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Palestra proferida por Ricardo Lindemann Em 1º de outubro de 1999

Eu confesso e devo
dizer que no nosso atual sistema de ensino, uma pessoa ter o diploma de
filósofo, talvez acrescente muito pouco; apenas indica que o indivíduo teve a
perseverança de permanecer sentado nos bancos da universidade por cinco anos ou
coisa parecida, e um dia, porque foi insistente, ganhou o diploma.
Mas a nossa questão é
até que ponto a teosofia pode ser ensinada, é o tema da nossa palestra de
domingo, nós vamos ali, aprofundar este detalhe.
Hoje, nós vamos
tentar desenvolver um tema clássico que é a busca da felicidade. Talvez com um
tempero da visão krishnamurtiana - a correlação com o tempo psicológico. Esta
mesma mensagem tem sido dada desde o início dos tempos e refere-se a um fato
relativamente simples do ser humano.
Se vocês me
permitirem usar uma analogia:
Às vezes se comporta
semelhantemente àquele cavalinho que vai em busca da cenoura que está pendurada
por uma espécie de caniço que por sua vez está amarrado nas suas próprias
costas. Então, o cavalinho corre, corre, corre em busca daquela cenoura, e não
se apercebe, não compreende que é ele mesmo que lança cada vez a cenoura mais
longe; ou se vocês quiserem assim considerar, ele se condena a jamais alcançar
aquela cenoura que tanto deseja para satisfação daquilo que ele crê ser a sua
necessidade.
Então, poderíamos
encerrar a palestra, não há mais muito a acrescentar além disto.
Mas se nós
aprofundarmos na dimensão do problema que isto representa, é o mesmo que
perguntar: De onde vem a insatisfação humana ?
Alguns que seguem uma
linha materialista, afirmam que se o ser humano, na verdade, é uma mera evolução
do macaco; então, a psicologia não passa da interpretação de um mecanismo de
sublimação daquela animalidade que constituiu o que se chama de civilização.
Mas se pararmos para
observar esta afirmação, ela pretende também que se nós largarmos toda a nossa
animalidade nós vamos ser mais felizes - é o que está subjacente no discurso.
Se vocês me permitem
um parênteses:
Quando uma pessoa
estuda filosofia, ela aprende a analisar as premissas. Geralmente os filósofos
começam com a conclusão e depois buscam premissas para fundamentar a conclusão
que desde o princípio queriam chegar. Quando vocês observam um sistema de
pensamento, vocês devem rapidamente buscar quais foram as premissas, porque ali
ele está pretendendo fundamentar alguma coisa que vai levar à conclusão que ele
quer alcançar. Dizem que também os economistas fazem uma coisa parecida, se não
me engano era Einstein que dizia que "a economia e a estatística eram as artes
de mentir pelos números." Arranjam-se os números para se demonstrar o que se
pretendia desde o princípio.
Filosofia é um campo
bastante lodoso.
Então, estas pessoas
pretendem fundamentar que por viverem de uma maneira tal, expondo a sua
animalidade ao máximo, elas pretendem se tornar mais felizes.
Só que se vocês
observarem este tipo de conduta, vocês vão também observar que se fosse assim, o
ser humano deveria estar satisfeito toda vez que suas funções fisiológicas
também estivessem satisfeitas.
Eu me lembro de uma
pergunta feita ao senhor Krishnamurti, relatada no livro A Questão do
Impossível. Perguntam a ele: Mas enfim, o mundo está passando fome, etc. e tal,
o que adianta nós, uma meia dúzia de pessoas, ficarmos aqui discutindo sobre a
natureza humana?
Ele dá uma resposta
interessante, ele diz: Uma enorme revolução acontecerá no mundo se um certo
número de pessoas se transformar interiormente.
Mas como a pergunta é
insistente da parte do questionador, ele responde: Por outro lado, as pessoas
que estão nesta sala não estão passando fome, senão, talvez não estivessem aqui.
Portanto não estamos falando para estas pessoas, nós estamos falando para
aquelas que talvez tenham condição de produzir a transformação; porque as outras
primeiro vão precisar ser alimentadas.
Mas por que o mundo
está do jeito que está ? Por que um automóvel é mais valioso do que a comida ?
Qual é a nossa necessidade básica ?
Se formos analisar a
questão pelo custo, nós vamos realmente verificar que os valores vão sempre na
direção daquilo que é mais sofisticado, daquilo que é mais supérfluo - isto é, o
mais caro. As coisas mais básicas são as menos valorizadas; claro, alguém
poderia dizer que se a comida fosse a mais cara, ninguém comeria; eu concordo,
só que quando a gente analisa as coisas, vê o pessoal queimando não sei quantas
cebolas, fazendo isto e aquilo para levantar o preço da cebola enquanto os
outros estão passando fome ... Aí eu digo que se começa a mentir com os números.
Quais são as nossas
reais necessidades ? Esta é a pergunta que está por detrás da busca da
felicidade.
Quando o homem pode
ser feliz ?
Se nós enxergarmos o
homem apenas como um animal, ele deveria estar feliz quando as suas necessidades
animais, fisiológicas, estivessem satisfeitas. Eu estou certo ou errado ?
Esta é uma análise
silogística - premissa e conclusão. Se ele é um animal, e se suas necessidades
animais estão satisfeitas, logo, ele tem de estar feliz. Os animais ficam
felizes quando suas funções estão preenchidas; a gente vê o cachorrinho dormindo
quase como uma jibóia depois de ter comido bastante; muito feliz por ter o dono
por perto. As necessidades dos animais são tão simples, fáceis de serem
satisfeitas, rapidamente o cachorrinho está com o rabo abanando e a vida está
ganha.
Suponho, pelo
raciocínio que fizemos, que ninguém nesta sala está propriamente passando fome.
Será que estamos todos felizes ?
Se observarmos quais
as necessidades de um animal para ser feliz se suas funções fisiológicas estão
preenchidas: Ele precisa procriar, quem sabe ? Ele precisa se alimentar, quem
sabe ? O Primeiro caso, a sobrevivência da espécie; o segundo, a sobrevivência
do indivíduo - está resolvido, a vida está ganha.
Mas o ser humano é
mais complicado do que isto. Portanto, eu pretendo que o ser humano não é um
mero animal. Se ele fosse um mero animal, teria que estar feliz com a satisfação
das suas funções fisiológicas.
Eu pergunto: O que
faltava para Elvis Presley ser feliz ?
Aparentemente, era um
homem riquíssimo, tinha uma voz maravilhosa, era bem apessoado, as mulheres
corriam atrás dele como se fosse um deus. Mas ele acabou em overdose de cocaína.
Eu tinha um amigo,
meio radical, que dizia que "os tolos fazem as experiências, os sábios aprendem
com as experiências dos tolos". Nós não precisamos cometer todos os erros que os
outros já cometeram para chegar à sabedoria; caso contrario, talvez mil
encanações não fossem suficientes.
Ah não! Eu tenho que
experimentar.
Ótimo, quebre a cara
como o outro já quebrou.
Vamos observar a vida
dos grandes ídolos da nossa civilização, e vamos ver se eles conquistaram a
felicidade. Será que Elvis Presley era um homem feliz, ou quem sabe a Elis
Regina, a Adriana de Oliveira, o River Fenix ?
São pessoas que
morreram de overdose de cocaína.
Será que vocês
conseguem entrar no que significa ter tudo e não poder mais justificar a sua
insatisfação ?
Quando a pessoa está
passando fome debaixo da ponte, ou do Viaduto do Chá, ou sei lá onde, ela pelo
menos tem um desculpa: Eu não estou muito feliz. Está faltando comida, está
faltando isto, está faltando aquilo.
Mas quando a pessoa
tem tudo, atingiu o topo da Pirâmide de Maslow, as necessidades foram todas
preenchidas, é aí que o vazio espiritual aparece de uma forma palpável. Nos
outros casos, enquanto as questões animais não estão preenchidas, talvez não se
dê conta, o indivíduo, das suas necessidades e carências espirituais.
Por isto, talvez, o
maior índice de suicídios se dê na Suécia, onde, propriamente, as pessoas não
estão morrendo de fome; se é que vocês conhecem a legislação de carga social
poderosa que lá existe - um auxílio desemprego que é um salário maior que o
nosso, enfim; ou que o maior índice de suicídio de adolescentes do mundo, se
encontre no Japão; ou que o maior índice de suicídio de crianças no mundo, se dê
na Alemanha.
A gente pensava que
tinha que ser na Etiópia; quem sabe na Índia, no Brasil. Por que na Alemanha, no
Japão e na Suécia ? Vocês pararam alguma vez para pensar nisto ?
Então, vamos voltar à
nossa questão fundamental de hoje: O que leva uma pessoa a sentir-se feliz ?
Quando ela está
satisfeita. É a resposta básica.
Mas há uma frase
similar do Talmude que diz o seguinte:
"Rico é o homem que
está satisfeito com o que tem."
Vejam só: O que torna
o indivíduo feliz ?
Quando ele, antes de
mais nada, compreende o movimento do desejo. Enquanto ele corre atrás de uma
cenoura que ele mesmo projeta lá longe ...
Eu vou usar um
exemplo de um visitante ilustre que nós tivemos em Brasília este ano, o
professos P. Krishna. Ele usava a idéia de uma linha que separa as coisas que
nós temos, ou dizemos ter ...
Eu desafio vocês a me
dizer o que é possuir qualquer coisa. Alguém pode dizer: Quando eu sair daqui eu
pego meu carro. Mas quem garante que o carro estará esperando por você. ( não
querendo tirar, claro, a tranqüilidade de vocês)
Então: Ah, eu possuo
uma esposa, ou um marido.
Quem me garante que
não vai morrer amanhã. Estes medos estão todos no nosso subconsciente, não que
estejamos sempre pensando nisto. Mas grande parte da ansiedade humana é que no
fundo a pessoa sabe que pode perder aquelas coisas a qualquer momento; e a
própria saúde, e a morte. Todas estas coisas estão no nosso inconsciente, basta
mencionar que talvez o carro não esteja lá em baixo, para que alguns aqui já não
assistam mais a minha palestra, a cabeça já vai para o carro, para o alarme: Eu
não deveria ter estacionado ali, estava muito escuro. Porque não paguei o
estacionamento, afinal ?
Estas preocupações, o
cachorrinho não tem. Eu costumo dizer que deve ser extremamente difícil explicar
para o cachorro do Elvis Presley porque o dono dele se matou se a geladeira
estava cheia. Já tentaram imaginar a dificuldade ?
Se uma pessoa está
com a vida ganha, por que ela se suicida ?
Claro, este é um
exemplo extremo. Mas tem várias pessoas se suicidando com o cigarro, com a
bebida, com as ansiedades, com a úlcera, com a conta bancária, com não sei mais
o quê; são suicídios menores, não aquele da overdose de cocaína que é para gente
rica; são várias maneiras de suicidar-se aos poucos.
De certa forma, nós
estamos mortos toda a vez que a mente não está no momento presente. Já pensaram
alguma vez sobre isto ?
O passado existe ?
Já era. Existiu, mas
já era.
O futuro existe ?
Talvez venha a
existir, mas por enquanto ele é mera imaginação.
Portanto, entre a
memória e a imaginação - que se baseia na memória -, vocês encontram o único
momento real que é momento presente. A memória cria um momento virtual, ilusório
que é o passado. A imaginação cria uma projeção, ou um momento virtual que é o
momento futuro. Nem um dos dois existe de fato.
Jesus dizia: "Deixai
que os mortos enterrem seus mortos."
Se vocês pegarem A
Voz do Silêncio, de Blavatsk, ela dizia lá pelo aforismo do 173 ao 176: "A
nenhum voluntário da luta entre o vivo e o morto pode-se negar o direito à
batalha; porque ou vencerá ou cairá, se vencer será um Buda, e se cair terá a
chance numa nova encarnação porque já na próxima não encontrará os inimigos que
matou na anterior." A gente tem uma chance de encontrar menos dificuldades numa
próxima encarnação do que temos nesta. Esta é a idéia budista de A Voz do
Silêncio.
Mas de uma forma ou
de outra, o mesmo preceito aparece tanto no cristianismo quanto no budismo - a
luta entre o vivo e o morto.
Para estar morto o
que é preciso ? Estar na sepultura ?
Não. No simples
momento em que nós viajamos para o passado, nós já não estamos vivos, nós
entramos num parênteses virtual. No simples momento que eu estou me preocupando
com o futuro, eu também entrei numa rede virtual criada pela minha própria
imaginação. Em ambos os momentos estou num parênteses, não estou existindo,
estou na ilusão que os vedantinos chamam de maya.
Daí decorre que todo
sofrimento psicológico é fictício, é uma ilusão.
O Sofrimento
fisiológico, este é de outra natureza, é objetivo. O sujeito tem um espinho no
pé, enquanto ele não tirar o espinho, a dor não cessa. (tem também a solução
lusitana que é cortar o pé, mas não recomendamos esta solução.)
Mas quando a dor é
objetiva - o sujeito está com dor de dente; muito bem, tem que ir ao dentista, é
tão linear quanto isto.
Suponhamos que a dor,
o sofrimento seja psicológico. Qual é a sua causa ? Qual é a causa da ansiedade
? Qual é a causa da insatisfação ? Qual é a causa do orgulho ferido ?
Se tem uma coisa
misteriosa, é o tal do orgulho ferido. Existe uma frase lapidar de Sri Ram, que
foi o nosso quinto presidente. Ele tinha conquistado, suponho, um estado de paz
extraordinário, ele dizia: "Somos nós que colocamos na boca dos outros as
palavras que nos ofendem."
Fulano me ofendeu.
Quem é o fulano para nos ofender, em primeiro lugar?
Ah, mas ele disse tal
coisa. Mas aquela palavra que ele disse, que chegou ao nosso ouvido, é uma
variação de pressão atmosférica, produzida pela vibração das cordas vocais de
fulano. Então, ela vem com aquela variação de pressão, põem em movimento o nosso
tímpano, aciona o tal do estribo, põem em movimento o martelo que detona a
bigorna que gera uma descarga elétrica no sistema nervoso e vai chegar à alguma
região do cérebro (que o pessoal até hoje fica futricando para descobrir onde é)
e de repente, ela é interpretada.
Se não for ... O
sujeito me chama de burro em chinês:
- Ah, muito obrigado.
Depois, chega um
fuxiqueiro e diz:
- Olha, ele te chamou
foi de burro.
- Mas como! Aí eu me
sinto muito ofendido.
Mas se uma pessoa me
chamar de burro, será que a minha burrice vai aumentar ?
Ela é porque é; pode
ser que eu não goste dela, mas ela não vai mudar porque alguém apenas
caracterizou o fato:
- O senhor é um
burro!
O que é que tem ?
Seja feita a vontade dele. O que eu posso fazer ? A burrice é tanta que os
outros chegam até a perceber!
Agora, outra pessoa
chega e diz:
- Ah, o senhor é
muito inteligente. Então, o ego não cabe dentro da roupa. Mas eu pergunto: Será
que a inteligência aumentou porque alguém me chamou de inteligente ? Talvez ele
esteja até mentindo, me bajulando.
Quando eu fui eleito
presidente, comecei a notar ... bem, não vou concluir.
Então, devo dizer a
vocês: Será que minha inteligência aumentou porque de repente eu me tornei
Presidente da Sociedade ?
Meus queridos, não é
assim. A pessoa continua sendo a mesma coisa que sempre foi. (talvez com mais
cabelos brancos) O que o outro diz, não aumenta nem diminui o que eu sou.
Porque nos deixamos
ofender pelo que os outros dizem a nosso respeito ?
A gente dorme mal; há
filhos que não falam com os pais há dez, vinte, trinta anos; só vão
reencontrá-lo no dia em que o homem está na UTI; aí, ele resolve se comover, dá
um abraço no pai na hora da morte. Ás vezes, ainda chega atrasado e se sente
culpado porque não chegou a tempo.
É um dramalhão a vida
humana. E isto, o cachorro do Elvis Presley não consegue entender. Não consegue,
o pobrezinho do cachorrinho. A geladeira está cheia, a vida está ganha, porque
vou me preocupar com isto ?
Então, se começarmos
a pensar quantos problemas a mente cria, vamos ver que ela pode tornar a nossa
vida um inferno, sem que haja nada palpável que justifique o porquê de tanto
desespero. Está é a grande questão que nos traz aqui hoje.
O doutor Krishna, que
nós citávamos, delineava um linha que separava as coisas que nós temos ou
pensamos ter, daquelas que nós almejamos ter - aquela cenourinha:
Se eu não for
Presidente da Sociedade, não vou ser feliz.
Depois que o cara é
Presidente, ele vai querer ser Presidente Internacional, e depois, tem que ir
para outro planeta.
Se a pessoa
condiciona a sua felicidade a atingir este posto, este salário, este automóvel,
esposa, etc.; qual não é a sua surpresa quando tem aquilo na mão ... não tem
mais graça; dura uns dois ou três dias, e aí, vem aquele vazio de novo:
O que preciso agora
para preencher esta cratera que se abriu ?
Aquilo passa a fazer
parte da memória do passado, nós nos acostumamos com o que temos, e aí, não tem
mais graça.
A moda é baseada
essencialmente nisto. Quantas vezes eu vi a minha mãe dizer:
- Ah, não tenho roupa
para ir nesta festa.
O meu pai já guarda
as roupas dele no armarinho do corredor porque no quarto, as dez portas que há
lá, são todas dela. Abre uma porta, cai sapato; abre outra, chega estar vergando
aquela madeira de tanto vestido.
Um pobre ser como eu,
com as limitações cerebrais evidentes que vocês já notaram, não consegue
entender isto. Eu acho que o cachorro do Elvis Presley teria mais capacidade de
entender este problema do que eu. Alguma coisa não me convence, todas as
evidências são no sentido de que a casa está abarrotada de roupas até o limite.
Nós dizemos: Falta-me
isto. Falta-me aquilo. Falta-me não sei o quê.
E o pior, aqueles que
mais têm, freqüentemente, são os mais insatisfeitos. Por isso, nós vamos lembrar
que o maior índice de suicídios fica na Suécia; de adolescentes, no Japão, e de
crianças na Alemanha. Porque se fossem aqueles que têm menos, os mais
insatisfeitos, nosso argumento estaria negado.
Eu desafio as
correntes de psicologia que dizem que o homem é um mero animal; senão, ele teria
que estar satisfeitos com suas funções fisiológicas devidamente satisfeitas.
Agora, se o homem é
uma entidade espiritual, aí, o número de insatisfações que a mente pode lhe
criar são infinitas. A menos que nós compreendamos a mente, ou o que preferem
outros, conquistemos o autoconhecimento, eu posso também demonstrar a vocês que
não será possível encontrar a felicidade, ela estará sempre num lugar
inatingível.
Então, se eu tenho
esta esposa - ela é chata, a boa é sempre a do vizinho; a galinha do vizinho é
sempre a mais gorda. Se eu tenho este carro - este não é bom, o bom é aquele lá.
Mas se eu tiver aquele lá, eu vou querer acolá. Se eu tenho este emprego - é uma
chatice, não agüento mais, vou me demitir para arrumar outro. O outro, está
morrendo de fome porque não tem emprego ... (este teria motivo)
Mas este, por sua
vez, de repente achou que a felicidade está no copo, na bebida. A gente entende:
Meu Deus, o cara está se afundando. Mas a esposa do bêbado continua atrelada
àquele traste, e se afunda junto com ele.
A senhora Robin
Norwood escreveu aquele livro, Mulheres que Amam Demais. (não sei se vocês já
leram) Ela fez uma pesquisa sobre alcoolismo na empresa onde trabalhava e
descobriu, para surpresa dela, que não era suficiente estudar apenas o
alcoólatra, era necessário estudar a família dele. Aí, apareceu o incrível -
mais dependentes não eram os maridos, mas as mulheres daqueles maridos não
serviam para nada. É um caso de dependência.
Então, se nós
observarmos onde estão as nossas dependências, elas poderão estar nos lugares
mais inacreditáveis. Mas o nosso medo de nos libertarmos daquilo que parece a
condição de nossa existência é tão grande, que nós, às vezes, não temos coragem
de enfrentar. E aí, começamos a criar uma série de justificativas, compensações;
é o que Jung chama de neurose; diz ele que a neurose é um "sofrimento
substitutivo", ou seja, para não encarar o nosso medo maior, se vocês me
permitirem encurtar o caminho - o medo da morte.
Quando nós morrermos,
todos os nossos outros medos cessaram, vocês não vão mais se preocupar com
salário, se vão ser demitidos, se o carro vai ser roubado ou sei lá com o quê
mais que as pessoas são capazes ... se o Corinthians perdeu do Palmeiras.
O meu avô dizia o
seguinte: Vinte e dois barbados correndo atrás de uma única bola, se pelo menos
cada um tivesse uma bola própria o jogo melhoraria.
Mas tem gente que
morre por isso; uma das coisas que me marcou na infância: Meu pai era um
inveterado apreciador do futebol, ele me levava invariavelmente, não tinha onde
deixar o Ricardinho, então, ele ia junto para o jogo. Eu devia ter uns oito nove
anos de idade quando uma certa vez, o Alcindo (se é que alguém lembra, foi até
centroavante da seleção brasileira) estava na pequena área num "Gre-nal" (se é
que vocês imaginam o grau de rivalidade que isto representa no Rio Grande do
Sul), a bola quicou, o cara chutou e "matou um urubu lá fora", a bola não
entrou. Caiu um sujeito lá da arquibancada porque teve um ataque cardíaco
fulminante e morreu. Para ele, aquela bola não ter entrado, foi uma insatisfação
insuportável.
Isto é o que eu chamo
de neurose, é um sofrimento substitutivo. Os verdadeiros problemas dele nada
tinha a ver com aquela bola, ou aquele jogo. Mas porque ele fez uma
transferência e uma projeção dos seus problemas num time de futebol, o fato da
bola não ter entrado foi insuportável, ele morreu do coração na hora.
Agora, se formos
analisar a miséria daquele "João da Silva" que morreu naquele momento ... E o
jogo continuou, poderia sair um gol quinze minutos depois, ou não sair gol
nenhum e todo mundo voltar para casa com aquela cara de zero a zero. Como dizia
o sábio Dino Sani, que era o técnico na época : "Em futebol, se ganha se perde
ou se empata."
Mas será que nós
conseguimos ter a mesma postura quando nosso time ganha, perde ou empata ?
Afinal, o jogo continua. Ou será que se a bola não entrar no gol, eu morro de um
ataque do coração ? São várias perguntas que levam à mesma questão.
Como sinto que o meu
tempo já se escoa ... Cronos é a maior de todas as ilusões, é a última ilusão a
ser vencida - o tempo.
Nós temos que falar
do tempo psicológico. Então, vamos entrar no núcleo desta discussão.
Eu sempre acredito
que vou ser feliz quando chegar lá; seja este lá o nirvana, que é o problema
teosófico clássico - as pessoas abdicam do interesse pelo automóvel, pelo
futebol, por isto, por aquilo... mas o nirvaninha que elas querem tanto, pode
levar várias encarnações.
Aí, começam os
problemas teosóficos, um sempre acha que o outro não está fazendo com deveria, e
resolve administrar a Loja Teosófica do outro porque esta Loja trabalha mau, o
melhor é trabalhar assim, trabalhar assado ... É isto que eu administro, este é
o meu drama - administrar as Lojas e Grupos Teosóficos do Brasil; explicar que
uma Loja tem direito de trabalhar assim, da mesma forma que aquela tem o direito
de trabalhar assado. Mas por que o assim tem que reclamar do assado, e o assado
tem que reclamar do assim ? Esta é a minha grande pergunta. Não se satisfazem de
estar com dificuldades no seu trabalho, querem corrigir as dificuldades dos
outros e não resolveram, às vezes, a sua.
Este mecanismo de
projeção se manifesta de várias formas, Jesus dizia que a pessoa se "preocupa
com o cisco no olho do vizinho e não vê a trava no seu próprio olho" - é a falta
do autoconhecimento. A mente se projeta, cria uma cenoura que ela quer alcançar,
e corre, corre, corre atrás da cenoura, e quando finalmente conquista a cenoura,
conhece a satisfação. Só que dura pouco a tal da satisfação. Vocês já notaram ?
Daqui a pouco, a pessoa está de novo entediada: Esta droga ... Não era o quê eu
pensava. Ou mesmo que fosse: Agora já não é suficiente, eu preciso de mais não
sei o quê...
Pergunta-se: Quando é
que vamos conquistar a felicidade ? O que nos falta para sermos felizes ? Será
que chegando lá estaremos satisfeitos ? Por quantas semanas, até que queiramos
outra coisa?
A menos que
compreendamos como o cavalo lança a cenoura cada vez mais longe, jamais a
alcançaremos. Talvez, tenhamos de procurar outra cenoura que está no chão, e não
aquela que está pendurada.
De repente,
descobrimos uma plantação de cenoura, fazemos um estrago... Mas aquela que
projetamos, jamais alcançaremos. E se parecer à imagem metal que alcançamos, não
tenham dúvida de que dali a uma semana, aparece uma nova cenoura na imaginação,
e a anterior, não tem mais graça.
Eu gostaria de fazer
um pequeno diagrama. Vocês vão observar que o conceito de tempo cronológico é
muito diferente do conceito de tempo psicológico.
Vocês sabem como se
mede o tempo cronológico ?
Com o relógio. É o
espaço de doze horas entre o nascer e o pôr do sol na linha do equador, etc.
Agora, na passagem do Sábado para o Domingo, haverá um ajuste. Vai dar uma
confusão ... Tem gente que acorda tarde, reclama. Outros acham que melhorou, vão
aproveitar o dia. Tem os que são contra e os que são a favor. [do horário de
verão]
Mas é uma coisa
objetiva, não depende de uma mensuração do nosso sentimento. É apenas um
mecanismo externo.
Como se mede o tempo
psicológico ?
Pela ansiedade. Nós
teríamos que criar o "ansiômetro" para medir o tempo psicológico. Vou dar um
exemplo:
Hoje é o primeiro dia
do mês, ontem foi o tal do último dia. Quantos aqui foram ao banco e enfrentaram
a fila do último dia ?
Alguns há que só de
saber que vai ter fila, preferem pagar a multa. O que acontece é o seguinte: O
sujeito entra na fila, fica lá quinze minutos, meia hora; parece que passou
quinze, trinta anos; sai com o fígado estragado, querendo brigar com todo mundo.
Na fila, você sabe
com quem ele está ?
Com ele mesmo.
Este costuma ser o
maior desafio para o ser humano; companhia extremamente difícil de se ter e
conviver. Talvez a mais difícil de todas. Como dizia Krishnamurti: "O que nós
menos desejamos é conhecer a nós mesmos."
Agora, o sujeito está
quinze minutos, trinta minutos nos braços da amada: Já passaram trinta minutos ?
Ele não acredita.
Como é que o tempo
corre de um jeito na fila do banco, e de outro num momento mais agradável ?
No tempo psicológico,
apresentam-se dois fatores muito importantes: O prazer e a dor. Eles modificam a
contagem do tempo. Só que o prazer ou a dor, estimulados pela memória, vão gerar
projeções na área que nós chamamos imaginação. A partir da experiências do
passado, a mente projeta o futuro como ela queria que fosse ou como ela queria
que não fosse. Dizemos que o prazer projeta uma coisa que chamamos de desejo; e
a dor projeta uma coisa que chamamos de medo.
A dor se projeta
através da imaginação e vira o medo que é a resistência psicológica. Passa a se
repetir a dor que eu já experimentei ou que vi outros experimentando e me
imagino na situação deles; tudo isto é psicológico. Portanto, o medo e a
imaginação são virtuais ou ilusórios. Então, o futuro que é uma criação da
imaginação, é uma ilusão.
Com isto, eu estou
demonstrando a vocês que tanto o medo quanto o desejo ... Desejo é a vontade de
repetir um tipo de prazer que no passado nós já experimentamos. Ou projetamos,
tendo visto o quê o outro experimentou, comparando com o que eu já experimentei,
que aquilo deve ser melhor do que eu já experimentei; e aí, tenho que fazer uma
nova experiência. Muitas vezes este é o caminho que leva à cocaína: Já que isto
é bom, aquilo deve ser melhor, aquilo outro, melhor ainda ... As pessoas vão
fazendo comparações.
A palavra manas, em
sânscrito, vem do radical ma que é relacionado a medir; à comparação mental.
Todo pensamento é um processo de comparação e mensuração.
Ora, a memória nutre
aquele sentimento de passado que também é uma coisa virtual, e portanto, uma
ilusão. A pessoa experimentou o prazer, projeta com a imaginação o desejo;
experimentou a dor, projeta com a imaginação o medo. Todo o problema psicológico
está aqui, e o tempo psicológico nada tem a ver, necessariamente, com o tempo
cronológico.
O corpo físico
trabalha no nível cronológico, a mente, a alma ou psique, trabalha na dimensão
psicológica. O tal do ego psicológico é o reforço do passado que cada
expectativa de medo ou desejo reforça.
Quem é que se ofende?
O fulano de tal.
Mas quem é o fulano
de tal ?
Aí, pega a carteira
de identidade - tem um nome que não foi ele que escolheu, mas o pai ou a mãe. Às
vezes o cara briga com o nome a vida inteira. O nome não é ele, não foi
escolhido por ele; o lugar onde nasceu, supõe-se que também não seja. Ele
escolheu o lugar onde nasceu ou o pai ou a mãe que teve ? O que o identifica ? A
carteira de identidade é a coisa que menos nos identifica. (principalmente
aquela fotografia que ninguém acredita que é nossa)
Então, o que é o eu;
este ego psicológico se não uma projeção ilusória da mente criada a partir do
tal do passado que é virtual. Portanto, volto a dizer as palavras sábias de Sri
Ram: "Somos nós que colocamos na boca dos outros as palavras que nos ofendem."
Eu faria uma
paráfrase e diria: "Somos nós que colocamos na vida as insatisfações que temos."
Primeiro eu desejei para depois não conseguir satisfazer o desejo; e aí, me
sinto frustradíssimo porque a vida não me ajudou. Mas fui eu que criei aquela
cenoura que está pendurada lá na frente. Fui eu que criei a insatisfação
primeiro para depois ficar insatisfeito. Criei um objetivo que é inalcansável;
mesmo que o alcance, jogo-o mais longe depois.
Então, nunca serei
satisfeito enquanto estiver projetando indefinidamente este processo. Por
incrível que pareça, o único momento real ( que espero nada tenha a ver com a
nossa moeda que é a mais irreal possível ) é o presente. O aqui e agora, por
incrível que pareça, tem um ponto de contato com o corpo físico. É por isto que
a reencarnação nos ajuda a sair do mundo das construções psicológicas, e a poder
interagir com esta dimensão que é atemporal, onde o tempo psicológico não
existe. É o que alguns chamam de eterno ou espiritual. Este é o reino que alguns
chamam de espírito ou de consciência.
Alguma vez nós saímos
do momento presente? Esta é uma pergunta que a gente deve levar mais a fundo.
Enquanto eu penso
estar no passado, é a minha mente que está se projetando. Quando penso estar no
futuro, é a minha mente que está se projetando. Mas o único momento que uma
pessoa pode encontrar a felicidade é o tal do agora.
Se não for agora, não
será nunca. Esta é a essência do que Krishnamurti e Buda nos ensinaram. Se não
for agora não será nunca; porque o futuro não existe, o passado também não. A
eternidade é aquela da qual nós nunca saímos; não que estejamos em busca da
eternidade, nós estamos dentro dela e não a percebemos. Estamos criando cenouras
para nos causar problemas; estamos projetando o tempo psicológico onde nada
existe.
Talvez, eu possa
afirmar que não precisamos de nada para sermos felizes, senão, estarmos bem
conosco.
"Nada importa muito,
e a maioria das coisa não importa nada." Esta é uma frase do Sr. Leadbeater.
Se vocês meditarem,
todas as verdadeiras coisas que produzem felicidade estão aqui; elas não
dependem do tempo: amor, sabedoria, compreensão; etc., vocês podem colocar as
virtudes que quiserem, se for genuína ela está neste reino, no reino da
consciência; ela não precisa ser construída, já existe, é apenas uma questão de
percepção.
Quando chega o duro
momento de se pagar a anuidade da Sociedade Teosófica - R$ 136,00 - ,alguns
ainda pedem isenção e descontos, o sujeito pergunta:
O que eu ganho com
isto?
Depois de uma longa
explicação do que a Sociedade Teosófica faz, ele conclui:
Só quatro revistas
por ano! Então cada revista está custando R$ 40,00! (o pessoal costuma
arredondar para cima )
Mas a Sociedade
Teosófica e a Teosofia têm algo muito importante a compartilhar com o mundo. Ela
depende das contribuições de alguns membros que perceberam o valor do seu
trabalho. Se eu quiser mensurar qual é a importância deste trabalho, se eu
quisesse colocar um preço nisto, talvez se tornasse impagável a anuidade da
Sociedade Teosófica. As pessoas não têm a percepção de quanto esta sabedoria faz
falta no mundo; elas às vezes, acham caro, e aí, nós temos inúmeras escalas de
descontos, até chegar ao nível da gestão anterior que dava prejuízo. Quinze por
cento tem que ser pago à Índia; quando pediam isenção total, era a Sociedade que
tinha que pagar os quinze por cento. Portanto, ela tinha prejuízo para manter o
membro isento dentro da Sociedade.
O dinheiro é uma
questão de percepção. O que para nós tem valor, o que não tem?
Tem pessoas que dizem
que o problema da Sociedade Teosófica é que ela dá palestras gratuitas. Se
cobrasse... Eu acho que a sabedoria, se nós fossemos cobrá-la, não teria preço,
ninguém poderia pagá-la. Quando a gente dá de mão beijada, algumas pessoas não
dão valor; quando cobra, reclamam. Mas o dinheiro é uma questão de percepção.
Por que o mundo vive a crise atual? Morrem 40.000 crianças por dia de fome,
enquanto US$ 1.000.000,00 são gastos em armas no mundo. (sem falar o que é gasto
em cocaína, em heroína, em corrupção)
Eu posso demonstrar a
vocês que para cada criança que morre de fome, segundo as estatísticas da
UNESCO, (A UNESCO não diz como, ela diz: "Problemas derivados da subnutrição no
mundo em desenvolvimento") corresponde a US$ 36.000,00 gastos em armas.
Portanto, não só a criança não precisaria morrer, como ela compraria um bom
apartamento, ainda alugaria alguns quartos e encheria a geladeira; nem que
morasse no quarto de empregada, mas a geladeira e a vida estariam ganhas.
O dinheiro apenas
mostra para nós qual a escala de valores.
O que é mais
importante para o nosso Planeta?
O armamento!
Qual a causa da
guerra?
A ambição, o desejo,
a insatisfação, a ganância, a falta de generosidade; tudo isto vem de uma
projeção da mente.
Quando os prazeres
normais não produzem mais efeito, surge um componente que eu acho muito
complicado de demostrar, mas que é muito simples até certo ponto. Quanto mais se
sente desejo, mais se tem medo de que o desejo não se realize. Se a pessoa tem
medo da morte, é porque deseja de viver; se ela deseja muito passar no
vestibular, tem medo de "rodar". O desejo e o medo se constituem mutuamente, são
inseparáveis.
Buda disse: "O apego
causa sofrimento." Esta era a essência do budismo. Enquanto houver apego, vai
haver ansiedade, vai haver desejo, vai haver medo; não vai ser possível usufruir
da paz que está no nosso coração, de graça.
Aí, procuro longe o
que perto está. Então, a pessoa vai fazer um curso de psicologia, longe, um fim
de semana num hotel, custa R$ 1.000,00; o cara dá um jeito, vende o carro para
fazer o curso. Mas para conseguir pagar R$ 10,00 por mês à Sociedade, aí é uma
dificuldade.
Por que?
Porque lá, a pessoa
acha que vai colher algo para si. Aqui, que é caridade para o mundo, fazem pouco
caso. É uma questão de percepção. Percepção do que para nós é valioso e do que
não é.
Existe uma coisa que
tem a ver com a palavra tempo: Quanto mais no prazer e na dor a pessoa busca o
motivo da sua vida, ela sentindo prazer, cai no tédio; e o desejo leva ao medo
porque ela tem medo de não conseguir preencher as dependências que gerou com o
desejo.
Então, acontece uma
das coisas mais misteriosas: Quando os prazeres normais ou simples, já não
satisfazem, a pessoa passa numa loja, compra algemas, chicote e não sei mais o
quê. (vendem mais que nossos livros, estas coisas) Não satisfeita, coloca
argolas em lugares inacreditáveis. Acha que tomando viagra resolve o problema.
(depois acaba com problema na coluna ou morre do coração) Não quer aceitar que o
corpo chega ao fim das suas funções fisiológicas.
Diz o Bhagavad-Gita
no aforismo cinco, se não me engano:
"Os prazeres do
sentido são ventos de dor porque eles tem início e fim." Se vocês quiserem
eternizar o prazer, vão precisar, talvez, da dor como contraste; aí, começa esta
coisa sadomasoquista e outras coisas estranhas. Já que o prazer entorpeceu, elas
precisam da dor para sentir contraste; como alguém que ficou enjoado de tanto
doce, precisa de comida salgada para depois voltar a comer doce. Deixa de se
cumprir uma função fisiológica que é limitada, para tentar através dela,
produzir um preenchimento espiritual que é ilimitado.
Eu vou demonstrar que
enquanto a pessoa busca nos prazeres do sentido a paz espiritual, jamais se
sentirá satisfeita; ela quer mais, mais e mais; e quando os prazeres
fisiológicos normais não forem suficientes, ela deforma o que é normal, e depois
de deformar o que é normal, ela entra na área química - o álcool, as drogas,
etc.. E aí, o amor, a sabedoria, a felicidade, tiram férias, porque são de outra
dimensão.
Se eu pudesse
sintetizar, diria que todo o sofrimento psicológico é uma ilusão, e que o apego
é a causa. Esta talvez fosse uma boa síntese.
Pergunta: Neste exato
instante, atemporal - talvez seja o grande paradoxo - se nós "atravessamos", não
temos consciência, porque neste exato instante, a consciência, como nós
conhecemos, não atua. Então, é difícil medir; é muito fácil, ao mesmo tempo, a
pessoa se iludir que teve uma experiência deste tipo. Se realmente ela teve, não
tem como se lembrar.
Nós estamos tendo
esta experiência agora, e já não lembramos. A cada instante, estamos embebidos
da eternidade; dela, nunca saímos.
Mas por que nós
procuramos sarna para se coçar? Esta é a pergunta desta palestra. Por que nós
procuramos problemas com a nossa mente, ao invés de perceber que tudo o que a
gente cria é ilusório?
Nós já estamos no
nirvana sem perceber. O que o Buda descobre é que ele nunca saiu do nirvana.
Isto é o que o Buda descobre ... que não é preciso ir a lugar nenhum para
encontrar felicidade. As causas da infelicidade é que precisam ser conhecidas, e
as causas da infelicidade são o movimento do desejo; elas se criam momento a
momento, temos que estar continuamente vigiando; "Orai e vigiai." como dizia o
Cristo, para que a dor não apareça.
A dor psicológica é
criada aparentemente do nada, e destrói a nossa vida.
Pergunta: Todo
Estado-Nação, se baseia no fortalecimento do potencial nacional. Todo Estado é
um criador de dissabores. A sua teoria é contrária a isto.
Bem, é fácil repetir
as palavras do próprio Krishnamurti: "O Estado não é outra coisa, se não a soma
dos indivíduos." Se cada indivíduo tem um problema não resolvido, está criando
cenouras. O Estado cria um cenourão institucionalizado que vai justificar a
guerra para vender armas.
Então, nós vamos ver
que os problemas antigos eram ser atacado por um tigre, ser picado por uma
serpente ... Os problemas modernos são ser atropelado por um automóvel, ser
assaltado na esquina... Nos tornamos nossos próprios predadores. Enquanto nós
não resolvermos os problemas do ser humano ...
Eu não posso resolver
o problema para os outros, eu preciso antes resolvê-lo em mim mesmo. Somente à
medida que ele for se resolvendo em mim, se é que eu posso mensurar isto, é que
eu poderei ter alguma capacidade de auxiliar os outros. Eu não posso impor isto
com uma teoria, é uma questão de percepção.
Tudo que falamos
aqui, é um exercício de percebimento, de autopercebimento, de autoconhecimento.
Mas se eu não perceber isto em mim, será vã toda a exemplificação que foi dada,
todas as palavras que foram usadas vão apenas encher livros, mas não vão
transformar minha vida nem me tornar mais feliz.
Esta é a essência da
Teosofia, isto é Sabedoria Divina. Não se compra na farmácia nem eu poderia
vendê-la a vocês, nem por uma anuidade nem por dez mil.
Por isso, eu volto a
dizer que a Sociedade é representada por um pórtico com três degraus. Galgar
aqueles três degraus e entrar no templo da Sabedoria Divina, vai do esforço e da
percepção de cada um. A Sociedade mal tenta oferecer as condições de diálogo;
ela institucionaliza um fórum de investigação. São os três objetivos, as
condições nas quais esta investigação é possível: tem de haver fraternidade,
liberdade de pensamento; tolerância no estudo de religião comparada; e
investigação e busca da verdade. Isto é o que a Sociedade pode fazer por nós.
Agora, se nós não
galgarmos aqueles três degraus ... ninguém pode nos levar para lá.
Pergunta: Existe um
dito popular que diz: "O que o olho não vê, o coração não sente.". Nós vivemos
sempre cercados de apelos visuais, através de propaganda nos meios de
comunicação. Sabemos que é grande o poder de fascinação que a mídia, através da
propaganda, exerce sobre a massa humana. Será que não cabe um pouco de culpa em
toda esta campanha maciça para que haja um tremendo consumo e a pessoa procure
mais ter do que ser ?
Com certeza. A
televisão é um mecanismo de projeção de imagens que para algumas pessoas já se
tornou mais real que a própria vida. Elas não conseguem mais sair de casa sem
ver o último capítulo da novela; não querem olhar mais os problemas da sua vida,
é mais fácil trocar o canal ... relaxa mais.
Volto à expressão do
Sr. Krishnamurti que me parece extraordinária - "aquilo que nós menos desejamos
(ou que o ser humano menos deseja) é conhecer a nós mesmo", porque aí, todas as
ilusões cessam e ele descobre a verdadeira origem de seu problema.
Se ele descobrisse
isto, se libertaria, mas é a isto que ele mais resiste. É como aquela criança
que não que tomar banho ou não quer ir ao dentista; mesmo que se dê a toalha, o
sabonete, água quente ... não quer; o doente que mais precisa de remédio,
geralmente não quer tomar; estas coisas a gente já viu várias vezes.
A televisão nutre a
fuga. A fuga se tornou a maneira de se viver do ser humano tecnológico. Claro,
projeta inúmeras cenouras e cenourões institucionalizados.

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