No espinhoso caminho para o despertar espiritual foi estabelecido que o
discípulo seja crucificado entre os pólos de duas forças opostas, como se diz.
De um lado ele tem que lutar por sua elevação nesta trilha pelos objetivos
espirituais, mas por mais que empreenda esforços muito conscientes, nunca
alcançará sua meta porque a própria meta é inacessível e está além de qualquer
esforço humano.
Por outro lado, existe a esperança da Graça Divina, o auxílio místico do alto,
além de todos os esforços -além mesmo da mais sutil esperança- aquela que
devasta as mansões da alma, quando esta se ajusta para adentrar a psique humana.
Entretanto, até que aquela efetiva varredura venha do céu, temos que cuidar da
nossa limpeza psicológica, atentando para o fato de que a experiência mística é
diferente de entrarmos em nossas humildes casas, enquanto não tivermos limpo,
pelo menos, as maiores pilhas de lixo mental e emocional acumuladas no
subconsciente durante muitas vidas. O propósito deste artigo é tocar em
determinados pontos que podem ajudar-nos nessa limpeza
interna.
Estamos falando da psique de um ser humano comum, prestes a iniciar o caminho
interno em direção à unidade mística. A maioria de nós está embaraçada no mundo
externo que, em muitos casos, parece ser totalmente exigente. Mas todos nós
temos, pelo menos, uma vaga experiência de um outro mundo, o nosso próprio mundo
interno, conquanto este seja mais confuso sobre sua natureza e relação com o
mundo externo.
Levando em consideração as esmagadoras exigências do nosso meio ambiente com
relação às nossas vidas, assim como a nossa educação, que quase sempre está
ligada aos problemas do dia-a-dia, estamos acostumados a usar métodos do mundo
material para resolver problemas do mundo interno, com resultados questionáveis.
Podemos exemplificar isto claramente quando examinamos os problemas das pessoas
hoje em dia.
Entretanto, existem pessoas -e sempre existiram- que descobriram as regras e
leis que governam o domínio interno e que aprenderam a fazer uso desse
conhecimento na transformação interna , com vistas a uma vida mais feliz e mais
plena, a uma felicidade que não acaba jamais e a uma realização que é intocada
por circunstâncias externas. Avancemos alguns passos na direção dessa fábrica de
magias da vida e vejamos se podemos aprender algo sobre a arte de
viver.
Como já mencionamos, existem leis que governam o mundo interno, diferentes
daquelas que regulam o mundo externo. Esta é a primeira mensagem importante que
captamos daqueles homens sábios.
Exemplos: para modificar o mundo externo, temos que usar energia e força de
vontade. Se tentarmos usar essa mesma força de vontade para forçar uma mudança
interna, o resultado será um conflito interno, desarmonia e
tensão.
Para instalar ordem no mundo externo são necessários: pensamento, raciocínio,
comparação e planejamento. Se usarmos os mesmos métodos no mundo interno, o
resultado será contradição, medo e desapontamento.
Poucos pensariam em aplicar amor quando estivessem construindo uma máquina ou
cavando uma vala. Os sábios nos dizem que o amor, no mundo interno, opera
milagres, e sua influência pode mesmo alcançar longínquas
galáxias.
O mundo externo é governado por leis de tempo e espaço, porque todas as coisas
são compostas e interagem entre si, dentro do tempo e do espaço. No mundo
interno não existe tempo nem espaço. Apenas uma única e indivisível totalidade,
onde os eventos acontecem espontaneamente, de momento em momento, sem uma
interação linear.
O elemento básico dessas vistas internas se encontra no enunciado da Unidade, da
realidade interna. Essa unidade manifesta-se na experiência mística como um fato
real. Mas pode-se facilmente incorporá-la à vida diária e comprovar seu valor.
Alguns podem pensar que essas idéias contêm somente proposições infundadas, mas
para mim, a visão interna da unidade é absolutamente consoante com o raciocínio
humano, conquanto a Unidade mesma esteja fora e além de qualquer
razão.
Quando chegamos aos métodos práticos para a arrumação interna, temos de escolher
um modelo de pensamento com o qual vamos trabalhar. O modelo empregado aqui foi
tomado em parte da psicologia do subconsciente, em parte do antigo e do moderno
misticismo e, também, dos ensinamentos de místicos contemporâneos, como
Krishnamurti.
Eis aqui algumas proposições desse modelo:
·
A
consciência é a base da realidade, bem como o elemento básico de todos os
humanos. A consciência é uma, mas se manifesta como centros separados de egos
nos indivíduos.
·
A
consciência opera em camadas ou campos, mostrando crescente separatismo em
relação a cada camada externa (considerando forma e matéria). Finalmente, a
consciência é uma só.
·
A
consciência do homem está dividida em : a) consciência de vigília; b) estado
subconsciente; e c) um estado unificado de consciência. Os estados de vigília e
subconsciente contêm sua individualidade, incluindo o Karma .
·
Todas as
formas externas -o Universo manifestado em sua totalidade- têm seus fundamentos
na consciência indivisível e se manifestam, no tempo e no espaço, através dos
estados de vigília e subconsciente.
·
Qualquer
incidente é parte da ordem absoluta e contém um significado universal. Não
existe sorte.
·
O Karma
acumulado de cada pessoa está localizado no seu subconsciente e se manifesta na
consciência de vigília como eventos externos, portanto, sujeitos às leis de
tempo e espaço.
·
Os
mundos externo e interno são manifestações da mesma realidade.
Tudo o que
existe fora existe dentro também.
·
As
relações interpessoais estão sempre em perfeita harmonia com os objetivos
maiores do Universo, não importa quão conflituosas possam parecer ao mundo
externo. Esta harmonia absoluta dos objetivos do reino interno é chamada de amor
no mundo externo.
O valor que essa visão interna tem, além das visões comuns da nossa civilização
atual, repousa na sua compatibilidade com o complicado padrão da alma humana e é
mais útil na arrumação da psique humana. Examinemos mais de perto a utilização
prática da visão espiritual na vida diária.
É da natureza humana dissecar o mundo em coisas e eventos ou em espaço e tempo.
De outra forma, seríamos incapazes de viver no mundo. Espaço e tempo contêm os
opostos da dualidade e, portanto, de conflito externo. Vemos isto por toda parte
na Natureza, onde há uma coisa natural e, de fato, uma parte necessária da
evolução e da própria vida, próprio da realidade objetiva, manifestar harmonia
no mundo externo, como podemos ver na absoluta perfeição de uma
rosa.
Na psique dos humanos, o conflito é como um corpo estranho. Está lá somente
porque são aplicados métodos mentais às realidades internas. A mente produz uma
ilusão de tempo e espaço internos, isto é, coisas e eventos internos, da mesma
forma que o aplica ao mundo externo e ainda os joga uns contra os
outros.
A harmonização interna vê e compreende a natureza da dualidade externa e a
unidade interna sem misturá-las. Apenas imaginar como a consciência funciona já
resultará na correção dos erros internos, porque, então, o conflito interno
acabará por si mesmo. Quando compreendemos que a consciência que quer modificar
o que somos, é a mesma consciência que se deve modificar, sabemos que há algo
errado com a atitude de mudar. A harmonização interior, naturalmente, serve para
que alguém saiba como realmente é e, ao mesmo tempo, como é o mundo, mas antes
temos que nos livrar das ilusões mentais, isto é, confrontar, sinceramente, como
somos e como é o mundo.
É verdade que não podemos vestir tal entendimento nas roupagens de conceitos e
palavras. As mentes espiritualizadas mais elevadas sempre tentaram dividir essa
sabedoria da unidade com aqueles que estavam dispostos a ouvir e pensar sobre o
assunto.
Tudo é exatamente como deveria ser. O que parece ser uma enorme injustiça na
arena externa, torna-se compatível no interior, quando o significado real é
visto através do entendimento interno. Tal vislumbre interno ou harmonia que,
por vezes chamamos de visão interior (insight), é o amor incondicional que nunca
julga nem toma partido.
Tudo é impregnado de significado ou propósito e, no mais íntimo centro do
Universo, este significado é um e o mesmo para todas as coisas e para todos os
incidentes. A meta de todo empenho espiritual é aproximar-se da Verdade Una,
inata neste Universo maravilhoso, discernir o significado único que se manifesta
em cada parte sua e seguir o progresso da criação com o
Criador.
Os problemas são, essencialmente, apenas desacordos mentais internos. Eles são o
resultado dos nossos desejos de que as coisas sejam diferentes do que, em
verdade, são. Todos os problemas podem ser resolvidos pela modificação da nossa
atitude em relação a eles, aceitando as coisas como elas são. Desta forma, os
problemas tornam-se tarefas, carregadas de significado ou propósito. A percepção
do significado inerente dos eventos e a aceitação interna sempre são
simultâneas. Reconciliar-se com a vida é compreende-la e compreender a vida é
estar contente com ela. Amor e compreensão, sempre andam de mãos dadas porque,
em verdade, eles são a mesma coisa.
A maioria dos problemas tem sua origem nos relacionamentos humanos. Por esta
razão é muito útil que se examine a fundo os complicados processos das relações
humanas. Da mesma forma que a determinação ou a força não tem a mínima utilidade
nos reinos internos da consciência, nos relacionamentos humanos elas atuam com
toda a propriedade. Aqui os problemas são um pouco mais complicados, tendo em
vista que precisamos discernir entre a harmonia interna e a rendição ou o perdão
externos. Reagir à vontade dos outros não é uma demonstração de boa vontade mas
de estupidez. A única marca dos feitos de alguém é a sua própria compreensão do
amor, porque este estado o faz abster-se de julgar as ações alheias; isto
acontece apenas quando existem compreensão e compaixão profundas e
internas.
O primeiro princípio básico do relacionamento é a absoluta sacralização da auto
determinação. Jamais deveríamos controlar uma outra pessoa e nunca render-nos às
tentativas de alguém que nos queira controlar. Esta sugestão não é facilmente
aceita porque atinge inúmeros setores do relacionamento humano. Vamos, então,
examinar o complexo de propriedade.
Possuir é uma escravidão dupla. Primeiro, existe a tendência a reter ou
manipular a propriedade e, segundo, o proprietário é manipulado ou possuído pela
propriedade e, portanto, não é livre. Possuir uma outra pessoa é, desta forma,
uma violência em relação à vítima e em relação a si próprio. Esta propriedade
assume diferentes máscaras que vão desde o estado máximo de estar enamorado com
sua necessidade inata de concordar e servir, até a maior
tirania.
No campo da manipulação existem variedades infinitas que, normalmente, navegam
sob uma falsa bandeira. Poder-se-ia aqui citar inúmeras tendências como a
pregação da mensagens especiais, de doutrinas e dogmas religiosos, assim como a
moderna epidemia de presentear, e todo o alvoroço em torno da caridade, que
geralmente está direcionada ao próprio sujeito e, até mesmo, sem a aquiescência
do objeto. Pode-se mencionar, também, invejas e ciúmes, que são apenas sintomas
de grande possessividade e agressividade. A coisa mais importante a
conscientizar é que a possessividade é uma atitude mental não um ato e,
portanto, de difícil julgamento no mundo externo.
Dar é ganhar -tomar é perder. Aqui estamos falando de valores internos, mas é
bom saber que o que está dentro, cedo ou tarde será refletido fora. Generosidade
interna trará prosperidade externa e, conseqüentemente, avareza trará,
certamente, carência e pobreza.
A excessiva atitude de propriedade precisa que se examine. Possuir significa
domínio ou controle, que é, de fato, uma parte normal e honesta das relações
humanas na vida do dia-a-dia. É normal que cada pessoa controle seu próprio
corpo, objetos pessoais, etc. É, também, normal, que alguém seja escolhido para
um cargo de chefia no trabalho, para administrar uma empresa, uma organização ou
ser eleito para um cargo político. Em todos esses casos, a chave está na atitude
posterior daquele que foi escolhido. É que há um senso de responsabilidade ou
uma tendência à dominação? Aquele que se sente como responsável pelas
propriedades de alguém, seja de Deus, da Natureza ou da Humanidade, este alcança
a proximidade da liberdade. No lugar da possessividade há um sentimento de
responsabilidade. O que não deve haver é o sentimento de estar carregando um
peso: aquele do cumprimento de obrigações. Porque se houver, ainda existe o peso
da possessividade; isto deve ser devidamente reconhecido.
Fé incondicional na vida é a chave para a liberdade. Confiar em Deus é a sinal
de um homem verdadeiramente religioso, não baseado em crenças ou necessitando
ser convencido. Este último vive na ilusão da convicção cega, enquanto o
verdadeiro crente estará sempre receptivo a tudo o que encontra na vida, sem
preconceitos ou expectativas. Encontrará pessoas e eventos sem temor, mas
totalmente atento e pronto para reagir no momento exato. Confiar é viajar sem
medo no mar tempestuoso da vida.
Libertar-se do ego é a única forma de vivenciar a real liberdade. Não existe
liberdade externa, no sentido comum da palavra, mas liberdade interna, que
significa ser totalmente independente das condições internas e externas e que
resultará na liberdade externa. Toda dependência, tanto interna quanto externa é
devida a condicionamentos internos. Você tem direito a bem poucas escolhas na
arena da vida diária, mas você sempre poderá escolher como vai viver os
incidentes da vida de momento em momento. Todas as reações que se originam no
passado são limitadas e dependentes, mas se você enfrenta todos os eventos com
atenção plena e boa vontade, algo novo e criativo acontece e isto corrige todas
as ações.
A libertação do Karma não ocorre pela substituição do mau pelo bom Karma, mas
pela queima de todo Karma no fogo da compreensão e do amor. A isto podemos
chamar harmonia interna.
Nada queima no inferno, com exceção da obstinação!
Theologia Germanica.
*(Ex-Secretário-Geral da Sociedade Teosófica na Islândia, já falecido.)
(Artigo extraído da revista The Theosophist, de novembro de 1997. Publicado originalmente em português na revista TheoSophia de janeiro/fevereiro/março 2000)