|

Carlos Cardoso Aveline

O escritor Jorge Luis Borges confessou:
“Que outros se jactem das páginas que escreveram: a mim me orgulham as páginas que tenho lido.” [ 1 ]
De fato, ler é uma experiência potencialmente mágica. Os bons livros são amigos tão fiéis como os nossos cachorros, apenas mais sábios, e mais silenciosos. Os livros nos inspiram e protegem. A leitura deles é uma forma de conversa interior. Nas suas páginas é possível trocar idéias com pensadores espalhados ao longo dos últimos 2500 anos. Uma biblioteca funciona, pois, como uma máquina do tempo. Ela nos possibilita viagens impressionantes, e nos coloca em contato com o pensamento e a presença sutil de sábios de outras épocas, que nos ajudam a viver melhor o dia de hoje.
Lin Yutang escreveu:
“O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, em relação ao tempo e espaço. Sua vida cai numa rotina fixa (...). Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra em um mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Esse conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns dos seus pesares pessoais, ou discute com ele (...) um aspecto da vida de que o leitor nada sabe.” [ 2 ]
Qual a influência do livro sobre o modo como nós sentimos a passagem do tempo?
Às vezes tratamos o tempo como se ele avançasse em linha reta. Na realidade, ele é cíclico e circular. Ele avança em espiral, retomando e resgatando situações do passado em um nível superior de evolução.
Graças à circularidade dos ritmos, os mais diferentes tempos passados e futuros estão sutilmente presentes em cada instante do agora eterno.
E como o momento presente inclui em si os tempos passados e futuros, podemos reconhecer que seres como Jesus Cristo, São João da Cruz, Albert Einstein e Gautama Buda são, de certo modo, contemporâneos entre si. Mais: com ajuda dos livros, eles influenciam direta e poderosamente nossa vida cotidiana no século 21.
Um cidadão de espírito prático, pressionado pelo estresse moderno, pode perguntar a essa altura:
“Se os sábios do passado são nossos contemporâneos, como será possível conversar e conviver mais de perto com eles? ”
E o filósofo Lúcio Sêneca, situado no império romano, responde escrevendo:
“Só aqueles que têm quietude, que se desocupam para aceitar a sabedoria, só eles vivem; porque não só eles aproveitam seu tempo, mas também acrescentam a ele todas as épocas, tornando seus próprios todos os anos que já passaram.”
O pensador neoestóico acrescenta:
“Nenhum século nos é proibido, a todos os séculos somos admitidos. Se com grandeza de ânimo quisermos sair da imbecilidade humana, haverá muitos tempos em que poderemos expandir-nos. Poderemos discutir com Sócrates, polemizar com Carnéades [ 3 ], aquietar-nos com Epicuro, vencer com os estóicos as inclinações humanas, melhorar essa inclinação com os [filósofos] cínicos, e andar com a natureza em companhia de todas as idades.” [ 4 ]
Se aceitamos a realidade da comunicação, cabe ainda uma pergunta. Em que território ou nível da consciência essencial ocorre esse diálogo aberto que reúne tantas vozes, situadas em tempos e espaços tão diversos?
Seguramente não é no ritmo entrecortado do curto prazo. Tampouco no âmbito estreito das coisas superficiais. Essas vozes se encontram no vasto território do conhecimento universal, um saber relativamente eterno, e que tem recebido diferentes nomes, em diferentes culturas. Os hindus o chamam de Gupta Vidya – a ciência secreta –, ou de Brahma Vidya, a sabedoria divina. Para os chineses, o ponto de encontro é o Tao, o princípio supremo. Amônio Sacas, de Alexandria, usou a palavra Teosofia – termo que significa, literalmente, “a sabedoria dos deuses”.
0000000000000
Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) foi a mulher que, em pleno século 19, ousou desafiar as diferentes religiões em seus aspectos dogmáticos mostrando que todas elas são imperfeitas, e nenhuma tem contato exclusivo ou monopólico com o mundo divino.
Por outro lado, cada grande religião tem, em sua essência, uma parte importante daquela sabedoria eterna e universal que é patrimônio comum da humanidade. Retomando o termo criado por Amônio Sacas de Alexandria, Helena usou o termo “teosofia” para referir-se a essa sabedoria primordial, e fundou, em Nova Iorque em 1875, o movimento teosófico.
Ela também desafiou os dogmas científicos da época, e retomou a tradição clássica segundo a qual a religião, a ciência e a filosofia devem ser reconhecidas como inseparáveis em um universo em que cada coisa tem vida e movimento em seu interior e está ligada a todas as outras partes do cosmo. Sensitiva, durante alguns anos promoveu fenômenos parapsicológicos para mostrar em um plano prático que o universo não tem apenas três dimensões e que a vida é maior do que aquilo que se pode observar com os cinco sentidos. Trabalhando em contato com raja-iogues dos Himalaias – sábios que operam em um plano intuitivo da consciência – Blavatsky trabalhou pela compreensão não-dogmática de que todos os seres humanos são irmãos, sem distinção de raça, credo, sexo, ideologia ou condição social.
Em troca, foi desprezada, chamada de louca, de charlatã e mentirosa. Também foi incompreendida e atacada – embora sutilmente – dentro do próprio movimento teosófico que ela fundou.
Em 1885, no auge de uma campanha contra suas perigosas idéias universalistas que desbancavam certas crenças dogmáticas, ela foi motivo de uma investigação por parte da Society for Psychical Research (Sociedade de Pesquisas Psíquicas, SPP), de Londres, e qualificada como um caso “fascinante” de fraude. Cem anos depois, a SPP contratou um expert em fraudes e falsificações, Vernon Harrison, para re-examinar todo o processo. A investigação técnica reverteu a diametralmente a posição da SPP, e Harrison escreveu um livro com suas conclusões. Ele testemunhou que, realmente, houve fraude, porém as supostas provas contra Blavatsky é que foram forjadas. Helena Blavatsky foi vítima de perseguição. Em 1986, a Society for Psychical Research (SPR) de Londres fez uma autocrítica pública, integral e sem meias palavras. Embora tardia, a reparação foi serviu para restabelecer a verdade.[ 5 ] Os mais desinformados, no entanto, ainda hoje tratam Blavatsky com base nas calúnias e preconceitos do século 19.
Menos de 150 anos depois da sua morte, está documentado o fato de que Helena P. Blavatsky causou um forte impacto positivo na história do pensamento humano. Mas muito do que ela escreveu e publicou em vida ainda está por ser compreendido e decodificado mais claramente. Há previsões segundo as quais a importância de Blavatsky será melhor percebida no futuro. [ 6 ]
HPB escreveu incansavelmente sua vida toda – livros, artigos e cartas. A publicação em livros dos seus artigos e textos curtos, os “Escritos Reunidos” (Collected Writings) só terminou na década de 1980 e ocupou 15 volumes. Suas obras ocupam no total quase 30 volumes, com destaque para A Doutrina Secreta, A Chave Para a Teosofia, Ísis Sem Véu e A Voz do Silêncio.
A seguir, uma breve conversa com a sra. Helena Blavatsky através da sua obra escrita. [ Sobre as fontes das respostas, veja a Nota Bibliográfica ao final.]
000000000000000
P: O que significa a palavra Teosofia?
R: Significa “sabedoria divina”, ou sabedoria dos deuses, assim como a teogonia é a genealogia dos deuses. A palavra theos significa “um deus” em grego, um dos seres divinos – certamente não “Deus” no sentido atribuído em nossos dias ao termo. Portanto, não é “sabedoria de Deus”, como traduzido por alguns, mas sabedoria divina, a sabedoria possuída pelos deuses.
P: Qual é a origem do nome?
R: Ele nos foi transmitido pelos filósofos de Alexandria, conhecidos como os amigos da verdade, filaleteus, de filo, amigo, e aletéia, verdade. O nome Teosofia data do terceiro século de nossa era e foi introduzido por Amônio Sacas e seus discípulos, os quais iniciaram o sistema teosófico eclético.
P: O objetivo dos teosofistas de Alexandria era o mesmo dos teosofistas modernos: criar uma percepção e um espaço de vivência da fraternidade universal de todos os seres humanos, com base em uma ética comum e no reconhecimento de certas verdades eternas presentes nas diferentes filosofias, religiões e ciências. Mas a meta não é fácil e não me parece possível alcançá-la sem autoconhecimento. Como podemos educar-nos sem dogmas, trocando desejos menores pela busca da paz e da verdade?
R: Quando o desejo busca o que é puramente abstrato, quando o desejo perdeu todo traço ou tonalidade de “eu”, então ele tornou-se puro. O primeiro passo para essa pureza é eliminar o desejo pelas coisas materiais, já que elas só podem ser apreciadas pela personalidade separada. O segundo passo é deixar de desejar para si até mesmo coisas abstratas como poder, conhecimento, amor, felicidade ou fama; porque, afinal de contas, elas são todas egoístas.
A própria vida ensina essas lições; porque todos esses objetos de desejos são tornam-se frutos do Mar Morto no momento em que são alcançados. Isto nós aprendemos por experiência própria. A percepção intuitiva captura a verdade positiva de que a satisfação é alcançável só no infinito; a vontade torna essa convicção um fato real na consciência, até que, afinal, todo desejo está centrado no que é Eterno.
P: O que é preciso fazer, então, para alcançar o verdadeiro autoconhecimento?
R: A primeira condição para obter autoconhecimento é tornar-nos profundamente conscientes da nossa ignorância; sentir com cada fibra do nosso coração que somos incessantemente auto-iludidos.
O segundo requisito é a convicção ainda mais profunda de que tal conhecimento – um conhecimento seguro e intuitivo – pode ser obtido pelo esforço.
O terceiro e mais importante é uma determinação indômita de obter e enfrentar esse conhecimento. O autoconhecimento desse tipo não pode ser alcançado através do que normalmente se chama de “auto-análise”. Ele não é obtido pelo raciocínio ou por qualquer processo cerebral, porque ele é o despertar da consciência da natureza divina no ser humano.
Obter esse conhecimento é uma realização maior do que ter domínio sobre os elementos da natureza ou conhecer o futuro.
P: O que a senhora está descrevendo é inseparável do despertar da intuição. Como se pode desenvolver a verdadeira intuição?
R: Em primeiro lugar, exercitando-a. E, em segundo lugar, não usando-a para propósitos meramente pessoais. Exercitá-la significa que ela deve ser seguida através de erros e derrotas, até que, a partir das tentativas sinceras de usá-la, ela adquire força própria. Isso não significa que podemos fazer coisas erradas e deixar os resultados de lado, mas quer dizer que, estabelecendo nossa consciência sobre uma base correta pela adoção da regra de ouro [ 7 ], nós abrimos espaço para a intuição e aumentamos a sua força. Inevitavelmente, no início cometeremos erros, mas se formos sinceros em seguida a intuição brilhará com mais clareza e não errará. Deveríamos acrescentar o estudo das obras daqueles que trilharam esse caminho no passado e descobriram o que é real e o que não é. Eles dizem que o Eu Superior [ 8 ] é a única realidade. O cérebro deve ter acesso a visões mais amplas da vida (...).
P: A filosofia esotérica formulada por você ensina que a evolução da humanidade faz parte da evolução do planeta, e que tudo no cosmo (assim como na vida de cada um) obedece a ciclos, com períodos regulares de atividade e descanso, manifestação externa e recolhimento interior. Tanto as pessoas como os universos reencarnam. Tudo é cíclico. Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se recicla. E na obra “A Doutrina Secreta”, publicada em 1888, você afirma que o eixo da Terra sofre alterações periodicamente, o que causa profundas mudanças geológicas...
R: A doutrina de que os mundos e as raças são destruídos periodicamente, ora pela água, ora pelo fogo (vulcões e terremotos), e que se renovam depois, é tão velha quanto o homem. Manu, Hermes, os Caldeus e a antiguidade toda acreditavam nisso. A superfície do globo terrestre já foi mudada duas vezes pelo fogo e duas vezes pela água, desde que o homem apareceu por aqui. Assim como a terra necessita de repouso e de renovação, de forças novas e de mudança do solo, assim também sucede com os oceanos. Daí resulta uma redistribuição periódica da terra e da água, mudança de clima, etc., tudo provocado por alterações geológicas e seguido finalmente de um deslocamento do eixo da Terra. Podem os astrônomos encolher os ombros à idéia de uma mudança periódica na inclinação do eixo da Terra, e sorrir da conversa, que se lê no Livro de Enoch, entre Noé e seu “avô” Enoch; mesmo assim, a alegoria continua indicando um fato geológico e astronômico. Ocorre uma mudança periódica na inclinação do eixo da Terra, e a sua mudança fixa está registrada em um dos grandes Ciclos Secretos. Tal como ocorre em muitas outras questões, a ciência se aproxima gradualmente do nosso modo de pensar.
P: Independentemente dos ciclos geológicos inevitáveis, o ser humano parece ter uma boa dose de responsabilidade em relação ao equilíbrio ecológico e às crises ambientais. Um grande pioneiro da defesa ambiental no Brasil, Henrique Luiz Roessler, escreveu em 1957:“A História mostra que os povos que se desfizeram de seus recursos naturais, entre os quais o maior é a floresta, empobreceram, se tornaram escravos e desapareceram do mundo”. O que é que você, tendo vivido bem antes de Roessler, tem a dizer a respeito?
R: Todos os patriotas hindus lamentam a decadência do seu país, mas poucos compreendem a causa real do fato. Mais do que a dominação estrangeira, o excesso de impostos ou a economia descuidada, a causa é a destruição das florestas. O desmatamento das montanhas e encostas é um crime contra a nação, e vai dizimar a população mais eficazmente do que seria possível pela espada de qualquer invasor estrangeiro. (...) Basta olhar as páginas da história para ver que a ruína e a destruição final do poder de uma nação se seguem à destruição das florestas tão seguramente quanto a noite segue o dia. A natureza sempre deu os meios para o desenvolvimento humano; e as leis dela nunca podem ser violadas sem desastre.
0000000000000000000000000000000000000000000000000
Nota Bibliográfica:
As fontes das respostas acima são, respectivamente, as seguintes:
1) A Chave Para a Teosofia, H.P. Blavatsky, Ed. Teosófica, Brasília, 1991, 261 pp., ver p. 15;
2) A Chave Para a Teosofia, obra citada, mesma página;
3) Collected Writings, H. P. Blavatsky, Theosophical Publishing House, Índia, 1990, volume VIII, p. 129;
4) Collected Writings, H. P. Blavatsky, Theosophical Publishing House, Índia, 1990, o mesmo volume VIII, p. 108;
5) Collected Writings, obra citada, volume IX, reimpressão de 1986, página 400-H;
6) A Doutrina Secreta, H. P. Blavatsky, edição em seis volumes, Ed. Pensamento, SP, 1981, volume IV, p. 295;
7) Revista The Theosophist, Bombay, Índia, edição de novembro de 1879, p. 42.
Uma edição facsimilar da coleção do primeiro ano dessa revista foi publicada por Wizards Bookshelf, San Diego, Califórnia, EUA. É dessa edição que traduzo. O texto original tem o título The Ruin of India. O mesmo texto de HPB foi reproduzido, mais de cem anos depois, na edição de outubro de 1986 (pp. 6-7) na mesma revista The Theosophist, editada em Adyar, Madras/Chennai, Índia.
00000000000000000
NOTAS:
[ 1 ] Versos do poema “Um Leitor”, no volume “Elogio da Sombra – Um Ensaio Autobiográfico”, Jorge Luis Borges, Ed. Globo, SP, 1993, p. 65.
[ 2 ] “A Importância de Viver” , Lin Yutang, Editora Globo, RJ/Porto Alegre/SP, quarta edição, 1959, 360 pp. trad. de Mário Quintana. Ver p. 302.
[ 3 ] Carnéades de Cirene, filósofo cético, nasceu em 219 a. C. e morreu aos 90 anos, em 129 a. C.
[ 4 ] Lúcio Sêneca ( 4 a.C.- 65 d.C.) , no texto “De la Brevedad de la Vida”, no volume “Tratados Filosóficos, Cartas”, Editorial Porrúa, México, 1998, p. 104.
[ 5 ] “H.P. Blavatsky and the S.P.R., an examination of the Hodgson Report of 1885”, livro de Vernon Harrison, membro da SPR. Theosophical University Press, Pasadena, Califórnia, EUA, 1997, 78 pp.
[ 6 ] Sobre o impacto do trabalho de HPB na história humana e na cultura do século 20, veja a parte sete da biografia “Helena Blavatsky, a vida e a influência extraordinária da fundadora do movimento esotérico moderno”, de Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília, 1997, 678 pp. Essa é a tradução de uma das cerca de 20 biografias que há sobre Blavatsky, em língua inglesa.
[ 7 ] A regra de ouro aparece no Novo Testamento: “Tudo aquilo que vocês quiserem que os homens lhes façam, façam vocês a eles, porque essa é a Lei” (Mt 7:12). No entanto, esse princípio ético não surgiu com o cristianismo. Cinco séculos antes de Jesus, na velha China, Confúcio ensinava: “O que não desejo que me façam os outros, tampouco desejo fazê-lo, eu, aos outros.” [Lun-Yu, ou Conversas Filosóficas, de Confúcio, capítulo 5, versículo 11: ver Los Grandes Libros, Confúcio, Ed. Siglo Veinte, Buenos Aires, 1943, p. 94, e também O Essencial de Confúcio, Thomas Cleary, Ed. Best Seller, 1992, 197 pp., ver p. 99.]
[ 8 ] Eu Superior: “Higher Self” no original em inglês; a Alma Imortal, o Ser Superior, o verdadeiro Ser, que reeencarna.
00000000000000000
Visite o website www.filosofiaesoterica.com

|