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 COMPREENDENDO O DHARMA  E A EVOLUÇÃO

  

 

 

 Edimar Silva

)

            A Filosofia Esotérica afirma que a essência do ser humano é a mônada; esta é comparada a uma "chispa divina" que se "desgarra" do Absoluto (mas, de maneira misteriosa para nós, permanece una com Ele) e se lança no mundo da matéria em busca de experiências. A mônada freqüentemente é também comparada a uma gota de água no oceano que, por ter sua individualidade como gota pode ser apartada do restante das águas, mas conserva a sua natureza original. Do mesmo modo, todos os seres que têm existência no universo, apesar de existirem como seres, mantêm em si esta essência e dela recebem os germes dos atributos divinos. Costuma-se dizer que Deus queria se conhecer e fez para Si um espelho, para poder se ver melhor. 

            Esse espelho é o universo manifestado, com suas miríades de formas animadas e outras aparentemente inanimadas, através das quais a Vida Divina se manifesta e evolui. As múltiplas formas de vida individualizadas são, portanto, reflexos da Vida Divina, que é oniabarcante, e todas elas, mesmo que pareçam isoladas umas das outras, permanecem unas, entre si e com a própria Fonte primordial.

            A construção do universo manifestado, que aqui estamos comparando a um espelho, não é feita ao acaso, mas sim, através de um plano, chamado Plano de Evolução, que atinge o universo em sua totalidade, e do qual todos nós participamos. A matéria que o constitui é organizada em níveis diferentes de densidade (ver esquema abaixo), e a vida deverá, gradativamente, passar por experiências em todos eles. Estes níveis vão do físico mais denso aos mais altos níveis espirituais e dizer que a vida passa por experiências em todos eles significa que ela ocupa formas, ou corpos, nos reinos mineral, vegetal, animal, humano, antes do mineral e depois do humano.

 

 

            A diferença entre os níveis é apenas o grau de densidade da matéria que os constitui, já que a Filosofia Esotérica diz que em todo o Universo existe apenas uma energia (ou matéria) primordial que vai se condensando cada vez mais e formando todos os diferentes níveis e graus de densidade do universo manifestado, onde temos nossa existência.

            A vida, à medida que vai ocupando estas diferentes formas, vai também se tornando conhecedora de si mesma e de sua existência, e chamamos consciência a esta capacidade de conhecer. Ou seja, quanto mais a vida passa por experiências nos mundos da matéria, mais ela se torna consciente, tanto de si própria, das formas que utiliza para adquirir seu aprendizado e desenvolvimento, quanto do mundo que a rodeia. A vida que anima as formas vai aos poucos, nível após nível, reino após reino, se tornando mais desperta, mais autoconsciente. Ter experiências em todos os níveis e reinos, e através delas esgotar todas as possibilidades do universo manifestado, aprender com tais experiências, é a própria evolução.

             Não ajudamos na elaboração deste plano evolutivo, somos apenas seus partícipes, uma espécie de atores que representam uma grande peça. Durante grande parte de nossa atuação nele, nos reinos que antecedem o humano e mesmo nas primeiras etapas de nossa passagem por este, não sabemos nada a respeito deste grande plano, e por isto nossa participação nele é, por assim dizer, "compulsória". Isto significa que a consciência que hoje se encontra no estágio humano e possui noção de individualidade, em outras eras passou pelos reinos elementais, mineral, vegetal e animal, e viveu "por inércia", como é o caso dos minerais e vegetais, e por instinto, como os animais. Durante estas experiências não havia a noção de individualidade, e isto se deve ao fato de que o princípio mental não estava ainda desperto, ou, pelo menos, não estava desperto o suficiente para que houvesse aquela noção. Os seres humanos que recém entraram no reino humano também têm suas vidas em grande parte guiadas pelos instintos e seu princípio mental funciona de maneira muito rude.

            Ocorre que as individualidades que pertencem a esse "mundo do espelho", que é o universo manifestado, perderam o contato com o mundo real, que é o próprio Absoluto, de onde vieram; todas as individualidades são idênticas a Ele em sua essência, mas se esqueceram disso porque tiveram sua percepção obstruída pela matéria e não conseguem mais percebê-Lo. Só se vêem umas às outras como entidades separadas entre si e da sua Fonte primordial. A tradição cristã se refere a este fato quando fala em anjos decaídos, e Helena Blavatsky diz que "somos deuses e nos esquecemos disto".

            A Filosofia Esotérica afirma também que as consciências individuais evoluem aprendendo, e que quando uma consciência individual aprende algo e evolui com isso, todo o universo aprende e evolui, já que essas consciências formam, na realidade, uma unidade indivisível; da mesma forma, a Consciência Divina também evolui, já que as consciências individualizadas são partes Suas que evoluem conforme esquemas particulares (ver esquema abaixo), mas que estão integrados ao esquema maior. Isto poderá ser melhor entendido se for observado o ensinamento encontrado em várias tradições de que cada alma humana está em um processo de evolução individual, e também se aceitarmos a idéia que em um grupo, quando uma pessoa aprende alguma coisa, todo o grupo pode se beneficiar disto.

 

 

            Podemos fazer uma analogia com um tanque cheio de água límpida, que seria o nosso universo, sendo que cada porção de água que ele contém simboliza as infinitas individualidades existentes. Quando uma porção de água é retirada do tanque e recebe uma quantidade de tinta azul, se esta água volta colorida para o tanque, dentro de algum tempo a coloração se espalhará uniformemente por todo ele e toda a água terá se modificado; uma outra porção de água recebe tinta vermelha, o fato se repetirá, e assim por diante, indefinidamente. Observemos que se pode separar litros, gotas e moléculas da água, mas, quando as juntamos, tudo se torna uma só água, ou uma só unidade. O mesmo acontece com o universo em evolução: quando um ser humano se aperfeiçoa, por pouco que seja, todo o plano de evolução dá um passo à frente, fato que corresponde à amplitude daquele aperfeiçoamento e à capacidade dos outros homens para aproveitar esta oportunidade.

            O reino humano é o estágio evolutivo em que uma individualidade se torna autoconsciente, e por isto cabe ao homem perceber o seu lugar dentro do plano, e, aos poucos, colaborar conscientemente com o mesmo. Esta parece ser a meta evolutiva dentro do estágio humano: sermos cada vez mais autoconscientes e, também, conscientes de nossa condição de partícipes de um plano evolutivo e, conscientemente, colaborarmos com ele. Conforme já dissemos, nas primeiras etapas do plano evolutivo as consciências individualizadas têm sua participação "por inércia", por assim dizer, ou seja, Hierarquias da Natureza (anjos, arcanjos) constroem, por exemplo, uma pedra que é utilizada por uma pequena parcela da Vida Universal na sua busca de experiências. A pedra não tem outra coisa a fazer senão ficar ali parada tomando chuva, sol, depois virar paralelepípedo, brita, etc., e aquela consciência também não tem outra coisa a fazer senão passar por todas essas experiências, que serão assimiladas como experiências já vividas, ou seja, como aprendizado.

 

 

            Durante séculos aquela consciência individualizada ocupa uma pedra comum, alguns séculos depois ela tem experiências como ametista, outros como esmeralda, outros como diamante, etc., sendo que agora ela já não mais será paralelepípedo, mas vai enfeitar dedos e pescoços na forma de jóias; com isso aquela vida aprende tudo o que necessitava aprender como mineral, e passa então para o reino vegetal, em que os materiais que ela vai ocupar são menos densos, têm alguma maleabilidade e movimento, pois já se balançam ao vento, podem ser destruídos pelo fogo e servir como alimento, mas não manifestam sentimentos de nenhuma espécie e ainda estão presos ao solo.

 

            Essa vida pode agora passar pelas experiências de virar lenha, cadeira, ponte, porta, alimento, etc., e aprende muita coisa, até passar para o reino animal, em que já sente e demonstra medo, carinho, amor, ódio, enfim, emoções primárias, instintivas, talvez. Já pode se locomover, e ser um burro de carga, um cão de guarda ou de companhia, etc; ainda age movida basicamente pelo instinto de sobrevivência, ou automaticamente, conforme treinamentos recebidos, já é capaz de dar a vida por alguém, ou de tirar a vida de alguém, já pode gostar ou não gostar, ainda que não pense no que está fazendo.

 

 

            E assim, após aprender tudo o que necessitava nesse estágio, a vida se torna ainda mais individualizada, e ingressa no reino humano, agora já consciente da sua individualidade e capaz de agir por si mesma. Nas primeiras vidas nesse novo reino, os instintos ainda são muito atuantes, e o homem que está nessa fase terá necessidades muito rudes, como o serão também suas atitudes. Assim, seu instinto de sobrevivência será exacerbado e ele terá facilidade para matar outros seres, humanos ou não, a fim de preservar a sua vida, sua sensualidade será mais animalesca, não sentirá atração pela arte mais elaborada, enfim, todas suas experiências serão mais rudes.

 

 

            Podemos perceber, no que foi exposto, que a evolução não acontece ao acaso nem aos saltos; ela segue um caminho coerente, em que cada passo dado e cada estágio vencido criam condições para se passar a um novo estágio. Podemos até fazer uma analogia, talvez simplória, com os métodos utilizados em nossas escolas, em que se passa de uma série para outra quando já se aprendeu o suficiente. Da mesma forma, podemos também comparar com as empresas, que trabalham com metas estabelecidas de acordo com sua capacidade de produção, que precisam se capacitar para produzir mais ou fazer um novo produto.Quando aprendermos tudo o que pudermos como humanos, passaremos, segundo a Filosofia Esotérica, para o nível super-humano, que é o nível dos Mestres de Sabedoria, os Homens Perfeitos que já aprenderam tudo e agora auxiliam a humanidade a também passar para o seu nível evolutivo.

 

 

            A Filosofia Esotérica afirma que a humanidade também evolui por metas, e não só a humanidade, mas todo o sistema evolutivo do qual fazemos parte. Isso implica em que temos metas evolucionárias a atingir, e, cada estágio evolutivo atingido é a somatória dos resultados conseguidos nos anteriores.

            Só criamos condições para viver um nível evolutivo e nele aprender quando já aprendemos tudo o que podíamos no estágio que o precede ou, em outras palavras, quando fizermos direito aquilo que devíamos aprender a fazer ou, ainda, quando cumprimos a meta de tal estágio. Aqui nós chegamos à idéia de Dharma.

            Muitas palavras são utilizadas como sinônimo de Dharma: Lei, religião, dever, justiça, piedade, virtude, mérito, condição, qualidade ou propriedade essencial, doutrina, credo, código, direito, conhecimento, sabedoria, verdade, prática, costume, bem, obra piedosa, etc...E como definição de Dharma, utilizemos aquela que foi dada por Annie Besant, que diz o seguinte: "O Dharma é a natureza interna caracterizada em cada homem pelo grau de desenvolvimento adquirido e, além disso, a lei que determina o desenvolvimento no período evolutivo que vem a seguir (a meta a ser atingida). Esta natureza interna, posta pelo nascimento físico num meio favorável para o seu desenvolvimento, é que modela a vida exterior que se expressa através de pensamentos, palavras e ações".

            Vamos dar uma visão de conjunto para a questão e depois nos deteremos no dharma humano; se existe um plano de evolução formulado pela Mente Divina, esse plano é, segundo a analogia que fizemos anteriormente, a meta evolutiva que o próprio Absoluto estabeleceu para nosso universo, ou para Si próprio, pois a Filosofia Esotérica afirma que Deus evolui com a evolução do universo; podemos então dizer que esse plano é o dharma do próprio sistema evolutivo do qual fazemos parte, é aquilo que o universo precisa fazer para evoluir como um todo. Ou, ainda, que a Vontade de Deus, ou Logos é o dharma do nosso sistema evolutivo.

            Quando ocorre a manifestação do universo no qual o plano evolutivo vai ser executado, todo esse universo tem como meta, ou como dharma, cumprir a vontade de Deus para ele. E não só o universo como um todo, mas inclui-se aí cada individualidade que o compõe e dele faz parte, como os seres humanos, animais, plantas e, ainda, sistemas solares, planetas, países, civilizações, raças, famílias.... Mas o problema é que, conforme vimos anteriormente, em grande parte do que conhecemos do processo evolutivo, a vida individualizada ainda não sabe qual é a sua meta, não sabe sequer que existe um plano evolutivo. Ela foi dotada de autonomia para atuar no mundo manifestado, e está envolta pelos diversos níveis de densidade de matéria, que utiliza como corpos ou veículos para o seu aprendizado, mas, são eles próprios que a impedem de perceber a meta final ou a vontade divina.

             Na figura abaixo vemos um esquema no qual estão representados os princípios, ou veículos, através dos quais a mônada pode se projetar no mundo manifestado. Neste esquema pode ser vista a divisão entre o homem mortal - formado pelos princípios físico, duplo etérico (a energia vital), astral (ou o veículo das emoções) e manas inferior (a mente concreta ou intelecto, nosso princípio racional) -, e o homem imortal, formado por Manas Superior (a mente abstrata, que lida com os arquétipos), Buddhi (a intuição que ilumina os fatos) e Atma ( a Vontade Divina presente em nós). Vale observar que esta divisão é apenas didática, pois todos os princípios estão presentes o tempo todo em nós; vale observar, também, que este é um dos esquemas existentes, porque diversos autores e tradições fazem apresentações diferentes deste tema.

 

 

            Enquanto esta vida estava nos reinos elementais, mineral, e vegetal, nada mais lhe restava a fazer além de ir na direção que o fluxo evolutivo lhe levasse. Quando ela entra no reino animal já começa a fazer escolhas, mesmo que por instinto e no reino humano, ela ainda passa algum tempo se baseando nos instintos e desejos mais rudes para fazer suas opções, mas, gradativamente, essa situação começa a mudar. Neste ponto está o grande problema que o plano evolutivo nos coloca na forma do dharma: nós estamos dotados de capacidade de escolha, ou livre-arbítrio, e necessitamos exercer essa capacidade, só que as nossas escolhas não coincidem com os objetivos do plano evolutivo, ou, em outras palavras, não coincidem com a Vontade Divina, porque a essência divina presente em nós está envolta pelos níveis de matéria que criam a ilusão e nos impedem de percebê-la. E se não percebemos a essência divina presente em nós, não percebemos também as necessidades que ela possui - que nada mais são do que as nossas necessidades evolutivas.

            Mas aquela essência divina individualizada, que é a própria essência de nosso ser, conhece as metas de Deus para o universo e para o homem; e nossa alma, ou a tríada superior, que é um reflexo da mônada ou consciência individualizada, sabe pelo menos a meta evolutiva do homem. E se não percebemos, conscientemente ou mesmo intuitivamente, nem a existência de nossa alma, não percebemos também as necessidades que ela possui - que, conforme já foi dito não são nada mais do que as nossas próprias necessidades evolutivas.

            O dharma maior do reino humano é remover todos os véus, ou os níveis de matéria que envolvem este núcleo de consciência que está em cada um de nós, que é a alma ou tríada superior, para vermos quais são as metas do plano evolutivo, e passarmos a atuar no mundo em sintonia com essas metas. Mas ficamos durante inúmeras vidas fazendo nossas escolhas de acordo com interesses pessoais, que estão enraizados em nossos desejos autocentrados, quando o objetivo é agirmos de acordo com as metas do plano de evolução.

            Esse é o dilema que nos coloca o dharma: aprender a fazer o que é realmente melhor dentro de todo o esquema, e não o que é melhor do ponto de vista pessoal. Esse problema está presente em todos os momentos de nossas vidas, pois a cada instante temos a oportunidade de escolher entre dois caminhos: o caminho "correto" e aquele que "não é correto", ou o caminho no sentido da evolução e aquele que nos desvia deste sentido; podemos dizer ainda, entre o caminho dos interesses da Alma e o caminho dos interesses da personalidade. Podemos escolher entre estudar ou não estudar, nos alimentarmos bem ou não, ajudar as pessoas ou nos aproveitarmos delas, etc... A todo o momento estamos usando o livre-arbítrio. Quando usarmos o nosso livre-arbítrio de maneira coerente com o nosso dharma, estaremos evoluindo e, ao mesmo tempo, auxiliando o plano de evolução.

            Vamos fazer um pequeno parênteses para dizer que a Lei do Dharma é reconhecida por civilizações muito antigas, como, por exemplo, a civilização hindu, onde esta lei inspirou a criação do sistema de castas, e em A República, no livro III, Platão também a utiliza no seu esquema de classificação das almas em quatro tipos, a saber, almas de ferro, bronze, prata e ouro.

            O sistema de castas classifica as pessoas de acordo com o estágio evolutivo de suas almas, ou seja, sua natureza interna manifestada, ou ainda, o dharma de suas vidas atuais; assim, temos:

            os shudras, ou os servos, encarregados de tarefas mais simples, e que aprendem a obedecer à lei e às ordens;

            os Vaishya, ou os agricultores e mercadores, que por já reconhecerem as leis, têm agora um outro aprendizado, que é o de aprender a acumular posses;

            os Kshattriya ou os guerreiros e soberanos, aqueles que já são capazes de dar sua vida por um ideal, e que desenvolvem a bravura e a persistência;

            E os Brâhmanas, que são os sacerdotes e educadores; eles já devem ter passado pelos estágios anteriores, tendo aprendido tudo o que tinham para aprender, e agora estão prontos para ensinar aos demais.

            A classificação das almas feita por Platão segue a mesma idéia, e existe uma clara correspondência entre os shudras e as almas de ferro; os vayshya e as almas de bronze; os kshattriya e as almas de prata; e, por último, os brâhmanas e as almas de ouro.

            Estas classificações podem ser úteis, mas entendo que elas podem também nos levar ao erro de pensarmos que não é possível evoluir além de determinados limites, quando, expandir os limites é a própria evolução. Assim, se interpretarmos ao pé da letra aquelas classificações, pode-se achar que alguém que nasce como shudra permanecerá assim até o final de sua vida. E com o decorrer do tempo, o sistema que deveria auxiliar os homens em sua evolução, passou a ser mal utilizado e se tornou instrumento de discriminação. Os seres de uma casta passaram a se sentir superiores aos de outra, o que constitui uma deturpação da idéia original.

            Outro problema que este sistema apresenta quando levado à prática é a quem atribuir a tarefa de reconhecer em que estágio evolutivo se encontra a alma de alguém, para que tal pessoa possa assumir seu lugar na sociedade humana e desenvolver as tarefas que lhe cabe desempenhar. A classificação por hereditariedade mostra-se falha, pois nem sempre um filho de um verdadeiro brâmane está em nível evolutivo que lhe permita agir como seu pai; ou talvez o filho de um shudra possua atributos que lhe permitam desempenhar funções de um Vaishya, por exemplo.

            O sistema de castas da Índia e a classificação das almas elaborada por Platão, se referem à real condição interna do ser, que é o seu estágio evolutivo conquistado em existências anteriores e somente pessoas extremamente sábias poderiam desempenhar esta função sem risco de engano e com total isenção.

            Mas estas classificações, exatamente por se referirem à real condição interna do ser podem, paradoxalmente, ser muito úteis, desde que aplicadas corretamente. Se assim fosse, os governantes, os líderes religiosos, os educadores, enfim, aqueles que exercem funções relacionadas ao exercício do poder e à instrução, deveriam ser somente brâhmanas ou almas de ouro, porque são pessoas que já se encontram mais no alto da cadeia evolutiva. Deduz-se que pessoas assim já seriam almas mais antigas, que já viveram muitas vidas e, portanto, por terem aprendido muito e estão aptas a ensinar àqueles que sabem menos. Estas pessoas estariam preparadas para exercer o poder sem se corromper, com elevado senso de justiça; já teriam muito desenvolvido em si o altruísmo e não estariam preocupadas em acumular riquezas com seu trabalho. São pessoas que teriam uma visão mais clara do plano de evolução, que trabalhariam para ele de maneira mais objetiva.

            Os kshattriya ou almas de prata, os guerreiros ou soberanos, seriam os responsáveis pela defesa de seus países, das famílias, da paz e do bem-estar geral. Dariam a vida por um ideal e não usariam sua coragem e sua bravura para se apossar daquilo que não lhes pertence, pois já teriam um senso de justiça bastante desenvolvido. Já passaram pela etapa em que acumular posses é o que interessa, e o que mais lhes motiva a vida são os seus ideais e suas tarefas, encarados como missão.

            Os vaishya, ou almas de bronze, são os agricultores ou mercadores, que vivem para acumular riquezas e posses, mas são bons seguidores das leis, às quais já conhecem.

            E os shudras levariam uma vida em que seriam comandados pelos demais, por aqueles que já são seguidores das leis. Teriam então chance de se tornarem disciplinados, de aprenderem a seguir as leis, através da obediência às ordens daqueles que já as conhecem. Encarregar-se-iam das tarefas mais simples, o que lhes daria o senso de humildade e aceitação das condições que a vida lhes traz.

            O Sr. Buda propõe uma outra interpretação, quando sugere que o cumprimento do dharma deve ser buscado na vida; assim, vivemos para cumprir o dharma, seja ele qual for. A doutrina budista diz que todos os seres querem e devem buscar a felicidade, e isto é uma maneira de entendermos o dharma. Só que para sermos completamente felizes, devemos ver também os outros felizes, então devemos buscar também a felicidade do outro, e isto também é dharma de todos os seres. Assim, qualquer que seja a casta a que se pertença, em qualquer atividade, devemos buscar a felicidade e o bem-estar de todos os seres, fazendo o que sabemos fazer, e não visar apenas a nossa felicidade, e isto faz uma enorme diferença.

            Aqui se faz necessário entendermos como é que ocorre a evolução para uma individualidade humana; já falamos que o núcleo de consciência, a fim de evoluir, se reveste de diversos níveis de matéria, mais ou menos densos, e retirar conscientemente estes véus de matéria é o dharma maior do estágio humano. Os níveis de matéria mais densa que revestem a consciência possuem suas próprias necessidades, sejam elas físicas, emocionais ou mentais. Elas são, na realidade, necessidades dos corpos físico, emocional ou mental, não do nosso núcleo de consciência e enquanto atendê-las for o foco de nossas ações, nós não estaremos olhando para o centro de nosso ser, ou seja, não estaremos atendendo à vontade de nossa alma, que conhece a Vontade de Deus, e, portanto, não estaremos colaborando com o plano de evolução.

            Podemos comparar esta situação a um diamante que se encontra no interior de uma pedra bruta; à medida que vamos removendo pequenos fragmentos da pedra grosseira, pequenas facetas do diamante irão se mostrando, límpidas e brilhantes. O diamante, em sua totalidade, é a nossa real e completa natureza interior, o centro de nosso ser que só se mostra inteiramente após uma seqüência, inimaginável para nós, de existências nos diferentes níveis de matéria que o universo nos proporciona para o nosso aprendizado. Enquanto estamos desbastando nossa pedra bruta, a cada vida que vivemos, novas facetas vão se mostrando, e isto constitui nossas diferentes possibilidades de atuação em cada existência, ou, em outras palavras, a natureza interna que se manifesta em cada vida nos capacita a executarmos diferentes tarefas e com elas aprendermos.

            Nossa alma, ou nossa real natureza interna, é perfeita e suas potencialidades são ilimitadas; aquilo que não conseguimos fazer corresponde às potencialidades que ainda não se manifestaram, ou, para usar a analogia, são as facetas do diamante que ainda estão encobertas pela pedra grosseira.

            O Sr. I. K. Taimni, no livro Estudios Sobre la Psicologia de la Yoga (Federación Teosófica Interamericana, 1982, pag. 225 a 235), no capítulo "O Indivíduo e seu Dharma", nos chama a atenção para o problema do livre-arbítrio, que costumeiramente nos embaralha a mente quando estamos estudando ou refletindo sobre as leis do dharma e do karma. Ele diz que (Disponível na Home-page da Loja Fênix, em "Artigos & Palestras") "Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da evolução humana, coletiva e individual, é devido à interação da Vontade Divina com a vontade individual".

            Entendo por esta afirmativa que o Sr. Taimni está nos dizendo que, se hoje temos o livre arbítrio, é porque, consciente ou inconscientemente, seguimos a Vontade Divina dentro daquilo que era esperado de nós em cada estágio pelo qual já passamos, ou seja, fizemos o dever de casa; e que o uso correto do livre arbítrio fará com que percebamos cada vez mais esta Vontade Divina.

            Ele continua dizendo que "É evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a Lei do Karma em seu aspecto mais amplo", ou seja, nas primeiras vidas no reino humano nós aprendemos porque causamos sofrimento através de ações egocentradas e causando sofrimento estamos formando karma para ser resgatado no futuro. Mas somos nós que escolhemos agir dessa maneira e, portanto, somos os responsáveis por isso.

            Ele se refere à primeira metade do caminho evolutivo trilhado pela consciência que consiste em um mergulho desta na matéria, conhecido como Pravriti-Marga, em que ela vai se revestindo pela matéria, cada vez mais densa; este é o caminho da ação, da busca de experiências. Para o ser humano isto equivale a contrair karma. A segunda metade é a etapa em que a consciência se "livra" da matéria, e é o Nivriti-Marga, em que ocorre a renúncia à ação, e nesta etapa se dá o equilíbrio kármico do indivíduo (ver figura abaixo).

 

 

            Podemos entender então que na primeira parte do caminho evolutivo, quando ainda não percebemos o que Deus espera de nós, não agimos de acordo com Sua vontade, e então geramos karma; na segunda metade em que, pouco a pouco, vamos percebendo o que Deus espera de nós, começamos, também aos poucos, a cumprir nosso dharma, e, ao mesmo tempo, equilibramos nosso karma.

            Cabe aqui a pergunta: o que é cumprir o dharma? Será que encontraremos um caderninho com uma lista de tarefas a serem executadas em cada uma de nossas vidas? Parece que não é assim tão simples; faz parte do aprendizado não só reconhecer o que deve ser feito, como também buscar as tarefas para desempenhar.

            Assim, tanto aquelas coisas que não sabemos ainda fazer, quanto as nossas pequenas tarefas diárias, aquelas que muitas vezes nos parecem sem graça, ou mesmo sem a grandeza e importância que, julgamos, nossa capacidade merece, todas elas desempenham um papel importantíssimo para o nosso aprendizado; elas constituem a oportunidade que a vida nos oferece de executarmos tarefas que nos possibilitam aprender parte do que ainda não sabemos.

            Muitas vezes temos a impressão, que considero errônea, de que tudo aquilo que sabemos e gostamos de fazer constitui o máximo de nossas possibilidades e que a vida nunca nos pedirá nada de novo ou que ainda não sabemos fazer. Pensar assim é negar a existência de um caminho evolutivo, e constitui também uma forma de arrogância, que é a de acharmos que somos senhores absolutos de nossos destinos.

            Conforme diz o Sr. Taimni, o livre-arbítrio é a maneira pela qual interagimos com a Vontade de Deus, e isto nos garante, até certo ponto, o direito de fazermos ou não aquilo que a vida nos propõe; quando temos a oportunidade de desempenharmos uma tarefa qualquer, desde que seja algo correto e justo, podemos achar que não temos temperamento adequado para realizar tal fato, ou que é tarefa de outros, e isto pode até não estar errado, sob certo ponto de vista. Mas não devemos nos esquecer que, enquanto não chegamos ao final do processo evolutivo como seres humanos, apenas algumas facetas do nosso diamante se mostram, e aquilo que julgamos não ser o nosso temperamento, podem ser as facetas que continuam ocultas e querem se mostrar.

            O buscador espiritual é alguém que se propõe a revelar as facetas escondidas do seu diamante interno em um espaço de tempo menor, e que tenta fazê-lo de maneira objetiva e consciente; é natural que para ele surjam possibilidades de executar tarefas estranhas à sua natureza interna já manifestada, mas cuja capacidade de execução está prevista em sua natureza interna mais ampla e ainda não totalmente revelada. Em outras palavras, temos dentro de nós a capacidade para fazermos qualquer coisa, e aquilo que a vida nos pede que façamos e ainda não sabemos, pode ser a oportunidade de aprendermos a fazer e, com isto revelarmos mais aspectos de nossa natureza interna, cumprindo assim nosso dharma e nosso objetivo de evolução.

            Para entendermos isto, podemos relembrar a passagem dos Evangelhos que relata o encontro do Mestre Jesus com Pedro, em que este era um simples pescador, e o Mestre o convida para ser um pescador de almas. Esta passagem exemplifica a possibilidade do inesperado surgir em nossas vidas, através de um chamado para desempenharmos uma nova tarefa, que nunca desempenhamos anteriormente.

            O Homem Perfeito, ou o Mestre de Sabedoria, não escolhe caminhos; Ele não tem mais dificuldades, pois já manifestou todas as suas potencialidades e pode desempenhar qualquer tarefa com perfeição, e as executa com a tranqüilidade de quem faz o que tem que ser feito, simplesmente porque a vida necessita que seja feito.

            O entendimento, aceitação e a superação das surpresas e dificuldades que a vida nos traz são, na realidade, os degraus que nos levam em frente em nosso autoconhecimento, já que isto nos possibilita manifestarmos capacidades nossas com as quais ainda não entramos em contato. Quase sempre as oportunidades que nos causam estranheza são aquelas que nos levam a fazer coisas que não nos dão nenhum tipo de recompensa ou reconhecimento, além de serem, às vezes, aquelas tarefas que nunca desempenhamos; as recompensas poderão ser o aprendizado, a evolução individual e a colaboração com a evolução da humanidade.

            Quem muito escolhe o que quer fazer corre o risco de optar, consciente ou inconscientemente por aquilo que prefere fazer, em vez de escolher o melhor para o plano de evolução. Mas isto não significa que devemos fazer tudo aquilo que tivermos oportunidade, já que estamos também desenvolvendo uma outra virtude, o discernimento, que é a capacidade de escolher o melhor que é, dentro do contexto que estamos tratando, o melhor para a evolução pessoal e coletiva.

            De um modo geral, podemos afirmar que o aspecto mais nobre do dharma do ser humano é aprender a servir; qualquer que seja sua atividade ou seu nível de evolução, ele deverá perceber que o serviço desinteressado de qualquer recompensa ou resultado é o objetivo de sua existência.

            O trabalho em prol do bem geral, sem o objetivo da recompensa, é algo que só pode ser feito quando alicerçado no amor indiferenciado por todos os seres e esta é a idéia fundamental que está por trás de ensinamentos de todas as genuínas tradições espirituais da humanidade.

            O amor indiferenciado pela natureza, animais e seres humanos faz com que ajudemos a todos, sem pensar nas diferenças que percebemos entre nós mesmos e os outros; se esquecemos que somos brancos ou negros e os outros amarelos ou mestiços, se esquecemos que somos pobres e os outros são ricos e vice-versa, que somos cultos e os outros são analfabetos, etc., o que vai restar será unicamente a essência divina presente em cada um de nós, que é igual em todos, sejam homens, animais, vegetais ou minerais.

            Assim estaremos eliminando todas aquelas barreiras, ilusórias e transitórias, que nos fazem pensar que somos seres separados.

         

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Pensamentos

 

Tendo em conta a população do mundo, sereis poucos em número, porém a força e o poder espirituais não se medem por números: medem-se, antes, pela ardente sinceridade. O menos que podemos fazer por uma pessoa que devotou integralmente sua vida a servir-nos e à causa que amamos, é preservar-lhe o corpo e a saúde sempre que dela necessário, pois é o desejo de todos nós. Antes pereça a Sociedade Teosófica do que mostrar-se ela ingrata a H. P. B.

Um Mestre do Tibet

 

 

 

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