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Bem no fundo da
rica história política americana permanece oculto e enterrado o nome de William
Wirt. No entanto, em 1832, quando ele concorreu para a presidência dos Estados
Unidos, sua votação foi considerável. Dos 24 estados então existentes, venceu
em Vermont e teve 8 por cento dos 1.262.755 votos do total nacional. Ele
concorreu como candidato do Partido Antimaçônico. Hoje em dia, é claro, o grupo
fraternal e de serviços conhecido como Maçons Livres e Aceitos é um esteio
seguro da estrutura social do mundo desenvolvido. Apenas nos Estados Unidos,
cerca de 16 mil lojas recebem vários milhões de membros maçons e os principais
cidadãos de muitas cidades consideram um privilégio fazer parte de uma loja. De
certo modo, porém - na observância de rituais ocultos, na profusão de símbolos
e títulos honoríficos e na linguagem cerimonial altissonante -, a ordem
maçônica continua a ser a sociedade secreta que sempre foi, por incontáveis séculos.
Mas no tempo de William Wirt os hábitos dos maçons faziam com que eles fossem
objeto de amplos temores e suspeitas.
Todo o sucesso
eleitoral de Wirt deveu-se principalmente a uma figura ainda mais obscura do
que ele: um homem chamado William Morgan, que teve um destino estranho em 1826,
na pequena cidade de Batávia, no norte do estado de Nova York. Morgan era
casado, tinha 52 anos de idade e era um artesão sem terra que vagava de um
lugar para outro. Em suas viagens, descobriu alguns dos segredos cuidadosamente
guardados dos maçons, um golpe que deixou nervosos os membros das lojas locais.
Avisos sobre Morgan espalharam-se rapidamente por toda a área. A seguinte nota
apareceu em um jornal da cidade vizinha de Canadaigua, em Nova York, no dia 9
de agosto de 1826: “Se um homem chamado William Morgan intrometer-se na
comunidade, é preciso cuidado, particularmente para a FRATERNIDADE MAÇÔNICA.
Morgan esteve nesta aldeia em maio passado e sua conduta enquanto esteve aqui e
em outros lugares exige esta nota (...) Morgan é considerado um vigarista e um
homem perigoso. Há pessoas nesta aldeia que ficariam felizes em ver esse
capitão Morgan”.
Morgan, cujo
título militar autoproclamado era tão duvidoso quanto suas intenções acerca dos
maçons, concebera um plano para transformar seus conhecimentos especiais em
lucro. Contratou com o editor do jornal Advocate, de Batávia, um certo coronel
David C. Miller, a publicação de um livro expondo as maquinações da maçonaria.
O otimista Morgan estimava que o volume pudesse render-lhe 2 milhões de dólares,
na época, uma soma estupenda.
Não havia muitos
motivos para os maçons de Batávia ficarem tão incomodados com o esquema de
Morgan; livros semelhantes, produzidos na Europa, há muito podiam ser
encontrados nos Estados Unidos. Mesmo assim, os membros da loja local - que
incluía cinco juízes, o xerife, seis médicos e o governador da aldeia sentiram-se
impelidos a agir. Alguns fizeram com que Morgan fosse preso por uma dívida
inexistente de 2 dólares e 68 centavos. Na noite seguinte, quatro maçons foram
até a cadeia, pagaram a falsa dívida de Morgan, jogaram-no em uma carruagem
fechada e partiram às pressas. Morgan nunca mais foi visto em Batávia. Pessoalmente
uma figura patética, Morgan assumiu proporções heróicas depois de desaparecer.
Seu sócio, Miller, encontrou um modo de tornar o livro uma sensação: imprimiu
50 mil panfletos anunciando com destaque o rapto e possível assassinato de
Morgan e pedindo informações. Na circular, não aparecia a palavra "maçom",
mas todos sabiam quem ficara irritado com Morgan. Era de conhecimento público
também que os maçons ameaçavam com terríveis castigos os que divulgassem suas
práticas. Assim, começou a reação. Na pequena cidade de Pavillion, a cerca de
19 quilômetros de Batávia, um importante ministro batista denunciou a maçonaria
como "obscura, infrutífera, desmoralizante,
blasfema, homicida, anti-republicana e anticristã - contrária à glória de Deus
e ao bem da humanidade". Os boatos eram numerosos: a garganta de Morgan
fora cortada; ele havia sido empurrado nas cataratas do Niágara; tivera sua
língua arrancada; fora enterrado nas areias do lago Ontário. Uma versão
encantadoramente engenhosa afirmava que
os maçons inclinaram uma árvore, colocaram Morgan no buraco deixado pelas
raízes e depois recolocaram a árvore em seu lugar, para esmagá-lo. Isso foi apenas
o começo. Depois que o governador de Nova York, DeWitt Clinton, que também era
maçom, convocou uma sucessão de grandes júris para determinar as circunstâncias
do desaparecimento de Morgan, os inimigos da maçonaria, que há muito estavam em
silêncio, surgiram por toda parte, furiosos. Em todo o nordeste e meio-oeste, onde
o caso Morgan tivera publicidade, os maçons foram colocados no ostracismo.
Ministros e professores maçons eram intimados a deixar a ordem, sob pena de perderem
os empregos. Maçons foram rejeitados como jurados e eram insultados nas ruas. O
caso Morgan abrira um reservatório de hostilidade popular contra as seitas
secretas em geral e contra os maçons em particular. Figuras políticas que haviam
abraçado a maçonaria, entre elas o destacado senador Henry Clay, de Kentucky, passaram
a julgar prudente romper seus laços com a organização. O ex-presidente John
Quincy Adams declarou que "a maçonaria deveria ser abolida para sempre.
Ela é errada, essencialmente errada - uma semente de mal que nunca poderá
produzir qualquer bem. A existência de uma ordem como essa é uma nódoa na moral
de qualquer comunidade".
Nada, além de
rapto, foi provado contra os que sumiram com Morgan de Batávia; é provável que
tenham simplesmente levado ele para o Canadá, com uma bela soma para mantê-lo quieto.
Mas a questão do bem-estar de Morgan quase foi deixada de lado em meio ao
clamor popular. A afiliação na ordem despencou e dúzias de lojas suspenderam
suas atividades. Apesar de tudo, havia membros teimosos, como Daniel B. Taylor,
bastião da loja de Stony Creek, no estado de Michigan, que literalmente manteve
a chama da maçonaria acesa em sua hora mais negra. "Nas noites de
loja", escreveu o cronista dos maçons do estado, James Fairbairn Smith,
"assim que a diligência chegava trazendo o correio, ele ia apanhar seu
jornal e dirigia-se para a sala da loja. Lá chegando, acendia uma vela junto à
janela e sentava-se para ler. Se não viesse mais ninguém, o irmão Taylor
esperava a hora habitual de 'fechar a loja', e então apagava a vela, trancava a
porta e ia para casa”.
Durante a década
de 1840 a controvérsia foi morrendo aos poucos e nunca mais voltou com tal
virulência, mas um rastro de hostilidade acompanhou a seita na Inglaterra desde
seus primeiros dias, quando se achava que era uma ameaça para a Igreja e para a
coroa. Ao longo dos séculos os maçons têm sido acusados - por aqueles que vêem
maquinações por trás de cada acontecimento ou tendência mundial - como
parcialmente responsáveis pela Revolução Francesa, pela ascensão tanto do fascismo
quanto do comunismo e até mesmo pelas brutais proezas de Jack o Estripador em
Londres. Ao mesmo tempo, quando a loja local se transforma em um traço familiar
e confortável da paisagem cívica, em geral os abalos da desconfiança
desaparecem lentamente. Na União Soviética, quem diria, um professor chamado
Valery Nikolaevich Emelyanov emitiu um alerta terrível em uma conferência
patrocinada pelo Partido Comunista, em 1974. Falou de uma conspiração de
sionistas e maçons para apoderar-se do mundo no ano 2000. A "pirâmide judaico-maçônica",
explicou ele, aludindo astutamente a um conhecido símbolo maçônico, controlava
"80 por cento da economia nos países capitalistas e de 90 a 95 por cento
dos meios de informação".
O objeto de tanta
temerosa precaução tinha suas origens em uma espécie de sindicato de pedreiros
da Inglaterra medieval. O termo "maçom livre" já aparece nos
registros da cidade de Londres em 1375. Referia-se a pedreiros que tinham permissão
para viajar pelo país, numa época em que o sistema feudal mantinha a maioria
dos camponeses presa à terra. Ao contrário dos membros de outros ofícios -
ferreiros e curtidores, por exemplo -, os pedreiros reuniam-se em grandes
grupos para trabalhar em projetos majestosos e gloriosos, mudando-se ao
terminar um castelo ou uma catedral para o próximo edifício. Para proteção,
educação e ajuda mútuas, os maçons uniam-se em uma loja local - um edifício
erguido no canteiro de obras, onde os trabalhadores se alimentavam e descansavam.
Com o passar do tempo, a palavra "loja" passou a significar um grupo
de pedreiros estabelecido em um determinado lugar. Em um livro de 1983, o
jornalista americano George Johnson explicou a popularidade dessas equipes. “Os
pedreiros dos séculos XIV e XV eram tanto arquitetos quanto trabalhadores
braçais. Para os não-iniciados, seu trabalho parecia sagrado. Desde o antigo
Egito, os grandes edifícios de pedra eram monumentos ao poder, que celebravam a
magia dos sacerdotes e o direito divino dos reis. Para os estranhos, homens
armados de cinzel, de compassos, réguas, níveis e esquadros faziam os templos
crescerem no solo”.
Para simplificar,
os pedreiros tinham trabalhos exclusivos e atraentes, estavam cônscios de seu
privilégio especial e muito zelosos acerca dele. Em uma época sem patentes nem
direitos de autor, eles guardavam zelosamente os segredos e padrões de seus
ofícios. Para proteger a integridade desses segredos, bem como o próprio
prestígio, era necessário garantir que todos aqueles que afirmassem conhecer as
artes da construção houvessem sido, de fato, treinados adequadamente. A
preocupação era legítima, posto que os pedreiros andantes medievais
encontravam-se com freqüência entre estranhos, que às vezes afirmavam
falsamente serem praticantes do ofício, em uma tentativa de arrancar segredos.
Para afastar esses impostores, os pedreiros construíram um corpo cada vez maior
de palavras e frases em código, sinais de reconhecimento e apertos de mão
secretos. Faziam certas perguntas de um certo modo especial, e a resposta
correta atestava que o recém-chegado estava qualificado para o trabalho.
No século XVII,
com o crescimento do número e do prestígio dos pedreiros, algumas lojas
começaram a admitir membros honorários, que não eram pedreiros. A Companhia dos
Pedreiros de Londres fundou a Acepção, uma organização paralela com esse
propósito específico, em 1619. Ela admitia como "pedreiros aceitos"
homens que não pertenciam à companhia, mas que estavam dispostos a pagar
dobrado pela taxa de iniciação. Então, em 1717, quatro lojas em Londres criaram
um organismo de supervisão chamado de grande loja, cujas reuniões anuais
atraíam considerável atenção, organizando um movimento em rápido crescimento. Começara
a transformação histórica da maçonaria, de uma simples guilda de ofício em uma
poderosa organização social.
É claro que os
maçons não escancararam as portas de suas lojas para qualquer um. Descobriram
que podiam atrair a nata da sociedade progressista londrina: membros do clero e
das classes superiores, filósofos e príncipes livre-pensadores. Por que
aristocratas e intelectuais queriam fazer parte de uma guilda de ofício não
está claro, mas o caráter secreto da maçonaria, em si mesmo, parece ter sido
muito atraente. Muitos candidatos à iniciação esperavam aprender os antigos
mistérios e a sabedoria oculta que se achava que os maçons possuíam. Além
disso, havia um crescente interesse por arquitetura e por antiguidades entre os
amadores abastados. Qualquer que fosse o motivo, entre 1737 e 1907 um total de
dezesseis príncipes passou pelos elaborados rituais de iniciação como maçons.
Quatro deles tornaram-se reis. Paradoxalmente, a mensagem maçônica que tanto
atraía os membros das fileiras privilegiadas era de fraternidade universal - o
valor de cada homem, independentemente de sua condição social.
O primeiro Livro
de Constituições maçônico foi redigido por um ministro da Igreja da Escócia, o Dr.
James Anderson, e publicado na Inglaterra em 1723. O Constituições foi impresso
pela primeira vez nos Estados Unidos em 1734 por um grão-mestre maçom, um certo
Benjamin Franklin, de Filadélfia. O histórico documento declarava ousadamente
que, na atmosfera de camaradagem da loja, os que pertenciam a religiões diferentes
deveriam ser capazes de associar-se e discutir novas idéias. "Embora nos Tempos
antigos os Maçons assumissem cada religião do País ou Nação, fosse qual
fosse", explicava o Constituições, "hoje é considerado mais oportuno
apenas obrigá-los àquela religião em que todos os Homens concordam, deixando
suas Opiniões particulares para si mesmos; isto é, serem Homens bons e fiéis,
ou Homens de Honra e Honestidade, qualquer que seja a Denominação ou Persuasão
que os distinga”.
Tolerância e
espírito aberto: estas eram noções poderosas, em uma era tão estratificada. "Em
última instância, talvez", escreveu o historiador J. M. Roberts em 1975,
"a maior importância social dos maçons tenha sido o fato de proporcionar
um alívio em relação à trivialidade, estreiteza e rigidez da vida do século
XVIII”.Mas a sociabilidade não era o único apelo para o público em geral. Os
aristocratas não estavam sozinhos em sua sede de encontrar o sentido esotérico
da vida. Pessoas de condição inferior também eram atraídas pela idéia de que os
maçons, com seu aparato de costumes místicos e códigos secretos, haviam de
algum modo herdado a sabedoria oculta dos tempos passados.
Os próprios
maçons criaram, adornaram e foram cativados pela crença de que um saber
especial fora transmitido a eles através dos séculos. Uma lenda romântica dizia
até que Adão fora o primeiro maçom, e que o avental maçônico, traço marcante do
costume tradicional da seita, representava a folha de parreira. Outros
precursores propostos por diligentes "pesquisadores" maçônicos eram
apenas ligeiramente menos fantasiosos, e remontavam a linhagem da ordem aos
construtores das pirâmides do Egito, passavam deles para antigos cultos gregos
tais como os pitagóricos e eleusínios e finalmente atravessavam um desfile de
cultos esotéricos medievais: gnósticos, cátaros, templários e rosa-cruzes.
Quando os maçons
exploravam esses laços, reais ou imaginários, com grupos ocultos do passado
distante, isso fazia parte de uma busca mais ampla da verdade. O final do
século XVII e o século XVIII assistiram ao florescimento do Iluminismo, a radiosa
época em que o dogma religioso inquestionável foi eclipsado pela crença na
razão e na perfectibilidade humanas. Os triunfos dessa crença eram incontáveis:
as descobertas científicas de Issac Newton e, depois, de Benjamin Franklin, do
químico Antoine Lavoisier e do astrônomo William Herschel; a filosofia de John
Locke e de Immanuel Kant; a inspirada irreverência de Voltaire; a sublime música
de Mozart. (Franklin, Voltaire e Mozart eram maçons. A última ópera de Mozart,
A Flauta Mágica, é uma alegoria da iluminação espiritual que os iniciados
encontram na maçonaria.) Lojas maçônicas progressistas e livre-pensadores
tiveram um papel importante na disseminação das novas idéias pela Europa e
pelas Américas.
Naqueles tempos
instáveis, quando novos conhecimentos pareciam, às vezes, apenas fazer realçar
quanto ainda se ignorava, havia os que procuravam respostas fora das
disciplinas racionais comuns. Como sempre, o misticismo tinha seus adeptos. O filósofo
David Hume, em seu livro A História Natural da Religião, de 1757, explicava o
apelo do oculto em uma sociedade que, em alguns aspectos, perdera alegremente
seus antiqüíssimos rumos. "Estamos colocados neste mundo, como em um
grande teatro, onde as fontes e causas de todo evento estão inteiramente
ocultas de nós", escreveu Hume. "Não temos nem a sabedoria suficiente
para prever, nem o poder de evitar, os males que constantemente nos ameaçam.
Pairamos em perpétua oscilação entre a vida e a morte, a saúde e a doença, a
abundância e a carência, que são distribuídas entre os humanos por razões
desconhecidas e secretas, cujo obrar é amiúde inesperado, e sempre
inexplicável. Essas razões desconhecidas, então, tornam-se objeto constante de
nossas esperanças e temores; e enquanto as paixões são mantidas em perpétuo
alarme pela ansiosa expectativa dos eventos, a imaginação é igualmente
empregada para formar idéias desses poderes, dos quais temos uma dependência
tão completa”.
Mais do que qualquer
outra das sociedades secretas que floresceram na Europa do Iluminismo, a dos
maçons dedicava-se a "formar idéias desses poderes". Em todo o Continente, o ofício - tal como veio a
ser conhecido - deixou raízes. Por volta do fim da década de 1730, havia lojas
na Bélgica, na Rússia, na Itália, na Alemanha e na Suíça. No entanto, a seita
parecia ter um apelo especial na França, em parte devido ao furor que então
causavam todas as coisas inglesas nesse país. Em 1735 havia cinco lojas
maçônicas em Paris; em 1742, a organização possuía 22 lojas. Cerca de 45 anos
depois, às vésperas da Revolução Francesa, havia talvez 100 mil maçons na
França.
Nenhuma revolta
avassaladora contra a ordem estabelecida ameaçava a Inglaterra, onde a
maçonaria continuava prosperando de maneira ordenada e polida. Mas as paixões
que varreram a França por todo o século XVIII transformaram a estrutura simples
da organização. Em sua constituição original, como uma guilda de ofício
medieval, os maçons exigiam um curso de sete anos de instrução e aprendizagem
para os iniciados antes de conceder-lhes a condição de membros plenos do
ofício. Entre os membros de pleno direito, o mais respeitado era o mestre
maçom, o encarregado do projeto de construção. Três estágios, que correspondiam
mais ou menos a aprendiz, membro e mestre, continuavam existindo no modelo da
maçonaria inglesa do século XVII, permitindo que os membros progredissem
através de três "graus" de crescente prestígio na loja. Na França,
porém, os graus brotaram como flores do campo. Em pouco tempo, os membros
referiam-se uns aos outros como comandante do triângulo luminoso, doutor do
fogo sagrado, e mestre sublime do anel luminoso. Não havia duas lojas que
seguissem o mesmo ritual. Em algumas cidades, contra todos os preceitos maçônicos
de desconsideração pelas classes, havia duas lojas: uma para os nobres, e outra
para os burgueses e artesãos de menor importância.
A proliferação de
graus barrocos, combinada a uma busca cada vez mais febril de ligações com
cultos antigos, começou a preocupar os soberanos de terras como a França e a
Bavária, onde a todo-poderosa Igreja Católica Romana almejava à vassalagem
exclusiva de seus súditos. A constituição inglesa original da ordem advertia
que um membro não deveria "nunca envolver-se em Complôs e Conspirações
contra a Paz e o Bem-Estar da nação". Mas a base da maçonaria, escreveu o
historiador moderno americano James H. Billington, era uma "meritocracia
moral implicitamente subversiva em qualquer sociedade baseada em uma
hierarquia tradicional". Não é difícil imaginar o alarme da igreja. A
maçonaria vinha desenvolvendo com rapidez seus próprios rituais, histórias e
lendas, além de sua própria hierarquia, tal como a religião organizada.
Somente o
grão-mestre - o exaltado líder da grande loja de uma nação - podia aceder à
petição que permitia a abertura de uma nova loja. O mestre proposto e os
membros da nova loja eram então apresentados ao grão-mestre, que declarava
diante dos peticionários reunidos que a loja estava devidamente constituída.
Depois da posse do mestre da nova loja, este recebia a constituição, o livro da
loja e a jóia do cargo. O mestre, então, escolhia os dois curadores, seus
oficiais subordinados.
No início do
século XVIII, segundo os registros, as reuniões da loja costumavam ser
realizadas em uma sala particular de uma hospedaria ou taverna, com os membros
sentados em torno de uma longa mesa sobre cavaletes. Grande parte do tempo era
dedicada a questões administrativas, mas o ponto alto era - e é ainda - a
iniciação de novos membros ou a concessão de graus ou ordens mais elevadas para
os membros existentes. Esse espetáculo, durante o qual se realizavam os rituais
elaborados e simbólicos da maçonaria, hoje em dia é apresentado em uma sala da
loja especialmente decorada.
Antes de uma
iniciação, um diálogo cerimonial invariável ocorre entre o mestre e os vários
oficiais da loja. Enquanto isso, em uma ante.sala, um homem chamado de telheiro
- tyler em inglês - está com a espada desembainhada, de guarda contra intrusões
de estranhos. Seu título em inglês deriva da ortografia arcaica de telheiro,
profissional que faz o telhado ou fabrica telhas, sendo portanto um membro
provável da antiga guilda de ofício dos pedreiros - construtores. O telheiro
retira o casaco e a gravata do candidato e solicita-lhe que se despoje de todo
dinheiro e objetos de metal. Isso é feito, diz-se ao candidato, para que, caso
ele encontre um companheiro maçom "em situação aflitiva", se lembre
de que foi recebido na ordem "pobre e sem um tostão" e aja com a
compaixão apropriada. A perna esquerda das calças do candidato é enrolada até
acima do joelho, o peito esquerdo é exposto e seu sapato direito é tirado e
substituído por um chinelo: no jargão maçônico, ele está
"achinelado". Só os iniciados sabem com certeza qual é o sentido
destas três últimas alterações no vestuário do candidato. No entanto, alguns
historiadores maçônicos sugerem que elas têm origem na Companhia de Jesus, da
Igreja Católica e simbolizam, respectivamente, o voto de pobreza, a prova de
que o iniciando não é uma mulher e um lembrete de como o fundador da ordem dos
jesuítas, Inácio de Loiola, que tinha um pé defeituoso, começou sua
peregrinação para catequizar os pagãos.
Depois que as
roupas do candidato estão adequadamente desarrumadas, o telheiro o venda “encobre",
em termos maçônicos - para demonstrar seu "estado de trevas". Uma
corda com um laço de correr, ou de reboque, é colocada em volta da garganta dele.
O candidato, que nessa altura já está bastante rebaixado, é levado até a porta
da sala principal, onde se confronta com o guarda interior - um oficial que
barra sua passagem colocando-lhe contra o peito a ponta de uma adaga. Depois de
alguns instantes de tensão o candidato - ainda vendado - é levado à câmara para
deparar-se com o mestre e os demais membros da loja. O noviço deve responder
com precisão a uma série de perguntas rituais feitas a ele pelo mestre.
Ajoelhado diante dele, o candidato jura não "revelar, escrever, ditar,
marcar, gravar ou de qualquer outro modo delinear qualquer parte dos segredos
da maçonaria". Se faltar com sua palavra, o candidato concorda em
"ter minha garganta cortada, minha língua arrancada pela raiz e enterrada
na areia do mar na marca da maré baixa".
Depois de feito o
juramento, o mestre ordena que a venda e o laço sejam removidos e explica o
significado dos testes pelos quais o candidato acabou de passar. Revela então
ao iniciando o passo, o sinal e o aperto de mão secretos de um aprendiz maçom
admitido. Tal como é revelado em diversas descrições do ritual maçônico os
gestos são, respectivamente: um passo curto com o pé esquerdo, trazendo o
calcanhar direito para debaixo do seu arco; a mão passada rapidamente sobre a garganta;
a pressão do polegar sobre o nó do dedo indicador de outro maçom ao apertar as
mãos. Finalmente, é dita a senha secreta: "Boaz", que quer dizer
"com força".
Cada novo
aprendiz admitido recebe um conjunto de ferramentas que evocam as origens da
sociedade como grupo de trabalhadores, mas que, segundo se diz, representam
também certas virtudes ou idéias significativas. Recebe um martelo, que simboliza
a força da consciência; um cinzel, que representa as vantagens da educação; e
uma régua de 24 polegadas, pelas 24 horas do dia. Após um período de estudos,
o aprendiz pode tornar-se um maçom do segundo grau, ou companheiro de ofício. Nessa
altura, ele recebe um esquadro (representando a moralidade), um nível
(representando a igualdade) e um prumo (símbolo da retidão). Os maçons de
terceiro grau, chamados de mestres, recebem uma colher de pedreiro que
simboliza o amor fraternal; a pá é usada para cimentar os tijolos individuais
que, na simbologia maçônica, representam os indivíduos humanos. Na tradição do
ofício, o progresso do maçom em direção a uma posição mais nobre é comparado a
seu progresso na construção de um templo. A metáfora é simples - atributos
pessoais mais elevados equivalem a maiores habilidades como construtor.
Para a Igreja
Católica Romana do século XVIII, tudo isso parecia-se demais com uma religião
rival, e sua reação foi o ataque, sem vacilações. Em 1738, o papa Clemente XII
emitiu a primeira de uma série de denúncias papais da maçonaria, ordenando a
excomunhão de todos os católicos que fossem iniciados no ofício. O Vaticano
denunciou o juramento de segredo da maçonaria como ameaça à santidade da
confissão e à autoridade da Igreja. Opôs-se à associação íntima entre homens de
fés deferentes e citou "outros motivos justos e razoáveis" para sua
tomada de posição. Por toda a Europa, as autoridades seculares aplacaram as sanções
da Igreja, castigando e torturando maçons. Os destinos do ofício oscilavam
segundo quem estivesse no poder, mas a maçonaria chegara ao ponto em que não
podia ser destruída. Seus adeptos eram numerosos e influentes demais.
Além disso, com
certeza, a perseguição não era novidade para os maçons. Mesmo antes da primeira
bula papal, os maçons ingleses foram muitas vezes acusados de estar em liga com
o Anticristo. "Por que deveriam eles reunir-se em locais secretos e com
sinais secretos, para que ninguém os observasse fazendo a obra de Deus",
inquiria um panfletista, "não são esses os modos do mal?" Ataques
parecidos sugeriam que as reuniões das lojas não passavam de um disfarce para
experiências de alquimia, que todos sabiam ser obra do demônio. Após a fundação
oficial da grande loja de Londres em 1717, as denúncias contra a organização
foram publicadas com regularidade. Muitos afirmavam que as reuniões das lojas
eram orgias homossexuais, com sodomia e flagelação. A exclusão das mulheres do
ofício fez com que este fosse um tema recorrente.
A política, bem
como a indignação moral, inflamavam às vezes os sentimentos antimaçônicos. Em
1735, as reuniões das lojas holandesas foram proibidas, pois temia-se que os irmãos
estivessem secretamente envolvidos em fatos políticos nefandos. Proibições
semelhantes seguiram-se na Suécia em 1738 e na Suíça em 1745. A imperatriz da
Áustria fechou lojas em seu país, inclusive uma da qual seu marido era
grão-mestre. Portanto, as pressões contra a maçonaria não tiveram origem no
papa Clemente XII, nem eram domínio exclusivo da Igreja. Apesar disso, o
desprazer do pontífice elevou o tom, colocando o mais poderoso corpo religioso
do mundo oficialmente em conflito com a seita.
Os maçons
reagiram dedicando-se com mais afinco ainda à gloriosa história dos supostos
ancestrais da seita. Estudiosos maçons estavam continuamente
"descobrindo" laços que podem ter existido ou não com indivíduos e
grupos que, por sua vez, podem ou não ter existido. Uma dessas estirpes, que
teve ampla aceitação entre os maçons, remontava a Hiram Abiff, uma figura
bíblica menor.
Segundo a lenda
maçônica, quando o rei Salomão ascendeu ao trono de Davi, dedicou a vida à
construção de um templo para Deus e um palácio para os reis de Israel. Salomão
contratou com o rei Hiram, de Tiro, cidade situada ao norte da antiga Israel,
um exército de pedreiros e carpinteiros para ajudar os judeus a construírem o
templo. Hiram de Tiro enviou os trabalhadores, chefiados pelo grão-mestre dos arquitetos
dionisíacos, Hiram Abiff. Descrito como o trabalhador mais sagaz, hábil e
inquisitivo que jamais viveu, Abiff comandava 183.600 artesãos, supervisores e
trabalhadores. Usava um sistema de sinais e senhas mediante o qual qualquer
capataz podia rapidamente avaliar a capacidade de um trabalhador.
Três artesãos
ousados de um grau inferior decidiram forçar Abiff a revelar a senha secreta do
grau de mestre. Sabendo que ele sempre ia ao sanctum inacabado para rezar,
ficaram à espera dele, um em cada entrada principal do templo. Hiram começou a
sair pela porta sul e deparou-se com um homem que brandia um graminho de 24
polegadas. O mestre construtor negou-se a revelar a palavra secreta, e por isso
foi golpeado na garganta. Dirigiu-se para a porta oeste e foi atingido por um
esquadro no peito. Finalmente, ele foi cambaleando até a porta leste, e caiu morto
golpeado pelo terceiro trabalhador, armado de um malho. Os assassinos
enterraram Abiff em uma cova feita às pressas e os que mais tarde encontraram o
corpo plantaram uma acácia no local. Na tradição maçônica, Abiff é considerado
o maior mártir da seita, e seu destino trágico costuma ser relatado para que
ninguém esqueça. a seriedade dos votos maçônicos de segredo.
Entre os muitos
maçons que homenagearam Abiff esteve Rudyard Kipling, que também propôs um modo
alternativo de se escrever o nome do construtor, em seu poema "Noite de
Banquete": "Leve este recado a Hiram Abif/ Mestre excelente da mina e
da forja: / Eu e os Irmãos gostaríamos/ Que ele e os Irmãos viessem jantar”.
Os maçons
desenvolveram uma afeição - e uma afinidade - semelhante por Pitágoras, o
filósofo e matemático grego do século VI a.C., que ensinava que os números
refletiam a harmonia do universo. Seus discípulos viviam juntos, desenvolvendo
uma sociedade baseada no estudo de geometria, astronomia, aritmética e música.
Após cinco anos de aprendizado, os membros do chamado círculo externo eram
iniciados no círculo interno, onde descobriam as doutrinas místicas baseadas
nas relações entre os números.
Pitágoras fez
mais do que procurar por uma base numérica para o universo. Ele e seus
discípulos ascenderam a posições de poder em várias cidades gregas, e tentaram
aplicar suas crenças idealistas no governo. No entanto, os cidadãos acabaram
rebelando-se e matando os reis-filósofos.
Com o tempo,
começou a parecer que qualquer figura ou movimento da história que demonstrasse
ter pretensão à virtude estava de algum modo ligado aos maçons. Em 1738 - no momento
em que a ameaça papal contra os maçons estava sendo anunciada - o homem designado
orador da grande loja da França, Andrew Michael Ramsay, fez um discurso
notável, que foi imediatamente traduzido para o inglês como "Apologia dos Maçons
Livres e Aceitos". Para dizer a verdade, Ramsay começou meio na defensiva,
observando que o propósito da organização era "tornar os homens amáveis,
bons cidadãos, bons súditos, invioláveis em suas promessas, fiéis adoradores do
amor de Deus, amantes da virtude antes da recompensa".
Tendo feito esse esclarecimento
tranqüilizador, Ramsay prosseguiu dizendo que os maçons não eram nada menos que
os descendentes espirituais dos Cavaleiros Templários, o bando de cavaleiros
franceses da Idade Média que protegia os peregrinos que viajavam para a Terra
Santa ou dela voltavam, durante as Cruzadas. A idéia de Ramsay era que os
cruzados eram maçons, além de templários, e que as palavras secretas da
maçonaria tinham origem nas senhas dos acampamentos militares. Afirmou que, no
final das Cruzadas, diversas lojas maçônicas haviam sido abertas no continente
europeu. O príncipe Eduardo, filho do rei inglês Henrique IIII, supostamente
apiedou-se dos exércitos cristãos vencidos na Palestina após a última Cruzada e
trouxe-os de volta à Inglaterra no século XIII. Segundo Ramsay o príncipe, que
mais tarde reinou como Eduardo I, fundou em seu país natal uma colônia de
irmãos que se rebatizaram como maçons livres.
Tal genealogia
tinha por força que ser atraente para os franceses e, em menor medida, para os
ingleses. Alguns, porém, consideraram-na um tanto bizarra demais e conceberam roteiro
ligeiramente diferente. Propuseram que, embora os maçons já existissem de fato
no tempo das Cruzadas, haviam entrado em contato com os Cavaleiros Templários
ao construir suas fortalezas, hospitais, monastérios e igrejas. Desse modo, as
qualidades caridosas e galantes dos templários foram transmitidas aos maçons.
Outros ramos e
variações maçônicas cresceram luxuriantemente no solo fértil do Iluminismo. Um
dos desvios mais fascinantes da corrente principal foi o rito egípcio, fundado
por um certo conde Cagliostro. Visto por muitos historiadores como um charlatão
- Thomas Carlyle ridicularizou-o como o "Príncipe dos Curandeiros" -
o conde é tratado por outros como uma figura importante na história do
hipnotismo, das curas paranormais, da precognição, do espiritismo e da
alquimia. Apareceu em Londres, em 1776, um jovem de 28 anos e passado
misterioso, desfrutando a vida nababesca de um nobre. Sua esposa, a bela
Lorenza Feliciani, mostrava-se invariavelmente vestida com as melhores roupas e
jóias; o próprio Cagliostro, embora fosse um tanto robusto e tivesse nariz de
batata, era tremendamente carismático. Instalou-se com Lorenza em um elegante
apartamento, declarou-se alquimista consumado e imediatamente conquistou um círculo
de admiradores.
Um ano depois de
chegar a Londres, Cagliostro foi iniciado na ordem maçônica. Logo depois, após
ter absorvido muitas das tradições maçônicas e ter vislumbrado seu potencial,
foi para o continente e começou a promover uma loja egípcia na qual ele próprio
assumiu o trono como grande Copta. Os detratores gostavam de parodiar esse
título como "grande cofre", refletindo a reputação de Cagliostro em
alguns círculos como vigarista. Apesar disso, a variedade particularmente
mágica de maçonaria do conde tinha seus atrativos. Ele abriu lojas na Holanda,
na Alemanha e até na distante S. Petersburgo. Em Varsóvia, demonstrou suas
técnicas de alquimia para o rei da Polônia. Em Estrasburgo, ouviu-se contar que
o grande Cagliostro havia curado 15 mil pessoas em três anos.
A história
pessoal do conde foi objeto de algumas discussões. Alguns achavam que ele era
italiano, outros espanhol, polaco, árabe. Uns poucos cínicos diziam que ele era
um escroque pé-de-chinelo siciliano chamado Giuseppe Salsamo. Quando lhe
perguntavam de onde era, Cagliostro simplesmente ria e dizia que nascera no mar
Vermelho e fora criado à sombra das pirâmides. A fonte de sua riqueza tampouco
era clara. Tinha se casado com uma rica herdeira mexicana, diziam alguns;
outros afirmavam que ele assassinara um príncipe asiático pelo dinheiro. Sua
própria explicação, dada diante do Parlamento francês, foi esta: "Que
diferença faz se sou filho de um mendigo ou de um rei, ou por quais meios
obtenho o dinheiro que quero, enquanto eu respeitar a religião e as leis e
pagar a todos o que lhes cabe? Para mim foi sempre um prazer negar-me a
satisfazer a curiosidade pública a esse respeito. Mesmo assim, condescenderei
em dizer-vos o que nunca revelei a ninguém antes. O principal recurso de que me
posso vangloriar é que, assim que ponho os pés em qualquer país, encontro nele
um banqueiro que me fornece tudo o que quero". Cagliostro deu uma resposta
completa, mas não explicou nada.
Da maneira que era
professado, o rito egípcio tinha fortes influências da cabala judaica, que
acreditava que Moisés ensinara um saber especial a uma antiga elite, na mesma
época em que o Antigo Testamento estava sendo escrito para as massas. Os
cabalistas sustentavam que a Palavra de Deus gerara o cosmo, e que os dez
algarismos e as 22 letras do alfabeto hebraico eram os elementos de que o mundo
é feito. De fato, certas palavras - tais como Jeová - eram tão poderosas que
não poderiam jamais ser pronunciadas. Cagliostro, promovendo a idéia de que
certas palavras tinham significados e poderes ocultos, dizia a seus seguidores
que o rito egípcio podia regenerá-los física e moralmente, até guiá-los,
finalmente, para a perfeição.
Tanto homens como
mulheres eram admitidos nas lojas do conde, prática altamente irregular na
maçonaria. Certas cerimônias eram ligeiramente diferentes para cada sexo. Ao
receber as mulheres, por exemplo, o grande Copta respirava no rosto delas e
anunciava: "Respiro sobre ti este alento para fazer com que germine em ti
e cresça em teu coração a verdade que possuímos”.Relatos de outras cerimônias
de Cagliostro dão conta de que ele atirava uma espada para os céus e suplicava
aos arcanjos que intercedessem por ele junto a Deus. Também se dizia que, após
certo ritos de purificação, ele hipnotizava uma criança que então tinha visões
e anunciava profecias. Com freqüência, Cagliostro dizia aos que o ouviam que
possuía uma pedra filosofal curativa e que concordaria em vender pedacinhos
dela. O desaparecimento do conde é mais uma charada, mas muitos historiadores
acreditam que ele tenha morrido em uma prisão italiana, para onde fora enviado
ao tentar abrir uma loja do rito egípcio em Roma.
Outro grupo
secreto com algumas aproximações com a Maçonaria é a Ordem dos Illuminati.
Fundada por Adam Weishaupt foi associada a inúmeras conspirações de cunho
político e religioso. Como Weishaupt muitas vezes recrutava os membros de sua
ordem entre os maçons, foi comum a associação entre as duas organizações
secretas, como por exemplo na reação à queda da monarquia francesa. Em solo
americano a teoria de uma conspiração mundial de illuminati e maçons repercute
até a atualidade.
O que
praticamente desapareceu foi o tipo de fervor antimaçônico que infestou a
república americana em seus primórdios. Recentemente, o número de afiliados
diminuiu um pouco, e as autoridades maçônicas manifestaram inquietação com a possibilidade
de que a organização decaia se não for capaz de satisfazer as necessidades dos
jovens, que em geral parecem menos interessados em juntar-se a organizações
fraternais. No entanto, os tempos de maior perigo para a irmandade parecem
estar distantes no passado. A maçonaria de hoje conserva sua aura instigante de
exoticismo, e há muito se livrou da bagagem de blasfêmia e subversão que seus
membros precisavam carregar. Os maçons maus e sedentos de poder continuaram
existindo apenas nos setores mais recônditos da imaginação dos teóricos da conspiração.
Para a maioria das pessoas, a maçonaria é uma ordem benigna tão sóbria quanto
os rotarianos, o Lions Club, ou inúmeros grupos cívicos ou de assistência social
semelhantes.
É claro que os
maçons, fiéis a sua veneranda herança de ligações com o oculto, são mais
inclinados a toda a panóplia de mistérios e títulos altissonantes do que a
maior parte dos grupos cívicos ou sociais comuns. O velho modelo inglês da
maçonaria. com seus três graus de associação, existe ainda, e muitos maçons
param no terceiro grau, o de mestre. Outros, porém, passam por uma cerimônia
chamada de arco real, que os introduz a todo um espectro de graus mais
elevados. O Rito Antigo e Aceito da Maçonaria é um sistema de 33 graus que
oferece títulos como mestre perfeito, príncipe de Jerusalém, grão-pontífice,
chefe do tabernáculo, comandante do templo, grão-cavaleiro kadosh eleito,
grão-inspetor inquisidor comandante e sublime príncipe do segredo real. E o
Rito Antigo e Aceito é apenas um de uma cadeia escalonada de ordens e ritos.
Há também
inúmeras organizações sociais que encontram seus membros entre os maçons sem
serem de fato ligadas a eles. Nos Estados Unidos, a mais conhecida dessas
organizações é a Antiga Ordem Árabe dos Nobres do Santuário Místico - mais
conhecidos como shriners, do inglês shrine, "santuário" - que admite
apenas maçons que tenham alcançado o 32º grau. Memoráveis para muitos por
desfilarem em vestimentas exóticas em suas convenções, os shriners têm também
um propósito sério: ao longo dos anos, levantaram milhões de dólares para a
caridade. Grupos semelhantes relacionados aos maçons, que se dedicam às boas
obras, incluem a ordem Mística dos Profetas Velados do Reino Encantado e os
Altos Cedros do Líbano. Parentes do sexo feminino dos mestres maçons podem
ingressar na Ordem da Estrela do Oriente; os rapazes, na ordem de DeMolay e na
Ordem dos Construtores; e as moças na ordem das Filhas de Jó e na Ordem do Arco-íris.
Em sua maioria, porém, esses clubes desfrutam do favor maçônico apenas nos
Estados Unidos. Os maçons ingleses, que aparentemente desconfiam da frivolidade
dos clubes sociais, podem suspender seus membros por juntar-se a tais
sociedades.
Seja meramente
pelos contatos sociais, ou pela gratificante iluminação da alma, há séculos a
maçonaria vem atraindo figuras legendárias da história, tanto heróis como vilões.
Com efeito, um livro de 1967, intitulado Dez Mil Maçons Famosos, ocupa quatro
volumes com biografias resumidas. Assim como Mozart, os grandes compositores
Franz Liszt e Franz Joseph Haydn eram maçons. Entre os maçons que se destacaram
nas letras estão Johann Wolfgang Goethe, Alexander Pope, Sir Walter Scott,
Robert Burns, Rudyard Kipling, Oscar Wilde e Mark Twain. Uma legião de presidentes
americanos além de reis e príncipes ingleses pertenceram à irmandade. O
primeiro-ministro inglês Winston Churchill era afiliado à ordem. Também o eram,
diz-se, o mentor da Revolução Russa, Lênin, e Mohammad Reza Pahlevi, xá do Irã.
Benedict Arnold também foi, bem como proeminentes militares americanos: Sam
Houston, John J. Pershing e Douglas MacArthur estavam entre eles. Os maçons na
aviação vão de Charles Lindbergh a inúmeros astronautas americanos. Os
empresários da irmandade têm em sua fileiras John Jacob Astor e Henry Ford.
Joseph Smith, fundador dos mórmons, era maçom, e dizem que alguns dos rituais secretos
do mormonismo mostram influência dos ritos maçônicos. Ao longo dos anos, as
figuras de proeminência que pertencem à maçonaria vêm sem dúvida servindo de
amortecedor para a intolerância dirigida contra ela.
Uma espécie de
marco da aceitação da maçonaria aconteceu em 1965, quando o Vaticano revelou
discretamente que os católicos romanos não mais seriam excomungados por juntar-se
à organização nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Assim foi posta de lado uma
proibição que começara 230 anos antes, e fora reafirmada por sete papas em
dezesseis pronunciamentos. Foi durante a histórica reunião do Segundo Concílio
Vaticano, em meados da década de 60 - o mesmo conclave que decidiu permitir a
celebração da missa em outras línguas além do latim - que a Igreja começou a
mover-se no sentido de reavaliar sua posição acerca da maçonaria. O Vaticano
continuou proibindo a associação à ordem na Itália, na França e em outros
países que aderiram à forma de loja européia chamada de grande oriente. Esse
sistema, dizem, continua sendo anticatólico e ateu. Mas o significado da
mudança da Igreja foi claro - na verdade, foi notícia de primeira página. O
mais antigo, mais feroz e mais implacável opositor da maçonaria havia
finalmente abrandado sua posição.
Apesar disso, um
legado corroído de má vontade subsiste um pouco por toda parte e pode não
desaparecer jamais. Na Espanha de hoje, por exemplo, há os que se lembram bem
da perseguição contra os maçons depois que o ditador Francisco Franco tomou o
poder em meados da década de 30. Franco dirigiu sua ira contra os muitos
legisladores, intelectuais e militares destacados que haviam sido iniciados nas
lojas durante a república liberal que o precedeu. Uma lei para a repressão da
maçonaria e do comunismo foi posta em ação com rapidez, e um tribunal foi
formado especialmente para julgar maçons. "Houve centenas de execuções de
maçons e os que podiam fugiram para o exterior e tiveram suas propriedades aqui
confiscadas", recorda o advogado madrilenho Francisco Epinar Lafuente. “Franco
de fato acreditava na conspiração maçônica e os franquistas atacam-nos até hoje
como nos velhos tempos”. Só no final dos anos 70 caiu a proibição de afiliação
à ordem, e mesmo então o grão-mestre da irmandade, Jaime Fernández Gil de
Terradillos, sentiu.se compelido a declarar que "Não somos uma sociedade
secreta, mas discreta”.
Na Itália, a
descoberta em 1981 de uma loja maçônica espúria chamada P-2 provocou o colapso
do governo - o que não foi lá uma ocorrência muito fora do comum na Itália do pós-guerra.
Magistrados e uma comissão parlamentar especial descobriram que a P-2, chefiada
por um misterioso financista chamado Licio Gelli, era o centro disfarçado de um
quadro de influentes políticos, homens de negócio e militares que conspiravam
sobre tudo, desde trapaças financeiras até golpes de estado. Na loja, Licio
Gelli tinha o título de Il Venerabile, o venerável.
O escândalo
forçou uma reorganização dos serviços secretos italianos e arruinou as
carreiras de dezenas de servidores públicos e políticos. Gelli fugiu do país,
mas foi apreendido na Suíça e extraditado para Roma em fevereiro de 1988. Entre
as muitas perguntas urgentes que as autoridades italianas queriam colocar para
o ex-maçom estava a que indagava do destino dado a um bilhão de dólares pilhados
de um banco italiano em 1982. "A P-2 era mais do que uma organização
política subversiva", disse o sociólogo Pino Arlacchi, da Universidade de
Florença. “Os documentos recolhidos pela comissão parlamentar demonstram que se
tratava de uma espécie de organização internacional de múltiplos propósitos que
influenciava tudo, desde a venda de armas até as compras de petróleo cru”.
Episódios
eventuais como esse da loja P-2 fornecem o combustível necessário para manter
em fogo baixo a campanha contra os maçons, em particular nos países católicos e
entre as pessoas que abraçam as correntes políticas reacionárias. Durante a
campanha presidencial francesa de 1988, o candidato da Frente Nacional, de
extrema direita, Jean.Marie Le Pen, não teve problemas para encher um centro de
convenções de 1.200 lugares em Amiens. Entre os que o ouviam havia um senhor de
69 anos, vestido com um alinhado terno de tweed, que declarou estar ali para
protestar contra o fato de a França ser "governada pelos maçons".
Tais resmungos,
contudo, são o preço que os maçons têm que pagar pelo privilégio da
exclusividade. Este caráter secreto e sigiloso tanto reforça a lealdade de seus
membros como provoca reações às mais diversas daqueles não incluídos em suas
fileiras. Entre os maçons, o interesse de grande parte dos de fora possivelmente
sempre irá assumir a forma de uma desconfiança irada, de uma curiosidade
grosseira acerca do que, exatamente, está acontecendo entre os muros
silenciosos da misteriosa loja.
Fontes:
Seitas
Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido.
Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992.
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