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À medida que se observa a natureza, certos segredos da vida são revelados, dependendo do observador ser receptivo. Wordsworth, um grande amante da natureza, foi capaz de contatar algo da Divina Realidade subjacente à criação, devido ao poder receptivo por ele exibido pelo menos em certas ocasiões. Ele mesmo lamentava o fato de que seu coração nem sempre estava aberto ao que a natureza revela.
Um dos fatos que impressiona é a eternidade do processo, o vasto plano que a natureza exibe. Quando se observa uma gota d'água e somente essa gota, ela afeta a mente de uma certa maneira. Pode espatifar-se contra a rocha e cessar de existir. Pode, também, transformar-se em vapor que não mais se identifica com ela. Numa ocasião diferente, a gota pode ser o instrumento através do qual todas as cores radiantes do arco-íris são reveladas. Pode ela ser levada de lá para cá pelas correntes do mar, algumas vezes bem para a profundidade; outras vezes elevando-se para a superfície, subindo em uma onda, desaparecendo numa poça ou na areia absorvente; mas ela é sempre o mesmo elemento, quer seja convertida no vapor invisível dos céus ou condensada na forma de nuvens de aérea beleza. É o mesmo elemento que se deixa cair como chuva para refrescar a terra ressequida, ou faz com que a água encha os rios. Porém, em qualquer forma em que ela exista, permanece um único elemento passando por numerosas mudanças; algumas vezes visível, outras não, mudando para os estados sólido, líquido e gasoso. O elemento permanece para sempre, existindo todo tempo em movimento, mostrando-se em muitas formas.
Fosse o pensamento ligar-se a uma gota d'água, ela pareceria ter apenas uma existência momentânea, sujeita ao prazer ou à dor, pois logo seria espatifada e perdida; o que é visível pode tornar-se invisível, o que é cheio de luz cessa de refletir essa luz. A própria vida é assim. Embora nada seja realmente identificável, exceto temporariamente, quando o pensamento torna-se apegado a uma esfera da vida total, a percepção por sua vez é distorcida e sobrevêm a dor. 0 mortal, o variável, contém dentro de si próprio o invariável, da mesma forma que a água subsiste nas miríades de gotas variáveis. As incontáveis gotas podem tornar-se uma borrifada de chuva ou parte de um rio; elas podem estagnar numa poça ou moverem-se em uma corrente. Muitas coisas podem lhe acontecer, mas o que quer que aconteça à gota, ela ainda é parte do elemento eterno da água onde repousa a beleza. 0 elemento simboliza o imortal, o imutável, a pura essência que veste a si própria em muitas formas. A percepção interna vê entre as inúmeras gotas mortais o ser imortal que, quando encarado com a percepção de todos os objetos, sente uma intimação do imperecível e imutável e, uma vez confrontada pela substância grosseira, é consciente ao espírito sutil interior, dando surgimento a uma condição interna inteiramente diferente, a base mais consistente para a retidão no viver.
Retidão de viver não é tanto uma questão de regras, disciplinas, mas sim de tornar-se alguém cônscio, em alguma medida pelo menos, da própria natureza da existência. Pode ser por isso que um dos Irmãos Mais Velhos disse que -Teosofia é o estudo do relacionamento entre o mortal e o imortal, o finito com o infinito e o transitório e o eterno.
Dizem-nos que "há uma paz que ultrapassa o entendimento" e "que habita no coração daqueles que vivem no eterno". Isto não significa que os veículos físicos de tais personagens permaneçam eternos. Na literatura indiana há referência àqueles que vivem para sempre, mas não no plano material. Nesse plano nada pode permanecer para sempre. A vida pode continuar num veículo por um período relativamente longo, mas isto é tudo; pois, "tudo que é composto", para usar uma frase do Senhor Buddha, "tem que se tornar decomposto". Somente aquilo que está livre de composição, somente aquilo que não é constituído de partes, mas é para sempre um todo integrado, pode viver eternamente.
Voltando à nossa metáfora, o elemento da água existe, mas nem a gota ou o rio. Os rios podem secar, mudar seus cursos ou podem transformar-se em lagos. São mutáveis por sua própria natureza, mas o elemento não é destruído pelas condições que são criadas. Da mesma forma, as diferentes combinações nos planos materiais devem cedo ou tarde perder sua coesão e desintegrar-se. Aqueles que vivem no eterno assim agem porque são conscientes, sem interrupção, da realidade subjacente e vivem nesse apercebimento. Na medida em que cada um de nós torna-se similarmente cônscio, em que temos "urgência de imortalidade", há paz dentro do coração. Mas se os olhos estão fixos nos fragmentos flutuantes, a perturbação é criada e tudo o mais torna-se agitado. Quando uma pedra é lançada n'água, a perturbação não pode ser confinada ao ponto em que ela cai. Ondas espalham-se sobre uma vasta área. Similarmente, um ser humano cuja consciência está perturbada, em contradição e conflito, está fadado a criar perturbação e ela é ausência de retidão e moralidade. Uma sensação de paz, de tranqüilidade, o resultado de um tipo diferente de percepção, é a base da retidão e da virtude. Essa percepção tem sido chamada "a percepção do outro". É difícil definir o que ela é. Sabemos o que é mortal. Sabemos, também, o que é a mudança e a inevitabilidade da morte. A roda da vida dá voltas constantemente. 0 que morre como um príncipe, pode renascer como mendigo; mas o imutável e imortal "outro é diferente de tudo isso e não pode ser descrito em termos conhecidos".
0 conhecimento teosófico deveria fazer-nos compreender a verdade da vida profundamente em nossos corações e não meramente como uma teoria. A assimilação de qualquer verdade leva a um diferente tipo de relacionamento. A maioria de nós agarra-se às suas pequenas posições na vida, mas, do que vale essa posição na perspectiva da manifestação sempre mutável, elevando-se através de vastas extensões de tempo? Tem sido dito que a única maneira de viver sobre esta Terra é ser como um viajante numa pousada temporária. Se se pudesse apenas compreender isto, todos os valores que são mantidos a respeito de posições, posses e relacionamento, mudariam se nós apenas pudéssemos sustentar levemente as coisas com as quais entramos em contato; se, sem tornarmo-nos irresponsáveis ou insensíveis, permanecêssemos não apegados, um tipo totalmente diferente de relacionamento seria estabelecido - um relacionamento que não é exigente, mas generoso, pronto para largar as coisas. Podemos viver, por exemplo, em nossa casa como se ela não nos pertencesse? Um dos nomes dados ao sannyasi*, é "aniketa", que significa "aquele que não possui lar". Pode-se permanecer onde se está e, contudo, não sentir que qualquer lugar é, particularmente, um lar. A vida move cada um quer ele queira ou não. Hoje o lar é aqui, amanhã pode ser em outro lugar. Agora ele pode ser a choça de um homem pobre, outra vez urna mansão. De uma mansão se tem de aprender a passar àquilo que é menos confortável. Se a pessoa torna-se consciente do fato de que não existe nada a que ela possa se agarrar, exceto naquilo que é intangível e não-composto, sua atitude e seu relacionamento tornam-se diferentes. Há uma estabilidade que não é afetada por qualquer coisa que aconteça exteriormente.
Dessa profundidade floresce toda a virtude possível. A "paz que ultrapassa o entendimento" e vem "àqueles que vivem no eterno", é a mãe de todas as virtudes. Por isso, uma das maneiras de aprender a viver retamente é permitir a si mesmo entrar em contato com esse outro lado das coisas. Como pode isso acontecer? É possível, talvez, somente quando cessamos a contínua ocupação com particularidades e começamos a permitir a nós mesmos silêncio em nossas vidas. Se há um apego à gota e ela desaparece, haverá uma incansável perseguição em sua busca, tentando reencontrá-la, algo impossível. Entretanto, se não se está preocupado ou apegado a particularidades, mas consciente de um movimento mais amplo, de natureza essencial, então há o despertar da percepção para esse outro lado das coisas, o lado imortal, eterno, infinito, inefável. É muito importante, se se quer descobrir um modo de vida na qual exista virtude, dar a si mesmo momentos de quietude. Se a meditação é um esforço para avançar a si próprio, ela é inútil, pois então torna-se parte da luta habitual da mente contra a vida e não um estado de pura receptividade para a verdade das coisas. Contudo, se o apercebimento surge, mesmo que por um curto tempo, de que há um significado em tudo na vida o qual nossos olhos não vêem, isso em si mesmo seria o início da sensibilidade desperta. A sensibilidade vem com a quietude e esta implica em não haver desejo de atuar sobre as coisas. Um sentimento de orgulho faz alguém pensar em atuar sobre o mundo, influenciar amigos, produzir impactos sobre subordinados, sobre a própria terra.
0 Bhagavad Gita declara que não se pode viver em estado de inação. 0 que quer que se pense, sinta, perceba, é ação. Deve haver ação, mas não pode haver sem o desejo de atuar sobre os outros, sobre o que é externo, com o desejo de formar e moldar homens de acordo com nossa noção de como o mundo deve ser? Em "A Voz do Silêncio", lê-se esta admoestação: "Sê humilde se queres atingir a sabedoria. Sê mais humilde ainda quando a sabedoria tiveres conquistado." 0 sábio não precisa ser advertido para ser humilde, porque a sabedoria é completa ausência do "eu", do orgulho. Aquele aviso, portanto, é essencialmente que sem humildade a sabedoria não pode ser atingida. 0 orgulho nem sempre é ostensivo, mas é o estimulante fazendo alguém pensar que deve obter ou realizar algo para seu proveito. 0 homem crente no mundo visível, no mundo das coisas grosseiras como a única forma de existência, está impelido por um forte desejo de atuar sobre o mundo e moldá-lo com suas pequenas idéias pessoais. Existem outros que consideram este mundo como uma ilusão e buscam uma realidade transcendental. A verdade pode estar naquela sentença dos Vedas, onde é ensinado que este mundo, conhecido através de nossos sentidos e nossa mente, não é outro senão "Aquele", mas não o Aquele total. Figurativamente, é uma quarta parte do Aquele, estando três quartas partes na esfera divina, imortal. Portanto, devemos atuar de acordo com nossa compreensão e deixar o resultado de nossos atos para a sabedoria do Aquele que se está manifestando em cada momento do tempo e em cada esfera de existência. Se estivermos constantemente tentando pressionar e produzir um impacto no que está do lado de fora, a vida não será capaz de revelar seu significado a nossos corações e mentes. Assim, aprender a virtude é aprender como atuar sem querer realizar ou atingir qualquer coisa.
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*Presidente Internacional da Sociedade Teosófica
** Sannyasi, aquele que renuncia completamente o mundo.

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