|
Os
registros históricos nos informam que Pitágoras nasceu em uma próspera família
de mercadores, por volta de 570 a.C., na ilha grega de Samos. De acordo com a
tradição, a pitonisa do oráculo de Delfos profetizou aos seus pais que o filho
por eles esperado seria um homem de inteligência incomum que traria grandes
benefícios à humanidade. Por isso, nomearam-no Pitágoras, “o anunciado em Pytho”,
antigo nome da cidade de Delfos.
O jovem Pitágoras foi
discípulo de Hermondanas de Samos e Ferécides de Siros. Corre a lenda que, mais
tarde, fez diversas viagens em busca de conhecimento: na cidade grega de
Mileto, estudou com Tales e assistiu às conferências de Anaximandro; na
Babilônia conheceu Zaratustra; e no Egito, onde viveu por quinze anos, foi
discípulo do sacerdote Sonchi, iniciou-se em mistérios e aprendeu grande parte
dos fundamentos de sua doutrina.
Por fim, Pitágoras retornou à sua ilha natal, Samos, e ali fundou uma
escola, chamada "o semicírculo". Porém, suas lições não agradavam a
Polícrates, tirano de Samos, e o sábio exilou-se em Crótona, no sul da Itália,
onde tentou concretizar suas idéias filosóficas, morais, religiosas e
políticas, fundando a Escola Pitagórica.
Com o tempo, os pensamentos de Pitágoras vieram a exercer uma enorme
influência, que se irradiou do sul da Itália até a florescente cidade de Roma.
Pitágoras tinha 70 anos quando uma guerra irrompeu entre Crótona e a vizinha
Síbaris. Apesar de Crótona ter saído vitoriosa, a guerra fez com que a Escola
Pitagórica fosse fechada. Depois da guerra, os líderes de Crótona decidiram
distribuir entre os cidadãos comuns as terras pertencentes à elite de Síbaris.
A maioria dos alunos de Pitágoras vinha dessas famílias aristocráticas, e o
filósofo não teve outro recurso senão fugir, buscando refúgio em Metaponto,
onde parece ter morrido por volta de 480 a.C. Os boatos que cercam sua morte
atribuem-na à idade avançada, a uma doença, a um jejum de quarenta dias e até
mesmo a um assassinato. Não se sabe qual hipótese é a verdadeira.
Embora a Escola Pitagórica tenha sido destruída, seus membros logo
fundaram outros centros de pensamento filosófico e religioso. Mesmo duzentos
anos após a morte de Pitágoras, suas idéias circulavam por todo o mundo grego.
Em seguida, a importância de seus ensinamentos sofreu certo declínio, mas teve
um novo florescimento no primeiro século da Era Cristã.
Em Crótona, a
Escola Pitagórica era de natureza ascética e totalmente dedicada ao estudo da
filosofia, da política e da ciência. Os pitagóricos entregavam suas vidas nas mãos
do mestre. A escola era regida por leis muito severas, e a admissão à fraternidade
exigia obediência irrestrita às regras e, acima de tudo, sigilo. Candidatos a
membros do grupo tinham de passar, antes, por um período experimental de três
anos, seguido por outro de cinco anos em que não lhes era permitido nem avistar
o mestre nem falar com ele, que se mantinha oculto por trás de uma cortina. Ele
exigia que cada aluno dedicasse uma parte de sua vida a obras públicas, e o
resto aos trabalhos ligados à escola. A crença de Pitágoras nas doutrinas
órficas pode explicar a rígida disciplina defendida pelos pitagóricos, que a
consideravam vital para a manutenção da ordem e lhe atribuíam mais valor que à
iniciativa pessoal e à liberdade.
A irmandade
dos pitagóricos incluía, na verdade, diversas escolas, nas quais cerca de
seiscentos discípulos dedicavam suas vidas à criação de uma comunidade
filosófico-científica. Os membros dessa comunidade pertenciam, em geral, à
aristocracia e à classe média abastada. Os pitagóricos reconheciam-se uns aos
outros pelas vestes, e por alguns sinais, especialmente o pentágono, símbolo de
sua escola. Cada um deles fazia o juramento de manter sigilo sobre os trabalhos
a que se dedicava.
A comunidade
pitagórica não tinha um programa político específico, mas os esforços de Pitágoras
produziram algumas mudanças em Crótona. Por exemplo, ele tentou reformar a educação
das crianças, assim como integrar mais as mulheres à sociedade. Seu objetivo
mais importante, contudo, foi mudar o caráter do governo local, que de democracia
passou a uma teocracia - ou seja, um governo baseado na religião. Ele formulou
leis para outras cidades do sul da Itália e estabeleceu uma aristocracia com
membros recrutados entre a elite. Na sua opinião, o Estado perfeito teria de se
basear na ética, na religião e no conhecimento.
Apesar das
regras extremamente rígidas de sua escola, os ensinamentos de Pitágoras
representaram um grande avanço para o pensamento de sua época. É a ele que
devemos, por exemplo o próprio conceito de "filosofia", que em grego
significa "amor pela sabedoria", pois julgava que a verdadeira sabedoria
só era acessível aos deuses. Daí talvez provenha a idéia de ser o próprio Pitágoras
um deus, como diziam alguns de seus discípulos.
Da astronomia
à física e à matemática, todas as obras de Pitágoras, assim como de seus
alunos, se baseavam na idéia de que a natureza da matéria pode ser compreendida
através de números e medidas. Acreditavam que as relações entre quaisquer
coisas poderiam ser descritas matematicamente. Seu objetivo - unificar as leis
básicas do universo através da matemática pura, independentemente da experiência
concreta - era revolucionário em sua época. Este princípio foi aplicado por eles
a vários campos da ciência, influenciou muito o pensamento de Platão. Pode-se
até dizer que todo o racionalismo moderno tem as suas raízes nas idéias de
Pitágoras.
Tendo feito
contribuições decisivas para ciência, Pitágoras também era influenciado por
noções místicas sobre o poder de certos números. Hoje em dia estes dois lados
do filósofo podem parecer contraditórios, mas em seus ensinamentos não havia
conflitos entre a matemática pura e a numerologia mística. Deste modo, ele se
situa no ponto de interseção exato em que se cruzam o pensamento mágico e o
racional.
Fontes:
Balthazar, Jean et al (redatores). Os últimos mistérios do mundo. Rio de
Janeiro: Reader’s Digest, 2003.
|