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Valéria Marques de Oliveira

O propósito da Sociedade Teosófica é trazer ao público, em suas palestras
públicas ou cursos introdutórios, alguns temas que são mais comuns dentro da
literatura teosófica, principalmente, contidos em livros deixados por H. P.
Blavatsky. Mas, como o ensinamento teosófico, ou seja, a Teosofia abrange um
universo inteiro, repleto de sabedoria, colocar num esquema único toda a
magnitude de seu conhecimento é estar sempre correndo o risco de cristalizar ou
delimitar em excesso o que é por si só dinâmico, vivo e eterno.
H. P. Blavatsky dizia que os ensinamentos teosóficos não deveriam ser
transformados em dogmas ou doutrinas a serem seguidas e professadas, e que “a
menos que (nós teosofistas) asseguremos a existência de uma sabedoria viva, a
S.T. permanecerá como um corpo morto a ser lançado em algum ponto da praia”.
Nesse alerta, Blavatsky deixa claro que a Teosofia é uma chama viva e, como
tal, deve penetrar em nossas mentes e, lentamente, ir purificando os seus
aspectos mais densos, até transformá-los em uma matéria mais sutil, flexível e
ampla. A Teosofia deve proporcionar a transformação da mente, portanto, temos a
grande responsabilidade de manter o conhecimento teosófico vivo em nosso
interior, ao invés de alcançar apenas sua compreensão intelectual. Possuímos
compreensões e vivências da Teosofia em níveis diferentes e é pela liberdade de
investigá-la e questioná-la que somos impedidos de padronizar o conhecimento e
de não colocá-lo pronto e acabado numa cartilha. Esta padronização iria apenas
facilitar a compreensão intelectual dos ensinamentos, mas, não é isto que se
busca ao estudar Teosofia.
Levando em consideração questões como
essas, o teosofista apresenta ao público diferentes temas, de acordo com a
compreensão alcançada em seus estudos e suas vivências e, desta forma, o
movimento teosófico se mantém fiel ao alerta de sua fundadora.
H.P.B. dizia que “é mais do que inútil procurarmos aqueles que imaginamos
serem estudantes avançados e pedir que eles nos dêem uma interpretação da Doutrina
Secreta (ou teosofia). Continua ela: “Eles não podem fazer isto, e se o
tentarem tudo o que poderão dar serão traduções exotéricas fragmentadas e
disformes que nem de longe se assemelham à Verdade. Aceitar tais interpretações
significa nos prendermos a idéias fixas, enquanto a Verdade está além de
qualquer idéia que possamos formular ou expressar”. Ao criarmos idéias
fixas de qualquer ensinamento, fechamos portas que possibilitariam o nosso
acesso a níveis mais profundos deste próprio ensinamento.
Aspirando obter respostas prontas e conclusivas não é a melhor forma de se
aproximar dos ensinamentos teosóficos, porque eles devem nos conduzir à
Verdade, segundo as próprias palavras de H.P.B. Quando ela fazia um convite
para se estudar a Doutrina Secreta, dizia: “venha para D.S. sem qualquer
esperança de conseguir a Verdade final sobre a existência, e sem qualquer idéia
além de descobrir o quanto ela pode conduzí-lo em direção à Verdade".
Alguns passos podem ser dados pelos que almejam alcançar o topo de uma
escada onde a Verdade se encontra, e estes consistem em desenvolvermos uma
mente aberta, um coração puro e um intelecto que seja ardente e, por isso
mesmo, inquiridor. Ao longo do tempo, descobrimos que é pela investigação e exploração
dos diversos princípios que caminhamos de encontro à Verdade.
A postura interna de alguém que simplesmente está consciente de não saber, mas
está pronto a explorar e vasculhar cada aspecto do que está sendo analisado,
reflete bem a postura correta de um buscador.
Um dos Mestres de Sabedoria que fundou a Sociedade Teosófica escreveu para um
de seus membros: “a menos que o estudante esteja preparado para receber e
compreender a Verdade, ela simplesmente não se faz presente”, continua ele, “a
Iluminação deve vir de dentro”. O estar preparado implica em se ter adotado
essa postura de não saber, contudo, estar aberto à aprendizagem.
Joy Mills, membro da S.T. dos EUA,
escreveu no livro O Despertar de uma Nova Consciência que: “é
realmente impossível ensinar alguém a ter sensibilidade à Verdade (...) mas uma
verdadeira exposição aos princípios universais pode despertar esta
sensibilidade”. Estudando teosofia compreendemos que é através dos seus
diversos princípios e, até mais do que isto, através do pensar profundo sobre
os princípios que regem a vida e a humanidade como um todo, que despertaremos
em nós a sensibilidade necessária para transformá-los em sabedoria. Através de
uma mente sensível nos tornamos pessoas mais sábias, compassivas e, portanto,
verdadeiros teosofistas, pois, a Teosofia engloba tanto a sabedoria, quanto a
compaixão. Annie Besant, ex-presidente da S.T. escreveu que: "saber
teosofia não é ser teosofista viver a teosofia é ser teosofista. É pois uma
questão de ser e não de saber".
A Teosofia é compreendida também como
sendo “o conjunto de verdades que forma a base de todas as religiões, todas
as filosofias e todas as ciências”. Ao exercitarmos o 2º objetivo da S.T.,
confirmamos a veracidade desta afirmação, já que descobrimos sua universalidade
e eternidade. Verificamos, por nós mesmos, que ela contém a essência de todos
os ensinamentos filosóficos, religiosos e científicos.
As inúmeras religiões, escolas de filosofia e pesquisas científicas nos
certificam que nenhum conhecimento existente neste universo é propriedade de um
grupo de privilegiados ou de apenas uma pessoa que o tenha patenteado. O
conhecimento encontrado em todas as áreas da vida humana e que diz respeito à
nossa alma, à nossa existência e ao Cosmo, é Universal e eterno, sempre existiu
e sempre existirá.
Um teosofista, ao refletir sobre o fato de ser a Sabedoria Divina eterna e
perene, se depara com a infantilidade de se considerar um ser original ou um
gênio, acreditando estar descobrindo ou compreendendo algo novo e grandioso. Ao
refletir, também, sobre o fato de já existir na Mente Universal a ideação de
tudo, percebe que nada pode ser inventado ou descoberto e isto o leva a
considerar a infantilidade de se reverenciar um teosofista que supostamente
detenha o conhecimento, em parte ou no todo. É através destas inúmeras
reflexões que, ao transmitir os ensinamentos, o teosofista descobre a ausência
de sentido de revestir a si mesmo do peso desta originalidade.
Meditando sobre essas idéias e percebendo em mim mesma um movimento interno em
busca desta originalidade, acabei me deparando com um artigo na Internet,
escrito por um filósofo da Universidade de São Paulo. Nele o filósofo Oswaldo
Porchat busca descrever, entre outras coisas, a importância do reconhecimento
de uma visão comum do Mundo, o que poderia ser alcançado, segundo ele,
optando-se pelo silêncio da não-filosofia e, posteriormente, no recolher-se
neste silêncio. No artigo, ele repudia a filosofia enquanto um mero jogo de
teorias, e escreve: “Renunciando à filosofia, torno-me apenas um homem
comum. A vida comum e cotidiana é tudo aquilo que me resta, ao renegar da
filosofia e de suas pompas. Assumo-a e vivo-a integralmente. E, ao modo de um homem
comum, organizo minha visão do Mundo, necessariamente falha e incompleta,
necessariamente pessoal e minha. Mas nada me impede de enquanto homem comum,
considerá-la em sua totalidade e com um olhar mais abrangente.”
Vejam! Porchat coloca nessa fala a justa medida de todas as coisas. Ele
se coloca na condição de ser parte integrante do Mundo, de que toda a sua
experiência é a experiência do Mundo e que a sua vida é vivida no Mundo. Isto é
pura Teosofia! A Teosofia é compreendida, também, como sendo a arte de viver. A
nossa consciência, segundo ela, é um raio da Consciência Universal e é
trabalhando no mundo, através desta consciência individual, que ela será
inserida e integrada no Todo. É o filho pródigo retornando à casa do Pai e esta
é uma das grandes Verdades contidas no ensinamento teosófico.
A Sabedoria é adquirida enquanto vivemos a vida e, por isto, podemos afirmar
que ela está acessível a qualquer um de nós. Não apenas os que se fizeram
santos ou mundialmente conhecidos como sábios puderam acessá-la. Citando
novamente O. Porchat, que escreveu ao rejeitar também os filósofos céticos: “Não
querendo assumir suas filosofias como meras práticas humanas no mundo
reconhecido, empenham-se em tentar esquecê-lo, obscurecê-lo, “pô-lo entre
parênteses”, no interior de seus projetos teóricos". Ou seja, é uma
troca de valores, ficando o mundo a serviço do homem e não o homem a serviço do
mundo.
Podemos estar fazendo o mesmo com a Teosofia, quando dizemos que ela não é para
nós e não a assumimos como sendo, também, uma ciência que pode perfeitamente
ser testada, experimentada e comprovada em nossa vida diária, em nossas
relações. E o material disponível para estes experimentos é o próprio
ensinamento.
Neste ponto, podemos refletir sobre as quatro proposições básicas, que devemos
ter sempre em mente ao estudarmos a Teosofia. Estas proposições foram
apresentadas por H.P.B. na Doutrina Secreta:
1ª) A Unidade fundamental de toda a existência:
A
essência desta afirmação é de que fundamentalmente existe UM SER, e este Ser é
o Absoluto, e sendo Absoluto nada existe fora dele. Ou seja, tudo é Deus e nada
existe separado ou fora dele. Na Vedanta, encontramos uma explicação bastante
simples e esclarecedora para retratar esta Unidade: "não importa a
forma dada à argila moldada, a realidade do objeto permanece sempre sendo a
argila”. A experiência da Fraternidade representa o ponto máximo de
compreensão e realização desta proposição.
2ª) Não existe matéria morta.
Tudo é
Vida. Não importa que forma ou plano do Universo possa estar sendo analisado, a
Vida estará presente nele. Por isto, devemos entender que Vida, Absoluto e
Universo são a mesma coisa. Não existe um sem outro. Falar de um é estar se
referindo ao outro, pensar em um é estar trazendo para o nosso campo mental a
lembrança do outro.
3ª) O Homem é o Microcosmo.
Significa
dizer que ele possui tudo em seu interior. Dentro de nós encontramos a origem e
a fonte da Vida, não precisamos buscar nada fora. O homem, sendo o microcosmo é
"uma unidade menor da mesma espécie" (Cosmo), segundo definição de
I.K. Taimini, no livro Deus, o Homem e o Universo. Mas, vale ressaltar,
ainda em estado não desenvolvido.
4ª) Axioma hermético, “assim como em cima é embaixo”.
Segundo
H.P.B., o que existe, na realidade, é a Unidade de todas as coisas, nada é
interno, nada é externo, nada é grande, nada é pequeno, existe UMA VIDA e UMA
LEI. Ao compreendermos, após análise e investigação profunda, o funcionamento
da natureza humana, verificamos que não precisamos esperar nossa transformação
em deuses para assimilarmos esta idéia. Compreendendo e aceitando a nós mesmos,
a nossa condição comum de seres humanos, já estaremos avançando em direção à
Unidade.
Termos essas proposições como pano de fundo em nossas mentes e percebermos essa
Unidade presente em todos os momentos e em todas as coisas com as quais nos
relacionamos é Sabedoria Divina. Para atingirmos esta percepção é necessário
nos abrirmos para a Vida, Vida esta que já está contida em nosso pequeno
Universo. É apenas uma questão de “viver em sua plenitude, a vida comum dos
homens. Redescobrindo e revivendo o homem comum em nós”, segundo o filósofo
já citado.
À medida que estudamos ou simplesmente lemos os diferentes ensinamentos,
percebemos que muita coisa encontrará ressonância em nosso interior, muito do
que estamos analisando fará sentido para nós por, simplesmente, sabermos que
eles contêm verdades. Em contrapartida, outros ensinamentos farão pouco
sentido, mas se os deixarmos abertos e presentes em nossa mente, como sendo
prováveis, verificaremos que encontraremos na vida respostas que auxiliarão
seus esclarecimentos e, muito naturalmente, eles se tornarão claros e coerente.
Desta forma, despertamos em nosso interior a verdadeira fé que advém de uma
convicção interna, surgida através de um pensar profundo e sensível, onde tudo
o que se põe em contato com a mente é levado em consideração e será, por isto
mesmo, respeitado e amorosamente incluído em seu campo de ação. Esta fé
consiste numa certeza e gera uma enorme estabilidade em nossas vidas, cada vez
menos temos dúvidas, cada vez mais temos confiança em nós e no caminho que
passamos a percorrer.
Assim, nos conduzimos das "Trevas
para a Luz, do Irreal para o Real, da Morte para a Imortalidade".

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