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A AUTORIDADE E LIBERALISMO NA EDUCAÇÃO

Walter da Silva Barbosa

    Em julho de 2003, no evento intitulado “Educação para o 3º Milênio”, promovido pela Sociedade Teosófica em Brasília-DF, o palestrante - Professor P. Krishna - falava sobre o sistema educacional desenvolvido no Instituto Krishnamurti (Índia), no qual havia sido Diretor.

    A certa altura, alguém perguntou: “Professor, como agem os professores quando têm de impor limites aos alunos?”. P. Krishna respondeu: “Se em algum momento tivermos que impor limites é porque falhamos em nossa missão”. Perguntado ainda se não seria melhor se as crianças fossem ao Instituto (que funciona em regime de internato) e voltassem diariamente para casa, o professor disse: “Se isso acontecesse os pais estragariam o trabalho do Instituto”.

A platéia ficou perplexa. Qualquer educador admite que “estabelecer limites” é uma necessidade fundamental. Será que o Instituto estaria errado ou a questão é “como” estabelecer o limite, algo talvez facilitado por educadores profissionais em tempo integral no Instituto?

A palavra “limite” evoca outra que lhe é próxima: disciplina. O que o próprio Krishnamurti pensava a respeito? Em muitas de suas conferências (talvez um pouco influenciado pela estrutura patriarcal da Índia), ele fala de maneira categórica contra a disciplina, em especial num contexto em que ela é imposta pela autoridade da religião, da escola, dos pais e outros.

Diz ele: “Outra causa do presente caos é a submissão à autoridade, aos guias, quer na vida prática, quer na escola ou universidade. Os guias e sua autoridade são fatores degenerativos, em qualquer civilização. Ao seguirmos outra pessoa não há compreensão, mas só medo e submissão, de que resulta, por fim, a crueldade do Estado totalitário e o dogmatismo da religião organizada” (“A educação e o significado da vida”, Editora Cultrix).

Ao mencionar “medo e submissão”, fica claro que Krishnamurti chama “autoridade” àquele poder que busca impor-se como autoritarismo, sem fundamento real na aceitação e na compreensão, sendo assim um instrumento de perpetuação das estruturas da sociedade (pela ausência de um trabalho interior no educando). Que estrutura será essa? “Se nossas relações com os outros se alicerçam no desejo de grandeza, e a que mantemos com a propriedade se funda na aquisição, a estrutura da sociedade será uma estrutura de concorrência e isolamento”.

Concorrência e isolamento não vêm, por sua vez, configurar-se na base dos problemas humanos, como fundamento do individualismo sem fronteiras, da ausência de escrúpulos e de ética? Ou ainda, como justificativa para a esperteza e para a força, ou para a deslealdade e a desconfiança em todas as suas formas de expressão, até no seio das famílias?

O psiquiatra e conferencista Içami Tiba, analisando a dicotomia da autoridade rigorosa existente em alguns lares, contraposta a uma liberalidade excessiva em outros, identifica o primeiro comportamento como uma reminiscência do “método antigo” de educar, enquanto o segundo é uma espécie de reação em que os pais se tornaram anti-repressivos, mas “com dificuldades para impor limites aos filhos” (Disciplina - limite na medida certa, Editora Gente).

Unindo esses argumentos, vemos que a autoridade como instrumento de submissão não é bem-vinda (até porque seus efeitos se limitam à presença do agente repressor). O liberalismo, por sua vez, abdicando da responsabilidade de educar, acaba (às vezes por comodismo) colocando nas mãos da televisão, dos filmes e games de violência e terror, das comunidades de “Orkut” - e até do traficante de drogas - o destino de seus filhos. Como evitar esses extremos?

O “Caminho do Meio” é sempre o melhor, ensina o Budismo. Porém, o desafio (que um instituto de educação fechado não tem) é como aplicá-lo em meio aos problemas diários, à falta de tempo e à desorientação dos pais. Tentaremos avaliar isso em nosso próximo texto.

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O dever do teosofista é igual ao do lavrador: abrir os sulcos e semear os grãos o melhor que puder. O resultado final é com a natureza, a escrava da lei.

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