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Igbal K. Taimni
O homem, em sua mais íntima natureza divina, é
essencialmente Uno com a Realidade sustentadora do Universo e faz parte dela.
Trataremos aqui da relação entre a Vontade Divina e a vontade humana. Posto que
o homem é essencialmente divino, sua vontade é um fator importante no drama
universal que está se desenvolvendo. É certo que o exercício de sua vontade está
limitado pelo seu grau de evolução, mas sua vontade afeta em maior ou menor
medida a corrente de sucessos vinculados com a vida humana.
Ainda que os seres humanos não intervenham na
elaboração do grandioso drama que está sendo representado em escala universal,
parece que desempenham algum papel na determinação do curso dos sucessos
relacionados com a evolução humana. O papel que desempenham por meio do
exercício do seu livre-arbítrio, em sua limitada esfera, parece insignificante
em comparação com a grandiosidade do Universo. Isto se deve ao fato de que
olhamos o homem como um simples animal, com mente subdesenvolvida, e não como um
ser divino que possui ilimitadas potencialidades. O curso do
desenvolvimento do Universo está determinado pela interação da Vontade Divina
com as vontades das Mônadas individuais associadas a um sistema em evolução.
Talvez seja mais correto dizer que é o resultado desta interação. Nas primeiras
etapas de evolução as Mônadas apenas são capazes de exercer uma influência
insignificante neste drama universal, mas nas etapas mais adiantadas sua
influência é enorme.
De fato, à medida que ascendemos na escala da
evolução e se faz mais perfeita a fusão da consciência, tanto mais difícil é
localizar a linha divisória entre a Vontade Divina e a vontade Monádica. Será
tão correto dizer que a Vontade Divina se expressa sem impedimentos por meio das
Mônadas, como dizer que a vontade das Mônadas se tornou livre e autodeterminada.
Isto é inevitável, porque as Mônadas derivam da diferenciação dessa Realidade
Única a que chamamos o Absoluto e, portanto, não pode haver diferença essencial
entre as duas vontades.
Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da
evolução humana, coletiva e individual, é devido à interação da Vontade Divina
com a vontade individual. Mas em que lei se fundamenta esta interação? É
evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo
que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a lei do Karma em seu aspecto mais
amplo.
O homem é um ser espiritual, e um ser espiritual pode
desenvolver suas potencialidades divinas não pela imposição de um código de
conduta exterior, mas aprendendo a fazer o que é justo e estando de acordo com a
Vontade Divina por livre escolha, porque vê que isso promove o bem de todos,
inclusive dele mesmo.
O indivíduo, ao contemplar a própria natureza do
Universo como uma expressão da Ideação Divina apoiada na Vontade Divina, deduz
que a meta suprema da evolução e o despertar de sua natureza espiritual dependem
de que ele viva e atue em perfeita harmonia com a Vontade Divina. Esta dedução o
leva a corresponder-se com o Plano Divino, de maneira harmoniosa e perfeita,
para cumprir bem seu próprio destino.
Aqueles que entenderam bem a doutrina do Karma sabem
que o homem aprende a agir bem, não por compulsão externa, mas por decisão
interna. Quando pratica o mal tem experiências dolorosas que relaciona com o mal
feito. Quando faz algo de bom recebe a recompensa em forma de experiência
gratificante e feliz. Assim, associa naturalmente o que é bom com o prazer e a
felicidade, e o que mau, com a dor e a infelicidade e, de maneira lenta, mas
incontidamente, evita fazer o mal praticando sempre o bem, ainda que isto lhe
cause dificuldades temporais.
É certo que pode lhe tomar centenas de vidas aprender
a levar uma existência justa e ter fé cega na retidão; mas é tal a natureza
desta Lei que terá de assimilar esta lição cedo ou tarde. E somente quando a
tiver aprendido em plenitude e estiver firmemente estabelecido na retidão,
estará preparado para embarcar na viagem da própria descoberta. A retidão é a
base indispensável da vida espiritual. Isto nos leva a perguntar: “Como
determinar o que é ação justa dentro do jogo das circunstâncias, ação que esteja
em harmonia com a Vontade Divina ou Rta?” O homem ignora, no início de sua
evolução, que existe uma Lei Divina e que só o viver em perfeita harmonia com
essa Lei é que pode lhe assegurar plenitude e verdadeira felicidade. Assim, vive
de acordo com os ditames de seus desejos, resignado a colher os frutos doces e
amargos que o Karma possa trazer como resultado. Como a má ação lhe acarreta dor
e a boa prazer, começa por aprender a evitar a má ação e a evitar as tendências
que o levam a fazer o mal.
Deste modo, sua mente começa a se libertar da carga
de más tendências, o que aumenta sua cota de felicidade e permite, além disso,
que a luz de Buddhi (intuição) se infiltre gradualmente em sua mente como fruto
deste despertar de Viveka (discernimento), e ele começa a perceber a natureza
ilusória da vida nos planos inferiores e a futilidade em continuar aliado a
interesses mundanos, de poder ou prazer temporais. Começa a intuir que até os
prazeres e gozos da existência post-mortem serão temporais e ilusórios, e o
manterão atado à roda de nascimentos e mortes com todas as suas limitações,
ilusões e misérias.
Gradualmente desperta em sua mente a compreensão de
que existe um estado no campo da Realidade, acima do prazer e da dor. E assim
nasce em seu coração o ideal de alcançar aquela consciência espiritual pela qual
toma conhecimento de sua natureza divina, que está além das limitações e ilusões
da vida inferior.
É nesse momento que deve encarar o problema de saber
o que é justo e o que está de acordo com a Vontade Divina. Já tem plena fé na
necessidade e na eficácia da retidão; já está determinado a levar uma vida
justa, mas ainda experimenta constante confusão entre o bem e o mal, e não sabe
com certeza o que fazer em certas circunstâncias. Para este homem, uma vida
justa não é a vida religiosa comum, que consiste em professar a fé em certos
dogmas, mas sim a adoção de uma atitude completamente impessoal, e uma conduta
que esteja em perfeita harmonia com a Vontade Divina a todo o momento. Elevou-se
acima do campo da moral vigente; já não está seguindo um rígido código externo
de conduta, mas obedece a lei de seu próprio ser baseado em seu
Dharma.
Esse tipo de ação, onde estão eliminados
completamente o elemento pessoal e as preferências pessoais, é conhecido como
Niskama-Karma, que significa ação que se executa sem nenhum desejo pessoal senão
o de cumprir o Plano Divino e de fazer o que for necessário, de acordo com a sua
individualidade e as capacidades que possui.
Pois no Cosmo nada ocorre por casualidade, e se nos
encontramos em certas circunstâncias não é só porque temos que colher nosso
Karma, mas também porque temos um Dharma, ou uma função a cumprir nessas tais
circunstâncias. Essa função pode ser importante ou não, significativa ou não, do
ponto de vista externo; mas existe, e impõe ao indivíduo uma obrigatoriedade em
cumpri-la. Ele pode escolher não cumpri-la ou fazê-lo inadequadamente, sendo que
isto acarretará desvantagens e novas complicações para si mesmo e para
outros.
Não podemos intervir no cumprimento do Plano Divino
com nossa ignorância, assim como um peixe não pode intervir na correnteza de um
rio nadando contra ela. O Plano Divino se cumprirá de qualquer forma, ainda que
seja por um caminho alternativo; mas o indivíduo que não colabora cria
complicações para si mesmo e aumenta suas dificuldades no progresso espiritual.
Na realidade, a vontade do indivíduo comum é tão débil e seu livre-arbítrio é
tão limitado, que sua capacidade de opor-se à Vontade Divina pode ser
considerada quase nula. Entrou na corrente da vida e irá desempenhar o pequeno
papel que lhe foi designado, queira ou não, apropriada ou
inadequadamente.
Se todos nós estamos cumprindo o Plano Divino e,
inconscientemente, estamos cumprindo a vontade de Deus, então que necessidade
temos de adotar uma vida de retidão e de ser agentes conscientes da Vontade
Divina? Que vantagem tem o homem que está estabelecido no justo, sobre o homem
comum que segue os ditames de seus desejos?
A vantagem é enorme, mas necessitamos discernimento
(Viveka) para vê-la. Enquanto o homem não estiver firmado na retidão, Buddhi
(intuição) permanecerá nublada, seus olhos espirituais fechados, e nem sequer
estará em condições de entrar para a senda do desenvolvimento espiritual que
leva à realização de sua verdadeira natureza. Poderá até ser capaz de conquistar
alguns dos poderes psíquicos inferiores, mas as portas do mundo da Realidade
permanecerão absolutamente fechadas para ele. Nem sequer saberá que existe uma
Realidade oculta por trás dos mundos inferiores nos quais sua consciência e seus
poderes estão aprisionados.
É de grande importância para o indivíduo levar uma
vida de retidão, além de que exercerá uma grande influência sobre a vida de toda
a Humanidade. Um homem justo auxilia os que o rodeiam de duas maneiras: uma,
criando um centro de harmonia através do qual podem fluir forças dos planos
sutis aos mundos inferiores, e assim ajudar a Humanidade, ainda que ele não
esteja sempre consciente disto; outra, tornando possível, para si mesmo, o
transcender das limitações e ilusões dos mundos inferiores, e assim criar, com o
tempo, um outro canal de comunicação entre o mundo Real e os irreais. Todo
indivíduo que consegue criar este canal converte-se não só num agente da Vida
Divina, mas também num guia dos que aspiram a desenvolver sua natureza
espiritual. E quando tiver alcançado a liberação, será capaz de atender às
verdadeiras necessidades espirituais da Humanidade, ainda que passe
desapercebido pelo mundo externo.
Freqüentemente confundimos a espiritualidade
verdadeira com a vida religiosa formal, e pensamos que seguindo as formas
externas da religião e um código de ética artificial estamos levando uma vida
espiritual. Mas aqueles que galgam o discernimento podem ver facilmente a vasta
lacuna que separa as duas coisas, e não se deixam enganar com o palavreado e a
roupagem imponente da religião com que a ortodoxia encobre sua pobreza de
espírito.
Tornando à pergunta do que vem a ser a reta ação sob
todas as circunstâncias, a resposta é: fazer sempre o correto, no momento
correto, do modo correto e por razões corretas, até onde saibamos. Pode ser que,
apesar de todos os nossos esforços, não consigamos fazer sempre o correto, mas
se houver a motivação e a determinação necessária, gradualmente a presença de
Buddhi (intuição) nos capacitará para ver o procedimento correto, e para
segui-lo sem vacilar.
A habilidade para discernir e fazer o certo só pode
ser adquirida fazendo, em cada circunstância, o que nos parece mais justo e
observando seu resultado. Assim, se estabelece um círculo virtuoso, até nos
firmarmos na retidão; então cessa todo esforço e luta, e a vida flui fácil e
naturalmente do centro de nossa consciência espiritual, no cumprimento do Plano
Divino.
Mas é conveniente assinalar que somente o desejo vago
e débil de fazer o correto não pode produzir semelhante transformação no
caráter. Muitos aspirantes reconhecem, na teoria, a necessidade de adotar uma
vida justa, e começam a fazer o correto, sempre que não interfira com seus
interesses e tendências pessoais. Certamente isto já representa uma melhora na
atitude do homem comum, que nem sequer reconhece a necessidade de uma vida
adequada e que atua corretamente por medo de cair nas mãos da justiça ou de
criar complicações para si.
Mas o indivíduo não pode estabelecer-se na retidão
tendo fé no justo e fazendo o bem somente quando lhe convém ou lhe favoreça.
Terá que aprender a fazer o bem em todas as circunstâncias, mesmo que possa
causar-lhe perdas ou sofrimentos. Para isto, terá que estar constantemente
alerta, com agudo discernimento e resolvido, serena e inflexivelmente a agir
corretamente em todas as ocasiões.
Isto, provavelmente, implicará em dificuldades e
angústias, porque tão logo decidimos viver com retidão, começa a surgir todo
tipo de tentações e obstáculos. Temos que suportar estas provações sem ceder, se
realmente somos sérios. Somente parecerão assustadoras e dolorosas quando houver
debilidade interna e tendência a vacilar, sinais de que o discernimento ainda
está parcialmente nublado. O homem verdadeiramente justo entrega até a própria
vida, se necessário, sem agitação ou pesar, como o testemunham mártires, santos
e grandes homens.
O que foi dito mostra ao estudante a relação entre
Rta e o Dharma individual, cujas idéias fundamentais podem ser resumidas assim:
Rta é a Grande Lei sustentadora do Universo que se desenvolve no tempo e no
espaço. A forma Real e espiritual deste Universo existe na Mente Divina, e a
forma irreal e temporal que temos segue e aproxima-se, como uma sombra, da forma
Real e espiritual.
Neste Universo em evolução, que se projeta a partir
da Mente Divina, estão imersas incontáveis Mônadas, em diversas etapas de
desenvolvimento. Cada uma dessas Mônadas é parte integrante da Realidade e tem
sua própria unicidade e papel individual no longuíssimo drama que se desenvolve
no cenário do Universo, como também tem uma personalidade e uma individualidade
que opera nos mundos inferiores a fim de desenvolver as potências divinas que
trás em seu interior e mostrar sua singularidade individual.
A personalidade e a individualidade, por um lado, são
meras sombras da Mônada e, por outro, são instrumentos para o seu
desenvolvimento. Este aperfeiçoamento não é casual; está dirigido, num sentido,
pela unicidade individual da Mônada, e noutro, pelo lugar que ocupa no Plano
Divino. Estas duas forças que existem ocultas em sua natureza eterna guiam o
processo de evolução e determinam em grande parte o modelo geral de suas vidas
nos planos inferiores. Representam a Vontade Divina e o Plano Divino no tocante
à Mônada.
Nosso Dharma individual, no sentido mais amplo do
termo, consiste em nos ajustar a este modelo e seguir a senda marcada para cada
um de nós. Mas no decorrer deste desenvolvimento, desviamo-nos devido à nossa
ignorância e aos nossos anseios egoístas, convertendo assim o Karma individual e
coletivo num outro fator importante que deve ser considerado. Portanto, o Dharma
básico de cada indivíduo fica condicionado sempre pelas necessidades e
circunstâncias de cada encarnação, e pelo ambiente onde age, em razão do Karma
vigente que deve exaurir em cada encarnação particular.
Já dissemos que a Vontade Divina não atua de uma
maneira determinante na evolução, mas deixa em liberdade as Mônadas para agirem
e aprenderem, ainda que com os seus próprios erros. Portanto, é óbvio que o
Dharma de um indivíduo, dentro de certas circunstâncias, é o resultado da
interação de diferentes tipos de forças que atuam sobre ele. Daí não existe um
conjunto de regras rígidas a cumprir mecanicamente para levar uma vida de
retidão.
O único método para conhecer nosso Dharma e
determinar a linha de ação que temos que seguir nas diferentes situações e
circunstâncias é manter imaculada a luz interna da intuição (Buddhi). Mas não
devemos confundir esta luz com o que nos pede a mente embotada pelos desejos e
preconceitos religiosos, que a toma equivocadamente como a voz de Deus, e que os
políticos inescrupulosos qualificam de “chamamentos do dever”. O conhecimento do
nosso verdadeiro Dharma vem pela percepção espiritual, é como uma clara
compreensão e não como um mero pensar. Resulta da purificação da mente de toda
sorte de desejos inferiores e da libertação do servilismo ao eu
inferior.
O estudante verá que esta retidão não difere muito de
Niskãma-Karma. Em ambos os casos, o reto atuar é a base de todos os aspectos da
vida. Nikãma-Karma também significa a ação livre de motivação e desejos
pessoais; e o que orienta é o Divino em nós, e não a personalidade. A
personalidade cede à direção interna, e até se oferece prazerosa e
inteligentemente para servir ao Eu superior... e esta vida de retidão está
aberta a todos!
(Extraído do livro Estudios sobre la Psicologia de la
Yoga, de I.K. Taimni, editado por la Federación Teosófica Interamericana, Buenos
Aires, 1982; pp. 224-235.)
Tradução e Seleção: Cláudia Bozza.

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