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Carlos Eduardo G. Barbosa*

(...) Nós não temos o hábito de memorizar a estrutura, a origem das festas e feriados aos quais nós estamos acostumados. Nós falamos de Páscoa, mas quase todos nós esquecemos o que significa exatamente a Páscoa. Para perceber isso basta perguntarmos uns aos outros "o que é a Páscoa? O que estamos festejando?" basta perguntar e vocês verão que a ignorância nossa não é solitária. É coletiva. (...)
(...) que é posterior, é secundária nessa simbologia, vem associada também à imagem do ovo, hoje ovos de chocolate. Antigamente eram ovinhos de galinha cozidos e pintados, como vinha sendo feito há séculos, talvez há milênios. E o ovo representa o ato da criação.
(...)
[escrevendo a palavra OVO no quadro]
A título de curiosidade, se diz que Picasso não conseguia fazer contas porque quando olhava os números, enxergava figuras. O número sete, para ele, era um nariz de cabeça para baixo. Meu ovo, aqui no quadro, ficou parecendo uma carinha, não é mesmo?
Vamos em frente...
Ovo é um símbolo da criação universal. Madame Blavatsky dedica todo um capítulo na Doutrina Secreta ao simbolismo do ovo. O ovo como representante da criação do mundo, da forma universal. A Terra é ovóide, as estrelas, as luas que circulam em torno dos planetas, o Sol, a Lua, tudo tem essa forma esferóide que nos lembra um ovo.
Os atos de criação acabaram sempre sendo associados ao ovo. E o ovo, para nós tem uma relação simbólica curiosa, pois é associado em todas as mitologias a dois animais diferentes: os pássaros e os répteis, mais especialmente a serpente e as aves de rapina – em algumas civilizações é a coruja, em outras é a águia, o falcão, ou mesmo a íbis – animais que brigam com as serpentes, destróem as serpentes, e são ambos oriundos do ovo. Os dois são ovíparos.
Vamos voltar um pouquinho para a questão da Páscoa.
Por que a Páscoa é comemorada neste domingo? Vocês sabem como se calcula essa data da Páscoa? É um cálculo simples. Se toma a lua nova de março, se conta quatorze dias após essa lua, e o primeiro domingo que aparecer após isso é o domingo de Páscoa. Isso no cálculo cristão. É um pouco diferente do cálculo judaico (...). Trata-se de um cálculo baseado numa posição da Lua. É uma festa lunar, baseada numa lunação.
Depois disso nós temos, sete semanas mais tarde, uma outra festa. A festa das primícias, que comemora os primeiros frutos, coincidindo com Pentecostes. É a festa que relembra a descida do Espírito Santo junto aos apóstolos de Jesus, dando a eles o dom da palavra, da língua, dando a eles a habilidade de falar em línguas estrangeiras. O Espírito Santo teria aparecido na forma de línguas de fogo, inspirando naqueles indivíduos a “palavra” em muitas línguas estrangeiras.
Um fato curioso, pois este é justamente o nosso assunto – a palavra.
O que a palavra tem a ver com a fertilidade das primícias? O que a palavra tem a ver com a festa da Páscoa? O que tem a ver com a Lua?
Na verdade nós, de uma maneira geral, usamos a palavra sem nos dar conta da importância da palavra na nossa vida. Nós já tivemos a oportunidade aqui de mencionar o fato de que nós, seres humanos, sem a presença de outros seres humanos nós não somos nada. Nós dependemos sempre dos outros para ser alguma coisa. Um ser humano abandonado sozinho na infância se torna “nada”. Ele não se torna um ser humano. Ele não aprende a falar, não aprende a pensar, não aprende a civilização. Ele não tem isso herdado geneticamente. Ele tem isso aprendido socialmente na convivência com os demais seres humanos. E o instrumento para essa troca, para essa convivência, é a palavra. A palavra escrita, a palavra falada, a palavra gestual – como no caso dos surdos-mudos – a palavra até mesmo na forma da expressão corporal e dos símbolos dos quais nós nos revestimos para apresentar nossa posição social, nossa importância, nosso “status” na estrutura da sociedade humana.
Mas, de uma maneira geral, esse instrumento de intercâmbio é a palavra. A palavra como um conceito de troca. Ora, esse é o uso que nós conhecemos para a palavra. Por si só já seria um uso formidável, porque a palavra é o que nos dá a condição de sermos humanos. Ela cria a condição para que sejamos humanos. É uma ferramenta para a nossa manifestação individual como seres humanos.
Mas não é a palavra em si que nos caracteriza como seres humanos. O que nós temos como característica de ser humano, não aparece se a palavra não existir. A palavra, portanto, não é a nossa natureza, mas sim o meio, a ferramenta através da qual a nossa natureza aparece.
Ora, os antigos reconheciam esse fato. E reconheciam com um valor adicional da palavra, que hoje esquecemos.
A palavra tem um poder de mobilizar as forças naturais muito maior do que usualmente imaginamos. Não estamos habituados a pensar na palavra como uma ferramenta não apenas social, mas mágica, de relação do indivíduo com a natureza ao seu redor. Tanto não pensamos assim que usamos as palavras de uma forma bastante medíocre, depreciativa. Nossa tendência coletiva, social, não é falar, é tagarelar. É chatear os outros com a palavra.
Não fazemos um uso nobre da palavra. Fazemos um uso pobre, no sentido da pobreza de espírito. A palavra de hoje é pobre, mentirosa, que não corresponde ao real. Nós falamos uma mentira. Gostamos da idéia de poder falar uma mentira e essa mentira ter um “ar” de verdade. Isso está na base das relações sociais modernas. Eu minto para vocês e vocês fazem de conta que acreditam na minha mentira, e ficamos todos felizes com esse jogo de enganação. Estamos todos nos enganando e todos acreditamos que estamos ganhando com isso.
Vejam por exemplo um discurso político. Vejam uma retórica em conversa entre parentes, em que um deseja mostrar ao outro que está bem de vida, que está estabilizado, que sua situação é muito boa, onde todo mundo quem mostrar, com palavras, uma realidade inventada. Qual é o problema? “Palavras são palavras, nada mais que palavras...” não é o que dizemos? O que são as palavras? Só palavras. As palavras mentem...
Mas, vejam só, as palavras são ferramentas. Quando eu uso uma ferramenta para destruir, isso não significa que a ferramenta seja destrutiva, mas sim que eu sou destrutivo. Quando a mesma ferramenta eu uso para construir, isso também não significa que a ferramenta seja construtiva, mas sim que a minha alma deu a ela esse caráter. A palavra é essa ferramenta, que podemos usar para construir ou para destruir. Podemos usá-la para transformar a natureza e o mundo ao nosso redor. Ou podemos usar simplesmente para nos esconder do mundo. Eu me escondo atrás de minhas palavras. Eu conto histórias, conto mentiras, recomponha a minha biografia dez, quinze, ou vinte vezes ao longo da minha vida contando para as pessoas uma realidade que não existe, mas que é válida para mim naquele momento.
Fazemos jogos de palavras criando aquilo que os latinos aperfeiçoaram tanto: o jogo retórico. Eu brinco com as palavras, e nesse brincar, as palavras lançam sobre nós valores aparentes, que na verdade não temos.
Vamos voltar à questão da Páscoa.
O ovo é símbolo da criação, símbolo do momento mágico do surgimento, do nascimento, da criação – criação da vida.
A Páscoa, para os cristãos é a festa da ressurreição. A ressurreição do Cristo, o ungido, chamado também de “encarnação do Verbo”. E o que é o Verbo? É a palavra. Cristo é a encarnação da palavra de Deus. O que significa isso? Para o bom entendedor isso significa que ele é a expressão da verdade. Significa que ele é um sujeito que age de acordo com o que fala.
Na verdade, cada um de nós pode se transformar numa espécie de ungido, um pequeno Cristo, se as nossas palavras e os nossos atos coincidem. Nós também podemos ser filhos do Verbo divino, se as nossas palavras forem divinas, se as nossas palavras obedecem à ética e os nossos atos correspondem a essas mesmas palavras.
Pois bem, essa é a grande dificuldade. Esse é o desafio da Páscoa. Como criar? Como é possível fazer essa maravilha que é a natureza, montar essa estrutura, como os deuses fizeram, segundo os antigos, usando apenas as palavras?
Certos povos tinham uma sensibilidade poética que nós perdemos hoje. A poesia era uma espécie de declaração de amor, da humanidade, pelas palavras. No trabalho com as palavras, o indivíduo retratava a natureza, ainda que ela não correspondesse à natureza visível, mas que correspondia à natureza da alma. Esse retrato da alma com as palavras, esse jogo de amor do homem com as palavras que ele usava trazia as pessoas para uma esfera de pensamento que as afastava do mal. A poesia sempre teve essa finalidade desde os seus primórdios. A poesia sempre esteve relacionada ao ato místico, religioso. O canto e a poesia sempre estiveram ligados aos esforços para levar a alma humana acima da grosseria da materialidade.
Quando o poeta escolhe o momento da primavera, quando as flores – que segundo os antigos poetas são as palavras, as vozes da natureza – abrem suas pétalas e “gritam” de alegria, quando ele escolhe esse momento para comemorar uma festa que nos faz lembrar a palavra, quando associa a ressureição da encarnação do Verbo Divino no ato do ressurgimento da força da natureza através das flores (natureza que havia ficado escondida nas árvores desfolhadas pelo inverno), quando escolhe esse momento é porque quer deixar bem claro para as gerações futuras – é para isso que serviam essas festas – que a criação da natureza é da mesma espécie da criação do verbo, da palavra.
A palavra é um ato voluntário do ser humano. Nenhum de nós pode dizer que falou “sem querer”. “Eu falei mas não queria ter dito isso...”. Falamos porque queremos. O falar é um ato absolutamente, integralmente, voluntário. Falamos o que queremos.
O mandamento do ocultista diz, em poucas palavras, tudo o que se deve fazer. Ele diz que devemos saber. É preciso também querer (ou poder). Não basta saber, é preciso ter vontade, querer. Depois disso é preciso ousar. Ousar é transformar a vontade em atos. Não basta querer, estar com vontade de fazer isso ou aquilo. É preciso ousar. A vida é ousadia. Mas, sobretudo, é preciso calar.
Por que calar? Se a palavra é tão importante, por que calar?
Justamente porque a palavra é tão importante, tão solene, ela não deveria ser desperdiçada. Não deveríamos abrir as torneiras e derramar palavras para todo lado, porque nós enfraquecemos as palavras dessa maneira. Nós estamos exaurindo o nosso poder de criação tagarelando, falando, falando, falando... Falando coisas inúteis. São joguinhos que ficamos jogando. Você me diz “bom dia”, e eu digo “bom dia” também. Então eu digo “tudo bem?” e você responde “tudo bem”. Se não fizermos isso os outros vão estranhar, vão achar ruim. E se eu perguntar como estão as coisas e você me responder de fato como estão, eu vou achar ruim. Eu não quero saber como estão as coisas, mas espero apenas que você diga que está tudo bem. O jogo é esse. As regras, ninguém escreveu ainda, mas todo mundo conhece.
(...)
Falamos um monte de bobagens. Muitas inutilidades. E de repente nos deparamos com uma situação que exige de nós uma voz de comando, e o que nós fazemos? Aí sim, calamos. No momento em que nós precisamos falar, nós não falamos.
As palavras foram objeto de toda uma ética, no passado. Vejam que coisa curiosa: no tempo dos gregos, da Grécia clássica, dos séculos que antecederam a Era Cristã, a mentira, quando descoberta, podia ser punida com a morte do mentiroso. Mentir era um crime de morte. Obviamente as pessoas pensavam muitas vezes antes de contar uma mentira. Até mesmo os grandes chefes militares, numa situação em que hoje qualquer militar mentiria, eles contavam a verdade. Todos conhecem a história dos “trezentos de Esparta”, que podiam perfeitamente, num blefe, escapar do cerco persa. No entanto preferiram dizer: “somos trezentos” e vamos ficar aqui e lutar até à morte. O comandante persa, impressionado com sua valentia, decide oferecer uma oportunidade para que eles desistam da luta, pois do contrário eles lançariam tantas flechas sobre os espartanos que cobririam até mesmo a luz do Sol. O espartano então responde: “muito bem, então combateremos à sombra”. Essas frases eram frases bonitas, de grande efeito, que mostravam o valor da humanidade. Sobretudo demonstravam a importância que esses povos davam à palavra. Eles deixaram Esparta dizendo que morreriam defendendo sua nação, e não seria possível voltar para casa e desistir da luta. Eles eram muito fortes.
Voltar atrás com a palavra era uma vergonha. Eles não seria recebidos de volta.
Nós não precisamos ir muito longe. Não sei se vocês se lembram, na história do Brasil, das lutas em Minas Gerais por causa do ouro. Os paulistas foram até lá se apropriar de terras e minas, mas foram tocados de lá pelos emboabas, os mineirinhos. Esses mineirinhos puseram os paulistas para correr. E eles retornaram para São Paulo derrotados. Mas chegando aqui foram escurraçados de volta para Minas. As próprias esposas dos paulistas não quiseram recebê-los em casa. Foi uma péssima recepção pois eles estavam ferindo os brios das famílias brasileiras, derrotados pelos recém-chegados. Após jurarem vitória, retornaram com a derrota.
Com isso tudo queremos dizer que todos esses povos davam muito mais importância à palavra do que hoje damos. Hoje a mentira está consagrada como aceitável. Nós aceitamos a mentira. Todo mundo mente um pouquinho. Mentir um pouquinho não faz mal a ninguém. No entanto, ainda que não faça mal socialmente, porque não muda muito a nossa vida, faz mal pessoalmente, justamente porque não muda a nossa vida. E o objetivo da palavra é a mudança, a transformação. A palavra não existe apenas para manter a situação. Ela não é conservadora, mas sim transformadora. A palavra é uma ferramenta de transformação. Ela transforma o ser humano em ser humano [de verdade]. Faz do ser humano que era um mero animal, uma máquina da natureza, se transformar num semideus, numa divindade criadora. A palavra nos permite criar. Mas quando a palavra nos permite criar? Quando fazemos as palavras e os atos acontecerem juntos.
A natureza faz assim. A natureza se diz que é uma poesia. As flores, a Lua, as estrelas no céu, a vegetação, os cristais, a areia no mar, as ondas, tudo isso, para nós, é poesia. A natureza se expressa para nós com uma eloqüência muito grande. A natureza se expressa para nós através de atos. A palavra da natureza é a própria criação das formas naturais.
Como nós respondemos a essa fala da natureza? Será que respondemos com o mesmo vocabulário? Não. Nós devolvemos à natureza a omissão, nós devolvemos o desprezo, a destruição. Não sabemos de fato conversar com a natureza.
Todo esse movimento ambientalista, ecológico, que existe hoje é uma tentativa de buscar novamente esse diálogo. Queremos dialogar com a natureza, e não destruí-la. Da mesma forma que pais não querem destruir filhos, querem dialogar com seus filhos. Vizinhos querem dialogar com vizinhos, e não brigar com eles. Mas nós acabamos brigando. Nós acabamos nos destruindo mutuamente. O ser humano, por falta de diálogo, vai à guerra. Nós promovemos ações destrutivas aos montes porque não sabemos usar a palavra. Vejam a diferença, por exemplo, do trabalho de um Buda, de um Cristo, de um Mahatma Gandhi, que com a palavra, com suas poucas palavras – pois o Gandhi era de falar pouco – consegue pacificar uma nação inteira que estava em ponto de explodir. Ele sabia usar a palavra da maneira certa. Ele era o exemplo vivo daquilo que ele falava. E por mais que os adversários tentem, ainda hoje, denegrir a sua imagem, dizendo que ele era falso, que dizia uma coisa e fazia outra, o poder do exemplo de vida, quando ele fala o que verdadeiramente ele é, é tão forte que a crítica não consegue derrubar. Quando se usa a palavra, e a palavra efetivamente descreve as forças da natureza, quando a palavra nos coloca em ligação com essas forças, ela se torna uma palavra imortal. Ela está investida do “espírito santo”. É a palavra da festa cristã do pentecostes. A palavra da Páscoa, da ressurreição.
É possível encontrar essa palavra. Muitos de nós já lemos contos infantis e histórias que vêm se perpetuando há séculos. Quem nunca leu “os doze trabalhos de Hércules”? Quase todo mundo, na infância lê “os doze trabalhos de Hércules”. O “Dom Qixote”, quantos séculos já tem, e continua sempre forte, vivo. As fábulas de La Fontaine, que tomou emprestadas as histórias dos árabes, que tomaram dos indianos. As histórias egípcias que chegaram até nós pelos judeus, através de narrativas religiosas. Uma série de histórias vem se perpetuando ao longo dos séculos, dos milênios, porque são palavras que calam fundo na nossa alma. Mexem com grandes forças da natureza que estão adormecidas dentro de nós. Todas elas têm alguma coisa que não sabemos explicar bem o que é, mas que chama a nossa atenção, e diz “leia de novo!”, “leia de novo!”. E o que está escrito, por trás dessas histórias é: “vamos agir”.
Por trás de toda história de forte conteúdo inconsciente existe uma inspiração para agirmos de acordo com nossa voz interior, a “palavra que existe dentro de nós”, o verbo criador que está aqui dentro e que fala conosco. E esse “falar conosco” é o que nos falta fazer: o diálogo interior. É o diálogo da personalidade, que achamos que somos, com o espírito, que efetivamente nós somos. Quando existe esse diálogo e a nossa personalidade se converte em discípulo de nossa alma, ou de nosso espírito, então o indivíduo se ilumina.
E a partir desse momento ele se torna capaz de grandes obras junto à natureza. Pois se ele consegue conversar consigo mesmo, ele se conhece. E quem conhece a si próprio, conhece o universo, diziam os gregos. O grego se referia também ao microcosmo, ou seja, o corpo humano é um pequeno modelo representativo do universo como um todo. Ao controlar as forças que estão dentro desse corpo, dentro dessa personalidade limitada, nós conseguimos controlar as mesmas forças em todo o universo ao nosso redor.
O indivíduo iluminado por esse diálogo interior é capaz de controlar a chuva, o frio, o calor, a criação da natureza. Vocês devem ter ouvido falar sobre os fenômenos produzidos por alguns faquires da Índia, por alguns magos indianos, que pegam, por exemplo, uma sementinha de uma planta na própria mão deles e a fazem brotar e dar o fruto, em poucos minutos. Dá a flor e o fruto.
O que eles estão fazendo? Estão mobilizando as forças naturais, não há mágica nenhuma naquilo. Não há truques, nem ações que ferem as leis da natureza. Muito ao contrário, são as próprias leis da natureza que estão sendo acariciadas pelo comportamento desse indivíduo, e que respondem a ele com obediência, como um animal domesticado.
Vejam que curioso. Estamos festejando a Páscoa. A Páscoa é a festa da Ressurreição, do ressurgimento das flores no mundo dos vegetais. A Ressurreição do Cristo, o Verbo Divino – a festa da Palavra. Da palavra divina, a Palavra de Deus. Mas por uma ironia da nossa civilização, a Páscoa acontece sempre perto de uma outra festa, de uma outra data comemorativa, vocês se lembram qual é? É no dia primeiro de abril... O dia da mentira.
Vejam como o acaso não existe.
Quando temos a comemoração do dia da mentira próximo da celebração da Páscoa, tudo nos leva a lembrar da importância de se dizer a verdade. A importância de falar aquilo que é, ou que acreditamos que é, ou que sentimos intimamente que é a verdade. Falar a nossa natureza interior. E dessa maneira despertar todas as forças que a natureza interior tem para oferecer ao mundo.
Quando agimos dessa maneira, fazendo ressurgir em nós o verbo divino, aí sim nos tornamos efetivamente humanos. Enquanto a palavra não desperta essas forças naturais (enquanto mentimos), nós estamos “adormecidos”. Somos seres humanos adormecidos, ou seja, não estamos fazendo valer a nossa natureza humana. Nós somos então como autômatos, máquinas, somos papagaios reproduzindo o que os outros falam ao nosso redor. Afinal falar o mesmo que os outros evita atritos. Ao usar a gíria do momento, as expressões que todos esperam que se use, isso faz evitar atrito.

Ainda falando sobre as regras do ocultismo, quando um estudante de ocultismo, há cerca de três séculos, perguntou ao seu orientador “se as palavras são tão importantes assim, o que deveríamos dizer? Será que deveríamos ficar quietos, calados o tempo todo?” E o instrutor respondeu a ele: “Não, você deve falar. Mas antes de falar avalie se aquilo que você vai dizer, além de ser verdadeiro, preenche esses três requisitos: se é bom, útil, e agradável. Se não preencher os três, feche a matraca.” Dizem as más línguas que esse estudante nunca mais falou na vida.
De fato há certas pessoas de quem podemos dizer que, se ficassem a vida inteira em silêncio, o mundo não perderia nada. Porque a indisciplina interior acaba provocando, nessa pessoa, um jogo de palavras inúteis. Em lugar de ajudar, sendo boas, úteis, necessárias, essas palavras têm todas as qualidades inversas: são más, inúteis e desagradáveis. Muito freqüentemente uma única palavra tem o poder de destruir o trabalho de gerações inteiras de aperfeiçoamento social.
Quando os seres humanos se reúnem em grupos, é muito importante a palavra que se usa, aquilo que o líder fala, ou que alguém mais fala quando se dirige ao líder. Isso é muito importante para manter o grupo coeso. Um pequeno deslize com as palavras é capaz de destruir a unidade de uma família ou de uma comunidade ou grupo religioso. Uma única palavra... Um “não” em hora errada ou uma afirmação maldosa, apressada, uma denúncia mal fundamentada, tudo isso tem a capacidade de destruir grande parte do trabalho da humanidade.
A grande luta do ser humano, no final das contas, em direção ao seu aperfeiçoamento, passa sempre, e necessariamente, pela palavra. Passa sempre pela necessidade de se educar a palavra, de fazê-la obedecer, não ao vozerio das multidões, mas sim ao sussurro interior do espírito – a única voz que efetivamente sabe o que deve ser dito.
Vejam bem, eu insisto aqui num ponto importante: “dizer”, aqui, não é apenas dizer com palavras, mas dizer com ações, com gestos, no sentido mais amplo do termo.
A importância da palavra, associada ao símbolo do “ovo criador” faz com que a associação simbólica aos pássaros e répteis crie certos emblemas que são muito importantes e fortes na história da humanidade. O pássaro representa o espírito. O réptil representa a matéria. De uma maneira grosseira, esse seria o símbolo. Mas é o espírito dentro de nossa mente e a matéria também dentro da nossa mente, porque o ovo representa o trabalho da mente, aquela que cria o universo. O Universo é criado pela grande mente divina, “Mahat”, que significa “grande”. A grande mente de Brahma.
Esses animais estão representando as duas naturezas distintas da mente: a mente superior e a mente inferior. A mente materializada, associada às formas, representada pelos répteis, e a mente que voa acima dos fenômenos materiais, representada pelos pássaros. Quando a mente superior é capaz de controlar a mente inferior, o indivíduo é sadio na mente e no corpo. Os antigos sabiam melhor do que nós que a saúde do corpo depende da saúde da alma, da mente – depende do quanto nós estamos mais próximos do espíritos em nossa vida e em nossas palavras, e representavam o ato da cura por uma ave cravando suas garras numa serpente. A mente superior prendendo sob seu domínio a volúvel mente inferior.
O símbolo é usado, hoje, no mundo inteiro. O vemos no brasão dos Estados Unidos, com a águia e a serpente. É a mesma luta que os britânicos representaram entre o leão e o unicórnio, também no brasão nacional. O unicórnio representando o mesmo que o pássaro, a figura mítica do espírito e da pureza. E o leão representando a natureza material. Ele é o rei da natureza, o rei dos animais. Mas o unicórnio é um animal divino, que não se encontra no mundo material. Como é que a mente se manifesta para nós? É através da linguagem. Através das palavras. Mais uma vez aqui nós temos a fórmula que associa o ovo à palavra. À linguagem que nos aproxima uns dos outros.
Por isso também podemos dizer que a humanidade nasce no planeta Terra por que a Terra é o ovo que incuba essa humanidade, que nos prepara para sair do ovo e viver a nossa natureza superior em outras esferas. Nós precisamos nascer, deixando de ser o embrião dentro do ovo para nos tornarmos o pássaro. Estamos ainda na condição embrionária. Somos embriões de seres humanos.
Quando despertarmos para nossa verdadeira natureza superior, segundo a tradição teosófica, estaremos em planos de existência superiores a este em que nos encontramos agora. Mas como podemos nos preparar para isso? Adotando um comportamento ético impecável. Isso passa necessariamente pela palavra – palavra de salvação. Quando falamos em comportamento correto, a primeira coisa de que nos lembramos é justamente a coerência entre o que se prega e o que se faz. Um bom comportamento é um comportamento que obedece às normas estabelecidas por seres espirituais inspirados pelo espírito (os espíritos planetários, segundo madame Blavastky).
(...)
Devemos partir para uma prática diária relacionada às palavras. Devemos fazer nossas palavras coincidirem com os nossos atos. Seja confessando em palavras aquilo que fazemos, seja cumprindo com nossos atos aquilo que dizemos. Por exemplo, através de deliberações simples que dão o poder da vontade à palavra: toda vez que dissermos “vou fazer isso”, façamos o que foi dito, não importa o quanto difícil ou desagradável nos pareça depois a tarefa.
Hoje não temos credibilidade. Ao dizer “vou fazer isso...” alguém já diz “foi o que ele disse ontem, e antes de ontem, e no dia anterior, no mês passado, no ano passado, e eu estou esperando até agora”. Quantas vezes mais vamos ouvir isso? Devemos nos tornar pessoas que valem por sua palavra. E quando estivermos nessa condição nós já estaremos no caminho da iluminação. Sem esforço nenhum, mas fazendo o maior esforço que somos capazes de fazer, que é o de tornar a nossa palavra um comando para nós mesmos.
Nunca devemos prometer algo que não vamos cumprir. É nunca deliberar fazer uma coisa que não estamos capacitados para fazer. É nunca assumir mais compromissos do que os que sejamos capazes de cumprir. Se vocês querem ver uma pessoa completamente errada na sua relação com as palavras, basta pegar uma agenda da média das pessoas comuns, em que os compromissos diários mais simples migram de um dia para o outro, página a página, sem serem cumpridos. Uma infinidade de pendências que tornam a nossa vida um angustiante inferno. Temos sempre coisas que deixamos de fazer que ficam nos perturbando em nossa memória, em nossa mente, chamando nossa atenção para o compromisso assumido. E assim ficam até que um dia após passado tanto tempo que o compromisso perde o sentido, decidimos que não vamos mais fazê-lo. Uma decisão pelo “não-fazer”...
Isso é um veneno para o ser humano.
Vejam como é fácil corrigir essa distorção que nos perturba tanto. Começamos por rasgar a agenda, e jogá-la no lixo. Vamos “zerar” nossos compromissos e obrigações. Então abra uma agenda nova e não mais coloque numa página alguma coisa que não esteja seguro de que poderá realmente executar naquele dia. E ao final do dia se assegurem de que tudo aquilo que foi anotado tenha sido efetivamente feito. Não importa com que sacrifício, não importa com que esforço fenomenal, não importa que o mundo esteja caindo por cima de vocês, mas façam exatamente tudo aquilo que vocês se determinaram a fazer naquele dia. Não existe frase mais sábia do que aquela: “Não deixe para amanhã aquilo que pode ser feito hoje”. Isso é um grande exercício da força interior que nós temos, que é a força da vontade. A força da palavra, a força da ação.
Para libertar nossa vontade da escravidão das forças dispersivas do mundo material, precisamos aprender a fazer valer nossas palavras. A libertação do cativeiro do Egito, que os judeus comemoravam com a celebração da Páscoa, era a representação histórica da retomada de sua capacidade de deliberar seu próprio destino, seus futuros sucessos ou infortúnios. A mesma retomada que realizamos ao aprendermos como honrar nossos compromissos e nossa palavra.
O exercício é esse. É o nosso exercício de Páscoa. Rasgar as velhas agendas, abrir novas agendas e escrever apenas o que pode ser feito. E decidir fazer apenas aquilo que vamos efetivamente cumprir. Não prometer nada que não possa ser feito, para quem quer que seja. Nem mesmo por brincadeira. Dessa maneira vocês podem deixar todo o resto das palavras inúteis, que elas não vão mais atrapalhar tanto. Mas essas em especial, que se referem às nossas obrigações cotidianas passam a ser mandatórias.
A nossa vida passa então por uma mudança qualitativa. À medida que passamos a cumprir nossas promessas e a realizar os atos que nos propusemos a fazer, crescemos aos olhos dos outros. As pessoas passam a ter um respeito especial por cada um de nós, que não sabíamos merecer. Todos respeitam uma pessoa capaz de realização, porque todos se sentem inúteis. Como escreveu um autor sobre esse dilema da natureza humana: “somos todos incompetentes”.
Fazer alguma coisa do começo ao fim, por pouco que pareça, é tão importante que dá a esse indivíduo o respeito junto a sua comunidade.
(...)
[Fim do lado A da fita]
(...)
[falando alguém da platéia]
... houve a praga da morte dos primogênitos, e quando morreu o filho do faraó ele se desesperou. E quantos dos primogênitos, tanto dos homens quanto dos animais foram sacrificados pelo anjo sacrificador, que deu uma ordem ao povo de Israel: “vocês deverão sacrificar um cordeiro, recolher o sangue do cordeiro, pintar o umbral das portas com o sangue do cordeiro e não quebrar os ossos desse cordeiro”. E esse cordeiro representava o sacrifício do Cristo, na pessoa do homem, Jesus, o Logos, de sorte que a morte é a ressurreição, é o retorno do Logos da matéria para o campo espiritual. Então essa dualidade acontece dessa forma. Eu quis inserir essa idéia dentro da discussão, (...) porque eu achei realmente muito oportuno o enfoque do poder da palavra, do mantra, da concentração da energia. E é mais ou menos isso o que eu estava pensando.
Carlos Eduardo
Agradeço a contribuição, e vale comentar que a questão do sacrifício do inocente, ou o sacrifício do animal, é uma representação justamente do ato do nascimento. Ao nascer estamos sacrificando nosso espírito pela nossa personalidade. Nós manifestamos a personalidade, e dessa forma estamos matando o espírito.
Então a finalidade desse sacrifício sempre foi a fertilidade, a busca do resultado futuro. O problema que houve com esse símbolo, que originalmente era um símbolo sublime, elevado, é que ele foi depois transformado em um símbolo mecânico: mata-se o animal, corta-se a sua cabeça, pendura-se a cabeça, verte-se o sangue. É um horror. Os gregos faziam muito isso. Temos em português uma expressão, a “hecatombe” pela qual designamos uma grande tragédia, mas que na verdade, em língua grega significa: hékaton, ou seja, uma centena; e boos, os bois. Cem bois. Era quando se realizava o sacrifício de uma quantidade enorme de bois, cujo sangue era vertido em uma vala cavada na terra (como se observa na Odisséia, de Homero) para chamar os mortos e os deuses, desafiando-os com uma espada e forçando-os a obedecer ao comando do homem – com a finalidade de obter vaticínios.
Esses ritos sacrificiais já vêm de uma fase de degeneração do símbolo primitivo, que era um símbolo muito bonito. O símbolo do sacrifício em que a natureza terrestre prevalece sobre a natureza espiritual, que é sacrificada. Mas depois, como a Fênix que renasce de suas cinzas, ressuscita o espírito, e o Cristo (o Ego imortal) sai de sua sepultura de carne. Da mesma forma que o anjo substitui a criança pelo cordeiro (um cordeiro simbólico). O que o símbolo sempre mostrava é que aquele não era um ato real sobre a carne, mas apenas um ato simbólico, espiritual.
Se nós nos atermos ao lado espiritual do símbolo, ele fica perfeito, pois é justamente o símbolo que está por trás dessa festividade da Páscoa. Se nos atermos ao lado material, à forma exterior do símbolo, incorremos nos erros que deram origem às práticas hediondas de feitiçaria, magia negra, que encontramos em diversas épocas e lugares – inclusive no norte da Índia, onde se perpetua até hoje. O hábito de se matar um bode preto e se usar sua cabeça como adorno do bruxo, ou como símbolo cravado numa estaca vem da Índia. Infelizmente é uma das heranças ruins que também vieram de lá.
De qualquer maneira vale a contribuição da lembrança do símbolo, para que possamos raciocinar um pouco mais a respeito dessa simbologia.
João Blóes
Mas sobre a palavra, também, terminando sua palestra para os seus discípulos, o Cristo encerrou mais ou menos com essa frase, para preveni-los: “Seja o vosso falar um simples sim, um simples não. O que passar disso vem do mal”.
Carlos Eduardo
Acho que ele partiu do princípio de que é melhor prevenir do que remediar.
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*Palesta proferida em 1996

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