| |
A Vida como nós a vemos em cada criatura viva apresenta um aspecto
que pode ser considerado como ordinário ou até mesmo lugar comum, porque estamos
muito familiarizados com ele. Mas ela também possui um aspecto que, mesmo que
caia dentro de nossas percepções limitadas, bem pode excitar nosso espanto e ser
verdadeiramente considerado como extraordinário. Em que repousa esta distinção
entre ordinário e extraordinário? Talvez possamos melhor indicar a natureza
deste último aspecto, como também colocá-lo numa base bem definida, usando o
termo “Espírito”, muito embora esta seja uma palavra na maior parte das vezes
usada livremente e com conotações vagas. O que é Espírito?
Em As
Cartas dos Mahatmas é afirmado muito definidamente que Espírito
é Vida indivisa. Se isto é assim, então o que é chamado Espírito não é uma
abstração mas uma realidade, cuja natureza pode ser experimentada dentro de nós
mesmos. O relacionamento entre Matéria e Espírito, os quais se afirma naquelas
mesmas Cartas serem apenas dois lados da mesma coisa, a saber, o Elemento ou
Substância una da qual tudo mais no universo é derivado, é um relacionamento de
vida e contém em si mesmo todas as qualidades que a vida pode exibir. A vida é
uma energia que polariza-se em Espírito e Matéria. A matéria nós percebemos, mas
a natureza do Espírito é compreendida e experimentada somente em nossa própria
consciência.
Pode-se dizer que em todo o universo manifestado a vida é a única
coisa primária, uma energia que está em toda à parte e latente ou ativa em graus
variados. Num pólo, esta energia manifesta uma natureza de unidade e então ela é
a vida indivisa; no outro pólo há divisão e diversidade e a vida manifesta-se
como uma diversidade de processos. Em seu aspecto objetivo, quer seja numa
planta, num animal ou num corpo humano, ela é uma síntese de forças e é por isso
que o cientista fala da vida sintetizante. Mas em sua natureza profundamente
subjetiva ela é uma unidade absoluta e sua natureza somente pode ser conhecida
pela experiência direta.
Em cada forma viva, em cada organismo individual, há uma unidade e há
uma diversidade. Isto é reconhecido pelos cientistas, mas suas observações estão
no nível da diversidade, os vários processos químicos e biológicos; são somente
estes que podem ser observados. Na maior parte eles pensam que a unidade é
criada pela diversidade, que reunião das partes, as quais desenvolvem várias
reações entre elas próprias, cria uma certa unidade ou totalidade. Mas como a
conseqüência, que possui uma natureza tão diferente, surge de um padrão
material?
A reunião das partes é de acordo com um padrão específico em cada
caso e é mantida e reproduzida com várias modificações. Será que tudo isso é uma
questão de química, geração espontânea, não no sentido da vida surgindo da lama,
mas do encontro acidental de certos elementos e da sobrevivência do mais apto
para um ambiente particular, o que é chamado de seleção natural? Ou a vida
possui uma natureza que em muito transcende o que é visto no nível biológico,
com uma inteligência inerente à sua natureza, que organiza e usa o material
disponível e, ao assim fazer, manifesta apenas um fragmento de sua
potencialidade? Esta última é a visão antiga e oculta por que não podemos
observar com sentidos físicos a ação da natureza que é atribuída a ela.
Se Espírito e Matéria são os dois pólos, uma visão remonta a vida,
com toda sua potencialidade, àquilo que chamamos de Espírito, e a outra visão
baseia-se completamente na atividade que é vista ocorrer no campo da matéria.
Entre os antigos, aqueles que reivindicavam falar com autoridade do conhecimento
direto – e suas afirmações foram aceitas por muitos, até mesmo dentre aqueles
que investigaram muito minuciosamente toda hipótese possível – consideravam a
vida como uma efusão divina. Isto é, ela descende de alturas muito grandes, ou
surge de profundezas muito grandes – duas maneiras de dizer a mesma coisa. A
altura ou a profundidade são abrangidas na relação entre Espírito e Matéria, a
distância entre os dois pólos eternos não sendo espacial, mas representando uma
enorme faixa em gradações de expressão, ação e qualidade. A Matéria, que é capaz
de divisão, diferenciação e combinações, provendo a forma, e o Espírito, que é
Vida indivisa, possuindo qualidades que ele confere à energia que atua através
da forma e expressa em cada caso aquele aspecto de sua natureza que pode
aparecer através da forma. Podemos ver que enormes possibilidades abrem-se a
partir desta visão.
Todas as qualidades incluídas na profundidade podem ser manifestadas
na consciência desenvolvida. Elas pertencem àquela consciência ou, mais
categoricamente, à consciência como manifestada no homem. Quando examinamos
muito cuidadosamente a natureza da vida, podemos ver que ela não é separada da
consciência. Viver é ser cônscio em algum grau. No nível puramente físico é
“senciência”; você sente a picada de uma agulha ou uma sensação agradável,
excitante. Mas há muitos outros níveis, a natureza dos quais é expressa na ação
que ocorre no campo de nossa própria consciência, não apenas pensamento e todas
as qualidades que podem caracterizá-lo, mas também imaginação, resposta à
beleza, amor, o sentimento de absoluta liberdade e a experiência de um estado de
“absoluteidade” em nosso próprio ser. Tudo isto surge da vida, sendo parte de
sua natureza e ação. Atribuir tudo isto a combinações moleculares, por mais que
a vida possa parecer surgir delas, é uma explicação que não pode ser chamada de
razoável ou convincente.
O cientista estuda e especula, na medida em que ele especula, sobre a
vida em sua natureza ordinária, a natureza da vestimenta material que ela usa,
não sua natureza extraordinária que não pode ser medida por sua régua e compasso
ou pelos instrumentos mais sofisticados que ele inventou. A vida, restrita por
uma organização material, a natureza que exibe nessa organização, é uma coisa:
mas a vida fora dos limites dessa organização, o que ela pode manifestar de sua
natureza à parte das limitações às quais torna-se sujeita, pode ser alguma coisa
muito diferente. O que é extraordinário é completamente omitido quando o
cientista confina sua atenção àquilo que ele pode observar na matéria física.
Ele não pode conhecer dessa forma a outra dimensão que está compreendida no
Espírito, uma palavra com significados desconhecidos, que pode ser compreendido
somente através da auto-experiência. Mesmo no nível físico há vários processos
para os quais não há explicação adequada. Como as partes se ajustam num todo
progressivamente significativo, como um desenho específico variando de uma
família ou ordem para outra, e o que mantém a unidade deste desenho enquanto o
reproduz e o modifica todo o tempo, com adaptações de uma natureza muito
complicada e engenhosa, tudo isso é um mistério. É difícil imaginar que um tal
resultado inteligente possa advir de um processo de mero ajuste sem um padrão
anterior ao qual as partes são atraídas.
A Teosofia em seu aspecto central é essencialmente a ciência da Vida,
sua natureza, potencialidade e ação. Ela também tem sido designada como a
ciência do Eu. Mas quando o eu no sentido ordinário desaparece então há Vida
aparecendo em seu lugar, em toda sua extraordinariedade, sua beleza, sua
profundidade, sua inteligência e todas as outras características de sua natureza
e poder. Podemos usar a palavra “Espírito” quando nos referimos a tudo isto.
Assim, o Espírito é vida em sua fonte, onde ela existe em sua pureza, sua
plenitude, sua plena potência e superlatividade, e não como ela aparece um
qualquer forma condicionada. Talvez possamos chamá-la então de o elixir da vida.
Alguns anos atrás, Sir John Eccles, o célebre pesquisador e professor
de fisiologia, particularmente do cérebro, ministrou uma série de conferências
que foram transmitidas pelo rádio para toda a Austrália, no curso das quais ele
disse:
Demasiado freqüentemente
temos afirmações de que o homem é apenas um animal esperto e inteiramente
explicável materialmente. E novamente, nos é freqüentemente dito que o homem não
é nada mais do que uma máquina extremamente complexa e que os computadores logo
estarão competindo com ele pela supremacia como as máquinas mais complexas em
existência e que eles terão desempenhos que o sobrepujarão em tudo o que
importa.
Quero duvidar de tais
afirmações dogmáticas e fazer com que vocês percebam quão tremendo é o mistério
da existência de cada um de nós... Minha aproximação da experiência consciente
é, em primeiro lugar, baseada em minha experiência direta de minha própria
autoconsciência. Acredito ser esta a única maneira válida na qual falar a
vocês...
“A única maneira válida”, da qual Sir John fala, pode ser considerada
como especulativa, não estando aberta à demonstração, mas é o caminho para o
conhecimento direto e certo. Em outro lugar ele diz: “Nós (os cientistas) não
podemos dizer-lhes como os presumidos padrões na rede neuronal num dado momento
dão surgimento à consciência”.
Mas os antigos resolveram esta dificuldade.
À medida que a vida, em seu aspecto de consciência, desenvolve-se num
ser humano, o amor aparece e manifesta-se e da mesma forma que a vida possui um
aspecto que é ordinário e outro que é extraordinário, o amor também tem dois
aspectos similares. O amor que é ordinário é o tipo que encontramos muito
comumente no mundo e é basicamente uma questão de gostar ou de gozo e posse. Mas
há também amor que é extraordinário. A diferença realmente repousa entre as
qualidades que são baseadas na matéria e aquelas que são puramente espirituais.
Aquele princípio no homem que é chamado Manas, grosseiramente traduzido por
mente, pode ser baseado na matéria bom como espiritual. Imagine um cone, cuja
base está na terra e seu vértice acima da base estando conectado com cada ponto
na base. Isto pode simbolizar o relacionamento entre Manas e as coisas particulares no campo
da matéria com as quais está relacionado, para as quais sua atenção é atraída,
nas quais ela desenvolve um interesse. Todas as linhas que conectam o vértice
com os pontos inumeráveis na base representariam as reações da mente, seus
apegos e medos. Mas podemos imaginar o prolongamento deste cone, fazendo um
outro cone com seu vértice no mesmo ponto e a base em algum lugar lá
em cima. Este outro
cone abrindo-se ao espaço representaria Manas expandindo-se no mundo do
Espírito, isto é, um mundo de verdade e beleza, uma expansão que pode ocorrer
somente quando a mente está livre das modificações às quais entrega-se no cone
inferior baseado na matéria.
Manas, sendo o princípio
central no homem, não o mais elevado, mas o que realmente constitui o homem, o
pensador, pode associar-se quer ao mais elevado ponto em sua constituição ou ao
mais inferior. A Dra. Annie Besant descreveu o homem como uma entidade que une
em si mesma o supremo Espírito com a matéria mais inferior. A palavra “mais
inferior” não significa neste contexto alguma coisa desprezível, vil ou má, mas
significa que nas gradações que separam o Espírito da matéria estamos nos
referindo ao grau mais inferior da matéria, da mesma forma que o ponto mais
elevado refere-se à suprema qualidade no Espírito. É possível se viver em
condições de matéria, como todos nós vivemos, sem tornar-se sujeito às suas
pressões e influências insidiosas, sem passar por um processo de materialização
ou degradação em si mesmo. Portanto, não necessitamos concluir que a matéria é
necessariamente má ou grosseira em qualquer sentido depreciativo.
Certas qualidades e faculdades vêm à manifestação somente num mundo
de distinções. No mundo da Natureza física, cada coisa é distinta e diferente
das outras de uma maneira ou de outra e mantém sua diferença com uma medida de
estabilidade. Há muitas tonalidades e matizes de cor e a capacidade de
percebê-los é desenvolvida somente quando se dá atenção a eles. Similarmente, há
diferenças em tons e formas, movimentos, idéias e qualidades. O artista nota
alguma delas mas nós não. Também no reino da mente pode haver movimentos
extraordinariamente sutis, cada um com sua qualidade, como uma nota musical,
distinto de outros, distinções entre uma idéia e outra e distintas gradações em
sentimentos e emoções. Processos mentais tais como razão, julgamento, rapidez em
pensamento, são evocados ao se tratar com distinções. Estas qualidades,
incluindo a capacidade de agir com precisão, presteza e habilidade surgem do
relacionamento entre a mente à matéria.
A natureza de Manas, que
é um aspecto da consciência ou um modo de sua ação, é ver o particular, à parte.
Ele nota as diferenças entre uma coisa e outra em suas propriedades, movimentos,
ação, relacionamentos e assim por diante. O cientista faz isso de uma maneira
notável. Mas quando ele quer compreender a natureza de alguma coisa que é um
todo, ele a julga a partir do que ele conhece das partes.
É um aspecto diferente da consciência que abarca o todo de uma só vez
e experimenta a natureza da unidade que aquele todo corporifica. O todo, se ele
não é uma mera reunião, possui uma qualidade, uma beleza, que não está nas
partes. Uma construção nobre, tal como o Taj Mahal ou uma bela catedral, possui
uma dignidade, um caráter próprio, que as partes, embora belas em si mesmas, não
manifestam separadamente. Este outro aspecto da consciência, que é espiritual e
que podemos chamar de Buddhi, sempre funciona em termos de um todo perfeito e em
suas criações expressa a natureza ou a beleza do Espírito.
Se identificamos Espírito com consciência em sua pureza, podemos ver
como ele pode atuar em um número
infinito de maneiras. Se a afirmação é feita “A beleza do Espírito é infinita”,
talvez muitos a aceitarão porque é um pensamento que tem sido expresso muito
freqüentemente. Mas em que modos ela pode ser infinita, como sua beleza é
manifestada? É somente quando compreendemos a natureza da consciência é que
vemos de sua substância e movimentos pode surgir uma forma bela após a outra e
que seu poder de criação pode ser infinito. Tal ação ocorre com uma facilidade
sem esforço quando não há nela nenhuma partícula de um impedimento: então ela
pode mostrar a cada vez uma criação singularmente bela. Sua ação é muito
semelhante ao florescimento de uma planta na Natureza física. Podemos chamá-la a
ação do Espírito ou da Consciência. É este florescimento desde o interior, cada
vez com uma nova beleza, que constitui o lado extraordinário da vida, de seu
aspecto espiritual ou divino, que é muito mais uma realidade ou mais próximo da
realidade do que a ação no campo da matéria.
Mesmo no nível da matéria a vida sempre assume uma forma individual.
Ela não é apenas uma quantidade de energia num reservatório. No corpo material
vivo há perfeita coordenação de partes e processos e o corpo manifesta em seu
nível uma certa unidade correspondente à individualidade da vida que nele
habita. Assim, há uma reflexão no caráter e nos processos da vida na matéria, de
uma unidade inata que é a unidade do Espírito. Mas a unidade que é espiritual
não é uma unidade morta ou de uma natureza mecânica, mas é a unidade de uma
“absoluteidade” tal como é experimentada numa exaltada condição da consciência,
no amor ou numa total resposta à beleza. Cada estado desses possui uma qualidade
singularmente sua, como a unidade de uma qualidade que permeia e satura uma
criação artística ou a unidade de uma expressão maravilhosa na face de
alguém.
De acordo com o ensinamento oculto, em cada ponto no espaço há
matéria e em cada ponto há também Espírito. Uma partícula de poeira é matéria
mas há também Espírito nela. Eles coexistem, ambos são eternos, unos e
auto-existentes, mas em cada ponto o significado, a beleza, a maravilha que é
manifestada pertence ao Espírito. Ele é o Logos, no velho sentido grego,
presente em cada ponto no fluxo da vida, que dá direção àquele ponto para o
processo evolutivo posterior. A matéria existe como um meio de
expressão.
Hoje em dia freqüentemente a pergunta é feita: “Qual é o significado
da vida?” Nesta pergunta a palavra “vida” é usada num sentido altamente
generalizado, incluindo todos os incidentes que afetam a vida interior. A
palavra “significado” é difícil de traduzir. O que uma flor significa para nós, ou ela nada
significa afinal? Quando há uma resposta extraordinariamente vital de nosso
coração à flor ou ao movimento de uma nuvem ou a uma personalidade humana ou a
alguma ação de sua parte, como esse fenômeno nos afeta, seu impacto sobre nós, é
o significado sentido e experimentado. Se sentimos sua beleza, seu encanto, se
somos realmente cativados por ela, a coisa é significativa num grau
extraordinário. Este é o ápice de significado que uma coisa pode possuir. Você
apenas olha para ela e ela mostra sua beleza a você e isto é o suficiente, ela
não necessita fazer mais nada. O fato que ela existe e que você a conhece é o
bastante. O “significado”, então, está na natureza inata de um fenômeno ou
objeto. Não é uma questão de construção pela mente. Cada fenômeno, cada pessoa e
coisa possuem uma qualidade que é comunicada à mente que está realmente aberta.
Cada pintura ou gravura, se ela é uma real obra de arte, possui uma beleza que
ela irradia. O artista conhece isto como um fato, embora possa haver pessoas que
pensem que a gravura é meramente uma mistura de cores. Quando falamos da verdade
com relação a alguma coisa objetiva, esta verdade inclui todo o que pertence à
sua forma, sua substância e propriedades, bem como o significado daquela forma
para uma mente e coração receptivos, a qualidade que permeia a forma, quando ela
é uma forma perfeita.
No processo da evolução, que é um processo universal, há uma sucessão
de formas. Há também uma manifestação ou liberação de significado. Uma qualidade
mais elevada, uma inteligência superior, uma beleza que não estava presente
antes, aparece no mapa da existência. A essência de uma forma que é perfeita e
significativa, isto é, se ela é verdadeiramente evoluída, está naquilo que ela
expressa e esta essência pertence à vida, ao Espírito-na-matéria. A natureza do
Espírito deve ser percebida no significado que a coisa viva torna manifesto. Se
em toda a parte há vida latente ou ativa, tudo que podemos ver ou tocar deve ter
esta qualidade-vida, mesmo que tenuemente.Um cachorro cheira o que não podemos
cheirar e os instrumentos registram variações magnéticas que afetam nossos
corpos, mas dos quais somos totalmente inconscientes. Similarmente, pode haver
radiações presentes, presenças sutis, às quais não somos sensíveis. A forma é
sempre pretendida ser uma expressão da vida. Há esta expressão quando ela
incorpora um padrão específico sobre o qual a expressão pode ser baseada. No
curso da evolução, na medida em que o padrão é elaborado, a expressão torna-se
mais definida, mais modulada, carregada com nuanças. Há uma infinidade de
significado, de amor, de beleza no Espírito e a natureza na qual esta infinidade
está armazenada pode ser conhecida em nosso coração quando ele for puro o
suficiente e humilde o suficiente para conhecê-la.
|