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Carlos Cardoso Aveline
O TAO DA PAZ SOCIAL
Quem olha para o cenário político brasileiro percebe que a seriedade, a ética e a coerência são cada vez mais necessárias.
É como se a luz do dia estivesse chegando. O jeito desonesto de fazer política passa por um longo momento de autodestruição. Uma sucessão de crises abre espaço silenciosamente para mudanças bem mais amplas e profundas do que uma mera troca de nomes pessoais, ou de siglas partidárias.
É verdade que ainda não faltam manobras políticas sujas, governantes corruptos, partidos políticos sem idéias e candidatos teleguiados por gurus de propaganda e institutos de pesquisa. Mas esta é apenas a casca externa do processo. Cada eleição é, de fato, uma oportunidade para que o país mude sua visão da realidade e encontre um modo mais adequado de resolver os seus problemas. Por outro lado, a grande transformação não é eleitoral. Ela ocorre dentro da almas brasileiras e só mais tarde se reflete na vida social e política.
Em meio a esta transição para algo novo e desconhecido, pode ser especialmente oportuno o estudo de uma obra suavemente misteriosa, escrita na China há mais de 2000 anos.
O "Wen-tzu" é uma escritura do taoísmo filosófico. A obra contém ensinamentos de Lao-tzu, e transmite ao leitor uma sabedoria milenar que é útil para resolver os males atuais da civilização.
Com o subtítulo "A Compreensão dos Mistérios", o "Wen-tzu" foi escrito meio século antes da era cristã, mas sua tradução para o inglês só apareceu nos Estados Unidos em 1991. Tive a satisfação de traduzi-lo para o português, e o livro foi lançado em 2002 pela editora Teosófica. A obra mostra com clareza impressionante a proposta eterna e cíclica de uma sociedade ideal. Mas ela revela também como funcionam os mecanismos da decadência e da destruição social.
Qual é, então, a idéia central da obra?
O taoísmo pode ser definido como uma forma de mergulho no que é autêntico e natural. Para esta religião-filosofia, o Tao ou Caminho é o princípio supremo do equilíbrio e da harmonia, que está presente em todas as coisas. Usando uma linguagem sutil e simbólica, o "Wen-tzu" rejeita a astúcia e a manipulação:
"Uma orquídea não perde sua fragrância só pelo fato de ninguém cheirá-la, um barco não afunda só porque não há ninguém dentro dele; e uma pessoa não deixa de praticar o Caminho apenas porque ninguém tem consciência disso: a orquídea, o barco e a pessoa exemplar são assim por natureza (1)".
Ao ler este trecho pela primeira vez, pude ver a diferença moral entre uma orquídea e um hipócrita. A orquídea é sempre a mesma, esteja ou não sendo observada – mas o hipócrita só é ético enquanto há alguém a observá-lo.
Essa idéia, porém, dá lugar a algumas perguntas: "Quem são os hipócritas? Serão sempre os outros? Nós nunca erramos?" Esse trecho do "Wen-tzu" pode ser surpreendentemente incômodo, quando o aplicamos a nós mesmos. Ele nos convida a refletir sobre o nosso grau de autenticidade. Até que ponto fazemos a coisa certa, mesmo quando não há alguém olhando e ninguém sabe do que fazemos? Será que exageramos nossa boa conduta na frente dos outros? Por acaso perdemos parte do nosso entusiasmo pela ética e pela virtude, quando estamos sozinhos e sabemos que não haverá aplausos? Este não é um apenas um dilema que cada um de nós enfrenta. Ele também é vivido, em escala maior, pelos políticos profissionais.
É claro que o êxito de curto prazo dos líderes depende especialmente da imagem e da aparência das coisas. Isso empurra os políticos de visão curta para aquela "filosofia" segundo a qual "em política não há fatos, só há versões".
Os que se consideram espertos trocam a realidade pela aparência. Eles buscam muito mais parecer honestos e eficazes do que ser, de fato, uma coisa ou outra. Quando opta pela astúcia, o político profissional renuncia à inteligência espiritual e abandona as propostas e idéias claras. Ele evita comprometer-se, adota uma ambigüidade capaz de sugerir vários significados diferentes, e dá a entender uma coisa para cada interlocutor.
Um pensamento atribuído a um líder político deste tipo diz o seguinte:
"Em política é melhor não falar; se você falar, é bom não dizer; se disser, é bom não escrever; se escrever, é bom não assinar; se assinar, assine com a mão errada".
O líder adequado é aquele que tem algo útil a dizer a todos os setores, porque capta a situação de conjunto e sabe onde a comunidade inteira deve avançar. Ele tem uma visão universal e não precisa ser ambíguo ou dizer uma coisa para cada pessoa, na tentativa fragmentária de agradar a todos.
Para evitar a prática da hipocrisia e da propaganda mentirosa na vida pública brasileira, é preciso que os cidadãos abram espaço para um novo tipo de liderança baseada em uma visão integral, e afastem os políticos contorcionistas e sem espinha dorsal. Porém, não é possível exigir dos políticos, na vida pública, algo que nós não fazemos, como cidadãos, na vida privada. Cada um deve começar a reforma por si. O espaço público de um país revela – de modo ostensivo e em grande escala * aquilo que a média das pessoas costuma fazer de modo discreto em pequena escala. Quando na vida cotidiana as pessoas dizem pequenas mentiras umas para as outras, os políticos dizem mentiras em escala muito maior, dirigidas à população toda.
Há uma relação inevitável e essencial entre o espaço público e o espaço privado. Por isso só um ser humano justo poderá construir uma sociedade solidária. O "Wen-tzu" ensina que quem é capaz de governar com sabedoria a sua própria vida é capaz, também, de liderar um povo. Mas quem não governa bem a si mesmo não pode liderar corretamente uma cidade, uma família ou uma nação. Temos de aprender a viver com sabedoria para construir melhores estruturas de relacionamento em sindicatos, câmaras de vereadores, igrejas, associações de moradores e partidos políticos. E também nos grupos familiares.
De modo geral, é preciso admitir que cada povo tem não só o governo, mas também a classe política e a legislação que merece. O mérito cármico de cada povo se reflete nas condições em que ele vive. Neste contexto, as leis são contratos coletivos que dão uma estrutura à vida do povo e determinam, em grande parte, o seu grau de felicidade. Leis incoerentes, aprovadas por motivos demagógicos, assim como leis que não são aplicadas ou que não valem igualmente para todos, causam grande confusão e sofrimento. O mesmo ocorre com as leis demasiado duras, porque não são respeitadas e levam ao caos. O "Wen-tzu" ensina:
"As leis das sociedades recentes colocam suas medidas no alto e punem aqueles que não podem viver de acordo com elas; as leis tornam as responsabilidades pesadas e castigam aqueles que não podem suportá-las; tornam as dificuldades perigosas e castigam aqueles que não ousam confrontá-las. Quando as pessoas ficam sobrecarregadas (...), elas fazem uma demonstração de esperteza para enganar seus governantes; as pessoas se tornam falsas e atuam de modo perigoso. Neste caso nem mesmo leis severas e castigos rigorosos podem evitar que as pessoas sejam traiçoeiras".(2)
O "Wen-tzu" afirma no capítulo 10 que "as leis rígidas e as punições rigorosas não são obras de grandes líderes: bater excessivamente no cavalo não é a maneira de chegar a uma longa distância". Em outro trecho, a obra adverte:
"A lei não desce do céu, e tampouco emerge da terra; ela é criada através da auto-reflexão e da auto-correção humanas. (...) Se você tem algo em você mesmo, não o negue para os outros; se você não o tem em si mesmo, não lance a culpa sobre a condição social. O que está estabelecido para os escalões inferiores não deve ser ignorado nos escalões superiores; o que é proibido para o povo não deve ser praticado por indivíduos privilegiados. Por isso, quando os líderes humanitários estabelecem leis, primeiro eles devem aplicá-las a si mesmos para testá-las e comprová-las. Assim, se uma regulamentação funciona para os próprios governantes, ela pode ser aplicada à população". (3)
Infelizmente, algumas leis brasileiras induzem o cidadão à ilegalidade, e as conseqüências disso são graves. Vejamos quatro exemplos tirados do dia-a-dia:
1)Os limites de velocidade, no trânsito, são freqüentemente irreais. Em certas estradas, se você insistir em andar dentro do limite máximo de velocidade, correrá um sério risco de acidente, já que a velocidade média dos carros é imensamente maior do que o permitido por lei. O resultado é o alto índice de acidentes no trânsito.
2)A carga de impostos é exagerada, o que acaba produzindo altas taxas de sonegação. A sonegação, por sua vez, provoca impostos maiores. O "Wen-tzu" lembra que a alternativa é ter uma elite responsável: "Os líderes iluminados dos tempos antigos limitavam o que retiravam dos seus súditos e eram moderados em sua própria vida. (...) Calculando os estoques das pessoas, eles só cobravam impostos depois de saber se havia lucro ou prejuízo. (...) A compaixão deles pelas pessoas era tanta que não tomavam comida para si mesmos se havia qualquer fome no país" (capítulo 152). Mas, no Brasil, o luxo da classe política é geralmente anti-ético. Para não falar na corrupção propriamente dita.
3)Os procedimentos burocráticos desnecessários e absurdos exigidos das empresas, inclusive na área da contabilidade, tornam difícil o seu cumprimento.
4)Os processos judiciais implicam uma grande perda de tempo e demoram às vezes mais de uma década para chegar a uma decisão final.
O excesso de leis e regulamentações, somado ao fato de que elas são muitas vezes distantes da realidade e destituídas de bom senso, acaba empurrando o povo para a mentira e a ilegalidade. Quando há desprezo pela lei, os políticos corruptos se multiplicam no poder legislativo. Em conseqüência, as leis ficam ainda mais inadequadas.
O "Wen-tzu" destaca a necessidade de que as leis de um país sejam planejadas de modo que estimulem um comportamento adequado por parte do povo: "Abra um caminho para que eles possam ser bons, e os indivíduos se voltarão para a direção correta". (4)
Vejamos o que significa este princípio básico, por exemplo, no caso concreto da segurança pública. Abrir caminho para que os seres humanos sejam bons significa garantir casa, comida, educação e oportunidades profissionais para as crianças e jovens do país. Feito isso, não haverá violência urbana no Brasil.
É verdade que, hoje, os órgãos policiais precisam ganhar eficiência para enfrentar e vencer o mal que já não pode ser evitado preventivamente. Mesmo assim, ainda é possível abrir espaço para a recuperação humana de milhares de pessoas que erraram. Basta organizar cursos de reabilitação e de formação profissional dos presos no sistema penitenciário. Hoje o sistema penitenciário brasileiro parece ser mais parte do problema do que da solução.
O dirigente que tem um respeito profundo por si mesmo também respeita o povo. Ele possui uma visão de longo prazo, não abandona a ética nem a decência e por isso consegue criar uma situação social luminosa e saudável:
"Quando os líderes da humanidade pensam, os seus espíritos não se agitam em seus peitos, seu conhecimento não é exibido aos quatro cantos, mas eles abraçam o coração da benevolência. (...) Ele alimentam bem o povo: a autoridade não é exigente, o sistema legal não é complicado, a educação é espiritual. As leis são amplas, as punições são leves, as prisões ficam vazias."
E ainda: "Os sábios (...) procuram ter poucas coisas, e assim ficam satisfeitos; são benevolentes sem esforço, inspiram confiança sem falar". (5)
No capítulo 136, o "Wen-tzu" avança mais na descrição de um povo feliz:
"Uma ordem social clara e calma se caracteriza por harmonia e tranqüilidade, franqueza e simplicidade, serenidade e ausência de agitação. As pessoas estão internamente unidas com o Caminho, externamente harmonizadas com a justiça, a fala é breve e lógica, a ação é sensível e movida pelo contentamento. Os corações são pacíficos e verdadeiros, as obras são simples e sem adornos. Não há estratagemas no início e não há debate no final. Imóveis quando calmas, ativas quando estimuladas, as pessoas formam uma continuidade com o céu e a terra."
E o capítulo 137 amplia a idéia:
"Em uma sociedade bem organizada os empregos são fáceis de manter, o trabalho é fácil de fazer, as boas maneiras são fáceis de colocar em prática, as dívidas são fáceis de pagar. Por isso as pessoas não têm mais de um cargo simultaneamente, e os cargos não são ocupados por mais de uma pessoa ao mesmo tempo."
O "Wen-tzu" ensina o guerreiro sábio e o dirigente eficaz a se identificarem com a água:
"Nada no mundo é mais suave do que a água. O caminho da água é infinitamente largo e incalculavelmente profundo; ele se estende indefinidamente e flui ilimitadamente longe. (...) Bata nela, e ela não fica prejudicada; perfure-a, e não fica ferida; atravesse-a com uma faca, e ela não é cortada; queime-a, e ela não faz fumaça. Suave e fluida, não pode ser dispersada. Ela é suficientemente penetrante para perfurar metais e pedras, suficientemente forte para submergir todo o mundo. (...) A razão pela qual a água pode corporificar essa virtude suprema é que ela é suave e escorregadia. Por isso eu digo que o que é mais suave no mundo dirige aquilo que é mais duro no mundo (...). O que não tem forma é o grande ancestral dos seres, o que não tem som é a grande fonte das espécies."
Esta é também uma maneira sábia pela qual o cidadão pode orientar sua vida individual. Para o "Wen-tzu", a autenticidade produz a paz:
"A prática da virtude não é agressiva; o seu uso não é forçado. Você não vê a virtude quando a olha, e não a ouve quando tenta escutá-la. Ela não tem forma, mas as formas nascem dela. Ela não tem som, porém todos os sons são produzidos nela...". (6)
No Brasil como em todas as partes, a democracia nasce do respeito e da tolerância mútuos, que parecem vazios e não ocupam espaço.
Quem sabe ceder, sabe ganhar. O bom dirigente é aquele que pensa nos outros. Ele avança usando firmeza e flexibilidade no meio dos extremos da vida:
"O Caminho dos sábios é ser magnânimo porém severo, rigoroso mas solidário, amável porém correto, agressivo mas humanitário. O que é muito duro quebra, e o que é excessivamente brando se dobra: o Caminho está exatamente no meio entre a dureza e a suavidade". (7)
Notas.
(1) "Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios, Ensinamentos de Lao-tzu", tradução do chinês de Thomas Cleary, Editora Teosófica, Brasília, maio de 2002, 198pp. Veja a p. 98.
(2) "Wen-tzu", pp. 150-151.
(3) "Wen-tzu", obra citada, p. 176.
(4) "Wen-tzu", capítulo 53, p. 69.
(5) "Wen-tzu", capítulo 19, pp. 44-45.
(6) "Wen-tzu", capítulo 7, p. 31.
(7) "Wen-tzu", capítulo 153, p. 165.
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