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 APRENDENDO SOBRE A FERRAMENTA

  

 

Marcos Luís Resende

 

            A ferramenta mais poderosa que o ser humano tem é a sua capacidade de pensar, a sua mente.

            De acordo com o que pensa, o ser humano pode direcionar suas energias para se tornar rico, famoso, poderoso. Pode, também, pensar de outras maneiras e viver de outros modos, em circunstâncias diversas.

            O que um homem pensa ele se torna. Sua glória ou sua miséria, sua felicidade ou infelicidade, são resultado de seus pensamentos. O que difere um grande ser, um iluminado, de um ser humano medíocre, até mesmo brutal ou violento, é o que se passa na cabeça de cada um deles.

            Entretanto, o ser humano sabe muito pouco sobre esta poderosa ferramenta, esta importante arma que tanto pode curar quanto matar.

            Normalmente, a mente humana é ocupada por pensamentos descoordenados. Durante todo o tempo esta caixa de ressonância que está em nossas cabeças é preenchida por um pensamento atrás do outro, em velocidade muito rápida, pulando de um assunto para o outro. Desde a hora em que acordamos, até quando dormimos, e mesmo durante o sono, o pensamento está sempre em atividade, imaginando, lembrando, projetando, comparando, julgando, temendo, desejando.

            Todo o processo que envolve o ato de pensar se dá semi-conscientemente. Uma parte da consciência vai conduzindo o pensamento. Outra parte está distraída, ocupada com outras coisas. Em algumas circunstâncias peculiares, em situações em que vislumbramos perigo, damos toda a nossa atenção a algo e agimos com intensidade. Mas, no dia-a-dia, os pensamentos são dispersos e aparentemente displicentes.

            Nos momentos mais difíceis, aqueles que envolvem sofrimento, na maioria deles, a mente está nervosa, o pensamento agitado, temeroso ou inconformado. Outras vezes o espaço interno é preenchido por fortes pensamentos de desejo que, de alguma maneira, entram com muita força para preencher este vazio.

            Esta poderosa ferramenta, causadora de nossa felicidade ou infelicidade, é muito pouco conhecida por nós. Ela está sempre presente, guiando as nossas vidas, mas de uma maneira meio caótica, meio inconsciente, e vamos, ao longo da vida, aos trancos e barrancos, vivendo de prazeres e tristezas.

            A questão que se coloca é: seremos nós capazes de ver e compreender o processo do pensamento em ação e transformarmos um processo que semi-inconsciente e caótico em algo percebido e organizado ?

            Aí surge a questão: quem irá organizar este espaço interno?

            Quem irá colocar ordem no pensamento? Não será o próprio pensamento?

            Colocar o pensamento para por ordem no pensamento significa criar mais confusão e gerar conflito interno. Isto porque, na sintonia ou dimensão que lhe é própria, o pensamento é sempre fragmentário, dividido e divisor. Então uma parte do pensamento se arvorará em autoridade, julgando e decidindo o que é certo e o que é errado - o que deve ser pensado ou não - e se proporá a reprimir as outras partes - ou outros pensamentos - que estiverem incorretos ou forem impróprios. Daí surge o conflito porque logo esta parte do pensamento autodenominada “o censor” ou “aquele que decide”, verá que não é capaz de reprimir os demais pensamentos, os tais que por ele forem considerados impróprios. Então, vendo-se incapaz de ter poder sobre o pensamento, aquela parte dele que se imaginava “a que decide” se cansa e desiste de “dominar” o pensamento.

            Este processo não leva a lugar nenhum. É como o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Só estará a gastar a sua energia.

            Mas então como é que se pode conhecer o mecanismo do pensamento, de modo a se colocar ordem na casa interna, que é a nossa própria cabeça, se é que isto é possível?

            Esta é uma questão profunda e difícil. Só a própria pessoa pode descobrir. Nenhuma fórmula fornecida por outrem poderá ser usada como poção mágica. A pessoa é que tem que descobrir.

            Humm, e aí ?

            Aí é que se trata de um grande desafio a possibilidade de descobrir, dentro das nossas cabeças, uma dimensão de paz e harmonia que não é produzida pelo pensamento, nem pela repressão dele, mas que vem quando se é capaz de observar isentamente o mecanismo do pensamento em operação.

            Esta observação somente pode ser feita no instante presente. O pensamento está sempre atuando e, na maioria das vezes, de forma semi-inconsciente. Quando observamos, de uma forma neutra, todo o seu fluxo e refluxo - sem que seja uma observação forçada, produto do desejo de observar, mas uma observação natural de quem quer, tranqüila e espontaneamente, derrubar as paredes e desbravar os horizontes de sua própria cabeça - muita coisa muda dentro da gente.

            Aí nós descobrimos que o desejo - criado e nutrido pelo pensamento - tem um poder muito forte nas nossas vidas. Estamos sempre às turras, numa luta permanente em favor do que gostamos, contra o que não gostamos. Buscamos o que nos agrada, a auto-satisfação, o reconhecimento. Procuramos atrair tudo o que o pensamento acha bom para nós e afastar tudo que se pensa ser “ruim”. Mas o que será o bom e o ruim, senão aquilo que o nosso próprio pensamento se acostumou a apreciar ou a desapreciar ?

            Então, voltamos a perceber que o movimento do desejo, dentro de nós, é o próprio movimento do pensamento em busca de auto-satisfação para a entidade fictícia que pode ser denominada de “eu”.

            O desejo passa a ser a fonte das nossas pequenas alegrias e dos muitos desagrados e tristezas. Pequenas alegrias porque dificilmente todas as coisas ocorrem como a gente quer. A vida e a natureza têm todo um movimento próprio, que não é para servir ao nosso ego. Então, muitas coisas acontecem de forma diferente do que a gente queria. Quando acontece, sentimos aquela satisfação, aquela pequena alegria que é passageira. Mas, poucos instantes depois, já não estaremos mais alegres, porque a alegria decorrente da satisfação do desejo é sempre efêmera. Muitas tristezas, porque a vida sempre cria situações que nos desagradam, como o carro que quebra, a empregada que agiu de forma imprópria, o patrão que foi rude, o filho ou a namorada que agiu assim ou assado, etc. etc. etc.

            Quando se fala do desejo, não se entenda apenas o desejo de adquirir ou conquistar. Este tem muita presença em nossa vida. Mas os sucessivos aborrecimentos que tiram a nossa paz estão relacionados a coisas que acontecem e que nós não gostamos, porque preferíamos que não tivessem acontecido ou que acontecessem de outra forma. Portanto, o desejo também se manifesta, em grande parte das vezes, sob a forma de inconformismo.

            Então, se o desejo é a fonte de nossos problemas, como ser sem desejo, como viver sem desejo ?

            O desejo, em si, não é a fonte de todos os problemas, mas sim o nosso apego à sua satisfação. Quando aceitamos de bom grado que as coisas não aconteçam exatamente como gostaríamos que acontecessem, o desejo não é um problema, mas um fato psicológico simples.

            Pretender ser sem desejos significa desejar não tê-los. Mais uma vez voltamos ao cachorro correndo atrás do rabo, isto é, uma parte da mente, aquela que se arroga na função do governante ou o agente, querendo alterar a outra parte, ao invés de compreendê-la, aprender sobre seus movimentos.

            Para aprendermos sobre o modus operandi desta poderosa e maravilhosa máquina de pensar que cada um de nós tem dentro da cabeça, precisamos entender o que significa aprender.

            Aprender não significa acumular informações na memória, seja sobre si mesmo, seja sobre o que for. Aprender significa o desenvolvimento de uma capacidade de lidar, algo que só pode ser feito no instante presente.

            Aprender sobre o processo de funcionamento do pensamento é, pois, muito diferente de tirar conclusões, mas sim vê-lo operando, com toda a sua astúcia e os mecanismos automáticos e enraizados onde o eu busca “se dar bem”, ou o que é satisfatório para si.

            É como aprender a andar de bicicleta. Muitas e muitas aulas e explicações não irão substituir o ato, praticado no instante presente, de sentar na bicicleta e por-se a pedalar, caindo e tentando novamente. O equilíbrio só pode ser encontrado no ato, no instante, e a capacidade desenvolvida também só pode ser manifestada quando se senta novamente na bicicleta.

            Assim é o aprendizado sobre a máquina “mente” e o seu produto, o pensamento. Idéias ou conclusões preconcebidas de nada servirão. Só no momento, no instante presente, é que se pode vê-lo em operação e aprender sobre o processo.

            Quando a mente é capaz de se esvaziar do pensamento, sem que o faça por decisão do próprio pensamento, mas pela habilidade desenvolvida de um inteligência que emerge do silêncio, o homem descobre que há profundezas insondáveis, há um espaço infinito na mente.

            A mente é o espaço. O pensamento é como um corpo que ocupa um lugar no espaço. Quando descobrimos que o pensamento é sempre limitado, é sempre restrito, mas que há uma inteligência ilimitada que emerge do silêncio, dotada de uma paz profunda, inteligência que ao mesmo tempo é força e amor, e que ela é capaz de direcionar os nossos pensamentos para propósitos mais elevados e mais nobres, encontramos algo que é extremamente valioso e, ao mesmo tempo, espontâneo. Esta inteligência, que percebe que o pensamento é sempre limitado, organizará a casa interna, naturalmente, espontaneamente, deixando ir embora aquelas nuvens de auto-preocupação e de desejo que obscurecem o céu das nossas cabeças.

            A descoberta deste espaço pode transformar as nossas vidas, fazendo-nos pessoas felizes, harmônicas, simples e alegres. Vê-se, pois, que o pensamento não iluminado por essa inteligência que emerge do silêncio é a fonte de todos os problemas e sofrimentos.

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Pensamentos

 

 

Tendes ainda de aprender que, enquanto houver na Sociedade Teosófica três homens dignos da benção de Nosso Senhor, ela jamais poderá ser destruída.


Mestre Morya

 

 

 

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