porque vêem em nós a possibilidade de auxiliar os outros,
de servir à Humanidade”.
Demonstra ela também que a autopreocupação só nos faz
marcar passo:
“É essa a lição que tendes todos que aprender, todos
vós que desejais chegar até a Porta, e bater de modo que vos abram,
perguntai-vos todas as noites: ‘Que fiz eu hoje para o bem dos outros?’ Não vos
pergunteis: ‘Estou progredindo?’ Não vos pergunteis: ‘Sou ou não melhor do que
era há uns anos, há um ano ou dois?’… com tudo isso não fazeis senão andar na
circunferência de um círculo do qual vós sois o centro, e desse modo nunca vos
libertareis. Podeis dar voltas e mais voltas até que vos canseis e fiqueis
tontos, mas não tereis avançado; enquanto vos colocardes no meio e correrdes ao
redor de vós próprios, não estareis avançando. Começai, pois, por vos
esquecerdes de vós, todos quantos desejais entrar para o Caminho. Olhai em vossa
volta, pelo meio em que estais vivendo, e perguntai-vos: ‘Que posso eu fazer em
serviço dos outros?’ Eis a pergunta que acordará em vós o espírito do Serviço,
que encontrará o seu caminho até a Porta.”
A Dra. Besant nos explica que quando o Mestre olha
por sobre o grande deserto das trevas do mundo, buscando uma luz onde os seus
olhos descansem, quando vê a chama do Serviço acesa num coração humano, o Seu
olhar demora-se sobre essa pequenina chama, e vê nela a possibilidade de que
aumente; então derrama para dentro dessa lâmpada o azeite do auxílio, e a chama
cresce, torna-se mais luminosa, até que mostra o caminho até os Seus pés. E se
desejamos servir aos Mestres, que servem por sua vez aos Seus Mestres, que,
conquanto sejam os Irmãos Mais Velhos, são também os servos, da Humanidade,
então precisamos compreender a verdade daquela grande sentença: “Que aquele que
é o primeiro de vós seja como aquele que serve”.
Porque Eles estão prontos a nos ajudar se estivermos
efetivamente engajados no serviço aos nossos semelhantes? A Dra. Besant nos
explica:
“Porque o trabalho dos Mestres é muito pesado, e Eles
precisam de quem os auxilie; porque eles têm bênçãos a distribuir e precisam de
canais por onde elas corram; quando encontram um homem de Serviço, que procura
animar os outros com o seu pensamento e a sua força, então derramam estas para
dentro dele, e dele elas se derramam sobre a Humanidade. Deitai fora, pois, os
vossos sonhos; deitai fora essa vida vazia e inútil que deixa o mundo exatamente
como o encontrastes e não deixa sinal nele. Acordai para a necessidade de
servir; fortalecei-vos para poderdes auxiliar os vossos semelhantes; e então os
vossos olhos se abrirão e encontrareis o Mestre a vossos pés. E talvez no pobre
a quem auxiliastes, talvez no desgraçado a quem protegestes, vereis brilhar a
face do eterno Mestre; não disse o Cristo uma vez àqueles que tinham dado de
comer e de vestir aos Seus pobres: ‘Por isso que o fizestes a um dos mais
humildes destes meus irmãos, é a mim que o fizestes?’ É esse o primeiro
passo.”
Quando chegarmos, por meio do Serviço, ao Portão
exterior, batermos à Porta exterior e ela se abrir para nós, se estenderá à
nossa frente o Caminho Antigo, a Senda. Vamos querer percorrer esta Senda? A
Dra. Besant nos dá um grande conselho neste sentido:
“Quereis trilhá-lo? Ah! então para trilhá-lo não
posso dar-vos melhor conselho do que este: tomai, lede e vivei aquele
maravilhoso livrinho que Krishnamurti vos escreveu, Aos Pés do Mestre. Ele é tão
simples que uma criança pode compreendê-lo, tão profundo que, se for vivido,
conduz à Porta da Iniciação. MAS TENDES DE VIVÊ-LO.”
E aí esta a nossa dificuldade. Há tão pouca gente
seriamente persistente! Há tão pouca gente que, quando vê uma coisa que deseja,
tem a força precisa para querer, de modo que possa consegui-la!
“Desejais isso? Sim, desejai-lo agora, e, quando
sairdes daqui, desejareis outra coisa qualquer. Essa espécie de desejo não pode
levar-vos longe. Pensais em atingir um Ideal belo. Sim, é um Ideal belo, mas um
Ideal não vos transformará na sua imagem se não o assimilardes e reproduzirdes.
O que precisais é de uma vontade forte. Os desejos bruxuleantes que atravessam o
espírito, OS PENSAMENTOS BRUXULEANTES QUE PASSAM PELO CÉREBRO, ESSES NÃO LEVAM
NINGUÉM A PARTE ALGUMA. Se não podeis viver aquela vida, se não vos tornais um
pouco melhores do que éreis, é porque não aprendestes a pensar do modo que pode
criar o que quiserdes. Não aprendestes isso. E por isso tendes que fortalecer o
vosso poder de pensamento e de vontade, e tendes que desejar bem. Porque o
pensamento amadurecido e o desejo amadurecido – são essas as duas asas com as
quais podeis subir e atingir a meta que buscais; e nenhum livro vos auxiliará,
nenhuma palavra vos inspirará, nenhum pensador ou orador vos animará, a não ser
que tenhais em vós a vontade de ferro e o cérebro do pensamento do criador. Só
então pelo pensamento e pela vontade, podereis realizar aquilo a que
aspirais.”
A Dra. Besant vai além nas suas afirmações, nos
explica que antes que ali tenhamos chegado, já um Mestre nos terá encontrado, já
terá tomado à sua conta o guiar-nos e explica também por que o Caminho se torna
mais factível com a ajuda dos Mahatmas:
“Podeis construir, sozinho, toda a ciência
matemática, desde o princípio, se para isso tendes a precisa habilidade; mas
pouco tereis avançado mesmo nos fundamentos dessa ciência quando a morte vos
retira o corpo. Não tendes tempo. Por que é que nasceis vez após vez, se não é
para que tenhais a vantagem das experiências anteriores e dos resultados dos
estudos dos mais sábios humanos? Desajuizado e arrogante como o rapaz que se
recusasse a ter um professor, que se recusasse a ler um livro, que dissesse:
‘Construirei, por mim, a matemática, a biologia e a botânica. Por que não posso
eu aprender tudo sozinho?’ Desajuizado e arrogante como esse rapaz é aquele que,
na Ciência das ciências, a construção da perfeição humana, rejeita as mãos que
se estendem para auxiliá-lo, e insiste em trilhar o Caminho estreito como o fio
de uma navalha sem alguém que guie os seus passos acertadamente, sem uma mão de
pai que equilibre os seus passos cambaleantes.”
Porque nós mesmos podemos apenas apontar o Caminho
que trilhamos, comunicar as indicações que nos deram e que tentamos executar;
mas só Um que atingiu Ele próprio a perfeição pode tomar a Seu cargo o
aperfeiçoamento dos Seus semelhantes. Nós não passamos de auxiliares mais novos,
trabalhando nos Recintos exterior e interior na tarefa da preparação; a entrada
para o Sacrário está nas mãos d’Eles apenas.
O livro ainda nos esclarece que os últimos passos
sobre a estrada da provação são dados sob a guarda e a direção do Mestre; e
então Aquele que é o guia, Aquele que é o amparo, bate à grande Porta com o Seu
discípulo atrás de Si, e de dentro e de cima brilha o grande sinal perante o
qual a Porta se abre, e o Mestre e o Seu discípulo passam juntos o
limiar.
Através de cada um que se torna um Iniciado, corre
uma torrente de bênçãos por sobre o mundo; porque ela sai pela porta que ele
abriu e dá para o Sacrário do Templo.
Pode ser atravessado pelo homem que compreende o
Eterno, e que sabe que nada que a Terra possa fazer pode abalar a serenidade que
está fixa sobre o rochedo do Eterno. E assim ele passa por essa Porta e fica na
Terra para ajudar, servir e abençoar.
Ele fica para beneficiar o Seu mundo que espera; fica
para trabalhar nesse Serviço superior; fica para escolher da Humanidade aqueles
que estão dispostos a trilhar a senda que Ele trilhou e a juntar as Suas mãos às
d’Ele na redenção do mundo.
Uma mão sobre o Deus glorificado e outra estendida em
auxílio ao mais desgraçado aos nossos pés. Essa é a única Fraternidade
verdadeira, a única Fraternidade completa e perfeita.
Que possamos ser dignos de nos converter em
auxiliares d’Aqueles que realmente podem ajudar a Humanidade!

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