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Valéria Marques de Oliveira

Utilizamos a meditação para darmos um mergulho em nosso interior e, assim, conhecermos os diversos movimentos ali existentes. Mas corremos o risco de enfatizarmos demais este mergulho e, com isto, permanecermos numa postura interna de fechamento ao mundo externo e de manutenção de nosso egoísmo.
O caminho espiritual é entendido como sendo a nossa própria consciência e, portanto, é a compreensão desta consciência, os seus diversos movimentos e estados de percepção que se deve buscar. Isto não significa dizer isolamento e distanciamento do mundo mas, ao contrário, é antes de tudo um aprendizado de abrir-se internamente, numa atitude de total confiança em nós mesmos e de completa renúncia.
A abertura significa “sermos o que somos” e quando nos sentimos à vontade sendo nós mesmos, surge, naturalmente, uma abertura ao mundo e às pessoas que estão ao nosso redor; a comunicação se torna livre, sem pressa, nos relacionamos com cada situação tal qual ela é.
O caminho do meio deve ser sempre exercido pelos buscadores da sabedoria. O excesso de trabalho consigo mesmo não é recomendado, assim como, uma mente completamente focada no mundo externo, também não é recomendada. A questão é uma, neste caso: devemos trabalhar com a realidade e lidarmos com a vida tal como ela é.
Os deveres e atitudes adequados ao trabalho devem ser: não olharmos as situações externas como separadas de nós, mantermos uma atitude aberta, renunciando a tudo e reforçar uma atitude reverente em relação a todo o universo, sem apego. Esta é a essência do Karma Yoga e é o que ela busca nos ensinar.
No cap. III do Bhagavad Gita, no aforismo 19, Krishna (o nosso Mestre interno) diz à Arjuna (que simboliza a alma humana em desenvolvimento): “Faze, pois, o que deve ser feito; porém sem egoísmo e sem considerações pessoais. Quem age assim e cumpre com o seu dever, livre de motivos egoístas, e sem depender de alguém, caminha com passos firmes, diretamente à Consciência Superior, ao plano espiritual”. Portanto, é desta forma, que a união da consciência inferior com a Consciência Superior irá se realizar, cumprindo com a meta de qualquer ioga.
Um dos preceitos que Buda nos deixou diz: “Cesse de fazer o mal, faça o bem e purifique a mente”. Podemos ver que este preceito diz respeito, em primeiro lugar, a uma não-ação, cesse de fazer o mal, pratique a não violência; depois ele nos diz: faça o bem, e aí vemos uma postura mais ativa e que irá purificar nossa mente, já que de cada ato bom que praticamos, um mal karma é eliminado e é esta uma das formas de auto-purificação.
O foco principal do Karma Yoga é a ação, mas não é toda e qualquer ação; senão poderíamos acreditar que um milionário que trabalha incessantemente para aumentar sua fortuna, é um perfeito praticante de Karma Yoga e isto não é verdadeiro. Vivekananda escreve no livro Quatro Yogas de Auto-Realização que o trabalho egoístico, na verdade, é um trabalho de escravo e que sempre gerará angústia para nós e que o trabalho que devemos empreender, deve ser aquele realizado através da liberdade, através do amor e é este que nos libertará.
Ele coloca um teste para podermos verificar em nossas vidas se somos escravos ou senhores de nossas ações. Ele escreve que cada ato de amor traz felicidade, portanto, o verdadeiro amor nunca age para causar dor, mas causa sempre uma reação de alegria.
É fácil constatarmos isto. Quando realizamos qualquer trabalho sem colocarmos uma motivação sincera, sem dedicarmos toda a nossa atenção e carinho a ele, invariavelmente ele se torna pesado, difícil de ser concretizado e muitas vezes o abandonamos no meio do caminho, tamanho o seu peso. Precisamos entender, por isto, que mesmo que façamos poucas coisas em nossas vidas, devemos fazê-las com toda atenção, dedicação e amor, se pretendemos que nosso trabalho alcance um nível razoável de perfeição.
O verdadeiro amor é desapegado e este é o segredo da ação ensinado no Karma Yoga. Krishna pergunta a Arjuna no Bhagavad Gita, “(...) por que trabalho?” E ele mesmo responde esta pergunta: “por que amo o mundo”. Portanto, a ação que o praticante do Karma Yoga deve praticar é a ação desapegada, sem esperar nenhum fruto, recompensa ou resultado de tal ação. O pai deve amar o seu filho e ajudá-lo por este amor e não por alguma recompensa que este possa lhe trazer, não devemos esquecer que o apego surge quando esperamos algo em troca do que damos.
Agir em conformidade com a nossa verdadeira natureza é o segredo de nossas ações e é a essência da reta ação, por isto, é importante fazermos bem o que está destinado a nós e cumprirmos com os nossos deveres da melhor maneira possível, sem esperar recompensa e sem sermos dominados pelo trabalho ou pela ação.
Krishna, quando diz a Arjuna: “é melhor morrer no cumprimento do seu dever, do que viver negligenciando-o e querendo fazer o que a outros compete fazer” nos dá elementos suficientes para uma longa reflexão. Uma reflexão que não deve, em momento algum, ter uma conclusão. Em todo o Bhagavad Gita este é o ponto que mais me chama a atenção.
O que significa morrer no cumprimento do dever? Entendo o morrer, neste caso, como sendo o atingimento da total indiferença ao prazer ou à dor que o estrito cumprimento do dever pode nos proporcionar; esta indiferença ao prazer e dor significa que colocamos acima de nossas questões pessoais, o dever que está diante de nós e que precisa ser cumprido. Nada pode nos deter, nem mesmo o medo da morte ou o sofrimento que ele pode, momentaneamente, estar nos causando. Prioriza-se o dever e então age!
Vivekananda coloca que o dever só é doce quando realizado com amor e que o amor só brilha em liberdade e é com estas idéias em mente que analiso as outras partes da citação que são: “não devemos negligenciar nossas ações e nem fazermos o que a outros compete fazer”. Quando priorizamos o cumprimento de nossos deveres, dificilmente iremos negligenciá-lo. Neste mesmo aforismo, Krishna fala a Arjuna: “é melhor cumprir a própria tarefa, ainda que seja humilde e insignificante, do que querer fazer a tarefa de um outro”. Portanto, não é bom negligenciarmos nossos deveres, mesmo que eles nos causam uma grande dor, e muito menos devemos fazer o que a outros compete ser feito. Mas, é necessário termos muito bem definido qual é o nosso dever e qual é o limite entre ele e o de outras pessoas.
Cada pessoa tem um dever particular e específico a cumprir e é exatamente o seu cumprimento que a fará dar um salto quântico e passar para um outro estágio de evolução. Fazendo o trabalho de outros podemos estar ajudando-o a não dar este salto e, com isto, esta pessoa pode perder a oportunidade de crescer.
Na verdade, ninguém pode definir tais questões para nós. Somente através de auto-análise e investigação profunda de nossa verdadeira natureza e de nosso verdadeiro dharma é que podemos defini-las. Quase sempre acreditamos estar capacitados para desenvolvermos determinado trabalho ou ocuparmos determinada posição, quando na realidade não estamos; ou deixamos nos levar por outra pessoa, desempenhando determinada tarefa sem a convicção de sua necessidade ou sendo obrigados a realizá-la e, assim, geramos ressentimentos e angústias para nós mesmos e para os outros; é válido questionarmos o valor de tais ações.
Outro fator importante a ser analisado por nós diz respeito à intenção que está por trás de cada ação; Vivekananda escreve que “homem algum pode ser julgado pela mera natureza de seus deveres, mas todos podem ser julgados pela maneira e espírito com que os cumprem”. Mas, para analisarmos de maneira justa a intenção por detrás de qualquer ação, precisamos possuir uma sensibilidade profunda, bem direcionada e um estado de percepção que nos capacita fazermos tais julgamentos. Um julgamento partindo de uma atitude sensível e amorosa tem menos perigo de causar alguma injustiça, apesar de não eliminar o risco de sua ocorrência. O nosso ideal deve ser o de não fazermos nenhum tipo de julgamento.
Se ao praticarmos qualquer ação tivermos sempre o nosso Mestre Interno como guia, desenvolveremos a intuição e inteligência espiritual, aprenderemos a buscar recursos dentro de nós e cada vez menos, contaremos com o auxílio externo.
Uma maneira de sintonizarmos com o nosso Mestre Interno é respeitar o nosso próprio ritmo, não impor este ritmo aos outros, mas silenciosa e sinceramente cumprirmos com o nosso dever; não sermos responsáveis pela desarmonia que possa vir a prejudicar o todo mas vibrarmos na tônica que nos couber em cada momento.
O dever possui uma idéia que é comum, ou seja, “cada homem deve seguir o que lhe dita a sua consciência” e, nesta idéia, está incluído o fato de que qualquer ato que nos leve à nossa natureza superior é uma boa ação e será o nosso dever. Acredito que, se tivermos estas idéias e o ideal de nunca ferirmos os outros como um norte em nossas vidas, cumpriremos com mais sabedoria nossas atividades.
O mais alto ideal de um ser humano é a renúncia do eu, e o Karma Yoga nos ensina que cada ato de caridade, cada boa ação, cada esforço para que o bem seja feito, tira um tanto de nossa auto-importância, esquecemos um pouco mais de nós mesmos e, é claro, ficamos mais próximos deste ideal. Por isto, é dito, que ajudando ao mundo, na realidade, estamos ajudando a nós mesmos.
Para sintetizar as idéias até aqui já colocadas, citarei novamente Vivekananda quando ele escreve: “o único e verdadeiro dever é ser desapegado e trabalhar como seres livres, oferecer todo o trabalho a Deus”.
No Bhagavad Gita, Krishna assegura que toda ação tem origem em Brama, que toda atividade e todas as ações provêm dos movimentos das forças da Natureza. Analisando com sinceridade esta afirmação, somente chegaremos à uma única conclusão: se o divino está em tudo, se em todas as nossas ações contém uma força que as direciona e que as coloca em movimento, porque acreditamos que somos donos de nossas ações e com uma resistência quase infantil, nos apegamos a elas, gerando, com isto, um grande sofrimento para nós? Podemos concordar que esta é uma grande incoerência nossa; agimos apegados e ainda dizendo “eu fiz tal coisa” ou “este trabalho é meu” e etc.. e, na verdade, se confiarmos nas palavras de Krishna veremos que a verdade não é bem esta! Somos apenas instrumentos dele, já que Ele é o Mestre Interno dentro de cada um de nós, não é um Deus que está fora de nós ou um velhinho de barba ditando as regras para nós.
A atitude correta, deve ser a de trabalharmos entregando tudo a Ele, renunciando todos os frutos deste trabalho com completa confiança Nele, ao ponto de perdermos a noção entre o eu e Ele, prevalecerá sempre uma única Vontade, que é a Dele, claro. Esta é a idéia essencial que está por detrás da máxima cristã, "Seja feita a Vossa vontade”. Isto não significa um cruzar de braços e esperar que um deus dirija nossas vidas e nos proteja de todo o mal, isto é mera ilusão! Mas é, ao contrário, assumir a nossa responsabilidade pela vida e pela nossa missão neste mundo, obedientes à Vontade de nosso Eu Superior, agindo em conformidade e a favor Dele.
Buda atingiu este estágio. Estamos longe disto, mas apenas a compreensão destas idéias, já nos leva a desempenharmos nossas tarefas do dia-a-dia com mais sabedoria, mais desapegados de seus resultados. Praticaremos o bem sabendo que é bom fazê-lo, qualquer atividade será feita com mais amor e dedicação, saberemos que somos livres para praticá-las e que ninguém pode nos obrigar a realizá-la. Esta é a ação que liberta!!
Entender que estamos exatamente aonde deveríamos estar e que fazemos exatamente o que deveria ser feito por nós, são atitudes que indicam o atingimento de um certo grau de contentamento e sabedoria. Saber que existem graduações de dever e cada um é grande em seu próprio lugar é altamente benéfico para aceitarmos o que está destinado a nós.
“Sabe também, ó Arjuna, que Eu aceito toda a oferenda que se Me faça com amor: seja, uma folha, uma flor, uma fruta ou apenas gotas de água. Eu não olho o valor da oferenda, mas olho o coração de quem a faz”.
Estas palavras nos levam naturalmente a uma única conclusão, ou seja:
O IMPORTANTE NA VIDA ESPIRITUAL É A QUALIDADE
DE NOSSO TRABALHO E NÃO A SUA QUANTIDADE!
F I M
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
Vivekananda, Swami. - Quatro Yogas de Auto-Realização. Ed. Pensamento, 1995
Bhagavad Gitã - A Mensagem do Mestre. Ed. Pensamento, 1993.
Besant, Annie.- Sugestões para o Estudo do Bhagavad Gitã. Ed. Pensamento, 14ª edição.

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