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Pedro Oliveira

TEOSOFIA, SABER LIBERTADOR
Existe sempre um risco para aqueles que se interessam por assuntos teosóficos
ou espirituais, por natureza vastos e abrangentes e que abarcam áreas tais como
a metafísica, a psicologia, a filosofia, até mesmo aspectos da cosmologia e da
antropologia, de não perceberem qual é a essência do ensinamento. Quando falo
do ensinamento teosófico não me refiro aos ensinamentos da Sociedade Teosófica
(S.T.), porque a Sociedade como um agrupamento de pessoas não possui
ensinamento especial, muito menos uma doutrina oficial.
A
Teosofia é descrita como sendo a Sabedoria Divina que está presente no coração
de todas as religiões, de todas as culturas, de todas as filosofias. Portanto,
não é um patrimônio da S.T., mas, quando se fala de ensinamento teosófico,
referimo-nos ao ensinamento universal que responde, pelo menos em parte, às
três perguntas fundamentais acerca da nossa origem, do nosso futuro, enquanto
seres humanos, e do significado da nossa existência aqui e agora. A Teosofia é
uma filosofia eterna, uma visão ampla do processo evolutivo no qual estão
imersos não apenas todos os seres humanos mas todas as formas de vida e todos
os inumeráveis mundos que habitam este nosso Universo. A Teosofia lança luz
sobre todos esses processos.
Em
urna obra como A Doutrina Secreta, vemos a descrição do despertar do Cosmos, o
seu progressivo desabrochar através das suas várias etapas até o surgimento da
vida sobre o planeta Terra. No volume da Antropogênese de A Doutrina Secreta,
encontramos o surgir da vida humana, os primórdios da evolução da vida humana
através de vários estágios até o atual.
PERIGOS DO SABER
Ora,
corno esse panorama evolutivo é vasto e como o ensinamento teosófico é
igualmente vasto e amplo, muitas vezes corre-se o risco de o estudante perder
de vista o que é fundamental e essencial no estudo teosófico, porque, como já
foi dito, o estudo teosófico não é apresentado ou colocado à disposição das
pessoas para mero deleite pessoal. Aquele que conhece mais do que o seu
semelhante, contrai uma responsabilidade ética por esses conhecimentos. Uma pessoa
que não sabe, por exemplo, a natureza do poder do pensamento, não tem a mesma
responsabilidade quando emite pensamentos de ódio, de ira, de ciúme, do que uma
pessoa que estudou e sabe o poder que a energia do pensamento exerce sobre os
nossos semelhantes, sobre outras formas de vida.
O
conhecimento traz responsabilidade. Aliás, no mundo de hoje, em todas as áreas
da atividade humana, emerge uma discussão insistente e urgente sobre a ética —
na Medicina, na Política, na Economia, no Comércio. A própria Ecologia, que nos
últimos anos experimentou um avanço imenso no despertar das consciências, traz
no seu seio a preocupação da ética planetária, da nossa responsabilidade para
com o planeta. Assim, o estudo teosófico obriga-nos a tomar, de um modo
progressivo, consciência da nossa responsabilidade perante a vida, ou seja,
perante os nossos familiares, perante o ambiente que nos cerca e perante o
mundo como um todo. Isto é importante. Por quê? A Teosofia, quando corretamente
compreendida, ou seja, não apenas como um conhecimento intelectual, não apenas
como uma exposição ampla, abrangente dos processos da vida, leva-nos a uma nova
visão da vida e, conseqüentemente, a um novo tipo de conduta. Isto é tão certo
quanto o amanhecer em cada dia. Ninguém estuda Teosofia impunemente. A
consciência da pessoa foi alargada pelos estudos teosóficos e isto traz consigo
responsabilidades. Responsabilidades que não são impostas por ninguém, mas por
ter a consciência, ao despertar, alargado a sua compreensão. E, portanto, não
seria exagero dizer, na minha maneira de ver o assunto, que a essência da
compreensão teosófica é aprender como viver no presente, aprender como
responder aos desafios do presente, aprender a extrair lições significativas no
momento presente e o valor de cada relacionamento, de cada contato.
TEÓSOFO, SABER DE EXPERIÊNCIA PRÓPRIA
HPB
afirmou que o teósofo não é necessariamente um membro da Sociedade Teosófica.
Lawrence Bendit, ilustre teósofo inglês já falecido, declarou, durante uma
convenção da S.T. na Inglaterra, que esta abre suas portas aos teósofos, o que
significa um reconhecimento implícito de que existem milhares e milhares de
pessoas que estão buscando essa forma de vida que a Teosofia, como sabedoria de
vida, como visão global da existencia, apresenta. Assim, compreender a Teosofia
é assimilar os seus ensinamentos por nós mesmos, não significa ler um livro e
aceitar as idéias do autor. Quando uma pessoa lê e aceita as idéias do autor,
tem uma mente que não é muito diferente de uma esponja. Ela absorve
conhecimentos que para a pessoa se tornam conhecimentos de segunda mão, porque
não empreendeu nenhum trabalho na sua reflexão. O Senhor Buddha foi um dos
maiores instrutores espirituais que a humanidade produziu. Segundo o ensinamento
teosófico, foi o primeiro ser humano que alcançou um estado de completa
iluminação.
O
Senhor Buddha, chamado Mestre dos Mestres, é filho desta humanidade. Ele teria
dito o seguinte: "Não aceitem uma verdade porque a tradição disse que é
verdade, porque os sábios dizem que é verdade ou porque eu digo que é verdade.
Só deveis aceitar alguma coisa como verdade, quando ela tiver passado pelo
crivo do vosso próprio raciocínio. Só então isso é verdade para vós".
Existe uma diferença profunda entre os princípios, premissas e fundamentos que
compõern a literatura teosófica e a Verdade. Sri Shankaracharya, um dos maiores
mestres da Índia, um dos grandes expoentes da filosofia Vedanta, afirmou:
"A beleza da Lua deve ser vista com os nossos próprios olhos; ninguém pode
vê-la por nós". E disse também: "Quando estamos doentes, precisamos
tomar um medicamento; não adianta outro tomá-lo por nós. Somos nós que
precisamos tomar esse medicamento". Portanto, a Teosofia só deixa de ser
um ensinamento intelectual e teórico para passar a ser sabedoria, quando
assimilamos e refletimos repetida e profundamente sobre essas verdades
teosóficas, que são verdades para aqueles que as experimentaram.
A UNIDADE ESSENCIAL: HOLISMO
A
verdade da unidade da Vida forma a pedra angular de todo o ensinamento
teosófico. A verdade acerca da absoluta indivisibilidade da Vida é um preceito
fundamental de todas as posições teosóficas. Mas só passa a ser verdade para
nós quando a experimentarmos, mesmo que de um modo parcial. A percepção de que
tudo na Natureza está integrado, de que existe uma harmonia subjacente a todas
as coisas, de que existe ritmo, ordem, simetria, proporção, graça na Natureza,
é o prenúncio de uma experiência mais profunda da unidade. A harmonia da
Natureza é, por assim dizer, o cântico da unidade da Vida. A unidade que é,
para sempre, indescritível.
Os
místicos de todas as idades e de todas as culturas são unânimes ao afirmar que
a experiência da indivisibilidade da vida, da unidade da vida é intraduzível, é
incomunicável. É por isso que muitos deles utilizam metáforas e paradoxos.
Meister Eckhart, um dos maiores místicos cristãos, que viveu no século XIII na
Alemanha, monge dominicano, afirmou: "o olho pelo qual vejo Deus é o mesmo
pelo qual Deus me vê". Ora, ele teve problemas com a Inquisição porque os
inquisidores quiseram saber de onde tirara uma afirmação dessas. E esta
afirmação descreve o estado de profunda unidade, porque não existe uma
separação entre o homem que vê e Deus que vê, ou seja, o olho, que é o mesmo,
significa o estado de perfeita comunhão com o Divino.
Um
outro místico afirmou que contemplamos aquilo que somos e somos aquilo que
contemplamos. Tudo isto reforça o fato de que precisamos empreender os nossos
estudos de uma maneira prática, precisamos, como disse a tradição cristã, dar o
nosso próprio testemunho.
A VERDADE E O BEM EXISTEM EM NÓS
CAUSAS DE BLOQUEIO
Não é
suficiente conhecer mais, embora isso possa ser bom e útil, mas viver aquilo
que se conhece é melhor e mais útil. O livrinho "Aos Pés do Mestre",
pequeno em extensão mas enorme em conteúdo, apresenta, de uma maneira simples,
os preceitos da ética teosófica, ou seja, uma vida pautada pelo altruísmo, pela
consideração pelos nossos semelhantes, pelo discernimento, pelo desapego em
relação às coisas que não são essenciais, ensinamentos estes que preparam uma
pessoa para uma experiência de comunhão mais profunda, que nos preparam para
uma experiência de contato com a Verdade que está oculta dentro de nós. A
verdade não está distante de nós. Buscar a Verdade não significa seguir uma
direção externa. Buscar a Verdade é eliminar os obstáculos internos, que
existem dentro de nós, para que a Verdade brilhe. O próprio Shankaracharya
disse que no mundo existem diferentes potes de argila, decorados de formas
diversas, com cores diversas, com tamanhos e formas diversos, mas todos eles
são essencialmente argila. Esta percepção da unidade da vida, da inter-relação
de todas as vidas e de todos os fenômenos, de todos os seres, é a experiência
do presente.
No
livro "Espaço, Tempo e Medicina", alude-se ao diagnóstico de uma nova
doença, chamada de a doença da pressa. É a continua preocupação com o tempo,
com o relógio. Essa doença causa tensão, pressão alta, problemas cardíacos e
até mesmo cancer. Se tivéssemos de definir a nossa civilização atual,
poderíamos dizer que ela é a civilização da pressa e do barulho. Os seres
humanos produzem um barulho ensurdecedor. O barulho que a civilização humana
produz é tão grande, e estamos de tal modo acostumados a ele, que, quando vamos
para o campo, o silêncio agride os nossos ouvidos. Onde existe um grupo de
seres humanos, existe barulho. Ora esse barulho não é apenas o barulho externo.
Mesmo quando não estamos falando nada, existe um barulho interno, existe a
ruminação constante do pensamento, das lembranças, da memória. O corpo pode
descansar, mas observado mais atentamente, o que se verifica de fato é que ele,
na verdade não descansa. Uma parte do corpo descansa, os músculos talvez, mas o
cérebro continua com uma atividade incessante. Se observarmos o comportamento
de uma pessoa que dorme, as suas pálpebras movem-se, o seu corpo contorce-se;
isto significa uma atividade cerebral que continua mesmo durante o sono.
A
civilização atual criou formas de lazer que são destrutivas e violentas,
desportos que envolvem alto risco de vida, como o automobilismo, o boxe e
tantos outros. Existem modos de lazer que são violentos, embora não tenham uma
violência explícita, como o boxe, mas uma violência sensorial. Hoje em dia, é
muito comum vermos pessoas na sexta-feira à tardinha, depois do expediente,
passarem por uma vídeo-locadora e levarem 10 vídeos para consumirem no seu
tempo de lazer no fim-de-semana, sempre consumindo imagens, sensações, imagens,
sons, imagens. O que hoje se chama de lazer é a progressiva e absoluta
supressão de todo e qualquer espaço de reflexão. Perdemos a capacidade de nos
sentarmos e contemplar. Uma das escolas da tradição espiritual — o Zen — é
definida por alguns autores como a arte de estar sentado. Não pensar em
técnicas mirabolantes de meditação, mas simplesmente alcançar um estado de
completo repouso do corpo, dos sentidos e da mente, para que o indivíduo possa
ver o instante, ver o presente, lançar um olhar despreocupado e desinteressado
sobre o presente e, portanto, captar o significado do presente, que, em última
análise, leva á experiência da unidade.
Ora,
tudo isso evidencia uma condição da mente. Da mesma forma, os vícios, o
alcoolismo, as drogas, as diversas e inúmeras formas de perversão que os seres
humanos desenvolveram, mostram claramente uma inabilidade congênita de viver o
momento presente. Só uma pessoa que é incapaz de aceitar o momento presente,
tal como ele é, vai procurar as inúmeras formas de barulho, tanto explícito
como implícito.
Um
autor americano ilustrou essa incapacidade de viver o momento presente. A
imagem que ele criou foi a seguinte: vê-se um homem sentado na sua cadeira
predileta, a assistir o seu filme predileto, comendo bolachas e tomando leite.
Este é o quadro que ele cria. De repente acaba-se o leite, e este é importante
porque completa este quadro de desfrute sensorial. Não basta a melhor poltrona,
o melhor filme, ele quer beber leite com bolachas. Só assim o ritual se
completa. Então, ele sai de casa e vai ao supermercado que fica a cinco minutos
da sua casa. Vai lá e volta. Nessa ida ao supermercado, passa por pessoas,
animais, árvores, plantas, arbustos, prédios, pássaros, o céu azul. Se o
movimento dos corpos, com os quais se cruza, tivesse de ser descrito em
linguagem matemática, ocuparia pilhas de papel. No entanto. se alguém
perguntar, quando ele chega em casa, o que aconteceu, ele dirá: "nada, não
aconteceu nada, só fui ao supermercado e voltei", ou seja, a consciência
está tão escravizada por esta ânsia de gratificação sensorial que se torna
sonâmbula para a realidade. Ela não percebe a realidade. Esta torna-se um vulto
no panorama da vida. Não existe clareza de percepção, o que significa que a
consciência fica aprisionada em atos mentais mecânicos e irrefletidos. Cada vez
que o indivíduo senta-se na sua poltrona para ver o seu melhor filme, a comer
bolachas com leite, reforça esse hábito, esse sulco mental. Não estou dizendo
que não seja bom estar sentado na poltrona. assistir à televisão e comer bolachas
com leite. Isto é só um exemplo, não me entendam mal. Também gosto de comer
fruta de vez em quando e quase sempre a mesma hora. É apenas um exemplo para
mostrar como a consciência se aprisiona a esses atos mecânicos. Isso envolve
uma inconsciência comportamental que é nutrida, que e alimentada pela
desatenção. Somos capazes de passar por pessoas conhecidas sem as cumprimentar.
Não necessariamente porque não gostemos dessas pessoas, mas porque estamos tão
ocupados conosco mesmos que esquecemos.
Um
autor inglês, membro da S.T., afirmou que, infelizmente, gastamos a maior parte
das nossas vidas justificando-as ao invés de vivê-las. E viver a vida significa
estar disponível para as experiências, assimilá-las, aceitar aquilo que nos
acontece e não meramente justificar dizendo que agimos certo ou errado. Tudo
isto mostra que aquilo a que chamamos tempo é, na verdade, uma criação
psicológica.
A
Doutrina Secreta afirma que o tempo é uma ilusão criada pela sucessão dos
nossos estados de consciência à medida que viajamos através da duração eterna,
o que significa que, no mundo da natureza, no mundo das coisas que são, nesse
mundo que está livre dessa experiência psicológica que é inerente à experiência
humana, nesse mundo não existe a fragmentação do tempo. O tempo é duração, ou
seja, é uma pura expansão.
Os
animais são felizes porque se contentam em viver o momento presente. E é muito
interessante notar que determinados animais passam a sofrer de depressão devido
ao convívio com os seres humanos, porque é fácil, pela proximidade, assimilar
determinados padrões. Mas um animal deixado no seu habitat próprio é feliz.
Está contente por procurar o seu próprio alimento, por correr, por brincar, e
dessa forma desfruta dessa felicidade inerente. Claro que nele não existe de
forma ativa o princípio mental; este existe nele de forma potencial. E é o
princípio mental, com todas as complicações que traz, quando se vincula ao
princípio do desejo, quando se vincula às atividades da memória, que cria um
ser humano muito complicado, cheio de exigências. O ser humano cria, entre ele
e um outro semelhante e entre ele e o mundo, a figura do "se". Aceito
Fulano se ele me aceitar. Faço isso se tudo estiver de acordo com estas
condições.
SIGNIFICADO DO ESPAÇO-TEMPO
O
tempo tem uma natureza psicológica — o tempo como passado, presente e futuro.
Na verdade, o passado, o presente e o futuro são construídos pelos conteúdos
das idéias da nossa consciência. Fragmentamos a experiência porque não conseguimos
assimilá-la tal como é, depositamos a experiência no porão do passado e
extraímos desse porão, desse depósito da memória, lembranças, pensamentos,
idéias, motivações. Até mesmo as nossas expectativas em relação ao futuro, se
forem examinadas detidamente, não são sobre o futuro em si, mas retiradas da
memória. Ou seja, conheço uma pessoa ou uma situação; tive uma experiência. Se
ela foi agradável, o seu registro agradável está depositado na memória; essa
experiência passa e esqueço-a de momento. Se alguma das circunstâncias
presentes naquela experiência voltar a se repetir, imediatamente,
automaticamente, a memória evoca essa experiência, ou evoca o desejo de repetir
essa experiência.
A
ciência de hoje reconhece que espaço e tempo não são grandezas diferenciadas,
distintas. Após o enunciado da Teoria da Relatividade, por Einstein, sabe-se
que vivemos num contínuo espaço-tempo. Não há espaço sem tempo, nem tempo sem
espaço. É um contínuo fluir. São grandezas inter-cambiantes, inter-relacionadas
e, portanto, se na nossa experiência existe esta fragmentação de passado,
presente e futuro isto apenas quer dizer que a nossa consciência está
fragmentada. Existe um elemento da consciência humana que fragmenta esse fluir
porque essa fragmentação só existe na experiência humana. Não existe na
experiência dos outros reinos da natureza. É claro que os animais também agem
por instinto, também têm memória. Por exemplo, um animal que é agredido, guarda
a impressão dessa agressão, mas, quando essa experiência passa, segue a sua
vida normalmente: vai voar, vai brincar, vai buscar o seu alimento, O que
acontece com o ser humano que é agredido? Não digo fisicamente, mas
verbalmente. Talvez passe dias recompondo-se dessa agressão. Vejam como a mente
humana deita raízes profundas na consciência. Distorce-a, limita-a,
condiciona-a. Qual é o papel da memória no processo? A memória é, na verdade,
de natureza material. É o substrato onde estão depositadas todas as nossas
lembranças, todos os acontecimentos; é a base, a substância que dá origem ao
pensamento. Se não tivéssemos memória não pensaríamos. O pensamento pode ser
definido como uma reação da memória. Um exemplo: vi uma caneta muito bonita
numa vitrine. Fiquei muito impressionado com ela e tive desejo de a possuir, Se
for visitar um amigo e, por acaso, estiver sobre a sua escrivaninha uma caneta
igual, o desejo de a possuir, não a do meu amigo, claro, mas a outra, vai
apresentar-se de novo automaticamente. Não é preciso pensar nisso. É uma reação
automática.
O MENTAL: ESCRAVIZANTE E SEPARATISTA
Houve
um diretor francês de cinema, chamado Alain Resnais, que na década de 70 fez um
filme muito interessante sobre o comportamento humano: O Meu Tio da América.
Era um estudo profundo sobre o comportamento humano. Teve, inclusive, como
consultor, um grande psicólogo e comportamentalista. O filme descreve várias
situações labirínticas em que os seres humanos se metem: relacionamentos
interpessoais problemáticos, ódios, desavença, perversão, ciúme. No final um determinado
ator diz: "O que vimos durante este filme foi o modo como o cérebro humano
funciona".
Se
não conseguirmos descobrir uma nova maneira de funcionamento do cérebro humano,
a civilização humana estará condenada ao extermínio, porque significa perpetuar
a divisão, a separação, o conflito, a suspeita. Assim, a memória tem um papel
vital no comportamento das pessoas. A mente humana, num dos seus aspectos,
funciona através da atração e da repulsão. No livro As Cartas dos Mahatmas a A.
P. Sinnett, que descreve a correspondência que dois eminentes membros da S. T.
da Índia tiveram com os Instrutores de H.P.B., diz-se que o amor e o ódio são
os dois únicos sentimentos imortais. Poderiamos dizer: como se pode atribuir
imortalidade ao ódio? Pergunto: o que acontece na Irlanda do Norte, onde
gerações e gerações de pessoas nascem com a plena disposição de considerar o
católico como inimigo e este considerar o protestante também como um inimigo? O
que acontece no Oriente Medio entre árabes e judeus? O que está acontecendo
agora na Europa em relação aos imigrantes, em que partidos políticos crescem em
votação com um discurso xenófobo em relação às pessoas vindas de outros paises?
Isto é, na verdade, a perpetuação do ódio como sentimento básico da alma humana.
De fato, a alma humana só tem duas emoções básicas: o amor e o ódio.
Existe uma série de emoções que se ramificam do lado do amor; e outras que se
ramificam do lado do ódio. As emoções do lado do ódio sempre causam separacao.
A inveja, o ciúme, a suspeita, a má-vontade, tudo isso está enraizado no
sentimento básico de ódio. A compreensão, a humildade, a generosidade estão
enraizadas no sentimento básico de amor. Um autor que pesquisou isto, disse:
"às vezes as pessoas acham que uma boa ação ou uma ação altruísta deve ser
uma ação dramática e teatral de renúncia em relacao aos demais. Contudo, a
pequena ação de urbanidade, de cortesia, por exemplo, numa fila ou em algum
outro lugar, essas pequenas ações de civilidade ajudam a lubrificar as engrenagens
da vida. Esta fica mais fácil, se soubermos expressar na nossa vida ações de
simpatia e de compreensão".
Radha
Burnier, a nossa atual presidente, disse que a palavra compaixão é muito grande
para nós: a compaixão semelhante à do Buddha, uma compaixão ilimitada por todos
os seres sencientes. Diz-se que para todo o indivíduo que segue o caminho
budista, a aspiração principal não é alcançar a iluminação, não é alcançar o
poder, não é alcançar a sabedoria. A sua aspiração fundamental é alcançar um
estado de compaixão e benevolência para com todos os seres.
A MEMÓRIA E O PENSAMENTO
CAUSAS DE ESCRAVIDÃO
Vejamos como a memória é a fonte de pensamento e impede-nos de encararmos as
coisas como se fosse pela primeira vez. Ora, examinada mais atentamente, vemos
que a memória, sendo a fonte do pensamento, provoca uma continua acumulação de
conteúdos na consciência e, portanto, aquilo que chamamos de percepção não é
uma percepção direta da coisa como ela é, mas um reconhecimento, ou seja,
aquilo que parece percepção é, na verdade, a visão de uma pessoa ou de um
objeto ou de qualquer outra coisa, o evocar dessa objeto presente na memória e
depois e definição desse objeto pelo pensamento e pela linguagem. Existe uma
árvore, por exemplo, aqui em frente, nesta rua; estamos acostumados a vê-la
desde que viemos para cá. Quando olhamos para essa arvore, imediatamente,
automaticamente, pensamos: esta é a mesma arvore que sempre vejo.
Um
autor disse que a familiaridade, o reconhecimento, produz desprezo, desatenção.
Todos nós, quando vemos repetidamente uma coisa, acabamos por ficar
indiferentes a essa coisa, a essa pessoa ou a essa experiência, pelo processo
da automatização. Por isso, a percepção de nós mesmos, a percepção dos nossos semelhantes,
da vida, dos desafios da vida, nunca é uma percepção pura, nunca é uma
percepção do presente, mas é sempre um reconhecimento, que é uma leitura do
presente pelas lentes do passado, o que gera a mecanicidade da rotina na vida
humana. Portanto, fecha-se o ciclo dos modos de lazer violentos. Já que existe
mecanicidade e rotina, já que nada de novo acontece, porque a percepção está
presa a este ciclo automático de estímulo e resposta, existe ou
"cria-se" a necessidade de estímulos externos. Então o indivíduo
precisa beber, realizar qualquer tipo de atividade estimulante que lhe mostre
que está vivo. Isso cria um vazio interior que, por sua vez, e alimentado por
essa falta de percepção.
Um
grande mistico sufi, Jalaluddin Rumi, foi um dos maiores poetas islâmicos. O
sufismo é a tradição interna, esotérica do Islamismo. Rumi uma vez afirmou:
"O sufi é filho do tempo presente". Vejam como numa simples frase ele
define todos os estados da consciência, todos os estados de maturidade interior.
Ser filho do tempo presente significa que nada do passado influi sobre a nossa
experiência. Não existe mais essa tendência neurótica em relação ao passado.
Ser filho do tempo presente significa experimentá-lo tal como ele acontece,
compreender as coisas agora, não olhar através da lente do preconceito, do
conhecimento prévio, o que é, em si, um grande desafio. Isso implica um
despertar da consciência. Por que um despertar? Por que até então a consciência
estava apenas repetindo os automatismos. A resposta da consciência desperta
torna-se, desta forma, numa percepção da verdade inerente às coisas. A verdade
das coisas significa as coisas tais como elas são e não como as imaginamos.
Porque será que uma mãe que tem um filho excepcional, mongolóide, continua, apesar
da aparência externa deformada, às vezes até monstruosa, a dar afeto, carinho,
atenção a um ser que as pessoas consideram horrível? É porque ela percebeu a
beleza interior daquela pessoa. É porque a sua percepção, guiada por esse afeto
e compreensão, fez com que ela alcançasse o interior daquela criatura.
Podemos, portanto, concluir que a vida só é possível no presente. Apesar da
nossa dependência crônica em relação ao passado, a vida só é possível no
presente e, por isso, a percepção, o significado e o valor só podem ocorrer no
presente. Não é possível conhecer o valor de uma coisa no futuro. Não podemos
dizer: não, agora estou muito ocupado, estou cheio de problemas; daqui a uns
anos vou conhecer estas coisas, vou-me interessar por elas.
Krishnamurti disse que não agiríamos assim se estivéssemos diante de uma
serpente venenosa. Se estou diante duma semente venenosa, extremamente
venenosa, não digo: vou livrar-me dela numa outra altura, quem sabe, numa outra
hora. Se estou diante de um perigo, toda a minha atenção está concentrada nele.
Ora, alguns livros definem, simbolicamente, as experiências da vida, as
experiências psíquicas, por exemplo, como serpentes internas, corro riscos,
que, se não lhes soubermos prestar atenção, irão nos envolver.
Vejam
o que S. João da Cruz diz sobre o presente, sobre essa purificação da memória,
esse esvaziar da memória: "Embora as vantagens desse esvaziar da memória
não sejam tão grandes como o estado de união com Deus, de autoconhecimento
real, porque ele meramente livra as almas de muito pesar, dor, incerteza, além
de imperfeições e pecados, é na verdade um grande bem". Ora, esse esvaziar
da memória não significa tirar a tampa da memória e deixar que ela se esvazie.
Esse esvaziar da memória significa desenvolver a capacidade de manter a consciência
focada no presente e não ceder à tentação de iniciar um novo ciclo de
pensamentos, de preocupações e confusões. Portanto, viver no presente é
aprender a morrer para o passado. Este já passou, não vamos conseguir
modificá-lo. É claro que, quando as circunstâncias da vida são duras e
difíceis, tendemos a refugiar-nos no passado, a desenvolver um certo saudosismo
— se os tempos de hoje são horríveis, no passado é que era bom. O passado
poderia ter sido bom, não há dúvida quanto a isso, mas esse passado não existe
mais. O desafio da vida está aqui no presente. Ele não está no futuro
imaginário. Quando se vive o presente, descobre-se e compreende-se que o futuro
é o florescimento constante a partir do presente. O futuro não surge do nada.
Krishnamurti costumava dizer que as pessoas que falam sobre a reencarnação e
dizem que acreditam nela, na verdade, não acreditam. Se acreditassem, estariam
agora a viver de modo diferente, porque saberiam que a vida presente
determinará a vida futura. Portanto, a crença na reencarnação, nesse caso, é
uma crença da boca para fora.
YOGA: LIBERTAÇÃO
Um
teósofo, chamado Rohit Mehta, fez um comentário aos Yoga Sutras de Patanjali,
uma das obras clássicas do Yoga. Existem diferentes teses sobre o Yoga. Algumas
pessoas acham que Yoga é ficar de cabeça para baixo, fazendo a postura com as
pernas para cima durante meia hora ou dar um nó com as pernas, depois rolar com
dores para desfazer esse nó... Na verdade não é isso. O Yoga é considerado na
Índia uma ciência sagrada. Não é um mero método de desenvolvimento mental, é
uma ciência sagrada porque apresenta, de forma clara, didática e pedagógica, os
princípios graduais, progressivos do desenvolvimento interno, que prepara o
indivíduo, quando corretamente praticado, para a experiência da comunhão com o
Divino. No seu comentário aos Yoga Sutras, Mehta fala sobre a natureza da
meditação.
Na
verdade, a meditação é uma das etapas do Yoga. Depois de uma base ética e
moral, que são os Yama e os Niyama, depois do controle da respiração através de
Pranayama, da reta postura, da retração dos sentidos, o indivíduo começa a
disciplina mental do Yoga que é concentração, meditação e contemplação ou
êxtase: dharana, dhyana e samaddhi em sânscrito. Ele diz que Dhyana ou meditação
poderia ser definida como a observação dos conteúdos da consciência. É uma
definição simples, clara e precisa da meditação.
A
meditação não é, necessariamente, uma visualização, ficar repetindo um mantra,
embora um mantra possa ser um auxílio; meditação é pura observação. Deve ser
preparada através da concentração, da reta postura, da dieta, para
permanecer-se tranqüilo e só então pode-se começar a observar os conteúdos da
consciência. Mas observar com absoluta imparcialidade, sem se identificar com
eles. Rohit Mehta diz que na consciência humana existem duas áreas principais:
a área marginal e a área focal. Ao falar agora, estou cônscio de alguns sons
que vêm de fora. A consciência desses sons está na área marginal da minha
consciência. Todavia a minha área focal é o pensamento que estou desenvolvendo
aqui e agora. Diz também que na área marginal pode haver distrações, porém as
preocupações reais estão na área focal da consciência. E as perturbações da
consciência são nada mais nada menos do que a memória psicológica, a memória
das experiências frustradas, das experiências desagradáveis, das experiências
de sofrimento. Tudo isto causa perturbação. Diz ainda que essa memória
psicológica é criada quando a experiência não termina com o evento. É uma
chave, acho eu, para compreendermos a natureza da mente e da verdadeira
meditação. Um exemplo: um indivíduo termina o seu expediente de trabalho às
cinco ou seis horas. O expediente foi tenso, cheio de problemas, discussões,
atritos, pressões, tensões e, embora termine, enquanto evento, às cinco ou seis
horas da tarde, ele continua enquanto experiência. O indivíduo sai dali, apanha
o automóvel e continua a ruminar: "aquele fulano vai ver amanhã; isto não
vai ficar assim". Ou então começa a condenar-se: "não devia ter sido
tio passivo, devia tê-lo amassado na hora"; ou se a pessoa tiver um
temperamento introvertido, pensa: "puxa, fracassei de novo. Na verdade,
sou um inútil, não sirvo para nada". O fato, o evento terminou, que foi o
expediente, mas a experiência continua. É essa ausência de sincronicidade, de
alinhamento de fim do evento como fim da experiência, que cria a memória
psicológica e gera perturbação. Quando temos a experiência e a compreendemos,
assimilamos o seu significado e, se a deixarmos de lado para continuarmos a
viver no presente, não se cria esse resíduo. Esse resíduo psicológico é fonte
de sofrimento.
A
verdadeira meditação, ao invés de ser uma visão ou uma experiência
transcendental, é criar a equanimidade da mente, a tranqüilidade interior e a
impessoalidade para observar os conteúdos da consciência, para observar a
memória psicológica. Se você observar os conteúdos da sua consciência sem
condenação nem justificativas, isso modifica a sua mente. Esses conteúdos
continuam sendo causa de problemas de crises e perturbações, porque eles nunca
foram examinados. Na linguagem do psicólogo suíço CarI Gustav Jung, eles são a
sombra, os aspectos obscuros da nossa natureza para os quais não queremos
olhar. E Jung disse que, quando encontramos uma pessoa com quem antipatizamos
de uma forma profunda, devemos prestar atenção a isso, porque essa pessoa de
alguma forma está exprimindo algum aspecto da nossa própria sombra, e é por
isso que antipatizamos com ela, porque ela está exprimindo na sua conduta algum
aspecto nosso que deploramos. Mistérios da psicologia humana!
Quando existe liberdade em relação ao passado, ou seja, quando não somos mais
dominados por esse apego ao passado e por essa influência sufocante do passado,
na forma de hábitos, desejos e tudo o mais, e existe a ausência de preocupação
em relação ao futuro, é porque estamos contentes em viver o momento presente,
que é, de fato, significativo da relação profunda com a realidade. A vida é só
presente. Existe, dessa forma, a consciência do significado do momento presente
dentro de cada relacionamento. Voltemos ao exemplo da mãe que cuida de um filho
mongolóide. Ela é capaz de renovar a cada dia o seu afeto, a sua dedicação
porque ela percebe o valor intrínseco daquela criatura. Nós perdemos essa
capacidade de contatar o valor intrínseco, a dignidade inerente da cada ser.
Como Thomas Kempis disse, para quem é atento, mesmo a mais abjeta das criaturas
é uma expressão da Bondade de Deus. Não existe nenhuma criatura inútil em todo
o Cosmos. Toda a criatura tem um significado e um valor, porque o significado
está presente em todas as coisas. Porque a vida é una, o significado da vida e
o seu propósito estão presentes em todas as coisas; ele não está somente numa
obra específica ou numa pessoa ilustre. Quando o descobrimos, conseguimos
descobri-lo em todos os seres. Como diz o Kata Upanishad — "todo este
Universo e todos os seres que ele contêm são a morada de Brahma". Ou Sri
Krishna — "todos os seres têm as suas raízes em Mim", no Divino. Em
cada ser que encontramos, se formos capazes de ir para além da vestimenta
externa, da aparência, encontraremos esse Divino. Este é o significado do
ensinamento alquímico sobre a Pedra Filosofal. As pessoas com tendência para
materializar tudo continuam tentando produzir a Pedra Filosofal através de
reações químicas, mas a Pedra Filosofal representa essa consciência que vê o
Divino em todas as coisas. Para tudo o que se olha, encontra-se o Divino, ou
seja, a vida una, a consciência una.
O
presente, desta forma, toma-se a porta para o atemporal, para o eterno, para
aquilo que não é possível de ser fragmentado em passado, presente e futuro,
para aquilo que é uma pura expansão, uma pura duração e, conseqüentemente, a
percepção do eterno, a percepção do momento presente no seu valor. O seu
significado pacifica de tal forma que tranqüiliza a mente, tornando-se esta
pronta para refletir aquilo que e incriado, e que, paradoxalmente, é a causa de
toda a criação, aquilo que está acima de toda a linguagem e que, uma vez
experimentado, provoca uma transformação profunda na vida humana. A
característica principal desta transformação é que, daí em diante, razão e
emoção, mente e coração, nunca mais funcionam separadamente, mas, sim, de uma
forma unitária, integrada e, portanto, são a marca da sabedoria, que já foi
definida de diferentes maneiras e que foi também definida como sendo uma mente
que ama e um coração que vê. Quando existe sabedoria dentro da uma pessoa, a
sua mente não mais julga, analisa nem classifica, mas possui uma compreensão
que é acrescida pelo calor do coração, e o coração, por sua vez, gera uma
afeição que não é cega, possessiva, passional, mas que e tornada universal pela
amplitude da mente. É bem provável que da integração da mente com o coração
dependa a existência continuada da humanidade e talvez mesmo de uma verdadeira
nova era.

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