O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros,
através do assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas
idéias de pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser
descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o
autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto.
Sem conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não
pode ser verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de
si mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu
pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como pensar-sentir,
então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si mesmo, a acumulação
de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm base. Sem conhecer-se a si
mesmo, você sempre será pego na incerteza, dependendo do humor, das
circunstâncias. Sem entender-se a si mesmo completamente, você não pode pensar
corretamente. Com certeza isto é óbvio. Se eu não sei quais são os meus motivos,
minhas intenções, meu "background" (fundo), meus pensamentos-sentimentos
particulares, como é que posso concordar ou discordar de outra pessoa? Como
posso avaliar ou estabelecer minha relação com outra pessoa? Como posso
descobrir qualquer coisa da vida se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim
mesmo é uma tarefa enorme, que requer observação constante, uma vigilância
meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da
paz, dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade. Estas
questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no
entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente.
Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por eles
mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem entender-se a si
mesmo você não pode entender o todo. O autoconhecimento é o começo da sabedoria.
É cultivado pela busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo
em oposição à massa (ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é
a massa, é o resultado da massa. Se entrar dentro disto profundamente, você irá
descobrir por si mesmo. que você é tanto o coletivo quanto o individual. É como
um córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a
estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado desse
constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas atividades
mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que chamamos a
multiplicidade?
Você não tem pensamentos-sentimentos similares aos do seu
vizinho? Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à
massa, ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este
antagonismo que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e
conflito, crueldade e miséria. Mas se pudermos entender como o indivíduo, você,
é parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos libertaremos
de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de competir, de ter
sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se tomar um seguidor ou um
líder. Então veremos o problema da existência de modo diferente. E é importante
entender isto profundamente.
Enquanto nos virmos como indivíduos, separados do
todo, competindo, obstruindo, em oposição, sacrificando o coletivo pelo
particular, ou sacrificando o particular pelo coletivo, todos aqueles problemas
que surgem deste conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura,
pois são o resultado do pensar-sentir incorreto. Agora, quando falo sobre o
indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa. O que eu sou? Sou um
resultado - sou o resultado do passado, de inúmeras camadas do passado, de uma
série de causas-efeitos. E como posso estar em oposição ao todo, ao passado,
quando sou o resultado daquilo tudo? Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não
entender a mim mesmo, não apenas entender o que está fora da minha pele,
objetivamente, mas subjetivamente, dentro da pele, como posso entender outra
pessoa, o mundo? Entender a si mesmo requer desapego amável e tolerante.
Se você
não entender a si mesmo, não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais,
crenças e fórmulas, mas elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você
deve conhecer-se a si mesmo para entender o presente - e através do presente, o
passado. Do presente conhecido, as camadas escondidas do passado são
descobertas, e esta descoberta é libertadora e criativa. O autoconhecimento
requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de nós próprios - nós próprios
sendo o organismo como um todo, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos
pensamentos. Eles não estão separados, mas interligados. É somente quando
entendemos o organismo como um todo que podemos ir além – e podemos descobrir
coisas mais adiante, maiores, mais vastas.
Mas sem este entendimento primário,
sem colocar o alicerce correto para o pensar correto, não podemos prosseguir
para alturas maiores. Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade
de descobrir o que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo.
Pois o que é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a
um padrão do que deveríamos ser, ou cedermos a um anseio, produziremos certos
resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós
mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria.
Existe uma
certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir positivo. De uma
maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos positivamente nossas idéias
em relação a outras pessoas, ou em relação a nossas próprias formulações. E,
portanto, dependemos de autoridade, de circunstâncias, esperando com isto
estabelecer uma série de idéias e ações positivas. Ao passo que se você examina,
verá que existe concordância na negação; existe certeza no pensar negativo, que
é a mais alta forma de pensar. Quando você descobrir a negação verdadeira e a
concordância na negação, então poderá construir mais adiante no positivo. A
descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim estão
em nós.
Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós, leva-nos à ilusão, ao
sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro (de nós) requer
autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do mundo, e
somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo isso, e assim
temos pouco tempo para estudar a nós mesmos. Estarmos profundamente cientes de
nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de vir-a-ser, exige constante
atenção interna. Sem o entendimento de nós mesmos, mecanismos superficiais de
reforma social e econômica, mesmo que necessários e benéficos, não irão produzir
unidade no mundo, mas somente maior confusão e miséria. Muitos de nós pensamos
que a reforma econômica de uma ou outra forma vai trazer paz ao mundo; ou que a
reforma social, ou uma religião especializada conquistando todas as outras vai
trazer felicidade ao homem.
Acredito que haja algo como oitocentas ou mais
seitas religiosas neste país, cada uma competindo, fazendo proselitismo. Vocês
pensam que uma religião competitiva vai trazer paz, unidade e felicidade à
humanidade? Pensam que qualquer religião especializada seja o Hinduísmo, o
Budismo ou o Cristianismo, vai trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as
religiões especializadas e descobrir a realidade por nós mesmos? Quando vemos o
mundo explodido por bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele;
quando o mundo está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e
ideologias separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas
continuar vivendo uma vida curta e morrendo - e esperar que algum bem, advenha
disso.
Nós não podemos deixar isso para os outros – trazer felicidade e paz à
humanidade, pois a humanidade é nós mesmos, cada um de nós. Aonde se encontra a
solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer profundo
pensamento-sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver essa miséria.
Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de dentro - e não ser
meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa, então iremos encontrar
uma resposta simples e direta. No estudo e, assim, no entendimento de nós
mesmos, virá claridade e ordem. E só pode haver claridade no autoconhecimento,
que nutre o pensar correto.
O pensar correto vem antes da ação correta. Se nos
tornarmos conscientes de nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de
onde jorra o pensar correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá,
sem distorções, todos os nossos pensamentos-sentimentos. Estar assim
autoconscientes é extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a
divagar e a estar distraídas.
Suas divagações, suas distorções são de seu
próprio interesse, suas próprias criações. No entendimento disto - e não
meramente colocando isto de lado – vem o autoconhecimento e o pensar correto. É
apenas por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou
comparação, que vem o entendimento.