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A FRATERNIDADE UNIVERSAL

Carlos Cardoso Aveline

Em parte, o surgimento da nova era começou em 1875. Foi naquele ano que o movimento teosófico moderno surgiu em Nova York, sob a liderança de Helena Blavatsky, e definiu como o seu primeiro objetivo “formar um núcleo da fraternidade universal da humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor”.

 

Naquele momento estavam sendo plantadas, de certo modo, sementes de uma nova civilização. O segundo objetivo da Sociedade Teosófica era “promover o estudo comparado de ciências, filosofias e religiões”. O próprio lema da organização tinha um charme revolucionário e anticlerical nada discreto para a rígida mentalidade vitoriana do século 19. Ele afirmava, simples e desafiadoramente, que “não há religião superior à verdade”.

 

Quem examina as idéias centrais daquela iniciativa não tem dúvida: o que estava ocorrendo era de fato um dos momentos inaugurais da transição para a era de Aquário. Astrologicamente, o despertar da mente superior, que rompe os dogmas da ciência, da filosofia e da religião conven-cionais, é precisamente tarefa do planeta Urano, regente do signo de Aquário. A partir da semente teosófica rompeu-se a separação entre Oriente e Ocidente e espalhou-se, rico em diversidade, o movimento por uma nova era de solidariedade. A mente filosófica e independente, iluminada pelo espírito imortal, destrói os jogos hipócritas de poder político e religioso. Ao perceber a fraternidade essencial que une todos os membros da nossa humanidade, essa mente nobre deixa à mostra as pernas curtas da mentira institucionalizada.

 

O anticonvencional Urano, porém, não trabalha sozinho. Do ponto de vista esotérico, todo o nosso sistema solar pode ser visto como uma grande escola espiritual fundada há milhões de anos. Cada planeta atua como um instrutor dessa escola e tem determinado o tipo de sabedoria a transmitir. As lições de Urano vêm ganhando peso em nossas vidas ao mesmo tempo em que compreendemos melhor as lições de Netuno, dominantes durante a era de Peixes.

 

A sabedoria de Urano está à nossa disposição há muito tempo. Mas esta é a hora de dar-lhe uma relativa prioridade, inclusive porque ela permitirá compreender melhor os desafios da era de Peixes que ainda estão por ser resolvidos. Afinal, é necessário ter uma mente clara, livre, independente e altruísta (Urano-Aquário) para despertar a intuição e perceber sabiamente a unidade de todas as coisas (Netuno-Peixes). Quando os dois fatores estão juntos, há equilíbrio e harmonia.

 

Os três planetas mais afastados do Sol são Urano, Netuno e Plutão. Eles são considerados planetas transpessoais, e trabalham em equipe provocando o despertar da alma imortal na mente e no coração humanos. Dane Rudyar, astrólogo e teosofista do século 20, chamou-os de “embaixadores da galáxia”. Para ele, os três só pertencem em parte ao nosso pequeno sistema solar. Assim como o Sol simboliza a totalidade do nosso eu individual, Urano, Netuno e Plutão representam mais diretamente a consciência cósmica. Para compreendê-los, é preciso aceitar a energia impessoal e universal que os anima e aprender a trabalhar com ela, colocando nossos pequenos “eus” individuais a serviço da vida divina e impessoal presente em nossos próprios corações e mentes. Enquanto não somos capazes de fazer isso, a energia dos planetas “exteriores” pode causar boa quantidade de confusão e atrapalhar bastante nossas tentativas de organizar o mundo com base na ignorância.

 

A era de Peixes foi marcada pelo contraste entre grandes ideais elevados e pequenas práticas egoístas. A exploração do homem pelo homem, a intolerância e o fanatismo arruinaram alguns dos nossos melhores sonhos. Houve um combate doloroso entre céu e inferno (Urano e Plutão) dentro da alma humana crucificada pela dualidade. A luz infinita e imortal era rejeitada pelo subconsciente cheio de escuridão e de impulsos mal reprimidos. A redenção só poderia ocorrer pelo despertar da percepção espiritual.

 

A astróloga Pauline Stone mostra que, nos últimos séculos, a descoberta de cada novo planeta coincidiu com fortes transformações culturais e históricas. Urano foi descoberto em 1781, pouco antes da Revolução Francesa. Desde então, a liberdade de pensamento e os direitos humanos de cada indivíduo passaram a figurar com destaque entre as prioridades do debate político em todo o mundo. A proclamação universal dos direitos do homem é de 1789.

 

 

 

 

Urano, regente do signo de Aquário, tem a tarefa de romper dogmas da ciência, da filosofia e da religião.

Uma das lições centrais ensinadas por Urano é a fraternidade universal, que combina o afeto generoso e o respeito à independência pessoal. Como parte da transição que vivemos, o casal humano e as nossas famílias têm buscado cada vez mais – não sem sofrimento – combinar amor e liberdade, solidariedade e independência, ética e desapego, respeito pelos outros e por si mesmo, que são diferentes nomes para dois aspectos centrais da energia aquariana. Essa foi a idéia definida em 1875 como meta número um do movimento espiritualista que deveria abrir caminho para a nova era.

 

O século 20 não passou em vão. A fundação da ONU em l945 criou, pela primeira vez na história humana, uma estrutura institucional capaz de reunir todas as nações e voltada expressamente para a fraternidade universal. Os cidadãos que balançam a cabeça e criticam a ONU porque hoje ela ainda é apenas um esboço precário de democracia mundial terão de descobrir, no futuro, que a história humana não é um esforço repentino nem improvisado, e que cada nova era requer um período de alguns séculos para completar seu estabelecimento. De qualquer modo, a ONU conta hoje com a ação ativa e consciente de numerosos movimentos espiritualistas, inclusive a Universidade Brahma Kumaris e a organização Boa Vontade Mundial, para não falar da Universidade da Paz e de dezenas de outras or-ganizações semelhantes, movimentos religiosos, comunitários e ecológicos. A ONU faz um trabalho cada vez mais importante, promovendo a paz entre os povos, a justiça social, a defesa dos grandes ecossistemas do planeta, a discussão dos novos rumos econômicos e uma definição adequada do futuro do processo civilizatório.

 

Apesar do tumulto aparente, estamos vivendo um despertar espiritual irreversível. Quem não sabe o que de fato está acontecendo fica assustado pelo aspecto freqüentemente caótico dos acontecimentos externos. Mas, apesar das suas incertezas, o atual processo de globalização econômica e cultural abre caminho para uma aurora espiritual única na história da humanidade. Estamos cruzando o portal de um período de cerca de dois mil anos cuja característica será um amor cada vez mais consciente da humanidade pelas inúmeras formas de vida do universo. Ao mesmo tempo, haverá um desenvolvimento mental e tecnológico incalculável, que nos fará adotar uma atitude inteiramente nova diante do mundo físico. Mas esse grau de esplendor da sabedoria humana será apenas o começo da verdadeira “volta para casa” da nossa alma. Cada cidadão planetário redescobrirá, dentro de si mesmo e à sua maneira, a presença divina e a energia cósmica que antes considerava externas, ou que pensava haver perdido de vista.

 

Na verdade, a “nova era” é apenas um novo aparecimento da sabedoria eterna, que sai das águas do esquecimento e ressurge adaptada aos tempos atuais. Um exemplo desse fato é dado pela criação do movimento teosófico, que foi inspirada por grandes instrutores de raja ioga. Graças ao seu estágio de desenvolvimento espiritual, eles não necessitaram sair fisicamente dos seus retiros em cavernas e mosteiros do Himalaia para manter contato com os líderes do movimento, que atuavam nos Estados Unidos, na Europa e na Índia. Pois bem, há indícios de que um desses instrutores, exatamente aquele que se envolveu mais diretamente na criação da “ponte” mística e cultural entre Oriente e Ocidente, na verdade nasceu e viveu aproximadamente 2.500 anos atrás como o sábio grego Pitágoras, que deu o primeiro impulso à filosofia ocidental. A própria palavra “filosofia”, criada por ele, significa na verdade “amor à sabedoria”. Um “filósofo” é um amigo da vida do cosmo em toda a sua diversidade. Ele reconhece que o verdadeiro conhecimento é inseparável do sentimento de solidariedade.

 

Não é por coincidência, portanto, que o conceito de amizade universal, uma chave para o surgimento da nova era, é pitagórico. Thomas Stanley, um filósofo do século 17, escreveu em sua obra sobre as doutrinas pitagóricas:

 

“Há uma amizade e uma afinidade de todos por todos: entre deuses e homens, através da compaixão e do sentimento religioso; entre as diferentes doutrinas; entre a alma e o corpo (a parte racional e a parte irracional do ser humano) através da filosofia e das suas teorias; e entre os diferentes seres humanos ...”

 

 

 

 

Trabalho voluntário: respeito ao princípio universal da fraternidade.

A fraternidade universal é uma verdade básica que todos podem observar. No mundo animal – e com ainda mais razão no reino humano – a regra geral é a cooperação e a amizade. O escritor anarquista russo Piotr Kropotkin fez, em um livro injustamente esquecido, um estudo histórico mostrando que, ao contrário do que o darwinismo pensa, não foi a competição, mas sim a ajuda mútua que possibilitou desde o início da vida a evolução das espécies. Tudo o que rodeia um cidadão – mesa, ônibus, computador, roupas, prédios, ruas – é resultado da cooperação e ajuda mútua. Esquecemos disso. Pensamos na competição, pensamos que ela é central, e isto nos torna infelizes. A maneira natural dos seres humanos relacionarem-se é através da amizade. Por que deveria ser tão difícil seguir a tendência natural do nosso coração? Um poderoso jogo de pressões e conveniências nos ensina desde cedo a distorcer nossas emoções e suprimir – pela autoviolência, e não pela compreensão – impulsos considerados inadequados ou anti-sociais. Assim se reprime também a amizade como impulso natural. Uma condição básica para que possamos voltar a viver nas águas claras da solidariedade consciente é sermos autênticos com nós mesmos. Leo Buscaglia, autor de vários livros sobre a arte de amar, escreveu:

 

“Um indivíduo afetuoso é espontâneo. A coisa que eu gostaria de ver, mais que tudo, é vocês voltarem à sua espontaneidade inicial, à espontaneidade de um garoto que dizia o que sentia e o que pensava e se adaptava facilmente ao que os outros pensavam e sentiam. Voltar a olhar uns para os outros, outra vez. Somos de tal modo governados pelo que as outras pessoas dizem que devemos ser que nos esquecemos daquilo que somos.”

 

Mas como pode surgir a espontaneidade? Ser autêntico e espontâneo é o estado natural de quem confia em si mesmo. Portanto, é preciso ter auto-estima para saber amar e perdoar os outros. Aceitar os outros como são, ser grato a eles e à vida por tudo o que recebemos de bom – inclusive as lições mais dolorosas – é um hábito realista que nos torna mais sábios e capazes de amar e de ser amigos. Aliás, amar é melhor do que ser amado, e ser amigo, no fundo, é mais importante do que ter amigos. Mas a única base sólida do amor pelos outros é um respeito sagrado por nós mesmos que surge da percepção de que pertencemos totalmente à alma imortal existente em nosso coração. Adotando uma meta nobre de vida e métodos corretos para alcançar essa meta, ganhamos sabedoria e somos verdadeiramente amigos dos outros.

 

É verdade que, dentro do clima psicológico de uma sociedade infeliz e competitiva, é comum encontrar gente que confunde amizade com cumplicidade. Desse ponto de vista, dois amigos apoiariam um ao outro “em qualquer situação”, inclusive para fazer coisas que contrariam a verdade e o equilíbrio. Essa visão da amizade como jogo de conveniências gera grande quantidade de confusão e sofrimento. O pensador romano Cícero (106 a.C.–43 a.C.) esclareceu essa questão há pouco mais de dois mil anos. Ele escreveu, em seu tratado sobre a amizade:

 

“Uma associação de pessoas sem fé nem lei não poderia se abrigar sob a desculpa da amizade(...). Essa é, portanto, a primeira lei que se deve instaurar na amizade: não pedir a nossos amigos senão coisas honestas, não prestar a nossos amigos senão serviços honestos, (...) permanecer sempre confiante, banir a hesitação, ousar dar um conselho em total liberdade.”

 

Amizade verdadeira é inseparável de sentimentos nobres. Cícero explica que “a amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar das nossas virtudes, e não como cúmplice dos nossos vícios, para que a virtude, não podendo alcançar sozinha o supremo bem, o alcance apoiada na virtude do outro”. Para ele, “há uma simpatia quase inevitável entre os bons entre si, que é o princípio da amizade instaurado pela natureza”. Em outro trecho do tratado sobre a amizade, Cícero afirma: “O amor, de onde provém a palavra amizade, é no seu primeiro fundamento simpatia recíproca(...). Na amizade nada é fingido, nada é simulado, tudo é verdadeiro e espontâneo.”

 

 

 

Naturalmente, o nível da franqueza entre amigos é um indicador infalível da solidez e da profundidade do vínculo. Quando você observar dois amigos cheios de cautela para não se ferirem mutuamente, fique certo de que a amizade é superficial. Uma amizade verdadeira implica certa ausência de cuidado com as palavras, que permite a espontaneidade defendida por Leo Buscaglia. Às vezes isso só surge com o tempo. Nem sempre a confiança mútua se constrói em um dia. Por isso os filósofos concordam em que uma amizade antiga tem grande valor.

 

Descrevendo a verdadeira amizade, Aristóteles afirmou que “somente a amizade entre pessoas boas é imune à calúnia”, pois “é entre pessoas boas que encontramos a confiança, o sentimento de que uma nunca fará mal à outra, e tudo mais que se espera em uma amizade sincera. Nas outras espécies de amizade, todavia, nada impede o aparecimento de suspeitas”.

 

Platão fazia desse sentimento uma virtude social e política, importante para a construção da sociedade ideal. Mas Epicuro, que viveu em um período de relativa decadência política do mundo grego, via a amizade como um fim em si, dando a ela a maior importância. Considerado “um teosofista” por Helena Blavatsky, Epicuro tinha uma filosofia próxima à dos estóicos. Ele fundou uma comunidade em Atenas para viver com os amigos, o Jardim, e sua vida foi exemplo de pureza pessoal. Para ele, “de todos os bens que a sabedoria proporciona para produzir a felicidade, o maior, sem comparação, é a amizade”. E acrescentou: “A mesma convicção que nos inspira a confiança de que nada existe de terrível que dure para sempre, nem mesmo por muito tempo, também nos habilita a ver que dentro dos limites da vida nada aumenta tanto a nossa segurança como a amizade.”

 

O texto bíblico Eclesiástico parece concordar com Epicuro. Primeiro ele aconselha cautela (em 6: 7): “Se queres um amigo, adquire-o pela prova e não te apresses a confiar nele.” Sem dúvida, o modo como surge uma amizade ajuda a definir o grau de sinceridade que há nela. A amizade é mais sólida quando surge da ajuda mútua entre pessoas que buscam o bem e a verdade. Pouco depois Eclesiástico afirma:

 

“Afasta-te de teus inimigos e acautela-te com teus amigos. Um amigo fiel é um poderoso refúgio; quem o descobriu, descobriu um tesouro. Um amigo fiel não tem preço, é imponderável seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo vital, e os que temem o Senhor o encontrarão. Aquele que teme o Senhor faz amigos verdadeiros, pois tal como ele é, assim é seu amigo (6:13-17).”

 

Mais adiante, o Eclesiástico discute a questão dos verdadeiros e falsos amigos, e afirma que “na prosperidade não se pode conhecer o verdadeiro amigo, e na adversidade o inimigo não pode fingir. Quando um homem é feliz, seus inimigos ficam na tristeza; na sua adversidade, até o amigo desaparece”.

 

Mas onde fica a fronteira entre o verdadeiro e o falso amigo? Não há amigo leal que não nos decepcione em algum momento. Por outro lado, devemos respeitar nossos adversários. O texto clássico Luz no Caminho, de Mabel Collins, afirma que, no caminho espiritual, “não há amigos ou inimigos, todos são igualmente nossos instrutores”. Castaneda avança no mesmo sentido e ensina que o adversário é sempre um instrumento precioso do nosso crescimento, porque identifica as falhas que devemos corrigir e mostra como funcionam em nós o medo e o ódio, para que, então, esses sentimentos sejam extirpados pela luz da compreensão.

 

Outros autores destacam que os amigos freqüentemente acobertam nossas falhas, nos acostumam mal e nos levam a ficar preguiçosos, enquanto os adversários nos mantêm alertas, nos obrigam a crescer e a superar a rotina que, de outro modo, nos engoliria. Esses testemunhos reforçam a idéia de que a verdadeira amizade é um processo livre de apego, em que o calor humano e o afeto não são colocados acima da sabedoria e dos valores éticos, mas sim a serviço deles.

 

Pensamentos

 

Assim, pouco a pouco, o que agora é incompreensível, tornar-se-á evidente por si mesmo; e muitas frases de significado místico brilharão ainda ante os olhos de vossa Alma, como que em transparência, iluminando as trevas de vossa mente. Tal o curso do progresso gradual.

Koot Hoomi

 

 

 

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