|

Antonio Carlos da
Ressurreição Xavier

O tema de hoje é sobre uma obra intitulada A Jóia
Ornamento da Liberação, escrita por um monge tibetano do século XI de nome Dje
Gampopa, Venerável Gampopa. Esta obra é uma obra magna dentro do budismo
tibetano, e continua atual até hoje. É lida, estudada e praticada por todos os
budistas da escola Kagyü, escola da tradição oral. Nesta palestra, vou falar um
pouco sobre o autor, um pouco sobre as circunstâncias em que a obra foi
escrita, sobre a obra propriamente dita e a importância que ela tem para nós,
mesmo que tenha sido escrita há cerca de nove séculos.
Dje Gampopa nasceu no início do século XI, no ano de 1059, e viveu 74 anos.
Nasceu numa família relativamente abastada, seu pai era uma pessoa muito culta.
Recebeu uma educação muito esmerada, uma formação que o levou a se tornar um
médico, a praticar as artes médicas da época e, também, como era muito comum,
recebeu uma boa formação religiosa.
Casou-se ainda muito jovem e teve dois filhos. Pouco depois que seus filhos
nasceram ocorreu uma epidemia na região em que Gampopa habitava, que fez com
que esses dois filhos falecessem e que sua mulher também caísse muito doente.
Apesar de toda a arte médica que detinha, não conseguiu salvar seus filhos e
também não estava conseguindo salvar a esposa. Sua esposa estava com um
sofrimento muito intenso, muito longo e ele falava-lhe que seria melhor que ela
abandonasse aquele desejo que tinha de viver e ao qual estava muito apegada.
Numa das vezes que Gampopa, junto ao leito de sua esposa, pedia-lhe que não se
preocupasse tanto, que tivesse uma passagem tranqüila, ela disse que não
conseguia porque estava muito apegada a ele. Ela não conseguia ir embora
sabendo que ele ia continuar e que ia levar uma vida, talvez, com uma outra
pessoa. Ele falou-lhe que ela não devia se preocupar quanto a isso porque já
tinha tomado a decisão de que se tornaria monge independente do que viesse a
acontecer.
Foi quando Dje Gampopa, logo após o falecimento e o funeral da esposa,
ingressou num mosteiro, onde se torna um monge. Com o tempo tornou-se também um
monge muito erudito. Dje Gampopa ingressou numa escola budista muito antiga,
chamada escola Kadampa, que era uma escola muito rigorosa, composta de seres
muito virtuosos, praticantes muito austeros. Gampopa recebeu essa formação
muito austera e rigorosa e se tornou um praticante com muita realização. Por
alguns anos continuou praticando e recebeu o nome de Sönam Rinchen, que
significa Precioso Mérito.
Certa vez, enquanto praticava, escutou uma conversa de três mendigos e nessa
conversa os três estavam conversando sobre o que gostariam de ter. Um deles, o
terceiro, dizia que o mais importante seria se eles pudessem encontrar
Milarepa.
Quando Gampopa ouviu o nome de Milarepa sentiu no seu corpo um tremor, ficou
muito emocionado.Imediatamente, dirigiu-se ao esse mendigo e falou: Quem é
Milarepa? E o mendigo disse para ele: Milarepa é um grande homem que mora longe
daqui, solitário, praticante muito realizado que hoje tem muitos discípulos. E
Dje Gampopa falou: Preciso ver esse Milarepa. E aí o mendigo falou: Desista, é
muito difícil encontrá-lo. Mas, foi tanta a insistência de Gampopa que o
mendigo aceitou levá-lo até Milarepa. Gampopa começou, assim, sua jornada em
busca de Milarepa.
Foi uma jornada muito difícil. Várias vezes encontrou obstáculos fortíssimos
que seriam suficientes para fazer qualquer pessoa desistir. Não obstante, não
desistiu e acabou por chegar onde estava Milarepa. Pouco antes de Gampopa
chegar, os discípulos haviam perguntado a Milarepa quem seria o sucessor dele
e, como ele estava idoso, perguntaram: Mestre, está na hora de o senhor
comunicar quem será o seu sucessor, quem estará encarregado de assegurar a
continuidade de seus ensinamentos. Milarepa disse: Tudo bem, amanhã eu darei a
resposta. No dia seguinte, reuniu os discípulos e disse que um discípulo dele
estaria por chegar e que seria o que daria continuidade aos ensinamentos e que
era conhecido como o médico. Como vocês se lembram, Gampopa era médico.
Milarepa deu, então, ordens para que assim que chegasse, Gampopa fosse levado
junto a ele.
Quando Gampopa estava chegando perto de onde estava Milarepa, foi reconhecido e
então as pessoas disseram: Ah, você deve ser aquele que o mestre disse que
viria, uma pessoa excepcional que vai dar continuidade aos ensinamentos. E aí
Gampopa se sentiu importante e ficou todo orgulhoso: Devo ser uma pessoa muito
importante para todos estarem me esperando, devo ter muito mérito. Aí, ele
disse: Ah, sim, sou eu mesmo. Gostaria de falar com o mestre Milarepa. As
pessoas foram até Milarepa e falaram: Mestre, chegou o discípulo esperado. Mas
Milarepa, com a onisciência que tinha, percebeu o orgulho de Gampopa e falou
que não poderia atendê-lo e que ele deveria esperar.
Gampopa ficou cerca de quinze dias esperando e somente quando deixou de lado
todo o orgulho (de que era uma pessoa muito importante) foi que Milarepa o
atendeu. E, quando o atendeu, Milarepa entregou uma tigela com bebida, cerveja,
e falou assim para Gampopa: Tome, beba. Como Gampopa era um monge, monge
kadampa, bebida alcoólica, nem pensar. Ficou um pouco indeciso, mas era tanta a
fé que já tinha em Milarepa, que bebeu tudo. Milarepa ficou feliz, pois, isso
significava que Gampopa estava preparado para receber os ensinamentos.
Começaram os ensinamentos, Gampopa recebeu toda a transmissão e depois de algum
tempo Milarepa disse que Gampopa deveria se dirigir para uma outra região,
ficar em retiro isolado e depois começar a ensinar. Quando Gampopa estava indo
embora, Milarepa o acompanhou até uma certa parte e, chegado num certo ponto,
Milarepa falou: Daqui eu não passo mais. Gampopa ficou muito triste, pois
percebeu que não veria mais o mestre. Milarepa ficou junto a uma rocha e
Gampopa foi se afastando, mas, antes perguntou: Mestre, não tem algum outro
ensinamento que o senhor ainda queira me dar, algo que eu ainda não recebi?
Milarepa falou: Eu já lhe dei todos os ensinamentos, não tenho mais nada para
transmitir para você. Tudo o que sei, já passei. Aí, Gampopa, com um sentimento
de perda, retrucou: Mas, mestre, não há mais nada, mais nada mesmo? Milarepa
falou: Não, pode ir. E Gampopa foi se afastando. Quando Gampopa já tinha tomado
uma certa distância, Milarepa o chamou, e quando ele se virou, disse-lhe: Em
verdade, pensando bem, há um último ensinamento que eu gostaria de dar para
você. Foi bom você me lembrar porque é o mais importante de todos. Gampopa
então disse: Sim, mestre, qual é esse ensinamento? E aí, Milarepa, que andava
apenas com uma roupa branca muito fininha de algodão, deu as costas para
Gampopa, levantou a roupa e mostrou as nádegas calejadas: Este é meu último
ensinamento para você, isso é o que você deve fazer. As nádegas estavam
calejadas de tanto Milarepa ficar sentado meditando na solidão. “Isto é que
você deve fazer”significava que Gampopa deveria perseverar, ficar sentado e
meditar, meditar, meditar, meditar, senão não atingirias a realização. Gampopa
se dirigiu, então, para onde Milarepa o enviara, fez seu retiro, montou um
mosteiro e passou a ter um grande número de
discípulos.
Vamos falar agora um pouco da importância de Gampopa. Gampopa está na origem da
escola Kagyü, que é uma das quatro grande escolas do budismo tibetano. Quase
tudo que sabemos de escola Kagyü, tiveram em Gampopa um grande codificador.
Gampopa reuniu de modo coerente os ensinamentos tântricos, os ensinamentos de
Milarepa sobre o Mahamudra e os ensinamentos kadampa, constituindo a base do
que hoje é ensinado na escola Kagyü.
Os Kagyü são uma tradição de ascetas, eremitas, de pessoas que se retiravam no
estilo que Milarepa e outros praticantes exerceram por muito tempo (e ainda
exercem). Gampopa deu uma solidez teórica, uma formação de base muito forte
para todos aqueles que praticavam nesta escola que é chamada “linhagem da
transmissão oral”. Da “transmissão oral” porque o ensinamento é dado de boca a
ouvido, de mestre para discípulo. Embora se contemple o estudo teórico, o que
importa mesmo é a última lição de Milarepa para Gampopa, ou seja, sentar e
meditar para atingir a realização.
Gampopa está na origem de todas as escolas da linhagem Kagyü (quatro grandes e
oito pequenas escolas). Se principal discípulo foi Tusum Kyenpa, o primeiro
Karmapa, Os Karmapas são considerados o chefe espiritual de todas as escolas
Kagyü. Gampopa, também deixou muitas obras importantes e a jóia dentre todas, a
obra clássica, a obra magna, a mais importante, tanto para principiantes como
nós como para praticantes avançados, foi intitulada “A Jóia Ornamento da
Liberação”. Por que tem esse nome, A Jóia Ornamento da Liberação? Jóia porque
se refere aos ensinamentos que são dados, que são como uma jóia, não como uma
jóia comum, mas, como uma jóia que satisfaz a todos os desejos (de liberação).
A literatura budista sempre fala de uma jóia que satisfaz a todos os desejos.
Trata-se de uma jóia que tem a capacidade de realizar os desejos dos seres em
busca da liberação. Por que preciosa? Porque é aquela jóia que mais interessa
aos seres. Pode-se ter uma jóia que proporcione riqueza material, mas esta
transcende tudo que é material ou mesmo espiritual, conduzindo à liberação. Por
isso que é uma jóia preciosa, não no sentido material.
E, por que ornamento? A idéia de ornamento traz à mente a noção de enfeite, de
adorno, só que ornamento aqui é mais no sentido de clareza, é como se fosse um
espelho no qual se pudesse contemplar a sabedoria, e é por isso que recebeu
esse nome “Jóia Ornamento da Liberação”. É uma jóia que é um ornamento porque
permite que se contemple a sabedoria que leva á liberação. É a prática dessa
sabedoria que conduz à liberação, daí receber o nome de jóia ornamento da
liberação.
O livro de Gampopa é simples e profundo na concepção. Gampopa era uma pessoa
muito cultivada, de excelente formação, com apurado senso de raciocínio lógico.
Seguiu a tradição e elaborou uma obra ao mesmo tempo esclarecedora do que fosse
mais importante para as pessoas e, também, que pudesse ser fácil de memorizar.
Muitas obras budistas são elaboradas de modo que os que as estudam possam
memorizá-las. É comum que monges memorizem obras, livros inteiros. São
treinados desde pequenos, desde quando entram nos mosteiros, na memorização dos
textos e dos comentários aos textos. Ao mesmo tempo em que são treinados na
memorização, recebem as instruções sobre o significado do que memorizam. É por
isso que, na maior parte das vezes, nós vemos os Lamas, quando estão ensinando,
citarem de cabeça trechos inteiros de diferentes obras.
Esta obra de Gampopa é escrita numa certa métrica que facilita a memorização.
Gampopa escreveu um livro que tem qualidades literárias elevadas e, também,
quanto ao conteúdo, é considerada um clássico do budismo. É reputada, estudada
em todas as escolas budistas, não só na escola Kagyü.
Vamos falar sobre o conteúdo de a Jóia Ornamento da Liberação.
Para falar sobre o conteúdo, talvez valha a pena contextualizar um pouco sobre
alguns princípios de base no budismo. Não vamos aqui explicar, dar um curso
rápido sobre o Budismo, mas há um ensinamento budista que diz que todos os
seres, não importa em que reino (esfera de existência) estejam vivendo (quando
nós falamos seres são todos os seres sensíveis, isto é, todos os seres que têm
mente e, ao falar em todos os reinos, referimo-nos tanto aos reinos visíveis ou
reinos invisíveis), todos os seres, do ponto de vista budista, visam conseguir
a felicidade, ou dito de outra maneira, em não ter sofrimento. Mesmo que não
tenham uma compreensão ou percepção clara do que seria essa felicidade, com
certeza todos os seres buscam escapar do sofrimento.
É colocado, também na perspectiva budista, que não obstante essa seja a
aspiração de todos os seres, aspiração consciente ou inconsciente, eles não
conseguem tomar decisões (quando têm a habilidade de tomar decisões) que levam
a esse afastamento do sofrimento. A pesar disso, o budismo reconhece que é
possível atingir essa situação de afastamento do sofrimento, de
insatisfatoriedade da existência. O que o Gampopa ensina é o caminho para essa
situação.
Ele fornece, passo a passo, em detalhes, a fundamentação e a prática que são
necessárias para que o ser possa percorrer o caminho. Daí o texto ser conhecido
como um Lam Rim, a etapa gradual, o caminho gradual para atingir a liberação.
Por ser um ensinamento que mostra o caminho gradual e por ser um caminho que
une as tradições do Mahamudra e da escola Kadampa, é considerado como sendo um
dos primeiros Lam Rim do Tibete e também o primeiro Lam Rim feito por um
tibetano.
Assim, Gampopa foi o primeiro tibetano a escrever um Lam Rim, uma obra que mostra
o caminho passo a passo para a liberação. Antes dele, um indiano que foi
chamado ao Tibete, chamado Atisha, no século X, elaborou um Lam Rim, precursor
de todos os demais Lam Rim. Atisha está na origem da escola à qual Gampopa
pertenceu, a escola Kadampa, antes de se tornar um Kagyü. Depois disso, houve
outros tibetanos que escreveram outros Lam Rim, sendo que um dos mais famosos
foi Tsonkhapa, da escola Gelukpa, a qual pertence o Dalai Lama.
Voltando ao Lam Rim de Gampopa, ele o estruturou de uma maneira extremamente
lógica, é um primor. Temos hoje três traduções em inglês e dois comentários
recentes, um feito por Ringu Rinpoche e outro por Thrangu Rinpoche. Temos
também uma tradução em francês. É provável que em cerca de dois anos venhamos a
ter uma tradução também aqui no Brasil do livro de Gampopa.
Gampopa começa, como manda a tradição, fazendo uma homenagem. É muito comum
entre os autores, os Lamas que vão escrever algum livro, fazerem uma homenagem.
Pelo título da obra e pela homenagem pode-se saber do que ela trata e em que
categoria ela se inscreve. Por exemplo, pode ser uma obra relativa aos sutras,
à Vinaya (disciplina monástica), ou ao Abidhamma (ensinamento superior). A obra
de Gampopa situa-se na categoria de comentários feitos sobre os sutras e é por
isso que ele a dedica a Manjushri, que é o Bodhisattva da sabedoria. Também,
ele, claro, presta homenagem aos Lamas e ao seu mestre Milarepa.
Em seguida há um preâmbulo. Neste preâmbulo, que tem uma página e meia, ele
resume o conteúdo do livro. A partir daí, o livro se desdobra em capítulos,
abordando os pontos e idéias mencionados no preâmbulo.
A primeira frase do preâmbulo é que todos os fenômenos possíveis podem
pertencer ou ao Samsara ou ao Nirvana.
Tudo o que ocorre com os seres está englobado ou no Samsara ou no Nirvana. O
Samsara seria o nosso estado atual de existência, o estado atual de existência
dos seres. O Nirvana é aquele estado em que os seres eliminaram os obstáculos à
sabedoria dentro do Samsara. Logo em seguida, se todos os fenômenos estão
englobados ou no Samsara ou no Nirvana, ele faz a pergunta: qual a diferença
que existe entre eles? Gampopa analisa sob três pontos de vista. Fala que não
há nenhuma diferença do ponto de vista da essência entre o Samsara e o Nirvana.
Isso é um pouco complexo, mas muito importante. Quer dizer, do ponto de vista
de essência, daquilo que constitui o fundamento tanto do Samsara quanto do
Nirvana, não há diferença nenhuma. Os dois seriam aquilo que nós chamamos de
shunyata, em sânscrito, ou vacuidade. Embora, nós possamos tratar, nesse curto
espaço de tempo, das implicações desta afirmação, vale ressaltar o fato de que
não é correto afirmar “o Samsara é aqui e o Nirvana, ali”, como se fossem
lugares onde pudéssemos ir, uma destinação que pudesse ser tomada. Gampopa
afirma que, do ponto de vista mais radical, mais essencial, tanto aquilo que
nós chamamos de Samsara quanto aquilo que nós chamamos de Nirvana, são
exatamente a mesma coisa.
Mas se, do ponto de vista de sua essência, tanto o Samsara quanto o Nirvana
constituem a mesma coisa, o que faz a diferença? Samsara e o Nirvana têm a
mesma essência, mas, no Samsara, a manifestação está caracterizada pelo sofrimento
e, no Nirvana, pela ausência desse sofrimento. O que é chamado de sofrimento, o
que no Ocidente tem sido traduzido por sofrimento, tem um sentido de
insatisfatoriedade.
O sofrimento se manifesta sob diferentes aspectos. Há o “sofrimento do
sofrimento”, fácil de ser percebido, que corresponde à dor física e mental.A
velhice, a doença, a morte, o sofrimento pela perda, são sofrimentos que
percebemos facilmente. Mas, quando se fala de sofrimento, há referência também
sobre um outro tipo de sofrimento ou de insatisfatoriedade, que é mais sutil, o
sofrimento da mudança. Toda situação feliz traz em si o germe da insatisfação
porque não se pode mantê-la, por conta da impermanência. Daí o nome de
sofrimento da mudança. A mudança traz consigo essa insatisfatoriedade. Que tipo
de insatisfatoriedade é essa? É algo muito sutil. O ensinamento não diz da
impossibilidade de se ser feliz. Refere-se ao fato de se querer se apegar a
esse estado de felicidade, mas não poder mantê-lo por causa da impermanência. É
natural, é da ordem natural das coisas que a um estado de felicidade seguirá um
estado de menor felicidade, causador de sofrimento. Então, não é o não
reconhecimento da felicidade ou dos estados felizes que existem de fato, mas é
o fato de que mesmo os estados felizes trazem consigo um germe de
insatisfatoriedade. E há um terceiro tipo de sofrimento que é o sofrimento que
impregna toda existência no Samsara. Na verdade, esse terceiro tipo de
sofrimento abarca os outros dois. É aspecto filosófico profundo da visão de
como as coisas funcionam no Samsara, da insatisfatoriedade de toda existência
cíclica. Há uma passagem muito bonita num capítulo posterior do livro de
Gampopa em que ele diz que para os seres como nós esse sofrimento que tudo
impregna não é fácil de ser percebido, é como se fosse um cílio na palma da
mão. Não se percebe. Se pegarmos um cílio e colocarmos na palma da mão, não o
perceberemos. Da mesma forma, não percebemos o sofrimento mais sutil. Mas, o
Bodhisattva percebe este tipo de sofrimento mais sutil como se fosse um cílio
nos olhos Ou seja, o Bodhisattva consegue ver o sofrimento que permeia todas as
coisas, a insatisfatoriedade do samsara.
É por isso que Gampopa diz que embora quanto à essência o Samsara e o Nirvana
sejam iguais, há uma característica que os distingue: num, o Samsara, existe
sofrimento e no outro, o Nirvana, o sofrimento está ausente. Todo o livro do
Gampopa, portanto, vai tratar de como fazer a travessia do sofrimento para o
não-sofrimento.
Gampopa algumas outras perguntas. Quem sofre dos males do Samsara? Os seres dos
seis reinos (esferas de existência). Quem são os seres dos seis reinos? Somos
nós, por exemplo. Do ponto de vista da filosofia budista, toda a existência se
reparte em seis reinos. Estamos em um desses seis reinos que vão desde os
reinos dos deuses mais excelsos dos mundos sem forma, até os reinos infernais
onde o sofrimento é extremamente intenso, insuportável. Nos chamados reinos
infernais, o sofrimento é incomensurável, inimaginável, o que é muito fácil de
entende. Mas, nos reinos excelsos, dos deuses sem forma, como compreender que
lá também existe insatisfatoriedade? Há sofrimento porque, uma vez esgotado o
estoque de méritos que causou tal tipo de renascimento, os deuses terão que
renascer nos mundos inferiores.
Do ponto de vista budista, não bastaria, por exemplo, levar uma vida virtuosa
com a idéia de renascer nos reinos superiores. Isso não faz nenhum sentido, já
que o resultado seria sempre sofrimento. Assim como há um conjunto de causas e
condições que podem levar a este estado de existência, há também um conjunto de
causas que levam à mudança para estados diferentes. É por isso que a palavra
Samsara significa girar eternamente no ciclo das existências. Não há um único
ser que já não tenha assumido uma forma de existência em algum desses reinos.
Gampopa continua: Qual é o problema que existe em se estar no Samsara?
Sofre-se, mas também há felicidade. Ele diz: o sofrimento do Samsara é
infindável e o Samsara é reputado por não ter fim. O Samsara não é algo que vai
acabar por si mesmo, que tenha uma duração pré-fixada, após a qual os seres
poderão gozar de uma felicidade eterna.
Resumindo, Gampopa afirma que tudo está englobado no Samsara e no Nirvana.
Embora tenham a mesma essência, um é caracterizado por uma insatisfatoriedade
imensa e não tem fim e o outro, pela ausência desse sofrimento. O que origina
um e o que faz com que os seres estejam em outro? A compreensão ou não da
natureza dos dois. Se compreendermos, realizarmos a natureza do Samsara
compreenderemos, realizaremos a natureza do Nirvana (porque compreendendo um
compreenderemos o outro automaticamente) e estaremos liberados do sofrimento,
do Samsara. Compreender não significa compreender intelectualmente. Significa realizar,
vivenciar, é uma experiência vívida, real, do que é um e do que é outro. Como
diz Gampopa, os dois são em essência a vacuidade Então, se compreendermos
verdadeiramente a essência, isto é, se realizarmos essa essência, a vacuidade,
automaticamente estaremos liberados, ou seja, teremos transcendido o
sofrimento.
Gampopa e os ensinamentos budistas não dizem que há um local onde se tem
sofrimento e outro onde se tem a felicidade. Referem-se a estados mentais de
sofrimento, de insatisfatoriedade, e que se pode, sim, atingir estados de
não-sofrimento, que é um estado que transcende tanto aquilo que chamamos de
sofrimento como de felicidade. Porque se você fala em felicidade,
automaticamente você está na dualidade. Então, está se falando no estado onde a
dualidade não se coloca. Portanto, a mente que realiza a vacuidade é a mente
que se libera.
Partindo dessas premissas, Gampopa pergunta: O que é necessário fazer? Vale
lembrar que o Samsara não tem fim, é insatisfatório, não acaba por si só.
Pode-se estar numa boa situação agora, mas, graças à lei dos atos, se
continuará girando indefinidamente em condições que podem ser melhores ou
piores, mas sempre haverá sofrimento. Assim, a partir daí, Gampopa vai
desenvolver seis pontos, um por um, que constituem exatamente o que precisa ser
feito e o que se alcançará com isso.
Quais são os seis pontos? O primeiro, Gampopa chama de causa primeira do
despertar. O que é a causa primeira do despertar? Há seres que podem atingir o
despertar, o estado livre de sofrimento, o Nirvana, e outros que não o
atingirão? Gampopa afirma que não: Todos os seres em todos os reinos têm o
mesmo potencial para atingir o despertar. Então, a causa primeira para o
despertar é o que ele chama de natureza de Buddha ou o potencial para o
despertar. Todos os seres, sem nenhuma exceção, dos reinos mais excelsos aos
reinos de maior sofrimento nos infernos possuem a causa primeira do despertar.
Não há maior nem menor, nem um melhor do que outro, todos os seres possuem a
natureza de Buddha.
Mas, se todos os seres possuem a natureza de Buddha, por que nem todos os seres
atingem o despertar? Porque embora todos os seres possuam essa causa, alguns
seres têm melhores condições do que outros para atingir o despertar. E que
condições são essas? No segundo ponto Gampopa analisa o que chama de suporte.
Diz: Claro, todos os seres, por definição, possuem a natureza de Buddha, mas,
de todos os tipos de existência, existem algumas que são mais propícias para se
atingir o despertar. E de todas as existências, a existência humana é a mais
propicia, mais do que as existências divinas, em que os seres estão apenas
preocupados com o prazer e fadados a renascer em estados inferiores.
Certamente, mais propícia que a existência dos animais, dos espíritos ávidos ou
dos seres dos reinos infernais.
Mas, Gampopa chama a atenção para um fato. Embora a existência humana seja a
mais propícia, não é a mera existência humana que permite que se atinja o
despertar. É preciso ter a preciosa existência humana. E o que é a preciosa
existência humana? Todos aqui neste recinto têm existência humana, mas quantos
têm a preciosa existência humana? Gampopa lista uma série de fatores que são
chamados liberdades, bênçãos, causas desfavoráveis e três tipos de fé, que são
necessários para que a existência humana seja preciosa.
Se todos têm a natureza de Buddha e uma preciosa existência humana por que não
atingimos o despertar? É onde entra o terceiro ponto, a causa circunstancial. O
que representa essa causa? A causa circunstancial refere-se à necessidade de se
contar com um instrutor, que é o mestre, o amigo espiritual. Sem alguém que
mostre o caminho, não há como avançar. Para os praticantes do Vajrayana, o
mestre é absolutamente essencial para o progresso espiritual.
Tendo-se a natureza de Buddha (todos têm, todos os seres), o suporte adequado
(que é a preciosa existência humana), a felicidade ou mérito de ter encontrado
o amigo espiritual, o que ainda impediria o progresso? Gampopa menciona um
quarto ponto, que é o método. E, quanto ao método, diz o seguinte: Temos que
superar quatro obstáculos que impedem o progresso espiritual. Sem essa
superação, mesmo que tenhamos as outras condições reunidas (o que já não é tão
fácil), não há como avançar.
O primeiro obstáculo diz respeito ao apego aos prazeres do Samsara. Trata-se do
apego a esta existência, a esta vida, aos prazeres que esta vida pode trazer,
imaginando que isso pode trazer uma felicidade duradoura. O antídoto consiste
em combater esse apego excessivo a esta existência, meditando sobre a
impermanência e a morte.
O segundo obstáculo é o apego à existência no Samsara, isto é, aspirar
renascimentos nos reinos superiores. O antídoto a este obstáculo é a meditação
na lei dos atos (da causa e efeito), ou seja, na lei do Karma e também na
natureza insatisfatória do Samsara.
O terceiro obstáculo é buscar a paz do Nirvana para si mesmo. O apego à paz do
Nirvana é combatido pela meditação na compaixão e no amor.
Há ainda um quarto obstáculo, o desconhecimento do método, não saber qual é o
método para se atingir o despertar. E qual é o método? O método é a produção da
mente altruísta, ou que o Budismo chama de bodhicitta, que compreende duas
grandes vertentes: Amor e Compaixão ilimitados, de um lado, e Sabedoria, do
outro. Acumulação de méritos (amor e compaixão) e de sabedoria (realização da
vacuidade de todos os fenômenos).
Amor, compaixão e sabedoria ilimitados nada mais são do que a expressão da
vacuidade, não há, do ponto de vista absoluto, diferença entre um e outro. A
acumulação de mérito e de sabedoria se dá pela prática das seis perfeições, o
trilhar do caminho dos bodhisattvas. Quais são as perfeições? Generosidade (há
quatro tipos de generosidade), conduta ética, paciência, perseverança,
concentração e sabedoria. As cinco primeiras estabelecem as condições para a
realização da sexta, a sabedoria.
Na maior parte do livro, Gampopa, trata do método, em detalhes.
Qual o resultado obtido com a aplicação do método? O fruto, que é o quinto
ponto dos seis. O quinto ponto é o fruto, atingir o estado de Buddha.
E o que significa o estado de Buddha? Chegamos ao sexto ponto, que é a atividade
espontânea dos Buddhas, livre de todos os obstáculos, a mente completamente
purificada e realizada, transcendendo qualquer noção do que seja sofrimento ou
felicidade.
Vamos fazer uma pequena síntese, para finalizar. O livro do Gampopa não é um
livro de leitura amena. É um livro para se estudar cuidadosamente, que dá
instruções precisas sobre o caminho gradual para o despertar, é um Lam Rim. Os
capítulos revelam não só uma grande erudição - a idéia de Gampopa não é ser
erudito - como também um profundo e completo conhecimento do caminho que leva
ao despertar. Apesar de escrito há muitos séculos, A Jóia Ornamento da
Liberação é um livro muito atual. Independente da religião que se professe (o
Budismo nunca se colocou como a única religião), sempre será necessário
trabalhar nas duas acumulações: de mérito, que tem a ver com as práticas
virtuosas, e de sabedoria, que é o entendimento profundo sobre a verdadeira
natureza dos fenômenos. O que difere uma religião da outra, normalmente, é o
aspecto sabedoria, não a parte relativa à acumulação Todas as religiões pregam
basicamente as mesmas coisas do ponto de vista de práticas de acumulação de
mérito. A diferença, quando ocorre, se dá na acumulação de sabedoria, ou seja,
na compreensão sobre o modo de ser dos fenômenos.
O ponto de vista da sabedoria, no Budismo, tem a ver com a compreensão da
vacuidade. E essa compreensão da vacuidade pode ocorrer pelo preenchimento de
certos requisitos, relacionados aos quatro primeiro pontos mencionados por
Gampopa: a natureza de Buddha, a preciosa existência humana, o mestre
espiritual e o método.
O que difere um Buddha de um não Buddha, é que um Buddha vê as coisas como elas
realmente são. Por que alguns não vêem? Porque estão envoltos pelos quatro
véus: da ignorância fundamental, que é a não compreensão da vacuidade, da
dualidade, que é a concepção equivocada das separatividade entre eu e o outro,
das emoções perturbadoras que afetam a nossa maneira de agir, e do karma. As
chamadas emoções perturbadoras - apego, aversão etc. - têm origem na ignorância
fundamental, na não realização da vacuidade.
O grande ensinamento do Gampopa é mostrar passo a passo o que deve ser feito,
por que deve ser feito e o que acontece se tudo for feito. É uma obra magna, um
clássico, um livro muito bem escrito, uma jóia que satisfaz todos os desejos. É
por isso que se chama A Jóia Ornamento da Liberação.
O ensinamento fundamental de Gampopa, a produção da mente do despertar, mostra
não haver nenhuma forma de avançar sem que amor e compaixão sejam
desenvolvidos. E o amor e compaixão ilimitados nada mais são do que sabedoria.
O caminho é o dos Bodhisattvas e consiste na prática das seis perfeições. Esta
é a essência do ensinamento de Gampopa.

|