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Ricardo Lindemann

A vida humana é como o ciclo das estações. A infância
e a juventude são comparáveis à primavera, estação dos ventos e dos perfumes.
Os jovens querem estar em toda parte, fazer tudo e ser livres como o vento. Os
sofrimentos deste período surgem da incapacidade para saber o quê realmente se
deseja. No verão da vida, os perfumes dos ideais da juventude perdem sua pureza
porque sabemos o quê desejamos, e os desejos são tão poderosos quanto o fogo.
Quando os desejos não se realizam, sentimo-nos frustrados e deprimidos. O fogo
dos desejos produz o sofrimento próprio desta idade. Após o calor do verão vem a
secura do outono - a velhice. As folhas caem, o corpo se deteriora, o cabelo
rareia, os dentes caem, os sentidos enfraquecem e a vitalidade diminui. O outono
é época de recordação e reflexão: "Porque tu és pó, e ao pó deves retornar", diz
a Bíblia Sagrada (Gênese 3:19). No inverno a árvore não está morta, apenas
adormecida, "digerindo" os nutrientes absorvidos ao longo do ano. Ela está
preparando a seiva para alimentar as folhas que brotarão na primavera. Da mesma
forma, quando dormimos, sonhamos "digerindo" as experiências do dia, cuja
essência passa toda vez à consciência como um mínimo de sabedoria. Os antigos
gregos consideravam os deuses do sono e da morte, Hypnos e Thanatos, como
irmãos, pois o sono compartilha a qualidade da morte.
Após o por do sol, ele deve surgir novamente para um
novo dia, porque a periodicidade é a lei. Como diz o Gita:
" Não deves te afligir com o inevitável porque a
morte é certa para os que nascem, e certo é o nascimento para os
mortos"(II.27)
"Os prazeres que surgem do contato, na realidade são
matrizes de dor, porque eles tem começo e fim, Ó Kaunteya; com eles não se
alegra o sábio."(V.22)
Talvez a transitoriedade seja melhor compreendida
pelo morto, especialmente se a velhice não extinguiu seus desejos terrenos e
existe sofrimento quando os desejos corporais continuam após a morte.
Contudo, devemos despertar e tornar-nos cônscios da
transitoriedade de todas as coisas terrenas. Um sábio indiano certa vez disse
que o maior milagre do mundo é que as pessoas vêem os outros morrerem sempre em
toda parte sem cogitar que a morte também possa atingi-los. (I.K.Taimni, Auto
Cultura, pp.198-9). Estamos realmente despertos? Quais seriam nossas respostas a
nossas perguntas daqui a cem anos? Todos temos respostas em nossos corações.
Quem não sabe que quando estamos numa fila, o tempo parece não passar?
Gostaríamos de ver a fila mover-se rapidamente, há impaciência, raiva ou
frustração e o tempo psicológico não está mais relacionado com o tempo real; em
contrapartida, quando estamos com alguém que amamos, o tempo parece
voar. Quando estamos verdadeiramente felizes, não esperamos um resultado ou
uma recompensa no futuro. Somos felizes quando a ação é realizada por si mesma,
no presente, sem qualquer motivo posterior. Não há tempo psicológico em nishkama
karma. Este é o segredo da ação sem tempo - a ausência de desejo pessoal. Mas,
se surgir o desejo de repetir a ação, o tempo psicológico se estabelece. A roda
do samsara, de nascimento e morte, reinicia.
Diz Patanjali em seu Yoga Sutras (II.33): "Quando a
mente está perturbada por pensamentos impuros, [o remédio] é considerar os
opostos". Portanto ao entrarmos numa fila, acalmemos nossa impaciência ao nos
perguntarmos: O que importará isto daqui a cem anos? Isto é semelhante à
evocação da morte como antídoto para o intenso desejo pela vida. As chuvas de
inverno são o antídoto natural para o intenso calor do verão. Poderemos utilizar
os opostos desta maneira? Naturalmente podemos, porque todos estes são apenas
estados mentais semelhantes a sonhos. Devemos vê-los como são, e retirar nossa
identificação com eles. Assim eles perdem sua realidade aparente, como ao
despertamos de um sonho.
Poderemos ver com clareza quão fútil é a perpétua
busca por resultados e compreender que todas as coisas no mundo temporal nos
envolvem, fazendo-nos depender do tempo e morrer no tempo? Esquecemos disto tão
facilmente porque é difícil estar despertos, vigiando com toda nossa atenção. Ë
mais fácil dormir e sonhar, embalados por tendências de nosso
passado.
Na infância desejamos ser adultos, na maturidade
desejamos nos aposentar; na velhice ou desejamos morrer porque estamos cansados
ou desejamos renascer e ter novamente a experiência da vida. Nunca vivemos no
presente, mas sempre ansiamos pelo futuro, para repetir nossos prazeres passados
ou para fugir da repetição das tristezas passadas. Poderemos ver que na roda dos
nascimentos e morte, tudo é ansiedade, quer por atração ou por repulsão, quer
por desejo ou por medo? Ver isto com clareza é viveka ou discernimento
espiritual. Então haverá a possibilidade de achar o eixo da roda dos nascimentos
e morte que é firme, fixo, e sobre o qual a roda se movimenta. Este eixo é sem
tempo, eterno, imutável. É como o "olho do furacão". No centro da tempestade a
mente do sábio é estável. Não é afetada pela fúria do furacão, e o eixo não se
envolve no movimento da periferia.
As únicas coisas que sobrevivem à morte originam-se
deste centro eterno que deve também ser eterno - isto é, sabedoria espiritual
que surge do autoconhecimento, amor espiritual que é abnegação, e vontade
espiritual que é auto controle. Nenhum momento é inoportuno para desenvolvê-los,
nenhuma situação é inadequada para estimular seu crescimento porque eles são
eternos. Compreensivelmente J.Krishnamurti não considerava a
reencarnação, embora nunca a tenha negado. A visão de Krishnamurti é sempre de
que a eterna profundeza da consciência se expressa na eternidade da verdadeira
sabedoria, do amor e da vontade. Certamente a reencarnação é um fato no mundo
temporal, e portanto é um fenômeno periférico, uma ilusão ou sonho transitório
sob a perspectiva da eternidade, que é a única realidade.
Somente ações sem expectativa de resultados pessoais
podem realmente ser morais, verdadeiramente religiosas. Quando as religiões
organizadas pregam um tipo de moralidade que conduz à salvação pessoal, elas
estão apenas seduzindo as pessoas com uma segurança psicológica e não com a
verdade. Esta moralidade pode ser um tipo de hipocrisia que substitui um
diferente tipo de prazer, um anseio egoísta de felicidade.
A única fundação segura da moralidade é a
fraternidade universal, que é a cessação do egoísmo. O eu é o movimento do
desejo por recompensas futuras, um sinônimo de ansiedade e tempo psicológico. Na
religião verdadeira não há lugar para a intolerância, para guerras santas, por
matar em nome de Deus. Ë a reunião com o espírito de todas as coisas, a
reconciliação com o Todo, que é bondade; é o amor apenas pelo amor. Como foi
descrito no Gita por Sri Krishna:
"Quem Me vê em toda parte, e tudo em Mim, dele nunca
me afastarei, nem ele nunca se afastará de Mim." (VI.30)

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