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Carlos Cardoso Aveline
Navegar é preciso, viver não é preciso”, diziam os antigos
navegadores portugueses. E, de fato, 500 anos depois, não há dúvida de que
navegar, ou viajar, é inevitável. A ciência moderna demonstrou que viajar é
viver, porque tudo que existe flui em um eterno movimento.
O núcleo de cada átomo
do universo é como um pequeno Sol em torno do qual navegam elétrons em alta
velocidade. Nossa galáxia é regida pela lei do movimento. A própria palavra
“planeta”, que vem do grego, significa “errante” ou “viajante”. A Terra já foi
comparada a uma nave espacial, devido à sua viagem incessante em torno do Sol.
Além disso, nosso planeta gira em torno do seu próprio eixo, o que dá origem
aos nossos dias e noites. Parece pouco? O sistema solar também está em
peregrinação. Ele viaja à velocidade de 960 quilômetros por minuto, ou 57.600
quilômetros por hora, em direção à estrela Vega, a mais brilhante da
constelação de Lira. Felizmente, Vega não está parada. Ela se desloca pelo cosmo
numa direção e com uma velocidade que garantem pelo menos uma coisa: ela nunca
será alcançada por nós.(1)
A mudança e o
movimento – tanto internos como externos – são, portanto, o estado natural de
tudo o que existe. Qualquer imobilidade ou estabilidade são subjetivas e
passageiras. Permanentes são a transformação e a harmonização dinâmica das
coisas em todo o cosmo. A cada desarmonia, segue-se uma harmonia maior e mais
completa.
Se tudo está em
movimento e nada existe fora da dança do universo, não há motivo para que nós
queiramos viver fechados entre quatro paredes, como se fosse possível existir
sem transformar-se. É só quando perdemos o contato com o ritmo natural da vida
que o escritório, a fábrica, o apartamento ou a casa passam a funcionar como modernas
prisões, ricas em recursos tecnológicos.
Segundo o filósofo
Karl Gottlob Schelle, viver continuamente em atmosferas confinadas amolece o
espírito das pessoas e enfraquece o seu bom senso. “O movimento do corpo não é
diretamente uma das condições da vida”, escreve Schelle, “e sua ausência não
desencadeia irremediavelmente a morte (...) mas ele é, no entanto, uma condição
indireta. Ele é indispensável para a saúde do corpo e para o bom funcionamento
do organismo”.(2)
A solução passa pela
simplicidade voluntária. Basta caminhar regularmente ao ar livre e conviver com
o ambiente natural para recuperar e manter a vitalidade. A antiga arte de
passear pela natureza rompe os muros invisíveis da rotina e amplia nossos
horizontes pessoais. É verdade que essa arte meditativa nem sempre precisa ser
praticada a pé. A bicicleta e o cavalo são alternativas admissíveis, até certo
ponto, porque permitem andar em silêncio, em baixa velocidade, em contato com o
vento, percebendo a magia e preservando a paz da natureza.
A arte oculta de viver
com sabedoria inclui a necessidade de manter o corpo físico saudável e
acostumado ao movimento. Isso nos estimula a tomar duas providências. A
primeira é incorporar um pouco de trabalho físico à nossa rotina diária. A
segunda é adotar o hábito de meditar caminhando. Passear e contemplar a unidade
da vida são duas atividades que podem ser feitas ao mesmo tempo. Quando
caminhamos pela natureza com o espírito livre de preocupações, nosso sistema
nervoso relaxa, o sangue circula com mais força e vitalidade, o cérebro e o
coração têm sua vida renovada. Em todo o organismo, a vitalidade flui melhor.
Enquanto isso, podemos contemplar o processo da vida ao nosso redor e perceber
mais claramente a nossa identidade profunda com os outros seres.
Outra questão é saber
o que o caminhante carrega consigo durante o passeio. Afinal, cada espírito
humano possui uma espécie de bagageiro. Ali vão inúmeras lembranças, idéias,
crenças, projetos e alguns princípios éticos. Nem sempre carregamos bagagens agradáveis
em nosso espírito. Há também feridas e cicatrizes da alma guardadas ali. Uma
coisa é certa, porém. O bom passeador não aceita angústias e ansiedades como
parte da sua bagagem. Enquanto pedala ou caminha, ele esquece as atividades de
curto prazo e expande sua consciência. As preocupações vão desaparecendo junto
com as outras formas de apego emocional. Esse processo de relaxamento é ajudado
pelas reações bioquímicas que o exercício físico moderado causa naturalmente no
corpo humano. O espírito do caminhante se eleva, até que um dia ele passa a
perceber em todas as coisas o princípio universal do equilíbrio e da harmonia.
É com esse estado de
espírito vasto e sereno que devemos caminhar. Aquele que possui uma mente
aberta e um coração puro sabe escutar melhor o som do vento nas folhas das
árvores. O aprendiz da sabedoria ouve o cântico dos pássaros e aprecia o nascer
do Sol sem pressa ou apego. Com a mesma tranqüilidade que tem ao observar o vôo
de um pássaro no céu, ele vê as ondas de pensamentos e sentimentos no espaço
interior da sua própria consciência.
Na verdade, não há uma
separação entre o mundo interno e o mundo externo. De um lado, as nossas
emoções são influenciadas pelo que está fora de nós. E, de outro, sempre
julgamos o mundo externo a partir daquilo que carregamos em nossa própria mente
e nosso coração.
Há milhares de anos,
diferentes tradições religiosas usam longas peregrinações por terras
desconhecidas como meio e método para a libertação dos apegos interiores. É
preciso abrir mão tanto dos objetos externos como dos conteúdos internos para
conhecer a liberdade espiritual. O budismo, o hinduísmo e o cristianismo têm
disciplinas espirituais que incluem o abandono da vida “normal” – feita de
hábitos e compromissos – para viajar pelo mundo durante um período indefinido
de tempo.
As caminhadas curtas
também são parte daquilo que, não por acaso, passou a ser chamado de “caminho
interior”. O ato de caminhar era um item básico da vida cotidiana e da
disciplina espiritual nas escolas de filosofia do mundo antigo.
Para o cidadão
moderno, os passeios a pé, de 30 ou 40 minutos diários, são exercícios
eficientes de meditação e higiene mental. Alguns alegam que não têm tempo para
isso. O argumento é compreensível. O hábito de caminhar exige que se abra mão
da rigidez e da imobilidade. É necessário renunciar à rotina da pressa
emocional para olhar o mundo de outros pontos de vista, enquanto mantemos o
corpo em movimento e observamos o fluxo de nossos sentimentos e pensamentos.
São João da Cruz escreveu: “A alma que está apegada a alguma coisa, por mais
bem que haja nela, não pode chegar à liberdade da união divina. Porque não tem
importância se é uma corda grossa e forte ou um fino e delicado fio que prende
o pássaro; até que o grilhão se rompa, o pássaro não pode voar.”
A prática do desapego está de tal forma associada à arte de
passear que, para o escritor chinês Lin Yutang, “o verdadeiro viajante é sempre
um vagabundo, com as alegrias, as tentações e o sentido de aventura que tem o
vagabundo. Viajar é andar à toa, ou não é viajar”. Segundo Yutang, “a essência
da viagem é não ter deveres nem horas marcadas”. É recomendável esquecer os
assuntos pessoais. Lin Yutang acrescenta:
“O bom viajante é o
que não sabe aonde vai, e o viajante perfeito é o que não sabe de onde vem. Nem
sabe seu nome e sobrenome. (...) É provável que esse viajante não tenha um
único amigo em terra estranha, mas, como disse uma monja chinesa, ‘não estimar
a ninguém em particular é estimar a humanidade em geral’. Não ter um amigo particular
é ter a todos por amigos. Esse viajante, que ama a humanidade em geral,
mistura-se com ela e vagueia, observando o encanto das gentes e de seus
costumes.”(3)
Defensor da
espontaneidade, autor de obras marcadas pelo espírito da mensagem taoísta,
Yutang afirma que o equipamento mais necessário para quem passeia “é um talento
especial no peito e uma visão especial debaixo das sobrancelhas”. Ele
prossegue:
“O que interessa é
saber se o viajante tem coração para sentir e olhos para ver. Se não os tem,
suas excursões à montanha são pura perda de tempo e de dinheiro; em
compensação, se os tem, poderá conseguir a maior alegria das viagens sem ir
sequer às montanhas, mas permanecendo em sua casa e olhando os arredores, e
percorrendo os campos para contemplar uma nuvem fugitiva, ou um cachorro, ou
uma cerca, ou uma árvore solitária.”(4)
Em meio à natureza, o
caminhante renova a sua vitalidade física enquanto medita. Se meditar é
expandir a consciência em direção ao que é imenso, sagrado e muito maior que ela
própria, então é possível haver meditações inconscientes e involuntárias. E é
isso que ocorre quando caminhamos. O convívio com plantas e animais nos ensina
que a inteligência universal está por toda parte. Há uma inteligência nas
orquídeas. Os pássaros têm sua linguagem. O vento sugere coisas. As árvores são
seres evoluídos. Para o escritor Maurice Maeterlinck, cada planta que
encontramos pelo caminho é um ser dotado de inteligência:
“Não é somente na
semente ou na flor, mas em toda a planta, caule, folhas e raízes, que se
descobre, se quisermos inclinar-nos por um instante sobre seu humilde trabalho,
numerosos sinais de uma inteligência perspicaz. Lembre-se dos magníficos
esforços em direção à luz feitos por galhos contrariados, ou a luta criativa e
valente das árvores em perigo.” E Maeterlinck narra o drama de uma grande
árvore situada à beira de um precipício, cuja pedra de apoio caíra, mas que se
sustentava miraculosamente lançando novas raízes ao solo para evitar o pior.
Espetáculos como esse são relativamente comuns nas margens dos rios atacados de
erosão.(5)
Depois de discutir a
questão da inteligência dos vegetais e dos insetos, Maeterlinck aborda em
poucas palavras um tema central da filosofia esotérica:
“Mas que pouca
importância tem, no fundo, a questão da inteligência pessoal das flores, dos
insetos ou dos pássaros! Que se diga, a propósito da orquídea como da abelha,
que é a natureza e não a planta ou a mosca que calcula, combina, adorna,
inventa e raciocina. Que interesse pode ter para nós essa distinção?”
Na verdade –
acrescenta Maeterlinck –, também os conhecimentos humanos fazem parte da
natureza. Nossas pequenas inteligências pessoais são parcelas de um conjunto
maior: “Todos os nossos motivos arquitetônicos e musicais, todas nossas harmonias
de cor e de luz, etc. são tomadas diretamente da natureza.”(6)
Sabendo disso, o bom
passeador caminha ou pedala em harmonia com o cosmo, tanto na avenida de uma
grande cidade como na beira do mar ou na trilha de um bosque. Ele percebe a
unidade da vida e se reconhece como um pequeno ser participante da grande
inteligência universal. Por esse motivo, o caminhante sente que nada tem a
temer do passado, do presente ou do futuro. Ele vê que, no fundo, a paz comanda
a vida – não só aqui e agora, mas também em todas as partes, e sempre.

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