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Quando nossa consciência ainda está no nível
do apego, valorizamos, enobrecemos e admiramos demasiadamente a fama, a fortuna
e o poder. O homem pensa que precisa ter prestígio social e, por isso, precisa
ter recursos, ser famoso e poderoso. Para ter aquilo que não tem, se sacrifica,
trabalha em excesso para ganhar dinheiro. Em alguns casos, rouba, faz truques,
mente, engana pessoas.
A preocupação em obter ou manter fama,
riqueza e prestígio tira a nossa paz. Uma pessoa, antes de alcançar prestígio,
fica com medo e, na batalha pela conquista de destaque social e profissional,
fica constantemente em estado de alerta e preocupação. Depois de conquistar
posição e riqueza, também fica em estado de alerta: quem tem riqueza e prestígio
se mantém em estado de alerta permanente porque tem medo de perder o que
conquistou.
Quem não tem e quer ter, dedica toda sua
atenção e preocupação para gerar dinheiro e riqueza. Quando conquista o que
pretende, fica todo o tempo preocupado em manter a riqueza. É um tipo de
preocupação diferente, porém, continua a ser gerada. Temos medo e nos sentimos
inseguros quando não temos fama, não temos poder, não temos o controle da
situação, não temos riqueza, não podemos dominar pessoas ou situações. No
entanto quando temos tudo isso, nós ficamos igualmente com medo porque não
queremos perder o que conquistamos.
Quem nada tem ou quer não fica em estado de
alerta. Na verdade, o ser humano precisa de muito pouco para sua sobrevivência:
comer, vestir, trabalhar, morar adequadamente. Existe aquilo que representa o
mínimo necessário para uma vida digna e virtuosa e existe todo o resto,
geralmente supérfluo, que pode ser dispensado.
Muitas vezes a pessoa entende como necessário
algum valor apenas em função do conceito. Existem pessoas que só tomam uísque
importado e outras que só usam roupas de grife. Quando o indivíduo se torna
prisioneiro desse tipo de conceito, a vida se torna mais desgastante. Ele tem de
trabalhar muito, se esforçar para conquistar coisas e, assim, se tornar feliz
(ou pensar que está feliz). Obviamente, todos gostam de tomar um bom uísque e
vestir uma boa roupa. O que é preciso deixar claro é que a prisão ao conceito de
que isso é indispensável à felicidade pode tornar as pessoas desgastadas e
preocupadas.
A conquista de prestígio gera orgulho e a
humilhação por não consegui-lo provoca a ira. Uma pessoa que se sinta humilhada
cria dentro de si um sentimento de raiva, já que nenhum de nós gosta de ser
desprestigiado. Podemos não responder imediatamente nem diretamente, mas, lá
dentro do coração, criamos a raiva ou o aborrecimento. Tudo ocorre num nível
inconsciente, que nem chegamos a perceber. Estes sentimentos são explícitos ou
não; aparecem ou não exteriormente.
Conceitos ilusórios
Quando buscamos por algo que a sociedade
estabelece como um grande valor e não conseguimos obter, nos sentimos
desprezados ou humilhados. O prestígio é o valor que nós determinamos ou
adotamos porque outros assim determinaram. Os conceitos podem ser ilusórios. No
entanto, a humilhação é um valor, assim como o prestígio também é um valor. Na
verdade, a conquista e a perda não passam de ilusões.
O que é real é o que fica na alma.
A pessoa que guarda ira e humilhação dentro
de si, não apenas prejudica sua vida emocionalmente como também, quando
transmigra para uma outra vida, não leva o corpo de hoje nem a memória
consciente, mas leva seus sentimentos. Ou seja: leva para uma outra vida ódio,
humilhação, mágoas, tristezas etc.
Tudo o que se leu e compreendeu nessa vida
não é mais lembrado quando se acorda como outra pessoa, em outra vida posterior.
Apenas levamos conosco as nossas CAPACIDADES. Podemos ter lido muito nessa vida.
No entanto, levaremos para a próxima vida uma grande capacidade para a leitura,
mas não nos lembraremos daquilo que estudamos anteriormente.
Do mesmo modo, uma pessoa que se sentiu
humilhada e desprestigiada nessa vida não se lembrará da humilhação e do
desprestígio que sofreu, porém algo restará dentro dela que a levará a ter um
temperamento infeliz e revoltado.
Isso é o que o Taoísmo chama de
“semente”.
No fim da encarnação, a consciência e a vida
se separam. Essa semente fica; levamos conosco para outra vida a natureza do
sentimento que resta como personalidade.
Sementes
Cármicas
Antes de virmos para essa vida, nascemos com
um monte de sementes transmigratórias que trouxemos de outras vidas. Nascemos
com mil apegos, vícios, frustrações, costumes, hábitos, mil loucuras, mil
felicidades, mil desejos e, quando chega à hora da morte, esta grande
aglomeração de memória que se chama “alma humana” se transforma em sementes
cármicas.
Conforme a criança cresce, desenvolve o
contato sensorial do corpo, as alterações emocionais e, assim, a direção de sua
consciência muda. A energia oscila desordenadamente, ora para um lado ora para
outro, num estado de dualização. A personalidade torna-se mais complexa e
múltipla, gradativamente virão à tona as outras personalidades, aquelas que já
existiam mas ainda permaneciam como “sementes”. Novos hábitos do cotidiano vão
irrigando, como água jogada nessas sementes, os carmas que, por sua vez, se não
nos mantivermos atentos, crescerão e frutificarão.
Como normalmente as pessoas criam carmas e
vícios muito rapidamente, além de terem consigo as sementes ressuscitadas como
uma floresta dentro de si – e cada árvore dessa floresta já traz novas sementes
–, outras arvorezinhas brotam e um mundo de valores vãos é criado e nutrido. No
momento da morte, carregam-se muitas dessas sementes adiante. Quanto maior a
quantidade de sementes, maior a complexidade e o número de situações difíceis na
vida.
Um realizador do Tao deveria ter grande força
de vontade para se libertar dos apegos aos laços mundanos. Essa é a força que
ele tem de conhecer, encontrar dentro de si mesmo. Ao mesmo tempo, o taoísta tem
de ter um coração totalmente feminino, repleto de afetividade, receptividade e
humildade, para poder abranger todas as coisas. O ser humano pode conviver com a
fama e com a perda da fama, com a fortuna e com a perda da fortuna, com o poder
e com a ausência do poder, sem se tornar prisioneiro dos sentimentos e dos
conceitos de que essas situações são permeadas. Na verdade, a força a ser
invocada, a ser cultivada, é a de dominar a si próprio com a força de vontade
para transcender as coisas que prendem o homem aos caminhos da transmigração e
aos mundos que o limitam.
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