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Tradições
Convergentes ou Mundos Opostos?

Raul Branco

As grandes tradições espirituais de nosso planeta sempre ensinaram que o mundo
em que vivemos é uma ilusão, é maya como dizem os hinduístas. Com mais razão
ainda, poderíamos dizer que as aparentes diferenças que saltam aos olhos entre
o budismo e o cristianismo são também uma ilusão. Na verdade, estas duas
grandes tradições do oriente e do ocidente têm muito mais em comum do que suas
aparentes diferenças sugerem. Quando estudamos mais a fundo estas tradições
verificamos que por trás de suas nomenclaturas díspares e enfoques radicalmente
opostos existem mais convergências e semelhanças do que contradições.
O primeiro passo, porém, em todo estudo comparativo é deixarmos bem claro o que
estamos comparando. Assim, que vertentes, ou escolas destas duas tradições
estamos comparando? De um lado o Budismo Mahayana - também conhecido como o
Grande Veículo. Da mesma forma que Jesus transmitiu vários níveis de
ensinamentos para diferentes grupos de pessoas, assim também o fez o senhor
Buda. Estaremos comparando o Budismo Mahayana com o Cristianismo Primitivo ou
Gnosticismo, que foi a continuação natural do Ministério de Jesus. O
Cristianismo Primitivo recebeu um grande baque, no início do século quatro, com
a transformação do cristianismo em religião oficial do Império Romano. A partir
de então os objetivos temporais suplantaram os espirituais e o ensinamento
original de Jesus foi perdendo sua importância relativa à medida em que a
hierarquia clerical dominante foi tomando mais força do que a assembléia dos
praticantes, a verdadeira igreja. A nova Igreja passou a enfatizar dogmas,
credos e rituais externos, estabelecidos com o propósito de consolidar seus
objetivos temporais, criando com isto toda uma série de distorções na doutrina
e prática legadas por Jesus. O budismo, por sua vez, também não escapou
incólume das influências do clero e de outros fatores externos.
Com as distorções separativistas e materializantes introduzidas ao longo dos
séculos na religião budista e mais ainda na cristã, uma comparação entre as
versões populares destas duas religiões atuais indicaria mais diferenças do que
semelhanças. Lembramos, também que, para a Igreja, o cristianismo não pode ser
comparado com o budismo ou qualquer outra religião, porque o cristianismo seria
o resultado de uma revelação divina, a única revelação fiel e verdadeira.
Portanto, sendo a única religião verdadeira não poderia ser comparada com
qualquer outra.
Procuremos ter sempre em mente que estaremos comparando o Cristianismo
Primitivo com o Budismo Mahayana. Vejamos os métodos e premissas dessas duas
tradições, para que possamos levar adiante essa comparação. O cristianismo é
uma religião teísta, ou seja, que se baseia na existência de um Deus. A Deidade
é considerada como a criadora de todos os mundos. Por esta razão, o método
utilizado no cristianismo, como em todas as religiões teístas, é um método
dedutivo. Todas as concepções originam-se necessariamente da Fonte Una e todas
as deduções são feitas de cima para baixo, até alcançar o mundo físico e a
humanidade.
O budismo, ao contrário, é uma religião não-teísta. Neste ponto poderíamos nos
perguntar: mas como o budismo pode ser uma religião se não admite a existência
de Deus, já que a palavra religião origina-se do termo latino “religare”, que
significa ligar o homem de volta à sua Fonte? A questão é complexa e
procuraremos aborda-la sob diferentes ângulos nesta apresentação. Podemos
adiantar, porém, que o senhor Buda, com sua imensa sabedoria, teve boas razões
para estabelecer toda sua doutrina com um enfoque inteiramente diferente das
religiões tradicionais. Em vez de iniciar seu sistema com uma concepção
filosófica sobre a origem de toda a manifestação, ou seja, Deus, o senhor Buda
usou como premissa básica a observação da realidade da vida dos homens, ou
seja, a existência do sofrimento. Com base nessa constatação ele estabeleceu
seus ensinamentos, indutivamente, de baixo para cima.
Poderíamos nos perguntar também: se essas duas tradições são convergentes, como
se explica que o objetivo último das práticas budistas é alcançar o vazio
enquanto do cristianismo primitivo e do gnosticismo, era de alcançar a
plenitude. Aparentemente são pólos opostos: vazio x plenitude. Vejamos porém, o
que está por trás destas palavras. O budismo prega que as práticas meditativas
permitem uma progressiva purificação e controle da mente, até o ponto em que o
praticante alcançará a realidade última, que é a contemplação ou vivência do
vazio. Se nos deixarmos levar pelo sentido literal das palavras, o vazio é a
ausência de tudo. Num certo sentido, este é o significado do vazio. Os budistas
explicam, porém, que vazio é a ausência de realidade inerente das coisas. Isto
significa que nenhum ser ou objeto tem uma existência inerente por si só. Se
nada tem existência inerente por si só, a conclusão é que a existência de
qualquer ser ou objeto depende do inter-relacionamento de todas as coisas.
Os gnósticos, ou cristãos primitivos diziam, por sua vez, que o objetivo último
de toda prática religiosa é alcançar a plenitude. ‘Pleroma’, ou plenitude é o
estado de consciência da totalidade, em que o gnóstico percebe que ele é uno
com todos os seres, que faz parte da plenitude do todo. Portanto, a plenitude
do todo e o vazio da existência inerente das unidades separadas, nos permite
entender que estamos falando da mesma coisa com linguagens diferentes. As duas
tradições enfocam a realidade última a partir de pólos opostos. Por trás da
terminologia aparentemente contraditória as duas tradições concordam que, em
sua essência, o vazio é plenitude.
Uma vez esclarecido o paradoxo, podemos entender porque um grande místico
cristão do século passado, Thomas Merton, sugeriu que nenhum homem é uma ilha.
Ele valia-se da imagem de que a ilha é um pedaço de terra isolado. Portanto,
nenhum homem é isolado em si mesmo. Todo homem faz parte do continente. E qual
é a imagem do continente? No continente todos os pedaços de terra se encontram
ligados e são interdependentes. Então, no continente existe a totalidade.
Explica-se dessa maneira porque vazio e plenitude são, em sua natureza última,
a mesma coisa.
Vários estudos comparativos foram feitos sobre as vidas de Gauthama e de Jesus
(bem como a de Krishna e de outros grandes seres). Um fato recorrente nestes
estudos são os paralelos encontrados nas vidas destes salvadores da humanidade.
Quando observamos atentamente esses paralelos, não podemos deixar de concluir
que as inúmeras coincidências verificadas não podem ser obra do acaso. Por
exemplo, na obra Isis sem Véu de H.P. Blavatsky, é dito que Gautama é filho de
um rei e Jesus descende da família real de Davi. Gauthama, é uma encarnação de
Vishnu e Jesus, uma encarnação do Espírito Santo. Portanto, os dois são
expressões do Divino. Tanto a mãe de Gauthama, Maya, como a de Jesus, Maria,
mantiveram-se virgens imaculadas após o nascimento de seu filho. Até mesmo os
nomes: Maya e Maria, parecem indicar uma raiz comum que remonta a um passado
tão distante que o registro humano não consegue alcançar.
Alguns estudiosos, após investigarem as mais diversas tradições religiosas
registradas, verificaram que existem pelo menos dezesseis tradições em que o
seu salvador morre crucificado. E nessas dezesseis tradições existem quase
todos os paralelos que estamos apresentando aqui. Essa é uma clara indicação de
que os paralelos entre as vidas de Jesus, de Gautama e de outros salvadores da
humanidade não são coincidências únicas na história. Ao contrário, todas as
grandes tradições religiosas oferecem, por meio histórias estilizadas da vida
de seu fundador, marcos simbólicos indicativos da Senda espiritual que deve ser
trilhada pelos discípulos avançados para que possam tornar-se, eles também,
salvadores da humanidade.
Tanto Gautama como Jesus eram dotados do poder de realizar prodígios e efetuar
curas milagrosas. A Igreja, mais tarde, durante o período mais negro de sua
história na Idade Média, verificando que essas semelhanças não podiam ser
negadas, deu mais uma prova de sua miopia e arrogância explicando que as
semelhanças eram obra do diabo. O argumento apresentado foi que o diabo, sendo
um poderoso arcanjo, tinha visto o que iria acontecer com Jesus mais tarde, e
então, para confundir os fiéis, copiou com antecedência todos esses registros
históricos de fenômenos excepcionais na vida destes grandes seres.
Explicações diabólicas à parte, o fato, porém, é que existem inúmeros paralelos
na vida destes dois grandes seres. Os dois esmagam a cabeça da serpente do
fetichismo, mas adotam a serpente como símbolo da sabedoria. A razão para isto
é o fato de que em todas as tradições, para que se possa alcançar a realidade
última, torna-se necessário o despertar da kundalini. Essa é a força ígnea que
se encontra dormente em todos os seres humanos, aparentemente enroscada três
vezes e meia, na base da coluna. E é somente com o despertar dessa força
telúrica que é possível alcançar a realização última. Daí a sabedoria ser
associada com a serpente.
Gautama abole a idolatria e entra em conflito com os brâmanes que detinham o
monopólio do ensinamento religioso da tradição hinduísta. Ele divulga os
mistérios da unidade e do nirvana, e oferece um método prático e seguro, ao
alcance de todas as castas, para se alcançar a libertação. Jesus revela-se
contrário à tirania religiosa dos escribas, fariseus e da sinagoga, e revela os
mistérios do reino de Deus. As convergências são cada vez mais gritantes. E,
finalmente, após a morte, Buda sobe ao Nirvana e Jesus é elevado ao Céu.
Vejamos agora, sob outro prisma, os diferentes níveis de ensinamento. As duas
tradições reconhecem três níveis de realização. No nível mais elevado estão
aqueles que eram chamados eleitos, ainda que sem um sentido elitista de
exclusão. Entre os gnósticos, eles eram conhecidos como pneumáticos, que
significa espirituais e, entre os budistas, como árias, ou sejam, os seres
sagrados, os seres elevados ou avançados.
O grupo seguinte, os intermediários, eram conhecidos entre os gnósticos como os
psíquicos ou religiosos e entre os budistas como os aniatas. E, finalmente, o
grupo dos homens comuns, os muitos, na linguagem de Jesus, eram chamados pelos
gnósticos, de ílicos ou materiais, e entre os budistas, as pessoas tolas,
denominação apropriada, pois aqueles que só estão voltados para os prazeres da
vida material imediata, sem nenhum interesse pelo objetivo último da vida, são,
certamente, pessoas tolas.
Assim, o ensinamento dos grandes mestres foi estruturado para atender as
necessidades desses três grupos de pessoas. Para o povo em geral, para aqueles
que estão voltados exclusivamente para a vida neste mundo, a ênfase eram os
ensinamentos sobre a ética e a vida diária. Para os homens intermediários, que
os gnósticos chamavam de religiosos, eram ensinamentos mais abrangentes sobre a
vida e a prática espiritual, sendo esses ensinamentos encontrados nos sutras
budistas e nas escrituras cristãs. E é interessante lembrar que esse grupo
intermediário, tanto para os budistas como para os cristãos primitivos, eram
aqueles que nesta vida, em função de suas decisões, determinações e postura de
vida poderiam cair no grupo dos muitos, os materialistas, ou então, elevarem-se
e entrar no grupo dos eleitos, daqueles que poderiam vir a ser salvos ou
libertos.
E, finalmente, para o grupo dos assim chamados espirituais, os poucos, as duas
tradições oferecem ensinamentos sobre o caminho acelerado. O caminho acelerado,
com suas naturais exigências de purificação e dedicação, só está aberto a muito
poucos. Por exemplo, nos mosteiros budistas, dentre os monges que terminam seu
período de formação, cuja extensão depende da escola, são muito poucos aqueles
que são convidados a seguir adiante com os estudos e práticas, agora não mais dos
sutras, mas dos tantras, no caminho acelerado budista. E, no caso dos
gnósticos, as práticas avançadas incluíam os sacramentos. Esses sacramentos
originais ministrados por Jesus e mais tarde por seus discípulos eram cinco e
não os sete sacramentos atuais da Igreja. Os sacramentos originais eram
realmente transformadores, pois equivaliam a iniciações.
Vejamos agora os ensinamentos voltados para o homem comum nas duas tradições.
Eles tratavam principalmente de questões relacionadas com a ética. Aqui também
vemos grandes convergências, grandes paralelos entre as duas tradições. É
interessante notar que a maior parte dos ensinamentos de Jesus sobre a ética,
foram coletados na parte do Evangelho que veio a ser chamada de Sermão da
Montanha. É possível e até mesmo provável que aqueles ensinamentos tenham sido
ministrados em diferentes ocasiões sendo mais tarde apresentados de forma
orgânica naquele maravilhoso texto. Um fato curioso é que alguns estudiosos,
tendo levado a Bíblia para uma comunidade budista, resolveram testar os mestres
dessa comunidade. Leram, então, o Sermão da Montanha, sem dizer a fonte,
indicando somente que era o ensinamento de um grande mestre. Os monges
budistas, após ouvirem com atenção os três capítulos de Mateus (5, 6 e 7) que
compõem a versão mais extensa do Sermão da Montanha, concluíram que o autor era
um mestre budista, desconhecido deles, mas certamente um budista. Existe,
portanto, uma total afinidade dos budistas para com a ética como foi
apresentada no Sermão da Montanha. Entre os budistas, os ensinamentos sobre
ética encontram-se em diferentes escrituras, mas talvez no Dhamapada
encontra-se a coletânea mais sintética desses ensinamentos.
A questão da ética, sendo básica para todas as religiões, é uma das que oferece
um dos maiores escopos para explorarmos os paralelos entre as duas tradições.
Só este tema seria suficiente para um artigo ou mesmo um livro, sem contudo
esgotar o assunto. Existem quatro passagens do Sermão da Montanha que tratam de
homicídio, adultério, falso testemunho e retribuição. Essas passagens
correspondem aos preceitos do Buda de não matar, não se apropriar do que não
lhe pertença, não ter relações sexuais indevidas, não dizer mentiras e não usar
álcool ou drogas.
Como parte de seus ensinamentos sobre a ética, tanto Buda como Jesus, alertaram
para o fato de que viriam outros mensageiros com falsos ensinamentos. Por isso,
Jesus disse: “Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos como
ovelhas, mas que por dentro são lobos vorazes.” Existem, portanto, aqueles, na
tradição cristã que se dizem mestres, instrutores ou gurus. Mas, quando
examinamos com atenção suas ações, vemos que são pessoas egoístas, voltadas
para si, fazendo um grande esforço para arrebanhar um grupo de seguidores que
venha bancar suas pretensões. Esses são os falsos profetas.
Buda também fez uma alusão, não aos falsos profetas mas aos falsos ascetas.
Aqueles que se entregam a práticas ascéticas para purificação, mas que, na
verdade, estão movidos pelo orgulho de se apresentar como mais desprendido e
mais santo que os outros. Esses dizem em seu íntimo: “não só sou um renunciante
mas sou mais renunciante que os outros.” Obviamente esta é uma atitude de
orgulho que não reflete o verdadeiro sentido da espiritualidade. E Buda, com
sua linguagem incisiva diz: “Por que esse cabelo trançado?” Porque eles
trançavam de tal maneira a causar dor ao couro cabeludo. Por que essa roupa de
pele de animal?” Com isso o Senhor Buda procurava nos alertar que não é preciso
sinais exteriores de ascetismo porque todo o ascetismo é voltado para a
purificação. E a purificação que conta não é a purificação do corpo. É a
purificação da mente.
Os ensinamentos sobre a ética são dirigidos a todas as pessoas. Ambas tradições
dão muita atenção ao amor e à compaixão, ensinando que a compaixão é a pedra
fundamental para a vida superior. Apesar desses ensinamentos serem mencionados
nos textos básicos das duas tradições, sabemos que a verdadeira compaixão é um
ideal elevado que normalmente só é alcançado por discípulos mais avançados. São
realmente esses discípulos, aqueles que se voltaram inteiramente para a vida
espiritual, que têm sua vida e conduta caracterizadas pelo amor puro. Num
patamar ainda mais elevado estão os grandes Mestres, como Gautama e Jesus.
Ambos foram impelidos a estabelecer seus ministérios redentores pela Divina
Compaixão. Renunciaram a tudo e devotaram sua vida totalmente a ajudar a
combalida família humana.
Vale lembrar que agiram com divina sabedoria para alcançar os objetivos da
divina compaixão. Estando em perfeita sintonia com o Plano Divino procuraram
ensinar os homens a tornarem-se responsáveis por si mesmos. Como o fundamento
da vida humana é o livre arbítrio, a salvação não pode ser forçada aos homens.
Ela só pode ser indicada. Cada ser humano terá que trilhar cada passo, de livre
e espontânea vontade, a longa Senda que leva à libertação. A grande
contribuição de nossos salvadores foi a revelação do Caminho, por meio de
ensinamentos e de seu exemplo. Portanto, a missão dos grandes Mestres, os
Salvadores da humanidade, é colocar à nossa disposição os instrumentos para
nossa libertação, na forma de ensinamentos capazes de promover nossa progressiva
transformação interior. Com o tempo, essa transformação, equivalente à
purificação de nossos veículos inferiores, cria as condições necessárias para
alcançarmos finalmente a iluminação, ou seja, o portal para a libertação ou
salvação.
Vale a pena lembrar que, para os budistas da tradição mahayana, o voto de
bodhichitta constitui o ponto de partida de sua tradição. Esse voto nem sempre
é bem entendido pelos não-budistas. Fundamenta-se na compaixão, ou seja, na
profunda convicção de que todos os membros da família humana são prisioneiros
da roda dos renascimentos, o samsara. Conscientes de que ao longo de nossas
inumeráveis existências, os seres que conosco compartilham do samsara poderiam
ter sido nossas mães, pais, irmãos, filhos ou amigos próximos que nos cumularam
de atenção e cuidados amorosos, e sabendo que nossa capacidade para ajudar os
outros é função direta de nossa realização espiritual, decidem fazer o voto de
bodhichitta, que é o compromisso de buscar incessantemente a iluminação para o
benefício de todos os seres.
Encontramos também na Bíblia indicações de que Jesus era movido pela mesma
motivação compassiva. Talvez esta motivação esteja refletida mais claramente na
passagem ao final de seu ministério ao retornar dos mortos para terminar a
preparação de seus discípulos. Nos últimos momentos de sua vida na Terra, antes
de ascender ao Céu, Jesus demonstrou a mesma atitude de compaixão dos lamas
budistas avançados, numa expressão equivalente ao voto de bodhichitta dizendo,
“Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!” Com isto
Jesus estava prometendo que, apesar de ter sido alçado a um plano
diametralmente oposto das vibrações pesadas da Terra, não iria se afastar da
família humana com todas suas misérias e sofrimentos, até que todos tivessem
sido salvos, que é o significado da expressão “até a consumação dos séculos, ou
até o fim dos tempos”, como é apresentada em outras versões da Bíblia.
Vejamos agora paralelos entre gnosis e sabedoria. As duas tradições insistem
que a salvação só ocorre através da gnosis, como era chamada entre os
gnósticos, ou da sabedoria, jnana como é referida pelos budistas. O primeiro
passo nessa comparação deve ser o entendimento dos conceitos expressos nas duas
tradições. Gnosis é uma palavra grega que significa conhecimento. Isto não
significa que decorando uma enciclopédia, ou mesmo todos os livros de uma
biblioteca, estaríamos adquirindo o “conhecimento” libertador. A gnosis tão
desejada pelos cristãos primitivos era um conhecimento interior. Não um
conhecimento intelectivo dependente da mente concreta e da memória, mas sim de
condições muito especiais, tais como a meditação profunda ou mesmo certos
rituais que propiciavam a expansão de consciência e a apreensão direta da
verdade. Em suma, a gnosis poderia ser considerada como uma revelação interior.
Quando Jesus dizia: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” Ele
estava certamente referindo-se à gnosis.
Mas que verdade ou conhecimento é este? Os místicos e sábios de todas as
tradições são unânimes em afirmar que a verdade salvadora é o conhecimento
interior, ou melhor dito, a vivência interior, de que o homem e Deus são um e o
mesmo Ser. A unidade da vida, uma vez experimentada no interior da alma e
fixada na consciência do homem, produz uma transformação radical no ser humano.
A partir de então ele “sabe” por experiência própria que é imortal e,
percebendo a si mesmo como um aspecto inalienável da grandeza infinita de Deus
sabe, conseqüentemente, que está salvo.
A essência dos argumentos acima são válidos também para os budistas. O papel
central da sabedoria nos ensinamentos de Buda está particularmente explicitado
nas paramitas, ou virtudes. Das seis virtudes a última é Jnâna, traduzida
normalmente como sabedoria, mas que também significa gnosis, o conhecimento
interior. A sabedoria, de acordo com os budista, não é erudição. Não significa
conhecer todas as escrituras budistas e poder declamá-las de cor. Sabemos que
na época do senhor Buda eram poucos os que sabiam ler e escrever. E eram
pouquíssimos os documentos existentes com as escrituras. Então os discípulos,
muitas vezes referidos como ouvintes, aprendiam os ensinamentos ouvindo e
guardando-os na memória. Este processo de aprendizado era facilitado pelo fato
de não terem a mente atulhada de lixo, como temos em nossa civilização atual,
bombardeada com todo tipo de informação da televisão, jornais, revistas e agora
da internet. Os discípulos de então ouviam os ensinamentos e os gravavam na
mente. Eles carregavam sua biblioteca na cabeça.
Apesar dos budistas prezarem o conhecimento de suas escrituras, deixam claro
que esta erudição não é sabedoria, mas sim um instrumento facilitador para
alcançá-la. A sabedoria, a última das virtudes é a percepção do vazio de todas
as coisas, a natureza essencial da mente, o substrato de toda a manifestação.
Porém, como vimos anteriormente, o vazio ou ausência da natureza inerente
equivale à unidade de todas as coisas. Portanto, a sabedoria para os budistas é
o mesmo que gnosis para os cristãos primitivos.
Outro ponto de convergência das duas tradições é a importância da “Lei”. O
Dharma, ou lei é a fundamentação do budismo. Eles são conhecidos como os
praticantes da lei. Mas o que é a lei para os budistas? E o que é esta grande
Lei? É a Lei Divina. É a Lei que rege toda a manifestação. Em virtude do
princípio hermético das correspondências (aquilo que está em cima é como aquilo
que está embaixo, o que está dentro é semelhante ao que está fora, o pequeno é
semelhante ao grande), a grande Lei Universal está refletida na lei que é
transmitida aos seres humanos em suas escrituras sagradas, na tradição
judaico-cristã a Torá e na tradição budista o Dharma.
Encontramos na tradição cristã primitiva a passagem em Excertos de Teódoto:
“Somente o batismo não liberta mas sim, a gnosis, o conhecimento interior de
quem somos, o que nos tornamos, onde estamos, para onde vamos. O que é
nascimento, o que é renascimento”. Outra passagem bastante conhecida, desta vez
da Bíblia, reflete também a tradição gnóstica: “Conhecereis a verdade e a
verdade vos libertará”. Conhecimento ou gnosis, portanto, é o portal da
liberdade.
É dito no budismo que para se alcançar a sabedoria, a jnâna, torna-se
necessário a purificação da mente de seus fatores mentais obscurecedores. Os
budistas ensinam que para se alcançar a sabedoria ou o vazio, que é a pura
percepção da clara luz da mente, temos que retirar primeiramente tudo aquilo
que obscurece a mente. O entulho mental é em grande parte conseqüência de
nossos condicionamentos na vida terrena, chamados pelos budistas de skhandas.
Existe na literatura budista um grande número de referências sobre a
purificação da mente. Estes ensinamentos foram, mas tarde codificados e
aprofundados pelo grande mestre budista Asangha*, que viveu no século IV de
nossa era. A questão do conhecimento e da purificação da mente é tão importante
para os budistas que eles desenvolveram uma linha de estudos que chamam de lojong*
para tratar exclusivamente do treinamento da mente.
Na literatura cristã, ainda que sua natureza seja inteiramente diferente da
budista, algumas referências são feitas ao treinamento da mente, principalmente
nas epístolas de Paulo. Porém, a verdadeira importância da purificação da mente
para o cristianismo primitivo ficou mascarada pela tradução errônea do termo
grego “metanoia” no original grego da Bíblia como “arrependimento”. Por
exemplo, numa das primeiras passagens dos evangelhos, João Batista é
apresentado pregando: “Arrependei-vos, é chegado o tempo”. Porém, no original
em grego, a expressão era derivada de metanóia que tem um significado muito
mais amplo do que arrependimento. Significa: modificar os conteúdos mentais
para que se possa perceber a verdade; proceder a uma transformação da mente,
uma transformação interior. Esse é o verdadeiro sentido de metanóia que foi
traduzido na Bíblia como arrependimento.
Como conseqüência dessa distorção bíblica, o cristão ortodoxo tradicional
desenvolveu uma atitude de passividade face à vida espiritual, eu preciso me
arrepender de meus pecados. Mais tarde os teólogos reforçaram esta atitude com
a instituição do sacramento da penitência, melhor conhecido como confissão, que
previa o perdão dos pecados para aqueles que os confessassem aos prelados da
Igreja. É bem verdade que nem todas as correntes do cristianismo aceitaram a
instituição da confissão. Mas a corrente dominante venceu e com isto, na
opinião de alguns observadores, criou-se um incentivo à hipocrisia, pois o fiel
sabia que depois de pecar bastava correr para a Igreja, confessar-se e assim
ter assegurada a sua ‘pureza’. Podemos estar certos que este não era o objetivo
de nosso sábio e compassivo Mestre. O que Jesus pregava, e que constituía o
cerne dos ensinamentos do cristianismo primitivo, é a modificação interior. É
somente quando nós nos transformamos interiormente que podemos alcançar aquele
estado de plenitude que é o estado da salvação. Felizmente, foi preservada na Bíblia
uma frase lapidar do grande apóstolo Paulo, que parece uma citação de um
tratado budista: “E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai-vos
renovando a vossa mente”. Renovar a mente. É isto que Paulo e Jesus nos
ensinaram.
Outro ponto de aparente desencontro, mas de convergência em sua essência, é a
questão da vida e da morte nas duas tradições. É necessário viver ou morrer
para alcançar a meta, o céu ou nirvana? Para os cristãos ortodoxos de
diferentes denominações, o conceito dominante é que só podemos alcançar o céu
depois da morte. Por isso muitos padres e pastores gostam de contar uma
historia que em suas linhas gerais seria: um ministro de Deus estava pregando
na igreja, ou no templo, e aí voltou-se para sua congregação:
- Nós todos amamos
Jesus, não amamos?
- Amamos!
Responderam em uníssono.
- Então, quem quer
ir para o céu?
- Eu! Eu! Todos
levantaram a mão.
- E quem é que quer
ir para o céu, agora?
- Constrangimento
total. Só duas velhinhas muito doentes levantaram a mão timidamente.
Por que essa incongruência entre ideal e prática? A razão dos fieis preferirem
sempre postergar para o último momento a suposta ida ao céu deve-se à imagem
errônea de que o céu é um lugar que só está ao alcance dos mortos. Obviamente esta
é uma concepção totalmente errônea porque o céu não é um lugar. O céu é um
estado de consciência. É o estado de consciência da unidade com a fonte da vida
e com todas as outras expressões desta vida. Este estado de consciência já foi
atingido por milhares de místicos e iogues de diferentes tradições ao longo dos
séculos. Apesar de existirem diferentes níveis para este estado de
transcendência, todos eles podem ser alcançados durante a vida terrena. Os
gnósticos e os cristãos primitivos, conhecendo os ‘mistérios do reino’, estavam
cientes de que a “salvação” era alcançada neste mundo, sendo nossas conquistas
obtidas enquanto no corpo físico estendidas para os estados fora do corpo.
Os budistas, porém, sempre souberam que viver num corpo físico é indispensável
para se alcançar a iluminação. O corpo deve ser considerado como um veículo a
ser usado para nossa jornada rumo ao Nirvana e, portanto, deve ser devidamente
cuidado. Para isto o Buda recomendou a ascese, ou seja, práticas espirituais
visando a purificação. Só que, não com aquele extremo rigor de virtual tortura
do corpo que os antigos ascetas da tradição hindu faziam. Chegavam até enfiar
pregos na mão e em outras partes do corpo, dormir como os faquires em camas de
pregos e outras práticas chocantes para nossa cultura ocidental. O Buda disse
que nada disso é necessário, sendo mesmo contraproducente. Devemos cuidar do
corpo com esmero e atenção mas sem ir para o outro extremo. Daí Buda falar no
caminho do meio. Nem a licenciosidade de uma vida de prazeres mundanos, nem
tampouco um ascetismo exacerbado que prejudica o corpo. Devemos tratar o corpo
como se ele fosse nosso animal de serviço. Devemos alimentá-lo bem mas não a
ponto dele ficar muito gordo e não poder trabalhar direito. Por outro lado não
podemos deixar de alimenta-lo o suficiente a ponto de emagrecer e não ter mais
força para trabalhar. Então a alimentação e todo o cuidado do corpo deve ser
efetuado com o objetivo de prestar serviço para o verdadeiro senhor do corpo
que é a alma, ou o continuum mental na concepção budista.
Parte da atitude de medo e rejeição da morte entre os cristãos deve-se ao mal
entendimento de algumas passagens da Bíblia, como por exemplo: “Quem ama a sua
vida a perde. E quem odeia a sua vida nesse mundo, guarda-la-á para a vida
eterna”. “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só. Mas
se morrer produzirá muito fruto”. Numa primeira leitura, uma leitura literal
que não nos leva muito longe no entendimento da mensagem bíblica, poderíamos
pensar, “não gosto disto; está dizendo que temos que morrer, temos que cair na
terra e morrer para dar fruto”. Mas esta não é em absoluto a mensagem que o
Salvador nos legou. A renúncia é que está sendo expressa através dessas
passagens. Devemos renunciar ao mundo e não continuar a viver como se este
mundo e seu prazeres fossem o objetivo último de nossa vida.
Outra área de semelhanças entre as duas tradições é a organização e atuação das
Ordens Monásticas. Os monges budistas e os discípulos de Jesus foram instruídos
para atuar como pregadores itinerantes, mendicantes, vivendo para servir os
outros, aceitando o que lhes era oferecido. Jesus inclusive disse para os seus
discípulos que eles deveriam visitar todos os lugares para pregar o evangelho.
Lembremos que ‘evangelho’ significa “Boa Nova”. Assim, deviam pregar a Boa Nova
sem levar dinheiro, roupas e provisões. A razão para isto é que eles deviam se
integrar nas comunidades onde fossem pregar e aceitar o óbulo ou hospitalidade
que lhes fosse oferecido. Com o passar dos séculos o rigor destas regras foi
sendo diminuído. Atualmente, a Ordem dos Franciscanos e dos Trapistas, são as
que mais se aproximam das ordens budistas. É curioso observar que nas ordens
budistas e nas cristãs os monges devem fazer três votos: de pobreza, castidade
e obediência. Só que entre os cristãos, o voto de obediência era para com o
chefe da Ordem. Entre os budistas, no entanto, o voto é sempre voltado para o
Dharma, isto é, obediência aos ensinamentos do Mestre. Os monges budistas, como
seus irmãos cristãos, comprometem-se a divulgar a doutrina libertadora. Porém,
eles são extremamente respeitosos para com as pessoas. Ao contrário de seus
irmãos cristãos, não tentam converter os outros contra sua vontade. Na verdade,
é uma prática budista que quando um monge chega num determinado lugar, ele só
fará uma pregação sobre um determinado assunto se for solicitado.
O papel da teologia é outra área de paralelos. Tanto Buda quanto Jesus não
estavam preocupados com teologia e dogmas, ao contrário do que parece ser a
preocupação daqueles que se dizem herdeiros dessas duas tradições. Mas a
preocupação central destes dois grandes seres era com a realidade da vida
humana e a libertação do sofrimento. Ambos pregavam que o ser humano deve se
dedicar ao supremo bem, sempre imutável e confiável. Jesus chamava esse Bem
Supremo de Deus-Pai. E Buda chamava esse bem supremo de Dharma. Vimos
anteriormente que o budismo é uma religião não-teísta, mas que os ensinamentos
do senhor Buda, o Dharma - que significa Lei - é um reflexo da Lei Maior. Essa
Lei Maior, a Lei que rege o universo e toda a manifestação, é uma expressão de
Deus. Se meditarmos com atenção, vamos concluir que Deus sendo absolutamente
transcendente, uma das poucas maneiras que podemos tentar conhecer a Deus, é
conhecer as Leis que regem o nosso universo. Ainda que sem fazer referências a
Deus, os mestres budistas procuram fazer exatamente isso.
Agora, uma diferença. Os autores gnósticos usavam mitos cosmogônicos e
cosmológicos como instrumentos para suas instruções. A cosmologia tem como
objetivo apresentar o processo da criação desde o nível mais sutil, Deus
transcendente, até o mais denso, o nosso mundo material, passando por todos os
estágios intermediários. A razão para o uso deste método é a instrução sobre a
lei dos ciclos, que rege tanto o macrocosmo (o universo) como o microcosmo (o
homem). O processo de surgimento, ou emanação, oferece para o buscador da
verdade as indicações do caminho de retorno à Fonte, que é o objetivo último de
todos os seres. No entanto, como o budismo é uma religião não-teísta, eles não
podiam servir-se de cosmogonias como os cristãos.
A natureza do homem é outro paralelo. Tanto os budistas como os cristãos
verdadeiros dizem que somos todos Budas, somos todos Cristo. Só que ainda não
nos tornamos conscientes de nossa realidade última e, por isso, ainda não
alcançamos o estágio da perfeição, a estatura da plenitude do Cristo em nós.
Ainda somos Budas, ou Cristos, em estado de semente. Cristo, ou Buda,
encontra-se em nosso interior em forma latente. Todo o ensinamento dos Mestres
é voltado para fazer com que Buda, ou Cristo, em nosso interior, possa
manifestar-se em toda sua plenitude. Por isto o apóstolo Paulo disse: “Não
sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1
Co 3:16), e nos urgia a desabrocharmos nossa natureza interior: “Cristo em vós,
esperança de glória.” (Cl 1:27).
A natureza de Buda se encontra na mente de cada um. É a pura luz de Rigpa, a
natureza essencial da mente. O conhecimento de nossas inúmeras fraquezas
dificulta a aceitação da premissa básica de nossa natureza divina. No entanto,
podemos valer-nos da imagem do lótus que tem suas raízes no lodo, portanto, na
matéria, tem seu caule estendendo-se através da água, portanto, do mundo das
emoções, de vibrações geralmente pesadas, mas que abre a sua flor ao sol, no
mundo superior do ar, da mente, onde exala o seu perfume. O lótus também tem
outra característica muito pertinente para o ser humano. Em cada semente de
lótus encontra-se uma miniatura da planta adulta. Nossa vida assemelha-se ao
lótus, assentada no lodo da materialidade mas almejando alcançar o alto. Como o
lótus, temos também dentro de nós a semente das características divinas que
vamos manifestar quando desabrocharmos e alcançarmos nossa plenitude. Na
tradição cristã a imagem da semente é utilizada na parábola do grão de
mostarda, a menor de todas as semente, que quando cresce torna-se a maior de todas
hortaliças dando sombra e abrigo às aves do céu.
Outras semelhanças importantes são as imagens da porta e do caminho. Ambos,
Cristo e Buda são descritos como a porta e o caminho. Buda mostra o caminho
para a libertação. A tradição budista, porém, afirma que existem oitenta e
quatro mil portas. Essas seriam as portas do dharma, constituindo o corpo
Dharmakaya. Jesus, por sua vez disse , “Eu Sou a Porta das ovelhas”, “Eu Sou o
Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim”. Essas passagens
devem ser estudadas com atenção porque tendemos a entendê-las de forma literal.
Ao dizer, “Eu Sou”, Jesus não estava sendo personalista como sendo o Caminho, a
Verdade e a Vida. Conhecedor da tradição cabalista, utilizava a expressão “Eu
Sou” para referir-se a Deus. Os judeus, dentre os muitos nomes de Deus, usavam
“Eu Sou” como um termo apropriado para transmitir uma idéia da Deidade Suprema.
Ao contrário dos homens que vivem no mundo da dualidade e precisam
qualificar-se de forma diferenciada dizendo, “eu sou alto, magro, cristão,
jovem, advogado, etc”, Deus é simplesmente referido como “Eu Sou”, porque não
pode ser qualificado já que expressa a “Seidade” e abrange a totalidade do que
foi, é e será.
Reencarnação e carma são também pontos comuns. Apesar da tradição ortodoxa
cristã não indicar que a reencarnação faz parte dos ensinamentos de Jesus,
podemos identificar várias passagens da Bíblia que se referem à reencarnação.
Infelizmente a Bíblia foi muito retocada ao longo dos séculos e muitas
passagens foram adulteradas ou simplesmente retiradas quando batiam de frente
com os dogmas estabelecidos pela Igreja. Porém, as referências eram tantas que
ainda sobraram algumas, dentre as quais a que Jesus diz claramente que João
Batista é Elias que havia retornado à Terra. Outras passagens são mais veladas,
como a do cego de nascença; perguntam a Jesus quem havia pecado, o cego ou seus
pais e o Mestre respondeu que nem o homem (naquela encarnação) nem seus pais,
mas que aquilo havia ocorrido para que se cumprisse a lei (a lei de causa e
efeito que opera mesmo após uma ou várias encarnações).
Como explicar tanta semelhança entre as duas tradições? Existem várias teorias
para isso. Uma é que Jesus teria vivido na Índia dos doze aos trinta anos, onde
teria recebido instruções budistas. Pessoalmente não creio que Jesus tenha
vivido na Índia. Quem teria vivido na Índia no século I dC. foi Apolônio de
Tiana e as estreitas semelhanças entre estes dois personagens históricos têm
induzido muitos estudiosos a erro. Por isto muitos acreditam que Jesus viveu na
Índia e, tendo recebido ensinamentos budistas, esta seria a explicação para os
paralelos entre as duas tradições. Outra teoria é que Jesus teria sido um
discípulo do Buda. Na verdade, essa teoria postula que quase todos os seres
avançados do mundo teriam sido discípulos do Buda. E Jesus, sendo um Arhat, um
ser de grande realização espiritual, podia recuperar os ensinamentos recebidos
cinco séculos antes, quando foi discípulo do Buda. Por isso, seus ensinamentos
refletem também os ensinamentos de seu mestre, o Buda. Essa é outra teoria.
Uma terceira é que os monges budistas enviados pelo rei Ashoka a várias
comunidades do Oriente Médio, tiveram contato com as comunidades essênias para
as quais transmitiram o dharma. Mais tarde, Jesus e seus discípulos teriam
aprendido a essência dos ensinamentos budistas na comunidade essênia de Qumram.
Vários indícios históricos me levam a crer que esse processo realmente ocorreu.
Algumas fontes esotéricas indicam que um monge budista avançado teria sido
enviado à Palestina nos tempos de Jesus, com a missão específica de contatar a
comunidade de Qumram. Esse monge teria levado vários textos budistas para a
Palestina, da forma usual naqueles tempos, ou seja, de memória. Esse monge
tornou-se um discípulo de Jesus sendo conhecido pelo nome de Tomé. É por essa
razão que a tradição cristã indica que um dos discípulos de Jesus, depois da
morte do Mestre, foi para a Índia onde converteu muitas pessoas e estabeleceu
no sul da Índia, em Madras, uma comunidade do cristianismo primitivo. Cerca de
dezesseis séculos mais tarde, quando os missionários católicos e protestantes
chegaram à Índia, encontraram essa comunidade cristã firmemente constituída.
Temos, então, várias teorias para explicar os paralelos identificados entre as
duas tradições.
Estamos certos, porém, que alguns estudiosos vão descartar todas estas teorias
argumentando que, mais que teorias elas são fantasias, pois não existem provas
concretas para fundamentar nenhuma delas. Mesmo neste caso poderíamos sugerir
ainda outra maneira para explicar os paralelos entre as tradições budista e
cristã. O argumento seria de que as semelhanças são naturais porque todas as
tradições originam-se de uma única fonte. Essa é a religião-sabedoria propalada
pela teosofia. O moto da Sociedade Teosófica: “Não há religião superior a
verdade,” reflete esta realidade milenar, pois a verdade subjaz a tudo o que é
ensinado pelos grandes seres, os instrutores da humanidade. E essa verdade só
pode ser uma só. Ela é apresentada com diferentes roupagens para diferentes
culturas ao longo do tempo. Porém, à medida que mergulhamos na essência do
ensinamento de cada religião, deixando de lado as idiossincrasias separatistas
enganosas, percebemos a beleza do ensinamento que une toda a família humana.
Assim, não deve ser nenhuma surpresa para nós, verificarmos que existem muito
mais convergências entre budismo e cristianismo do que pontos de divergências.
Para encerrar esta
apresentação sintética e parcial dos paralelos entre as tradições budista e
cristã, gostaria de chamar a atenção para outra convergência que está mascarada
por uma aparente divergência gritante entre budismo e cristianismo. Trata-se da
aparente oposição entre prática ativa e fé passiva. Para os budistas, a prática
dos ensinamentos é tão fundamental que eles gostam de chamar a si mesmos de
praticantes, mais especificamente, de praticantes do dharma. Os cristãos, por
sua vez, orgulham-se de ser conhecidos como crentes ou fiéis. Sua
característica religiosa fundamental seria a crença em Jesus, ou mais especificamente,
no dogma de que Jesus é o Filho unigênito de Deus Pai, que veio ao mundo para
morrer na cruz para remir os pecados do mundo. Se observarmos a realidade da
vida do cristão comum, chegamos à conclusão de que o cristianismo não dá muita
importância às práticas espirituais. A transformação interior, baseada nos
ensinamentos e no exemplo de vida de Jesus, não constitui o objeto central da
religiosidade cristã, mas sim a atitude de crença nos dogmas e participação nos
rituais externos da Igreja, como a ida a missa ou ao templo.
Reiteramos, no entanto, que nossa comparação é com o cristianismo primitivo e
não com o cristianismo posterior ao Concílio de Nicéia, no início do quarto
século. A atitude das primeiras comunidades cristãs, mais tarde conhecidas como
gnósticos, era inteiramente diferente no que diz respeito às práticas
espirituais. Vale lembrar que nas primeiras décadas após a morte do Salvador,
os discípulos do Mestre eram conhecidos como “seguidores de Jesus” porque
procuravam emular o exemplo de vida de Jesus. Portanto, a prática espiritual
estava no centro da vida daquelas comunidades, conhecidas pelo termo grego
original de eklesia, ou seja, a assembléia dos praticantes. Isto pode ser
confirmado por uma passagem que escapou da tesoura dos censores posteriores,
numa epístola de Tiago: “Tornai-vos praticantes da Palavra”, ou seja, dos
ensinamentos de Jesus, “e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Se
tivermos a atitude passiva de ouvir a pregação do padre ou pastor no fim de
semana sem colocamos em prática em nossa vida diária os ensinamentos nela
contidos, não iremos muito longe na vida espiritual.
Uma análise mais aprofundada da Bíblia revela outras passagens em que Jesus
ensinava a importância da prática espiritual. Por exemplo: “Pedi e vos será
dado. Buscai e achareis. Batei à porta e ela vos será aberta”. Alguns “fieis e
crentes” julgam que esta passagem é uma licença do Mestre para pedirmos, no
atacado e no varejo, todas as benesses que queremos que Deus nos dê de graça.
As comunidades monásticas, para não dizer os místicos e santos, sempre souberam
a verdade, ou seja, que a prática espiritual é a essência da verdadeira
religiosidade cristã. Ora, como Deus é Espírito temos que pedir, buscar e bater
à porta de uma forma espiritual. Como é que nos comunicamos com Deus? Como
mostramos nosso amor a Deus? Como nos sintonizamos com Deus? A resposta óbvia
é: cumprindo a vontade de Deus, ou seja, agindo como Deus nos ensina através
dos seus grandes mensageiros, como Jesus e o senhor Buda. E o objetivo dos
ensinamentos de todo grande Mestre é sempre a mudança de vida do ser humano, da
vida mundana para a vida responsável voltada para o Alto em busca da perfeição,
que é a estatura da plenitude de Cristo.
Muito obrigado.
DEBATES
Pergunta
- Eu gostaria de perguntar qual é a visão, na sua perspectiva, do sofrimento
nessas duas tradições. Se existe um paralelo, se existe uma semelhança ou
existe uma contradição.
Raul
- A pedra fundamental do budismo está alicerçada na constatação do senhor Buda
de que a vida do homem é caracterizada pelo sofrimento. Esta é a primeira das
Quatro Nobres Verdades, o primeiro ensinamento ministrado pelo senhor Buda. O
segundo ensinamento foi o Caminho Óctuplo, a via para sair do sofrimento. Estes
foram seguidos por inúmeros ensinamentos ao longo de mais de cinqüenta anos de
ministério. Porém, todo seu ministério, todos os ensinamentos do senhor Buda
foram baseados na constatação de que o fator fundamental da vida do ser humano
é o sofrimento.
No cristianismo, como vimos anteriormente, a metodologia adotada foi bem
diferente. A do budismo é indutiva, de baixo para cima. A do cristianismo e de
todas as religiões teístas, é de cima para baixo. Então, no cristianismo, o
sofrimento acaba sendo uma constatação do que espera o ser humano, vivendo de
maneira egoísta, sujeito à lei de causa e efeito. Então, tanto a doutrina
budista como a doutrina cristã são fundamentadas na essência de todas as leis:
a lei de que no universo toda ação gera uma reação. Poderíamos começar na
física, com Lavoisier, que constatou, se ainda me lembro corretamente, que todo
corpo imerso num líquido gera uma força igual e contrária equivalente ao peso
do volume do líquido deslocado. Mas isto nada mais é do que a lei do carma no
mundo físico. Os grandes instrutores nos ensinaram que esta lei física também é
válida em todos os mundos.
Isto significa que estamos causando sofrimento a nós mesmos, cada vez que
nossas ações, palavras e pensamentos causam sofrimentos às outras pessoas. E a
magnitude do sofrimento que nos aguarda pode ser aquilatada pela intensidade e
freqüência com que causamos sofrimento às pessoas ao nosso redor,
principalmente àqueles que estão mais próximas a nós. Tanto causamos sofrimento
de forma direta, de mente pensada, como inadvertidamente pela ignorância. Na
verdade, a ignorância, nas duas tradições, é tida como a mãe de todos os erros.
Portanto, cada vez que causamos sofrimentos aos outros, estamos colocando em
ação a grande lei que vai fazer com que aquele sofrimento volte para nós como
um boomerang. Vale lembrar que Jesus incluiu em seus ensinamentos sobre ética
no Sermão da Montanha diversas passagens enfatizando o papel da lei de causa e
efeito. Uma das passagens mais diretas, declara: “Procurai acertar vossos
desentendimentos com os seus irmãos e irmãs enquanto estais com eles no
caminho, porque se não sereis lançados na prisão e de lá não saireis até
pagardes o último centavo”. Será que Jesus estava se referindo a uma prisão
como as que temos em nosso mundo? Podemos estar certos que não; a prisão a que
se referia era o corpo físico. Enquanto não pagarmos o último centavo do débito
cármico do sofrimento que causamos aos outros, não seremos libertos da prisão
do corpo físico, sendo condenados a retornar a este mundo. Podemos concluir,
portanto, que ao ensinar sobre a lei de causa e efeito e sobre a metanóia, a
mudança dos estados mentais que abre as portas do Reino do Céu, Jesus também
levou em consideração o sofrimento em seu ministério, ainda que de uma maneira
não tão explícita como o senhor Buda.
Pergunta
- Você falou num determinado momento que quando um budista alcança um grau mais
elevado, no caso estaria entre os poucos escolhidos, que ele usava os tantras,
não é isso? Isto me causa surpresa porque conheci algumas pessoas em Brasília,
que disseram, na linguagem deles, que o tantra se referia ao sexo, um ritual de
sexo mais do que outra coisa. Inclusive eu vi uma vez uma reportagem com o
seguinte título, Tantra, a Yoga do Sexo. E eu vejo muita relação a este
respeito com as pessoas que conheço em algumas entidades alternativas, nos
encontros que promovem. Portanto, gostaria de entender por que essa relação tão
forte. Existe algum fundamento entre tantra e sexo?
Raul
- Gostaria de lhe agradecer por essa pergunta. Num certo sentido, só ela
valeria esta reunião aqui. Porque é um tema em que existe uma imensa confusão.
É mais um exemplo das meias verdades e da desinformação que existe em certas
tradições sobre vários assuntos. Em particular, existe grande desinformação
sobre o tantra.
Durante a apresentação foi indicado que dos três níveis de realização dos
budistas, aqueles que estão mais avançados, os eleitos, que estão capacitados a
realizar as práticas mais avançadas, têm acesso aos tantras. Trata-se da tantra
yoga, a tradição vajrayana ou dos mantras sagrados. No entanto, vale lembrar
que a tradição tântrica é bem mais antiga do que o budismo. Desde a mais remota
antiguidade os tantras eram conhecidos dos hindus. Porém, como outros aspectos
da tradição hinduísta, os objetivos e práticas do tantra foram sendo
progressivamente deturpados e degradados, fazendo com que a parte realmente
esotérica do tantra fosse preservada e mantida em segredo por pequenos grupos
de iniciados.
Este é um assunto muito delicado. Uma abordagem mais profunda do assunto
demandaria um tempo considerável e teria que ser feita por alguém mais
capacitado do que eu. Procuraremos, no entanto, elucidar a questão dentro do
que me for possível falar sobre o assunto. Tantra também tem a ver com sexo.
Tantra é uma tradição antiqüíssima que já fazia parte dos Vedas e era somente
colocada à disposição daqueles que estavam preparados para ela. As práticas
trântricas têm como seu objetivo primordial a elevação da kundalini. A
kundalini, como já dissemos, é a energia telúrica, portanto, a energia do
centro da terra que também está dormente na base da coluna, no chakra básico,
quase tocando um outro chakra, o chakra sacro.
Com o despertar da kundalini, acende-se o fogo vivo que, entre outras coisas,
governa a reprodução, o processo criativo. A energia da kundalini, de
polaridade negativa, sobe pelos canais sutis da coluna vertebral até o centro
da cabeça onde se encontra com a energia positiva, ou ativa, dos mundos
espirituais. A união das duas polaridades de energia gera uma luz sutil de
grande intensidade, equivalente no mundo material ao relâmpago. Esse paralelo é
especialmente aplicável em virtude da lei das correspondências. Como o que está
em cima, é semelhante ao que está embaixo, o relâmpago é uma conseqüência da
união repentina da energia positiva acumulada nas nuvens e da negativa na
terra, que ocorre quando condições atmosféricas e energéticas muito especiais
propiciam este fenômeno.
No ser humano, a energia da kundalini, que se encontra dormente na base da
coluna, sobe até o chakra do centro da cabeça causando uma imensa expansão de
consciência. Esta expansão, geralmente acompanhada por um grande aumento da
capacidade intelectiva e da memória, deve-se à uma considerável ativação do
cérebro. Os cientistas sustentam que o homem comum só utiliza uns oito por
cento do cérebro. Os gênios usam de dez a doze por cento da capacidade
cerebral. Isto significa que, com a subida da kundalini para o centro da cabeça
ocorre então a gnosis. O “conhecimento”, ou gnosis, advém da expansão da
consciência, intelecto e memória. Esta transformação da capacidade cerebral pode
ser ativada por meios espirituais ou por meios mais terrenos.
É sabido que certas práticas sexuais podem ser usadas como um atalho para
facilitar o despertar da kundalini. Como essas práticas são verdadeiros atalhos
do processo evolutivo, independente do estágio espiritual do praticante, elas
são preferidas pelos irmãos da sombra, também conhecidos como da mão esquerda.
Conseqüentemente, elas podem gerar uma série de efeitos colaterais seríssimos.
Por esta razão não julgo apropriado a divulgação dessas práticas. No entanto
elas são conhecidas, como eram conhecidas na Índia antiga, e são praticadas por
alguns grupos supostamente esotéricos. O preço pago por esses aventureiros é
alto: alguns passam a freqüentar outras dimensões nem sempre agradáveis e ficam
loucos, outros retêm parte da kundalini no chacra sacro e tornam-se tarados
sexuais, enfim, tornam-se pessoas desequilibradas que acabam perdendo aquela
existência e talvez várias vidas, em virtude de terem se deixado levar por
práticas da esquerda. Devo dizer, portanto, que existem realmente tantras
sexuais que elevam a kundalini e despertam poderes.
A prática dos tantras entre os budistas, no entanto, está estruturada de forma
inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os postulantes, pelo menos nos
mosteiros, são selecionados com grande atenção ao seu estágio espiritual, o que
implica, por um lado, em elevada pureza interior e desapego das coisas do mundo
e, por outro, no compromisso de buscar a iluminação para o benefício de todos
os seres, ou seja o voto de bodhicitta. O tantra budista clássico tem quatro
níveis e nem todos os praticantes chegam ao último. As práticas envolvem o uso
de visualizações, de utilização do pranayama, que são práticas respiratórias
especiais e de certos exercícios de hata-yoga. A literatura budista menciona
que, em alguns casos excepcionais, alguns praticantes avançados recebem a
sugestão de seu guru para aprofundar o êxtase por meio do que chamam
eufemisticamente de mudras, ou seja, de práticas sexuais apropriadas. O que é
característico do tantra budista, porém, é o abundante uso da simbologia sexual
seja na literatura seja nas mandalas incluindo divindades masculinas em abraços
íntimos com suas dakinis.
No cristianismo primitivo, o sacramento mais elevado instituído por Jesus era
chamado de Câmara Nupcial. Não pode haver uma simbologia sexual mais clara do
que as implicações de uma Câmara Nupcial. Não podemos nos esquecer que estamos
tratando da tradição cristã, de um profundo ensinamento de Jesus. Mas isto não
é tudo em nossa tradição. Um grande místico cristão belga, Jan Ruysbroeck,
escreveu um livro com o título de “Adornos do Casamento Espiritual”. Este é
mais um exemplo de como a simbologia sexual sempre acompanhou todas as
tradições espirituais, porque o sexo é uma coisa divina, é uma coisa natural.
Natural quando é usado de forma natural e, não, deturpado com toda série de
conotações que bem conhecemos em nossa cultura.
Portanto, as tradições espirituais sempre usaram a simbologia mais natural
possível, que é a união do positivo com o negativo. E, com a união do positivo
e do negativo, dentro das condições biológicas ideais, o que ocorre? A
fertilização e o posterior nascimento de um novo ser. Esta simbologia é
exatamente a simbologia necessária para o entendimento do tantra em que a união
da força telúrica com a espiritual, no centro da cabeça, gera um novo ser. O
novo homem, o novo Cristo que nasce então. A primeira iniciação é exatamente
isso, é o nascimento do Cristo interior. É o resultado da união das energias
divinas, positiva e negativa, decorrente da subida da kundalini. Mas, nesta
pessoa, o Cristo será ainda um recém nascido; Ele vai ter que crescer e passar
por vários estágios de desenvolvimento até tornar-se um homem perfeito, a
estatura da plenitude de Cristo. Terá que passar por uma série de subidas da
kundalini resultando em progressivas expansões de consciência até que a pessoa
possa alcançar um estado de permanente bem-aventurança de união com o divino em
si mesmo, quando então saberá que todo o poder, sabedoria e amor divinos estão
a sua disposição.
Ísis
- Eu tenho uma pergunta que espero não ser mal interpretada. Mas é um ponto que
certamente faz parte das minhas preocupações e talvez de outras pessoas aqui.
Você falou do budismo mahayana completamente existente hoje em dia sob a
liderança do Dalai-Lama, que é best-seller de vendas de livros no Brasil, e
falou no cristianismo primitivo, não no cristianismo atual. A pergunta é: há um
cristianismo primitivo hoje, como nós encontramos no budismo mahayana hoje que
pode ser uma fonte de elevação espiritual, como você colocou?
Raul
- A Ísis sabe a resposta. Ela está levantando a bola na área para seu
companheiro de equipe dar um chute a gol. Então, como nós pertencemos ao mesmo
grupo de estudo da tradição cristã, vou agradecer a bola levantada e fazer a
minha parte.
Existe um cristianismo primitivo que ainda sobrevive hoje. A partir do início
do século IV, quando Constantino, Imperador de Roma, adotou o cristianismo como
religião oficial do Império Romano, ele forçou uma simplificação dos
ensinamentos de Jesus e das práticas espirituais preconizadas pela Igreja.
Lembremo-nos que desde os tempos do ministério de Jesus, havia práticas avançadas,
práticas intermediárias e as práticas para os catecúmenos, ou seja, para os
principiantes, o povo em geral. Constantino, porém, com sua preocupação
política de unificação, exigiu que somente as práticas para o povo, com algumas
das práticas para o grupo dos intermediários, fizessem parte da religião
oficial do Império Romano.
Aqueles que professavam outros ensinamentos e práticas foram tratados como
hereges. O termo herege significa dissidente, mas depois de algum tempo,
conotações posteriores fizeram com que o termo passasse a denotar errôneo.
Conseqüentemente, o Estado e a Igreja passaram a perseguir os hereges, como
perseguiam todos os grupos potencialmente desagregadores do poder imperial; que
continuaram a ser perseguidos até bem pouco tempo atrás. Apesar das
perseguições sanguinárias que ceifaram milhões de vidas ao longo dos séculos,
ainda assim sobraram, aqui e ali, alguns grupos daqueles praticantes mais
avançados do cristianismo primitivo. Esses, aprenderam ao custo de muitas vidas,
que para a sua sobrevivência tinham que adotar o anonimato e seguir com suas
práticas em segredo, como já tinham feito as Escolas dos Profetas, as Escolas
dos Mistérios e tantos outros grupos verdadeiramente esotéricos.
Apesar do zelo eclesiástico na destruição dos textos não canônicos ao longo dos
séculos, ainda assim alguns daqueles textos foram preservados. Quis a
providência divina que em 1945 fosse encontrado um conjunto de textos
condenados pela Igreja, que veio a ser chamado de Biblioteca de Nag Hamadi, o
nome da comunidade no Alto Egito onde foram encontrados. Os textos estavam
dentro de um grande vaso enterrado numa caverna perto do mosteiro de São
Pacômio, no Egito, com documentos escritos em grego e principalmente em copto,
a língua do Egito naquela época. A razão deste tesouro literário ter sido
enterrado na caverna, ao que tudo indica, foi que, em meados do século IV o
bispo de Alexandria, tinha sido informado que em muitos mosteiros ainda eram
ministrados ensinamentos gnósticos do cristianismo primitivo baseados em textos
mantidos naqueles mosteiros, que eram proibidos pela Igreja. O bispo, mandou
então alguns de seus prelados com um destacamento de soldados para cumprir a
lei. Ou seja, confiscar todos aqueles escritos que não se conformassem com a
ortodoxia e queimá-los. Ao que tudo indica, os monges, informados do que tinha
acontecido em outros mosteiros, pegaram seus documentos preciosos e os
enterraram dentro de uma jarra bem fechada que sobreviveu dezesseis séculos,
sendo finalmente encontrados em meados do século passado.
Assim como os monges do mosteiro de São Pacômio tiveram a preocupação de
esconder seus textos, eles também conseguiram esconder suas práticas avançadas,
as práticas dos sacramentos. As práticas dos sacramentos esotéricos de cunho
iniciático, ministrados por Jesus a seus discípulos avançados, foram
preservadas em alguns mosteiro que mantinham poucos contatos com a população
local e menos ainda com a hierarquia clerical. Quando começamos a estudar com
mais atenção o cristianismo esotérico, podemos perceber que, aqui e ali, alguns
padres e monges estão dizendo coisas que diferem da ortodoxia. Cada vez mais
encontramos membros do clero com a mente mais aberta, aceitando conceitos
inovadores como reencarnação e meditação.
Como podemos explicar isso? Tudo nos leva a crer que em certos grupamentos
religiosos, principalmente mosteiros, as tradições do cristianismo primitivo
foram mantidas. Mas é lógico que ao longo de vinte séculos muito foi perdido.
Dentre esses centros destacam-se os mosteiros de Monte Atos. Monte Atos é uma
pequena comunidade autônoma da Igreja Ortodoxa Grega, situada numa península no
norte da Grécia. Monte Atos permanece há muitos séculos como uma entidade
política separada. Por esta razão, os monges de Monte Atos, puderam manter, com
muita cautela, suas práticas do cristianismo primitivo. Um estudioso americano,
que passou vários anos em diferentes mosteiros de Monte Atos, escreveu um livro
sobre as práticas que presenciou naqueles mosteiros, com o título sugestivo de
“Um Cristianismo Diferente”.
Pergunta-
Quais são os cinco sacramentos?
Raul
- Os cinco sacramentos, como foram estabelecidos por Jesus e apresentados no
Evangelho de Felipe, são: Batismo, Crisma, Eucaristia, Redenção e Câmara
Nupcial. Os três primeiros têm um certo paralelo com os sacramentos como são
apresentados hoje em dia pelas igrejas católicas e protestantes. Os outros
dois, não.
Pergunta-
O senhor se referiu a sofrimentos que nós poderíamos, talvez, consciente ou
inconscientemente, causar a outras pessoas. Creio, porém, que os grandes
ensinamentos vieram trazer grandes transformações na sociedade e, com certeza,
trouxeram também aborrecimentos e até sofrimentos para diversos grupos. Como é
que o senhor veria esse sofrimento? Porque o senhor falou do sofrimento que
gera sofrimento, no caso, que talvez venha, volte, uma coisa assim. Então, como
o senhor veria esse sofrimento que não se faz de propósito, com uma negativa,
uma atitude que acha que tem que tomar, que toma em benefício dos seus
familiares, por exemplo, mas que venha a causar sofrimento?
Raul
- Agora estamos falando da coerência na vida espiritual. Veja só, minha amiga.
Sabemos que Jesus e Buda foram instrutores realmente maravilhosos porque Eles
viveram os ensinamentos que pregaram. Eles foram inteiramente coerentes com o
que ensinavam. O que Eles pregavam Eles faziam. Por outro lado, pelo fato de
sermos ainda muito imperfeitos, nós muitas vezes estamos bastante adiantados no
conhecimento teórico dos ensinamentos dos Mestres, da realidade da vida, do
lado interno da religião, mas ainda somos muito tímidos na prática desses
ensinamentos espirituais e religiosos. Por isso, na nossa vida diária, muitas
vezes causamos sofrimento àqueles que estão ao nosso redor, porque ainda somos
imperfeitos. E a única maneira de nós conseguirmos escapar dessa roda do
sofrimento que nós causamos aos outros e, portanto, causamos a nós mesmos, é
nos transformarmos. E para nos transformarmos temos os instrumentais das
diferentes tradições. Se você for uma budista conscienciosa, se for uma
gnóstica conscienciosa, qualquer que seja sua tradição, se você vivenciar de
coração os ensinamentos de sua tradição, você gradativamente vai se
transformar.
Você conhece o ditado popular que o hábito é uma segunda natureza, não é
verdade? Então, nós adquirimos certos hábitos na maneira de falar com as
pessoas. Às vezes somos um pouco secos, um pouco ríspidos, não damos atenção,
não somos sensíveis às expectativas dos outros. Enfim, toda uma série de
hábitos no falar que adquirimos em nosso dia-a-dia causam sofrimento aos
outros. Admito que você não faça coisas com a intenção de que “eu vou castigar
esse camarada, ah, ele vai ver”, não. Mas em virtude de hábitos errôneos,
hábitos que não refletem o amor que já está começando a fluir do nosso coração,
vamos continuar causando sofrimento aos outros por algum tempo, até
conseguirmos fazer o que o Apóstolo Paulo disse: “não vos conformeis com a
vossa atual situação. Transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Isto
significa que temos que fazer uma transformação interior. Temos que fazer o que
Krishnamurti disse, esquecer o passado, mas esquecer no sentido de que o
passado está presente em nós através dos nossos condicionamentos. E isso infelizmente
é um trabalho de longo prazo. Por mais que a gente queira ser bonzinho e só
agir com amor, em virtude dessa bagagem dos condicionamentos, ainda vamos
causar sofrimento para os outros, pois a verdadeira transformação é sempre
gradual.
Muito obrigado. Uma boa noite a todos.

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