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Ricardo Lindeman
Como nós
todos estamos vivos, obviamente, a vida já está em nós, portanto se temos
qualquer dificuldade para saber o significado da vida, isso significa que nós
não conhecemos realmente a nós mesmos, ou até mesmo que há uma distorção em
nossa percepção e, portanto, nós não estamos realmente vendo o que é. Talvez
essa seja a razão pela qual a reta visão ou reta percepção é o primeiro passo –
de acordo com o Senhor Buddha – no Nobre Óctuplo Caminho para o Nirvana, o que
significa que ninguém pode nos dizer qual é o significado da vida porque temos
de vê-lo por nós mesmos. Como é dito em Cartas dos Mahatmas: “a iluminação tem
de vir de dentro”. (Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett.
Brasília, Ed. Teosófica, 2001. v. 1. p. 134).
De fato,
conforme nossa vasta literatura, seria fácil dizer que “o propósito da vida é a
evolução” e encerrar a investigação, mas como o Dr. Taimni diz sabiamente em Princípios de Trabalho da Sociedade
Teosófica:
“É
natural que nos perguntemos qual poderia ser o propósito deste poderoso e
infinito esquema, e os filósofos têm especulado em vão, desde tempos imemoriais,
sobre o ‘porquê’ do universo. O estudante de Filosofia Esotérica compreende que
o conhecimento a respeito destas questões últimas (Caracteriza o que se denomina
em sânscrito como atipraśna, ou seja,
questão última além da compreensão do intelecto humano - N.A.). está além do
alcance do intelecto humano e que, portanto, é inútil procurar por uma solução
intelectual do ‘porquê’ da manifestação. Este Grande Mistério do universo está
oculto nas profundezas da Consciência Divina e somente aqueles que podem
mergulhar profundamente naquele incomensurável oceano de conhecimento podem
conhecer diretamente algo deste Supremo Segredo. Mas há um aspecto deste
propósito divino na manifestação que podemos ver e compreender. É que ele provê
um campo para a evolução da Vida em todos os seus diferentes estágios”. (TAIMNI,
I.K. Princípios de Trabalho da Sociedade
Teosófica Brasília, Ed. Teosófica,
1994. p. 14).
Então,
porque a mente racional tem suas limitações para perceber o significado da vida,
nós podemos utilizar algumas analogias para superar essa dificuldade, tentando
sugerir algo à nossa intuição. De fato, os antigos teósofos de Alexandria, no
Século III, eram chamados de “analogistas” porque usavam freqüentemente esse
enfoque para compreender a Vida.
A idéia
Hindu de Līlā, o jogo divino, sugere
que o significado da vida é Ānanda,
felicidade ou bem-aventurança. Nós podemos compará-la à alegria de jogar
o jogo, mas então a mente racional pode criar a idéia de competição, portanto
distorcendo a analogia por meio da interferência da mente inferior com a ambição
de ganhar o jogo. A verdadeira alegria de um jogo só pode ser sentida se amamos
tanto o jogo que o jogamos por amor ao jogo, não ansiando por um resultado ou
uma recompensa, como é dito no Gitā:
“Tua
missão consiste somente na ação, nunca nos seus frutos; portanto, não deixes que
o fruto da ação seja o teu motivo, nem te apegues à inação ( ... ) portanto,
aferra-te ao yoga, yoga é habilidade na ação”. (BHAGAVAD-GITĀ
(Trad.
Annie
Besant). Chennai, The Theosophical
Publishing House, 2000. p.35-6.(II.47-50).
É semelhante à alegria de um jogador de golfe
que ama jogar mesmo sozinho, sem o motivo de competição, e , conseqüentemente,
ele está sempre aperfeiçoando a sua habilidade, crescendo “como cresce a flor,
inconscientemente, mas ardendo em ânsias de entreabrir sua alma à brisa"
(COLLINS, Mabel. Luz no Caminho.
Brasília , Ed. Teosófica, 1999. p. 40.)
Outra
maneira de considerar a verdadeira motivação para esta jornada em direção ao
eterno é que “‘o primeiro passo é o último passo’, e o que importa é a direção
tomada com o primeiro passo” (BURNIER,
Radha. Regeneração Humana. Brasília,
Ed. Teosófica, 1990. p. 50) como a Dra. Radha Burnier comenta o pensamento do
Sr. J. Krishnamurti, que também disse que “os meios determinam o fim” (KRISHNAMURTI, J. A Educação e o Significado da Vida. São
Paulo, Cultrix, 1980.p. 21). Portanto, o jogo tem de ser da mesma natureza de
alegria desapegada, desde o princípio até o fim.
Outra
analogia, proveniente da tradição Sufi, sugere que o significado da vida é o
amor, que no princípio Deus era uno e estava só, então Ele dividiu-se a fim de
que seus fragmentos pudessem se amar uns aos outros, e assim descobrir que são
partes do Todo.
Similarmente,
o Bispo Leadbeater escreveu: “Deus é amor,
e (...) todo o seu poderoso universo está se movimentando firmemente na direção
de um determinado objetivo final de unidade consciente com Ele (...) que é o Pai
amantíssimo de todos os seus filhos, e já está fazendo por eles muito mais do
que eles poderiam pedir, muito mais do que eles podem conceber. Tudo o que Lhe
podemos oferecer em retribuição é o nosso amor e o nosso serviço, e o nosso amor
é a própria manifestação de Deus dentro de nós, de tal modo que a única ação de
nossa parte, que pode ser concebida como prazerosa para Ele, é aquela que
permite cada vez mais ao Deus interno manifestar a si mesmo através de nós. Esta
me parece ser a maior de todas as verdades – a verdade da qual tudo mais
depende” (LEADBEATER, C.W. A
Atitude Teosófica. TheoSophia, Brasília, s/n:3-15, out./dez. 2002, p.
11).
Talvez
nós possamos mesmo descobrir que a essência do amor puro é felicidade, e que a
essência da verdadeira felicidade é querer compartilhá-la com os outros, o que é
amor. Se observarmos as vidas dos Grandes Bem-aventurados — Buddha, Cristo,
Krishna, Shankara e muitos outros — nós veremos que beatitude, amor, sabedoria,
e muitas outras virtudes são tão integradas que até Sócrates dizia que havia
somente uma virtude, embora nós geralmente percebamos apenas suas diferentes
manifestações.
Dessa
forma, poderíamos chegar à conclusão de que o próprio sentido da vida é algo que
integra todos os diferentes significados que fôssemos capazes de encontrar, como
a luz branca integra todas as cores do espectro.
Nossa
dificuldade, por outro lado, é que, se a mente não for pura, ela separará e
distorcerá as coisas e suas proporções de tal maneira que os seres humanos, às
vezes, não conseguem ver absolutamente nenhum significado na vida. Porém, mesmo
no sofrimento e na provação há uma proporção, como diz a Bíblia: “Deus é fiel,
não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Mas, com a tentação,
ele vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar” (A BÍBLIA
de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 1995. p. 2160. (I Coríntios X.13).
E
o Bispo Leadbeater comenta:
“Quando um homem é completamente permeado pela
absoluta certeza do amor eterno e da justiça absoluta, ele descobrirá, a partir
daí, como um fato básico, todos os outros fatos na Natureza gradualmente se
alinhando e ocupando seus próprios lugares. Algum tipo de problema advém a cada
ser humano, e por causa disso o homem é às vezes tentado a crer que algo está
errado – que deve haver uma falha em algum lugar e de algum modo na operação do
esquema divino” (LEADBEATER, op.
cit., p. 11).
“A
Teosofia salva seus estudantes deste erro ao tornar-lhes absolutamente claro que
nenhum sofrimento imerecido pode chegar a nenhum homem. Qualquer problema que
nós possamos encontrar é simplesmente da natureza de uma dívida na qual
incorremos; e uma vez que temos de pagá-la, quanto antes a resgatarmos, melhor.
Nem isso é tudo; pois cada problema é uma oportunidade de desenvolvimento. Se
nós o suportarmos paciente e bravamente, não permitindo que ele nos subjugue,
mas enfrentando-o e fazendo com ele o melhor possível, por meio disso
desenvolvemos dentro de nós as valiosas qualidades da coragem, perseverança,
determinação; e assim, a partir do resultado de nossos erros do passado remoto,
nós produzimos o bem ao invés do mal”
(LEADBEATER, C.W. An Outline of
Theosophy. Chennai,
The Theosophical Publishing House, 1999. p. 89).
“Certamente, devíamos nós, que estamos
tentando adquirir algum conhecimento definido da ordem cósmica, já ter
compreendido que a visão otimista de todas as coisas é sempre a que está mais
próxima da visão divina” (LEADBEATER,
C.W. Auxiliares Invisíveis. São
Paulo, Ed. Pensamento,
1976. p. 95).
Também
encontramos em A Doutrina do
Coração:
“O exterior sempre revela o interior ao olho que vê, e pessoas e
lugares são, portanto, sempre interessantes. Novamente, o mundo externo não é algo desprezível como
alguém poderia imaginar durante a primeira intensidade e agudeza de seu vairāgya, ou aversão por aparências,
pois, se assim fosse, toda a criação seria um desperdício de energia tolo e sem
propósito. Porém tu sabes que de fato não é assim; que por outro lado existe uma
filosofia profunda e sólida, mesmo nestas manifestações ilusórias ou vestes
exteriores, e que Carlyle em seu Sartor
Resartus demonstrou uma parte desta
filosofia. Por que então virar-se com náusea e horror mesmo do refugo mais
externo. Mesmo os mantos, nos quais se oculta a Deidade Suprema, não são
sagrados para nós e cheios de sábias lições?”
(BESANT,
Annie. A
Doutrina do Coração.
Brasília, Ed. Teosófica, 1991. p. 46).
Assim,
nós podemos ver essa necessidade de remover as impurezas da mente e as
conseqüentes distorções de percepção. É a necessidade de uma regeneração de
nossa natureza, um novo nascimento espiritual, o nascimento de uma reta
percepção. Como o Cristo disse: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que
não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (A
BÍBLIA Sagrada. Rio de Janeiro, Sociedade Bíblica do Brasil, 1976. p. 123 NT.
-João III.3).
Sete
são os obstáculos clássicos ou impurezas, de acordo com a tradição cristã, que
podem bloquear nossa percepção do verdadeiro Sol de amor e alegria espirituais.
Essas sete “nuvens”, por assim dizer, são o orgulho, a inveja e a avareza
(predominantemente no nível mental); a ira, a luxúria e a gula
(predominantemente no nível emocional); e a preguiça (predominantemente no nível
físico).
Na
sua presença nós perdemos, durante aquele período de tempo, a percepção daquele
Sol espiritual de amor e deleite, e assim separamos a nós mesmos dos outros. A
necessidade de compartilhar a bem-aventurança, que é amor, não parece estar ali,
e nos sentimos solitários. Esta é apenas uma percepção distorcida daquela
unidade que permeia todas as coisas e todos os seres. Para evitar esta
distorção, nós não precisamos criar o amor, o que é tão impossível quanto criar
o Sol, mas apenas evitar as sete “nuvens” mencionadas, não as nutrindo. Então, a
glória do Sol será visível novamente. De fato, o Sol esteve sempre brilhando,
somente a nossa percepção estava bloqueada e não podia vê-lo. Portanto, para
evitar a formação de nuvens se requer uma vigilância, momento a momento, a fim
de restabelecer a percepção da unidade, como um novo nascimento, como o Cristo
disse: “Naquele dia sabereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em
vós”
(Ibidem, p. 142 NT. -João XIV.20).
Em
linguagem mais moderna e psicológica, J. Krishnamurti
disse:
“Presos como estamos nesta armadilha — e é uma
armadilha terrível — perguntar-se-ia por que nós não rompemos o condicionamento,
por que permanecemos pesados e estúpidos, vazios, com mente rasa, superficial ou
mesmo embotada. Será porque nós não conhecemos a nós mesmos? Deixando de lado as
idéias dos diversos especialistas, com suas afirmações e dogmas peculiares, nós
vemos que realmente nunca investigamos a nós mesmos, indo profundamente dentro
de nós mesmos para descobrir o que realmente nós somos. Será esta a razão pela
qual nós não mudamos? Ou será porque não conseguimos a energia? Ou porque nós
estamos entediados — não apenas conosco mesmos, mas também com o mundo, um mundo
que tem muito pouco a oferecer exceto carros, banheiros maiores e tudo o mais?
Desta forma, nós estamos entediados externamente e, provavelmente, também
conosco mesmos porque estamos presos na armadilha e não sabemos como sair dela.
É também provável que estejamos muito preguiçosos. Além disso, no conhecer a nós
mesmos não existe nenhum lucro, nenhuma recompensa no final, enquanto que a
maioria de nós está condicionada pelo motivo da recompensa”.
(KRISHNAMURTI,
J. You are the World. New York,
Harper & Row, 1973. p.108-9).
Portanto,
é extremamente importante saber como as nuvens são criadas por nós, para sermos
capazes de evitá-las. Esse tipo especial de conhecimento é chamado de
autoconhecimento; esse é o caminho para nossa regeneração. O fato é que quando
estamos realmente cônscios, vendo e compreendendo as nuvens que nós estamos
criando, nós imediatamente paramos de nutri-las, deste modo elas se dissolvem a
si mesmas, e a percepção fica novamente livre.
Como
enfatizava o Sr. Sri Ram:
“Isto
tem de ser profundamente compreendido e realizado. A compreensão que é
necessária não é apenas um entendimento mental, que é superficial. Tal
entendimento não transforma a vontade, porque está cheio de reservas mentais.
Quando nós compreendemos uma verdade por nós mesmos, completa e livremente, a
verdade então nos liberta dos erros e superstições que florescem em sua
ausência. Nós não estamos, nenhum de nós, tão livres quanto imaginamos estar;
nós pensamos estar livres enquanto temos um tipo de liberdade externa
superficial. Porém, a partir de um ponto de vista interno, nós só temos
liberdade para perder a nossa liberdade, o que fazemos prontamente... Quando
realmente compreendemos o problema, quão completa é a natureza da transformação
que é requerida, nós deixamos de ser impacientes. Não importa quanto tempo ela
levará, nós sabemos a direção e devemos segui-la; haverá muitos problemas e nós
podemos dar um jeito neles.” (RAM, N. Sri. Human
Regeneration.
Chennai, The Theosophical Publishing
House, 2002. p. 37-55).
De fato,
para sermos capazes de realizar uma tão completa transformação e regeneração
espiritual, nós não podemos utilizar apenas uma parte superficial da mente, nós
temos de estar completamente envolvidos no processo de transformação e não
dissipar nossa energia em conflitos.
Como
Krishnamurti deixou claro: “A desordem não pode ser transformada em ordem. Porém, a negação da desordem é a natureza da
transformação: a própria negação é a
transformação... Então aquela negação do que é falso, que é a natureza da
transformação, é verdade... Essa desordem é criada pelo pensamento, que é o eu e
que cria a separação. ...Qualquer movimento do pensamento apenas criará mais
desordem. ...O próprio pensamento tem de
negar a si mesmo... Portanto, quando o pensamento compreende que o que quer
que ele faça, qualquer movimento que ele faça, é desordem, então há o silêncio.
A natureza da transformação da desordem é o silêncio... É o silêncio quem cria a
ordem, não o pensamento” ( KRISHNAMURTI, op. cit. acima nota 18,
p.106-8).
A partir
do silêncio que é paz, que é bem-aventurança, que é amor, vem a completa entrega
àquela Vida Una que é a natureza essencial de todos os seres e de todas as
coisas. Quando todos os conflitos cessam, há somente uma harmonia para ser
compartilhada com todos. Pois a nossa dificuldade geral para sentir o
significado da vida é que nós estamos em conflito com a vida, demasiado apegados
e identificados, através dos sentidos, com as correspondentes atrações e
repulsões do nossos corpos. Quando se encontra essa harmonia com a vida, o
significado está lá, como um perfume que está por toda parte: ele nos leva na
cálida brisa da sua graça.
Como é dito em Luz no Caminho:
“O
silêncio pode durar um momento ou pode prolongar-se por milhares de anos, porém,
terá fim. No entanto, reterás contigo a sua força... Então poderás saber que
encontraste o começo do caminho. E quando chegares ao fim, a sua luz se
transformará subitamente na luz infinita ... Sabe... que aqueles que passaram
pelo silêncio, sentiram a sua paz e retiveram a sua força, anseiam que tu também
passes por ele.” (COLLINS,
op. cit., p. 53-62. -I:20-21).
Essa
regeneração através do silêncio é o caminho para encontrar o significado da
vida.
Palestra apresentada na Convenção Anual
da Sociedade Teosófica Internacional em Adyar, Chennai, Índia, em 27 de dezembro
de 2002 e publicada em The
Theosophist em abril de 2003.
Ricardo
Lindemann
Presidente Nacional da Sociedade Teosófica no
Brasil.

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