Terra Espiritual
 

'Discutindo a espiritualidade!'

Home

Espiritismo

Religiões

Sociedades Secretas

Links

Webmasters

 

www.terraespiritual.org

Menu

Aconteceu

Arte Espírita

Artigos

Biografias

Centro Espírita em Destaque

Centros Espíritas do Ceará

Chat Espírita

Doutrina

Enquete do mês

Entrevista do mês

Espiritismo e ciência

Espiritismo e filosofia

Espiritismo e religião

Eventos

Filmes espiritualistas

Liga dos Historiadores e Pesquisadores Espíritas (LIHPE)

Livro do mês

Mensagens

Obras básicas - Download

O Evangelho no Lar

Parapsicologia e espiritismo

Perguntas e Respostas

Sala Filosofia Espírita

Sobre a Divulgação Espírita

Transcomunicação

Vocabulário Espírita

 

 Autoconhecimento para a Libertação da Consciência

  


 

Ricardo Lindemann

Meus irmãos, é um prazer estar aqui novamente na Loja Liberdade com vocês.

Eu considero sempre uma grata oportunidade poder trocar algumas idéias sobre um assunto tão importante como aquele que é o caminho para a felicidade. Suponho que se há alguma coisa que todos talvez cheguem a um acordo rapidamente, é que todos os seres humanos buscam a felicidade; talvez até, todas as criaturas, eu não sei.

A divergência talvez ocorra quanto a aonde as pessoas acham que a felicidade está. Poderá haver alguém que creia que através das drogas vai encontrar a felicidade. Outros, talvez pensem que o álcool é o caminho da felicidade. Outros, talvez creiam que a felicidade depende da vontade de Deus, e é dada a seus eleitos. Mas o ponto de vista teosófico a este respeito é o mesmo das antigas filosofias da Índia: a felicidade é o estado natural do ser humano. Eu vou dar um exemplo:

Vocês já viram alguém reclamando por estar feliz ? Esta felicidade me incomoda, tenho que me livrar deste troço!

Eu não tenho visto, não sei se vocês encontraram. Desde que eu fiquei feliz não sei mais o que fazer da minha vida, tenho que terminar com este negócio... ando feliz demais.

Alguma coisa há em nós, que quando encontramos a felicidade chegamos até a ter uma posição que eu diria, talvez, um pouco arrogante ou petulante, no sentido de achar que a natureza não nos deu mais do que a obrigação dela. Se eu estou feliz, está tudo bem, não estou devendo nada para ninguém. Agora, se eu estiver triste, deprimido, aí, o universo todo está errado, tem de fazer um universo novo.

Esta é uma maneira muito antiga de dizer que a essência do homem é a felicidade. Quando o homem se sente feliz, ele se sente em casa, mas quando ele se sente infeliz, parece estar faltando algo. Por exemplo, os filósofos da Índia Antiga comparavam com a idéia de que ao fogo o calor não faz mal; pelo contrário, a água e o frio talvez façam. Mas quanto mais quente para o fogo, melhor; é da essência do fogo o calor. Então, eles faziam este raciocínio analógico para dizer que nós nunca reclamamos da felicidade, portanto, esta é a nossa essência natural. Daquilo que nós reclamamos, que não gostamos, esta não deve ser a nossa essência.

Por outro lado ( talvez eu já tenha usado este exemplo, mas não consigo resistir a usá-lo novamente ), eu costumo sempre dizer que é difícil explicar para o cachorro do Elvis Presley porque o dono dele se suicidou se a geladeira estava cheia. Ou seja, se nós fossemos apenas animais ... Eu creio que a maior felicidade para o animal dever ser comer, procriar, dormir ... Quer dizer, ter a satisfação das suas funções fisiológicas como o objetivo da existência.

Mas o ser humano, a julgar pelo exemplo que estou citando que é bem conhecido, como o de Elvis Presley que morreu de overdose. Enfim, vários outros como a Adriane de Oliveira, a Elis Regina, e mais recentemente, merecendo as nossas orações e pensamentos positivos, o Maradona, que resolveu fazer um tratamento para se libertar das drogas, antes que aquilo que já aconteceu com outros, acontecesse também com ele – morrer de overdose.

Não sei se vocês já pararam para pensar: O que faltava para o Maradona ser feliz ?

Eu suponho, não sei se vocês concordam comigo, que uma pessoa que está precisando de cocaína ou de outra droga qualquer para se sentir feliz, é sinal que não está feliz com aquilo que já tem. Não é verdade ?

Claro, se a pessoa não tem tanto dinheiro, ela talvez fique drogada só com álcool, que também é uma droga, só que socialmente aceita. ( mas vocês sabem o que acontece quando passa da medida) Mas quando a pessoa tem mais dinheiro, ela adquire possibilidades de novas tentações; e aí, ela pode destruir mais profundamente a sua vida se ela não tiver conquistado antes uma serenidade interior.

Se é a nossa própria natureza ser feliz, talvez não seja difícil levantar a hipótese de que se nós não tivermos nenhuma causa obstaculizando, é muito provável que a felicidade brote espontaneamente em nosso coração, como é caso geral a situação das crianças.

Vocês já viram com quão pouco uma criança fica feliz ? Os adultos, às vezes com muito ainda precisam de cocaína para ver se melhoram; é aí que se afundam de vez.

O que faltava para o Elvis Presley ser feliz ? Ele era rico, famoso, bonito. Tinha uma voz encantadora, as mulheres o perseguiam como se fosse um deus. Sei lá ... vivia de rolls royce para cima e para baixo... Vocês alguma vez pararam para pensar sobre este assunto ? Qual a causa da felicidade ? Isto faz parte do autoconhecimento. Nós estamos aqui dando uma palestra sobre autoconhecimento para libertação da consciência.

Se for verdade que a condição natural do homem é a felicidade, então, eu vou admitir, pelo menos como coerente, que se a consciência estiver livre, ele deve encontrar uma felicidade espontânea, natural. Talvez ela seja algo perceptível ou pareça mais próximo nas crianças.

Eu tive o prazer de ouvir o Dalai Lama na Índia dando uma palestra na sede nacional da Sociedade Teosófica em Benares, às margens do Rio Ganges. Para quem não sabe, a sede internacional da Sociedade Teosófica também fica na Índia, mas na cidade de Chennai, antiga Madras. Ainda sim, quando tivemos a visita ilustre do Dalai Lama, ele nos dizia que todo homem é fruto da compaixão, porque diferentemente de outras espécies, o ser humano não sobrevive se não tiver alguém que cuide dele na fragilidade da sua infância. A gente às vezes vê notícias de crianças que foram jogadas na lata do lixo; o próprio Carlos Eduardo conhece alguns casos de meninos-lobo que foram auxiliados e cuidados pelos lobos. Alguém teve de cuidar porque nós somos como um pentium, tão complicado; e como não nascemos com um manual de instruções ... E mesmo que nascêssemos, se a gente não sabe ler, alguém vai ter de ler para nós.

O fato é que dependemos que alguém cuide de nós sei lá ate que idade. Alguns vão dizer que até os três anos, outros, até os cinco. Outros ainda vão dizer que é até os quatorze, eu deixo os números para vocês, Mas, com certeza, pelo menos no primeiro e segundo ano de nossa vida, se nós não tivermos alguém que tenha nos cuidado ... Eu acho muito coerente a expressão do Dalai Lama em dizer, portanto, que todos nós somos fruto da compaixão, porque se estamos aqui, mesmo que não tenhamos tido o privilégio de ter um pai ou uma mãe que nos cuidasse, alguém fez as vezes deste papel de pai ou mãe; com certeza, caso contrário, não estaríamos nesta sala.

Então, o Dalai Lama dizia também que depois, mais tarde, nós crescemos e geramos a guerra, a corrupção, toda esta miséria, o egoísmo, a violência. Gastamos um milhão de dólares por minuto em armas no mundo hoje, o que determina, proporcionalmente as 40.000 crianças que morrem de fome diariamente no mundo; ou se vocês preferirem, nos termos da UNESCO : “crianças que morrem de causas derivadas da subnutrição no mundo em desenvolvimento.” ( só para lembrar, isto quer dizer aqui também; na Etiópia, na Índia e em vários lugares.)

Vocês sabem o que é 40.000 por dia ?

Se nós gastamos 1,44 bilhões de dólares por dia em armas, para cada criança que morre de fome corresponde a 36.000 dólares, o que dá quase 70.000 reais. 36.000 dólares ... muita gente não vai ganhar isto na vida inteira trabalhando honestamente; dependendo de que país a pessoa trabalhe e em que emprego. Mas esta criança já ganharia, antes de morrer, uma espécie de pensão vitalícia. Com isto, compraria um bom apartamento, arrendaria um quarto, ou talvez dois, viveria nem que fosse no quartinho de empregada, mas já teria a vida ganha. Estou exagerando ?

Por que, então, existe tanta miséria ? Por que existe tanto sofrimento? Não bastasse isto, o dinheiro ainda está sendo gasto em armamento, cuja a utilidade imediata não é exatamente ser usado em parques de diversão, em tiro ao prato ou coisa parecida. Sabemos para que o armamento é vendido, e, por conseguinte, nós temos a impressão de que o mundo ainda não encontrou o caminho da felicidade.

Antigamente, o grande medo dos homens era um vulcão, uma peste; era algum cataclismo, um terremoto. Hoje em dia, a maior ameaça do homem é o próprio homem. O homem tem uma mente criativa e poderosa; se ela for usada para o mal, ela pode causar mais dano do que benefício; ela pode transformar o homem num ser mais animal do que os próprios animais. Quando os prazeres do próprio animal já não chegam mais para fazê-lo feliz, aí ele vai procurar a cocaína, o álcool, as drogas porque nem mesmo os prazeres da carne são suficientes.

Por outro lado, eu creio que vocês concordam comigo, se eu ficar dependente de qualquer coisa, a minha felicidade já é de segunda mão; eu posso perdê-la a qualquer momento. Se uma pessoa conseguisse adquirir autodomínio, será que ela não seria muito mais feliz do que as outras porque ninguém poderia roubar a sua felicidade ? Talvez vocês lembrem daquela passagem de Jesus que dizia:

“Não ajunteis tesouros na terra, onde os ladrões roubam, as traças roem e a ferrugem consome. Mas antes, ajunteis tesouros nos céus, onde os ladrões não minam nem roubam, as traças não roem e a ferrugem não consome.”

Seja como for, se nós pudéssemos encontrar este estado natural da consciência que é a felicidade, muito provavelmente, nós conquistaríamos um tipo de felicidade que não depende de causa externa, e portanto, seria uma felicidade que viria com liberdade e não com dependência.

Alguém poderá dizer que este estado não existe; mas eu teria talvez a coragem de mostrar para vocês que a criança, quando bem cuidada, expressa naturalmente este estado. Eu poderia arriscar dizer para vocês que todos nós somos frutos da compaixão, e que em algum momento de nossas vidas este estado foi de alguma forma experimentado. Talvez, depois a vida ficou muito difícil; mas o mais provável é que nós não tenhamos sabido segurar a felicidade.

Por que aquela felicidade fácil da infância foi perdida ? Existe até um livro do Dr. Pierre Weil, A Neurose do Paraíso Perdido. Eu considero que só o título já vale o que estiver lá dentro.

Esta reflexão eu gostaria de compartilhar com vocês:

O que acontece com o sol se houver nuvens na frente dele ? Ele deixa de brilhar ?

Não. Mas talvez nós não vejamos o seu brilho; não recebamos o seu calor, a sua luz. O fato de uma pessoa não estar recebendo a luz do sol não significa que o sol apagou; significa ou que é noite e nós temos de esperar que ele nasça novamente, ou que há algum obstáculo entre nós e o sol que não está permitindo que seu brilho chegue a nós. Isto faz sentido para vocês ?

Então, se a felicidade era um estado natural na infância, se a felicidade é o estado natural da consciência humana, por que, às vezes, nós não estamos felizes ? De que forma a felicidade tira férias ? Esta é a nossa pergunta fundamental; se nós soubermos como a felicidade foi perdida, talvez haja uma maneira de reconquistá-la.

Eu me lembro de quando pela primeira vez eu ganhei uma bola de futebol oficial n.º 5, de couro. Tem uma foto do Ricardinho segurando aquela bola; toda aquela alegria no dia do aniversário, fotografado quando eu tinha oito anos de idade.

Pergunta-se: A causa da felicidade era a bola ? Hoje eu posso comprar tantas bolas que posso encher o apartamento até o teto. Será que vai produzir o mesmo efeito ? Por que, naquele momento, a bola causou tanta felicidade, e hoje, talvez não cause da mesma forma ?

Por que não é mais o objeto do desejo. Agora, talvez o desejo esteja apontando noutra direção.

Então, quando a gente chega lá pelos 13, 14 anos, surge a história da primeira namorada, do primeiro beijo. Parece que os hormônios nos governam e todos os objetivos da nossa vida ficam centrados ali, naquela experiência romântica.

Acho que faz uns dois ou três anos, eu reencontrei a minha primeira namorada. Aí, vocês podem até botar a mesma roupa que estavam usando naquele dia ... – eu já aviso que comigo não seria possível, por algum motivo, que vocês já notaram, eu não caibo mais na mesma roupa; não sei por que motivo, mas não caibo mais – , ou tentar botar a mesma música, o Skyline do Elton John, que a gente esperava para dançar juntinho, aquela coisa toda. Eu ia de bicicleta para a reunião dançante na garagem da casa dela, levava q-suko naqueles saquinhos, a gente distribuía, cada um tomava um pouco. ( aí, dava aquela briga pelo copo de framboesa, ninguém agüentava mais o de laranja) A vida era tão simples, a felicidade estava tão próxima.

O que aconteceu, que com o passar dos anos as coisas vão se tornando meio complicadas ? Daqui a pouco, a gente quer voltar àquela felicidade, bota a mesma música, bota a mesma roupa, volta para o mesmo lugar, se é que ele ainda existe, ( vocês podem imaginar que já faz alguns anos que isto aconteceu ) mas falta alguma coisa. Mesmo que vocês estejam com a mesma pessoa, talvez a coisa não funcione.

Então, a questão do afeto não é um mero atrito entre mucosas ou um toque entre os lábios – o beijo pode ter perdido a graça. Alguma coisa há a mais no ser humano que faz com que a mera sensação não seja suficiente para ele ser feliz. Uma pessoa que tem muito dinheiro, pode comprar vários tipos de parceria. Aliás, quem tem dinheiro, tem sempre muito boa companhia. ( do ponto de vista mundano ) Mas não se pode comprar o verdadeiro afeto, e a verdadeira felicidade.

Isto tem sido ensinado por Buda, por Cristo, por Shankara, por Patanjali: A felicidade é um estado de espírito; ela depende de uma mente sem nuvens; ela depende de uma mente que seja transparente para a passagem da luz do Espírito. Caso contrário, a felicidade fica retida em algum lugar e a gente passa frio porque a nuvem conteve o sol, e falta luz, falta significado em nossas vidas.

Meus queridos, eu vou ler para vocês uma das passagem que eu acho mais interessante dos Yoga-Sutras, que é um livro que foi escrito por Patanjali , uns 2.600 anos atrás, que com certeza vocês já conhecem porque o tradutor está aqui ao meu lado [ Carlos Eduardo ] e já deve ter falado para vocês no assunto. Então, o aforismo do livro 1 versículo 33 diz o seguinte:

“A mente torna-se clara ( o que quer dizer que ela cria aquelas condições favoráveis para a luz da felicidade, do nosso espírito, do nosso sol interior irradiar.) pelo cultivo de atitudes de cordialidade, compaixão, alegria e indiferença, diante da felicidade, miséria, virtude e vício respectivamente.”

Esta maneira sânscrita de escrever é complicada. Vamos pegar o par, caso a caso dos ingredientes respectivos:

Ela se trona clara, portanto, quando é cordial com a felicidade. Nós gostamos de ver os outros felizes ? Quando a mente não está num estado de clareza; quando a mente esta num estado de embotamento, ela vê a felicidade do outro e fica com inveja. Algumas pessoas mais sórdidas e vingativas são capazes de dar um jeito de acabar com a felicidade do outro para se sentirem um pouco melhor. Não sei se vocês já conviveram com este tipo de gente, mas não é uma experiência que eu queira para nenhum de vocês. Mas a julgar por algumas pessoas como Hitler, Mengueli e outras que a história registra, há seres humanos que parecem ter algum prazer em destruir a felicidade alheia para obter a sua própria.

Se nós estudarmos um pouca da sabedoria antiga, vamos ver que uma das coisas que não funcionam por muito tempo é a felicidade às custas dos outros. Existe uma passagem no Dhammapada que diz: (é do budismo)

“Enquanto a má ação está verde, o perverso nela se satisfaz; mas uma vez que ela amadurecer, trará frutos amargos.”

Existe também o inverso que diz:

“Enquanto as boas ações não tiverem tempo de frutificar, uma pessoa de boas ações pode até padecer de sofrimento, mas no devido tempo a felicidade florescerá.”

Por que ?

Porque uma vez posta a mente em certos estados de espírito, ela poderá requerer algum tempo para reordenar o seu estado natural, espontâneo de felicidade; e, ao processo que leva a isto se costuma dar o nome de meditação.

Também a mente torna-se clara pelo cultivo da compaixão em relação à miséria. Quando nós vemos sofrimento ao nosso redor, isso produz compaixão em nosso coração ? Ou ficamos, de certa forma , indiferentes, criamos calos ? Há pessoas que dão um jeitinho de afundar o outro ainda mais: Já que agora ele está por baixo, deixa eu aproveitar, porque depois ele é capaz de se levantar e me incomodar. Vamos terminar de uma vez; vamos afundá-lo o máximo possível. Existem pessoas que conseguem ser assim. Mas estas pessoas não podem conhecer esta felicidade espontânea da natureza humana; elas esqueceram que um dia foram crianças, esqueceram que um dia foram frágeis, esqueceram que um dia precisaram de auxílio.

Noutra parte, ele também diz que nós devemos desenvolver alegria em relação à virtude. É verdade que nós vivemos dias em que a virtude anda um pouco de férias. Dizia Rui Barbosa já naquele tempo, que tinha-se até vergonha de ser honesto ao ver tanto o vício triunfar, etc. e tal. Hoje em dia, eu acho que o Rui Barbosa .... pobrezinho.

Quando a gente vê o que acontece na eleição aqui em São Paulo ... Numa noite, não sei porque, eu tive a coragem de ligar a TV, e encontrei personagens que eu prefiro não lembrar. Alguns parece que tinham saído do sarcófago e apareceram, de repente, como candidatos à prefeitura de São Paulo. Eu não vou dizer absolutamente mais nada; também não agüentei, confesso, muito tempo, desliguei a TV.

Meus queridos, nos tempos em que a honestidade já não é qualificação necessária ... outro dia eu vi um slogan: “Rouba mas faz.” Pelo menos a gente sabe quanto ele rouba, é “só” dez por cento ... ainda sobra alguma coisa para nós. Parece que hoje, ser honesto ou virtuoso, de alguma forma, está fora de moda. A pessoa, de repente, passa por trouxa se não segue a lei do Gérson. É uma coisa impressionante. Nem sempre nós vamos ver alegria perante a virtude.

O que também, é importante, segundo os Yoga-Sutras, é desenvolver a indiferença perante o vício. Este é um ponto interessante, algumas pessoas acham que deveriam combater o vício. Mas o vício é uma ilusão, é oriundo da falta de autoconhecimento. O vício é decorrente de uma pessoa não saber qual é o caminho que leva para a felicidade. Existem duas formas de nos libertarmos deste processo. Uma é vendo as conseqüências do vício nas outras pessoas; e a outra, é experimentando por si mesmo. Eu me lembro de um amigo que dizia que “os sábios aprendem com os erros dos outros, e os tolos aprendem com seus próprios erros.” Nós podemos escolher; se observarmos com atenção a vida das pessoas viciosas, e observarmos se elas são felizes ou não com o tipo de vida que levam.

Se vocês observarem com atenção, vão talvez descobrir que toda vez que a nossa felicidade é posta fora de nós, ficamos dependentes de alguma coisa, e ao ficar dependente de alguma coisa, colocamos a nossa felicidade em risco, ou ficamos escravos de uma circunstância exterior.

Então, as pessoas buscam o vício de uma forma ou de outra porque se encontram tão ansiosas, tão vazias, tão desesperadas e carentes que precisam urgentemente de algum estímulo externo por passageiro que seja para aliviar sua própria dor. Mas aquilo, na verdade, não é felicidade, é um mero alívio de uma ansiedade; é o alívio de uma mente inquieta, às vezes, desesperada e doente. Nós temos que ter paciência com estas pessoas. Se eu disser para uma pessoa: Fulano, te acalma! Será que com isto ela se acalmará ? Ou será que ela vai ficar mais nervosa do que já estava, porque eu estou querendo impor de fora para dentro que ela fique calma?

Então, a parte mais triste da palestra de hoje é dizer que o caminho que leva para a felicidade tem de ser trilhado por cada um isoladamente. Isto não quer dizer que um não possa ajudar o outro, eventualmente. O que eu gostaria que ficasse claro é que eu não tenho como fazer uma outra pessoa feliz.

Certa vez eu estava num automóvel, indo para uma palestra, e o filho de um amigo meu, psiquiatra, de uns três ou quatro anos de idade estava comigo no banco de trás, enquanto que ele e a esposa estavam no banco da frente. A criança não queria ir para a casa da vovó. Mas acontece que eles, querendo assistir a minha palestra, até me deram uma carona, e resolveram levar a criança para a casa da vovó. E aí, disseram:

? Mas meu filhinho, todos os seus brinquedos estão na casa da vovó.

? Mas eu não quero ir para a casa da vovó!

Foi uma dificuldade.

Aí, estacionaram o caro, (estávamos no Rio de Janeiro) e iam entrar no Túnel Rebouças, quando deu um atravancamento de trânsito que acho que só há duas cidades no Brasil são capazes de apresentar. (a outra vocês imaginam qual seria) A coisa era de se olhar os carros lá longe ... e não é que estivesse andando devagarinho, é que tinha paralisado mesmo. Uma vez eu peguei um atravancamento na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, quando eu ia para o aeroporto ... aquele dia o avião decolou acho que pilotado pela faxineira. O próprio piloto não chegou! Um caminhão engatou numa passarela e derrubou-a no meio da avenida. Foi um bloqueio como se tivessem posto um muro. Aí, deu uma fila colossal, a gente via os caras passando de helicóptero por cima ... estes devem ter chegado a tempo.

Então, eu diria simplesmente que a criança entrou em desespero no carro. E a mãe ... ( não sei porque as mulheres gostam de aproveitar estas horas e ir para a farmácia )

? Ah, tem uma farmácia ali. E estacionaram, ia demorar mesmo... e a mãe foi para farmácia.

O pai, que era psiquiatra foi logo dizendo:

? Meu filho, olha, ali na frente tem um parquinho! Tem escorregador, tem gangorra, tem isso, tem aquilo ... Por que você não vai ali para o parquinho ?

? Não! Agora eu quero ir para casa da vovó. Todos meus brinquedos estão lá. Eu quero chegar logo na casa da vovó.

Estávamos naquela discussão, quando de repente, a esposa dele saiu da farmácia e já vinha na direção do automóvel.

? Pai, abre a porta que eu quero ir para o parquinho.

? Mas meu filho, sua mãe está chegando. Agora nós vamos para a casa da vovó como você queria.

? Não! Eu quero ir para o parquinho.

Tudo que não podia ele queria, e tudo que podia ele não queria.

Então, meus queridos, os seres humanos crescem em tamanho; freqüentemente acabam daquele jeito, como a criancinha. Eu senti que mesmo que eu fosse Jesus Cristo encarnado, filho de Deus, com n poderes, não conseguiria fazer aquela criança feliz. Os desejos dela nem sequer perduravam o tempo suficientes para serem satisfeitos e ela já queria outra coisa. A maioria dos seres humanos é assim, querem, porque querem, porque querem, e quando conseguem, aí não querem mais: Enjoei, não quero mais, agora o que eu quero ... Tem de ser uma coisa bem longe, inatingível, impossível. Mas aquilo que está conosco, já cansou, já encheu.

Haverá alguma chance de o ser humano ser feliz enquanto for deste jeito ? Nem que ele tivesse a Jeannie é um Gênio, ou qualquer lâmpada de aladim na mão. Entre o tempo de fazer o pedido e aparecer aquilo que ele queria, já podia ter mudado de idéia. Depois de uma semana, com certeza, não ia querer mais. E ainda tem a história de só ter três desejos.

O problema não está em satisfazer o desejo. O problema está em perceber que o desejo está continuamente mudando, e que tudo o que nós já temos começa a perder a graça, e em geral, o ser humano só dá valor ao que já perdeu; e aí, descobre que era feliz e não sabia.

Então, estamos aqui, com aquela cara nostálgica de lembrar a felicidade da infância ou da adolescência ou sei lá de quando. Mas parece que o amor escorrega entre os dedos, poucas pessoas são hábeis para mantê-lo, só dão valor quando já perderam. Enfim, é um dramalhão mexicano. (deve ser este o motivo das pessoas gostarem de novela )

Eu dava um curso de meditação, lá no Sul, e tentava explicar que é a mente que projeta o desejo. Como isto para muitas pessoas parece muito abstrato, eu resolvi dar um exemplo mais concreto e perguntei:

? É verdade que assistindo televisão sentimos emoção ?

Aí, teve uma senhora que falou:

? Outro dia eu estava assistindo novela e comecei a chorar, meu filhinho de três anos entrou e disse:

? Mamãe, porque você está chorando ?

? Meu filho, não se preocupe, é só a novela.

Aí, a criança disse:

? Mamãe, você não sabe que novela não é verdade ?

É uma situação insustentável.

Meus queridos, perguntar-se-ia: Porque cargas d’água aquela senhora resolveu assistir aquela novela que terminava naquela choradeira toda ? Quando nós escolhemos um filme na videolocadora, nós sabemos ou não que emoção ele vai produzir ?

Se eu escolhi um filme de terror, qual emoção produz ?

Medo.

Se eu escolhi um filme de guerra qual emoção produz ?

Violência, ódio, etc.

Tem aqueles filmes que começam assim: Primeiro o cara é espancado. Depois, dão uma surra nele, passam com o trator por cima e não sei mais o quê. Aí, ele faz um curso de caratê, e no fim do filme dá uma pancadaria em todo mundo. Esses filmes a gente sabe como vão terminar.

Pergunto a vocês: Quais são os filmes que mais se aluga em vídeo locadoras ?

Ação, violência e sexo. Sexo tem um departamento à parte. Tem uma porta lá, tudo é muito discreto, ninguém fica sabendo ...

Dizia um amigo meu que tem certas coisas que é melhor fazer que assistir. Eu não tenho nenhum comentário sobre o que ele disse. Mas por que as pessoas ficam assistindo ? Será que é porque já não conseguem mais ?

Meus queridos, quando a gente vê todos estes casos ... O sujeito prefere o filme a esposa que está ao lado. Ou tem de arranjar outra, tem de pular a cerca. Ou tem de trocar a de quarenta por duas de vinte; aí, ele complica toda a vida.

Dizem que tem três coisas que afundam o homem na vida:

A tal da chácara, que é a única coisa que evolui para estado de sítio. Sítio é um sumidouro de dinheiro. Botam dinheiro lá, nunca tiram nada e sempre tem mais um reparo a fazer.

O jogo. Porque o cara mais perde do que ganha, enterra a família e vende até a mãe para pagar as dívidas.

E a amante. A amante então ... não há vínculo afetivo verdadeiro, ela só quer o dinheiro. Alguma coisa tem de vir em troca, então, o cara gasta o dinheiro todo e nunca tem fim. Sem falar na angústia, mas tem gente que gosta de viver perigosamente, e ter duas, três, quatro vidas e não sei quantas casas.

Então, meus queridos, quando o sujeito chega à condição do Elvis Presley ou do Maradona, e talvez possa comprar tudo isto e mais um pouco, ele prefere a cocaína. Eu pergunto a vocês: Qual é a trajetória do ser humano quando ele resolve satisfazer os seus desejos ?

Os desejos ficam cada vez mais imperiosos. Quando o cara tem uma coisa, ele quer duas. Quando tem duas, ele quer três.

Ao contrário, diziam os Yoga-Sutras: Qual é a causa de toda a infelicidade humana ? Os desejos ? Mas qual é a causa do próprio desejo ? Porque o ser humano sai correndo atrás dos desejos como uma borboleta ou uma abelha atrás do pólen, pulando de flor em flor ?

A causa do malefício, do sofrimento humano, segundo os Yoga-Sutras, se apresenta no aforismo 2-5, chamada avidya ou ignorância. É a falta de autoconhecimento; portanto, a pessoa não sabe nem aonde buscar a felicidade; é um estado de confusão. É definido assim:

“ Avidya é tomar o não-eterno, impuro, mal, ou não-atma, como sendo eterno, puro, bem e âtma, respectivamente.”

Ou seja, ele faz um confusão. Se vocês me permitirem uma tradução mais livre: Ele troca o não-eterno pelo eterno. Ele troca o impuro pelo puro. Ele confunde o mal pelo bem e o bem pelo mal; e o não-espírito pelo espírito. Para ele vira tudo uma paçoca só, é tudo a mesma coisa.

Eu já contei a história de como o Titanic afundou ?

Então, o Titanic saiu na sua primeira viagem da Europa em direção à Nova York, e nessa trajetória aconteceu o imprevisto. Ele foi construído para ser insubmergível, no entanto, navegando nas águas, ele não viu a água por causa da água; e aí, bateu na água e a água entrou e ele afundou. Vocês sabiam que foi isto que aconteceu ?

Primeiro ele não viu o iceberg, que é uma montanha de água congelada, porque havia neblina que é água vaporosa; então, por haver água neste estado ele não viu a água noutro estado e colidiu na água para a qual supostamente ele era insubmergível. Só que a água (líguida), encontrando um buraco, entrou pelo casco e ele submergiu. Parece que houve um complô das águas contra o Titanic só para mostrar para ele que ele não era insubmergível.

Eu vou compartilhar com vocês a minha opinião:

Se nós não percebermos que cada estado da água tem uma diferente propriedade, nós vamos afundar o Titanic de novo; ele não foi feito para navegar sobre o gelo ou colidir em iceberg, nem foi feito para navegar às cegas, coberto de neblina.

Se eu comparar o corpo com o gelo, a alma com a água líquida, e o vapor ou neblina com o espírito, eu deveria tentar compreender que o espírito, a alma e o corpo são essencialmente a mesma coisa, mas têm necessidades diferentes, na medida que estão em diferentes graus de condensação.

Se eu conseguir satisfazer todas as necessidades do corpo, isto não garante que o espírito esteja satisfeito. Se eu confundir as necessidades do corpo com as necessidades da alma, ou as necessidades da alma com as necessidades do espírito, e achar que dá tudo no mesmo, isto é avidya ou ignorância; é a falta de autoconhecimento. Então, eu vou confundir o não-eterno pelo eterno, o impuro pelo puro, o mal pelo bem, o não-espírito pelo espírito. Enfim, vou fazer uma grande paçoca, uma grande confusão.

O que é uma confusão ? É uma fusão indiscriminada. Foi assim que o Titanic afundou; ele não viu que a água sólida era diferente da líquida e da gasosa; até porque a neblina não permitiu que ele visse o iceberg. Era tudo uma água só, mas com propriedades muito diferentes.

O animal tem certas necessidades fisiológicas, e nós herdamos no processo evolutivo algo daquele corpo animal. Mas porque nós não somos apenas animais, a mera satisfação das necessidades fisiológicas não garante a nossa felicidade. Os exemplos que eu citei, do Maradona e outros, acho que são suficientemente claros. Estas pessoas não estavam passando fome; não estavam, propriamente, carecendo da satisfação de qualquer uma das necessidades fisiológicas, que eu saiba. Muito pelo contrário, abusaram de todas, e ainda se sentiam infelizes, e precisavam sempre de uma dose mais forte, e mais forte. O problema de quando eu preciso de uma alegria química, que vem de fora, é que eu preciso de uma dose cada vez maior porque o corpo vai se acostumando com a última dose, e para sentir de novo preciso de uma dose mais forte.

Todos os instrutores religiosos de todos os tempos disseram que a felicidade tem de vir de dentro; se ela vier de fora ela pode ser perdida. Esta é a essência da Teosofia.

Como esta felicidade pode ser encontrada ?

Primeiro, a mente tem de ser clarificada para que desenvolva o discernimento, que é o que neutraliza o estágio mais grosseiro de avidya. É a capacidade de distinguir o que é real do que é irreal; o que dura do que não dura. Isto exige muita reflexão, e para tanto eu vou recomendar para vocês o manual de instruções que não nos deram no dia em que nascemos, se chama Aos Pés do Mestre.

Não que eu acredite que a palavra de Deus ou toda a sabedoria possa caber num único livro; mas vou dizer a vocês porque o tenho como preferencial: Ele já foi traduzido em 27 línguas, desde 1.910 quando foi publicado; o número de edições é incontável. Ele foi escrito por Krishnamurti quando tinha uns quatorze, quinze anos de idade; portanto, é a linguagem mais simples que vocês podem encontrar num livro. Por outro lado, evidentemente, ele foi inspirado por alguém muito superior, logo se vê que uma criança de quatorze anos não consegue escrever um livro destes. E, por último, a profundidade é tão grande, que raramente se pode encontrar num livro tão simples. Vocês podem encontrar livros talvez mais profundos; mas são muito complicados. Ninguém está muito a fim de encarar a Doutrina Secreta ou As Cartas dos Mahatmas, que são de uma profundidade quase infinita. ( mas haja preparo para aquela leitura ) Livros feijão com arroz, que só vendem abobrinhas, estes estão por toda a parte. Agora, um livro que ao mesmo tempo seja simples e profundo eu não encontrei em toda minha vida um igual. Ele tem só 64 parágrafos, mas eles precisam ser refletidos. Este livrinho nos diz o seguinte no parágrafo 4º:

“Mesmo quando foi feita a escolha em favor do discernimento, deves ainda lembrar-te que do real e do irreal há muitas variantes, e o discernimento deve ainda ser feito entre o certo e o errado, o importante e o não-importante, o útil e o inútil, o verdadeiro e o falso, o altruísmo e o egoísmo.”

Estes cinco graus de desenvolvimento do discernimento não são tão fáceis como o livro talvez faça parecer por colocá-los numa linguagem simples. Simples de entender, mas difícil de viver.

Então, eu gostaria de dizer a vocês que a televisão produz emoção por causa de asmitâ. Asmitâ é a identificação ou a mistura, por assim dizer, da consciência ou purucha, com o poder de cognição ou buddhi. Talvez seja mais fácil dizer que é a identificação com os corpos que têm esta percepção dos sentidos, e portanto, enquanto estou identificado com o corpo, me parece que os prazeres do corpo vão gerar felicidade. Isto se deve ao fato de eu não conhecer a minha verdadeira natureza, e estar naquele estado de confusão em que eu nem sei quem é o espírito nem quem é a matéria.

Meus queridos, é assim que eu sou capaz de sofrer com um filme que nada tem haver comigo. Não é verdade ? O sofrimento é do personagem da TV, até a criança de três anos já sabe. Mas se eu me envolver com um filme, ou com um sonho, ele pode ser tão real, que eu acordo com o coração saindo pela boca. Mas a realidade não está no filme, a realidade está em mim, e eu a projeto no filme.

Aí, quando eu tenho oito anos de idade, eu projeto esta felicidade numa bola de futebol. E parece que se eu não tiver a bola ... Outro dia eu estive na casa de uma criança que estava numa situação semelhante àquela de quando eu tinha oito anos; só porque não achou a bola quando acordou, foi uma choradeira até lembrarem que tinham esquecido a bola na casa da vovó. Ele dormia abraçado na bola; a felicidade dele era emprestada da bola porque a mente estava projetada na bola. Depois é a tal da namorada; aí, a namorada dá um pontapé no sujeito, ele já quer se matar. Num dia tudo era cor de rosa, noutro tudo é cinza. Será que o mundo mudou de uma hora para outra ou será que forma as lentes dos óculos dele que mudaram ?

Então, a mente projeta a coloração da vida. Se uma pessoa está bem consigo mesma... Vocês vão ver que o Cristo e o Buda foram capazes de renunciar todos os prazeres materiais, e pareciam mais felizes do que aqueles que tinham tudo. Eu pergunto a vocês: É garantido que com a satisfação de todos os prazeres corporais uma pessoa atinja o estado de felicidade de um Buda ou de um Cristo ? Eu ainda não vi isto acontecer. Eu já vi as pessoas satisfazerem o espírito e não precisarem mais do resto, mas não vi um caso inverso.

Se vocês pararem para perceber que a verdadeira felicidade vem de dentro e tudo o mais é acessório, vão melhor entender o que dizia Mateus:

“Buscai o reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.”

As pessoas buscam o acréscimo e perdem o reino de Deus e sua justiça.

Então, as pessoas buscam poder, seja político ou psíquico. Mas será que porque eu enxergo a casa do vizinho e vejo o que ele está fazendo através da parede isto vai me tornar mais feliz ? Ou será que porque eu leio o pensamento dos outros eu vou me tornar mais feliz ?

Vou contar para vocês a historinha do anel de Gyges:

Platão, no livro III de A República, fala do anel de Gyges. Gyges era um honrado pastor de ovelhas, vivia uma vida simples no campo, até que presenciou um terremoto; agarrou-se aonde pode; abriu-se uma fenda no chão e uma sepultura ficou descoberta. Nesta sepultura ele descobriu que havia um falecido com um magnifico anel no dedo. O que aconteceu ? (não sei se ele tinha algum sangue brasileiro; é aquela história de que achado não é roubado ) Deu a impressão de que o morto não ia precisar mais, e ele levou o anel. Depois, conversando com amigos, ele notou que toda a vez que ele colocava a pedra do anel na direção da palma da mão, falavam como se ele estivesse ausente. E aí ele descobriu, depois de alguns testes, que o anel era mágico. Cada vez que ele colocava a pedra do anel na direção da palma da mão, ele se tornava invisível.

E agora eu pergunto a vocês: O que vocês fariam se tivessem um anel mágico deste tipo ? Então, agora vocês já sabem porque não podem ter um anel deste tipo.

Por isso que o yoga começa com yama - yamî. [?] Quer dizer, quando a personalidade não tem mais nenhum objetivo para si mesma, ela pode ter todos os poderes; eles fluem por acréscimo. Mas se a pessoa começar buscando os poderes, ninguém garante que ela vá chegar ao reino de Deus e sua justiça; o mais provável é que ela se perca no caminho. Toda a tradição oculta, quando genuína, começa pelo autoconhecimento, pelo discernimento entre o verdadeiro e o falso, e por aquilo que realmente produz a felicidade. O poder psíquico é como o poder político, não produz necessariamente a felicidade. Vocês acham que alguns daqueles candidatos são homens muito felizes ?

Então, devo dizer a vocês que somente através do autoconhecimento e da descoberta das verdadeiras necessidades é que o ser humano pode encontrar a felicidade.

Eu vou ler para vocês, uma passagem do ocultismo prático da Senhora Blavatsk sobre a questão da pureza ou da clareza da mente. Só quando a mente está pura e sem nuvens, sem projetar cada vez o desejo noutro lugar é que ela poderá encontrar a felicidade. Então, diz a Senhora Blavatsk:

“A energia acumulada não pode ser aniquilada; mas sim, assumir outras formas ou outros modos de movimento. Ela não pode ficar sempre inativa e ainda assim continuar a existir. É inútil tentar resistir a uma paixão que não podemos controlar; se a sua energia crescente não encontra canais por onde possa escoar-se, ela aumenta ao ponto de tornar-se mais forte do que a vontade e mais forte do que a razão.”

Vejam que isto foi escrito antes de Freud. Freud usava fraldas ou ainda estava no plano astral quando este livro foi escrito. Se vocês reprimirem uma emoção, ela se torna cada vez mais forte e chega a um ponto de se tornar mais forte do que a própria pessoa. A repressão nunca foi o caminho da libertação da consciência.

“A fim de assegurar o seu controle, devemos conduzi-la para um outro canal, um canal superior.”

Ou seja, não adianta eu querer fazer uma barragem para a água do rio não chegar onde estou. Ou ela acaba passando por cima da barragem ou, o que pode ser pior, quando a água está lá no topo, ela chega ao limite de resistência das comportas e as arrebenta, e aí vem uma enxurrada em cima da pessoa.

A repressão nunca foi solução. Por outro lado, se nós quisermos nos libertar dos vícios temos de fazer alguma coisa; portanto, a idéia é criar um novo canal virtuoso que substitua aquele vício.

“Assim, o amor por algo vulgar pode se transformar em amor por algo elevado e o vício pode dar lugar à virtude se o seu curso for alterado.”

Existe uma belíssima poesia, se não me engano do Dr. Arundale, que dizia que “todo o vício é uma virtude em formação, todo ódio é um amor não resolvido, todo mal é um bem adormecido. A verdadeira luta não é entre o bem e o mal, mas entre a sabedoria e a ignorância.”

A energia que está contida num cubo de gelo pode ser liberada e gerar uma nuvem de vapor que é capaz de voar livremente para qualquer lugar; mas o cubo de gelo fica preso. Então, enquanto nós não transmutarmos aquela energia para um grau maior de liberdade, não haverá possibilidade de encontrar a felicidade permanente. Podemos encontrar alívios desesperados que às vezes nos escravizam muito mais; mas liberdade é outro assunto.

Liberdade depende do autodomínio. O autodomínio não é função da mera repressão, mas depende do autoconhecimento que é de todas a mais preciosa das coisas. Por isso dizia Salomão que “a sabedoria é mais preciosa que os rubis e a ela nada se compara; a sabedoria é a rosa de shalom, a sabedoria é o lírio do vale.” A sabedoria, poderosa e suavemente, ordena todas as coisas, é ela que rege o céu e a terra, é a inteligência divina que põem em ordem todo o Universo.

Se os seres humanos se afastaram dos conselhos de Deus, e criaram um mundo tão louco, isto é porque falta aos homens aquela sabedoria à qual eles não deram o devido valor. Mas não porque não estejamos tentando de novo resgatar a sabedoria; mas porque as pessoas querem coisas que dêem resultados rápidos; estão muito apressadas e não percebem que é preciso reorganizar a mente por todos os anos que ela se desviou do caminho que leva à sabedoria.

“A paixão é cega, pois faz o que quer, e por isso a razão é um guia mais seguro que o instinto.”

Vocês conhecem aquela história do Katha-Upanishad:

“Saiba que o ser é o passageiro, o corpo a carruagem, o intelecto é o cocheiro e a mente as rédeas. Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que percorrem são os labirintos do desejo.”

Se o cocheiro estiver bêbado quem governa a carruagem ?

O cavalo.

E qual é a coisa que o cavalo acha mais sem graça no mundo ?

A estrada. Não dá para comer a estrada, gasta os cascos dele... Então, na primeira oportunidade que o cavalo tem ele quer ir para pastos mais verdejantes, que estão sempre nas encostas, nos penhascos, onde ninguém teve coragem de comer. E lá vai o cavalinho, que gosta de viver perigosamente. Se ele estivesse sozinho tudo bem; mas ele esquece que está carregando a carruagem, as malas, o cocheiro e não sei mais o quê; o peso é muito maior, a encosta não agüenta e vai todo mundo precipício abaixo. Em outras palavras, “a paixão é cega pois faz o que quer ,e por isso a razão é um guia mais seguro que o instinto.”

Difícil é manter o cocheiro sóbrio. O cocheiro cai na rotina, perde a graça a viagem, e debaixo do banco ele já tem sempre uma “caninha” para tornar a vida mais alegre, e esta alegria química pode ser a causa do acidente.

Então, meus queridos, manter a sobriedade é condição para o caminho da felicidade. Manter a mente clara àquelas capacidades que nos tornam realmente superiores aos animais.

“A ira contida ou o amor, acabará por descobrir algum objeto sobre o qual descarregar a sua fúria; pois do contrário, ela acabará provocando uma explosão que destruirá o próprio agente.”

Ou seja, se o cara contém demais a ira ele estraga o fígado ou se rebenta todo. E se ele contiver o amor por muito anos, daqui a pouco ele se casa com a “Josefina desdentada”, pensando que ela é a princesa encantada. Depois de um tempo ele descobre que não era aquilo que ele queria, e aí saí aquela frase: Tu não pareces mais a mulher pela qual eu me apaixonei! E a resposta á a seguinte: E tu não és mais o homem com o qual eu me casei! E aí é um tal de voar prato para lá e para cá ...

Então meus queridos, se nós nos apaixonarmos por uma projeção da mente, estamos no reino de maya, no reino da ilusão. Se as emoções ficarem contidas muito tempo, elas começam a projetar coisas fantasiosas; a pessoa não distingue mais o verdadeiro do falso; cai num estado agudo de avidya, e faz todas as besteiras a que tem direito e depois tem a vida inteira para se arrepender das besteiras que fez por um ou dois anos.

Diz um ditado chinês:

“Um momento de paciência pode evitar um grande desastre. Um momento de impaciência pode arruinar toda a vida.”

Então, a menos que se tenha algum controle do cavalo, vocês podem acabar despenhadeiro abaixo. Por outro lado, não é matando o cavalo que vocês vão ao nirvana; não é matando os desejos. O desejo é a mola propulsora; a questão é saber orientar o cavalo para onde vocês querem ir, e não deixar que ele leve vocês. Isto é meditação; é o fruto do autoconhecimento.

“Os antigos diziam que a natureza não comporta nenhum vácuo, não comporta o vazio. Não podemos destruir ou aniquilar uma paixão, se ela for expulsa, um outro impulso elementar irá tomar o seu lugar. Deveríamos assim, não tentar destruir o que é inferior sem nada colocar no seu lugar.”

É inútil ficar combatendo o vício. Por isso a questão da indiferença ao vício. Eu preciso substituir o inferior pelo superior; colocar uma virtude no lugar. O vício pela virtude, e a superstição pelo conhecimento. Uma pessoa não é viciada por que quer, é por que não encontrou algo melhor na sua vida. Aos poucos temos de levar a pessoa a redescobrir o caminho da felicidade, e se ela conseguir limpar a sua mente ...

Também diz os Yoga-sûtras:

“Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os opostos é o remédio.”

Pitágoras nos dizia nos Versos Áureos:

“E assim que o sol te acorde, calmo te levante, julga as tuas ações como severo juiz, e ao sono não te dê sem perguntares antes: Hoje, em que pensei eu; e o que foi que hoje fiz ? Fizeste o bem ? Persiste. O mal fizeste ? Abstém-te . Ama o conselho meu; medita o que ele ensina. Se o amares, eu te juro, se o seguir fielmente poderás atingir a virtude divina.”

Esta é a versão universal, grega, para o nirvana dos budistas.

Meus queridos, mais sabedoria que está aqui, não pode ser posta em palavras, precisa ser vivida.

Eu gostaria de fazer o encerramento com uma breve meditação do Sr, Arundale, que a Sra. Radha Burnier nos deixou como sugestão de abertura das Lojas. Mas por que não de fechamento ? Ela diz assim:

“Ó poderes do amor, nós juramos a ti a nossa fidelidade, sabendo que somente o amor pode redimir o mundo.

Nós invocamos a tua benção a todos aqueles que se esforçam para servir-te. Nós invocamos a tua benção para todos aqueles que enfrentam o sofrimento; que eles possam com contentamento descobrirem o seu envolvimento no teu amor, mesmo no meio da sua aflição.

Nós invocamos a tua benção para todos aqueles que intencionalmente infligem o sofrimento, que eles possam ser movidos a retornar para ti e a servir-te.”

Vamos irradiar esta luz e esta benção a todos os seres.

Paz a todos os seres!

_______________________________________________

 

 

 

 

Pensamentos

 

 Ofereceis vossos serviços; bem! Desejais consagrar tempo, arcar com despesas e correr riscos pela NOSSA causa. Bem, ela é a causa da humanidade, da verdadeira religião, da educação, da iluminação e, naturalmente, da elevação espiritual. Ela necessita de missionários, devotos, agentes e talvez até mesmo de mártires. Não posso, porém, exigir de ninguém que se torne alguma dessas coisas. Se a tal alguém se resolver - bem; bem para o mundo e bem para ele próprio.

Um Mestre do Tibet

 

 

 

   Nedstat Basic - Free web site statistics 

 Home   l   Espiritismo   l   Religiões   l   Sociedades Secretas   l   Links   l   Webmasters

Copyright 2003 Terra Espiritual. All Rights Reserved.