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Em 1776, mesmo
ano em que Cagliostro – curandeiro, fundador de um rito egípcio de Maçonaria -
se estabeleceu em Londres, um professor bávaro de direito chamado Adam
Weishaupt fundara uma organização filosófica de ambições sem paralelo. Chamada
de Ordem dos Illuminati, essa agremiação durou apenas cerca de dez anos antes
de ser proibida e erradicada pelo governo. Contudo, sua influência e
notoriedade subsistem até hoje, em parte devido à profunda associação que ela formou
com os maçons. O propósito declarado da Ordem dos Illuminati era
"estimular uma visão humana e sociável; inibir todos os impulsos viciosos;
apoiar a Virtude, onde quer que seja ameaçada ou oprimida pelo Vício; promover
o progresso das pessoas de mérito e espalhar os conhecimentos úteis entre as
numerosas pessoas que estão hoje privadas de toda educação". Os princípios
desse manifesto podem parecer tão inatacáveis quanto os das constituições
maçônicas de 1723. O que Weishaupt deixou de dizer, porém, era tão importante quanto
o que disse. Ele acreditava que os jesuítas que dominavam a Bavária eram
opressores, responsáveis pelas deploráveis condições do país e do povo, e que o
poder enraizado da Igreja devia ser desafiado e, com o tempo, substituído. O
que Weishaupt buscava, escreveu George Johnson, era um mundo "em que as
divisões de classe, religião e nação fossem superadas e todos os povos se
unissem em uma fraternidade universal. Tal como o filósofo francês Rousseau,
Weishaupt tinha visões de uma época em que a humanidade reconquistaria um
sentido natural de igualdade e felicidade, sem corromper-se com a religião organizada
e com as distinções de classe". Seu objetivo supremo, embora ele tenha
tido o cuidado de não o declarar, era uma revolução sem sangue que estabelecesse
o milênio na terra.
Por mais ingênuas
que fossem as metas de Weishaupt, ele tinha táticas astutas. Seus discípulos
recebiam um rigoroso programa de estudos, progredindo através de idéias cada
vez mais complexas, até conquistarem o título de areopagitas (membros da antiga
corte suprema de Atenas). Cuidando para que suas idéias não provocassem os
poderosos, Weishaupt erigiu um muro quase impenetrável de segredos em torno de
sua ordem: somente os areopagitas podiam saber que ele era o líder. Os
comunicados escritos entre os membros tinham que ser em código. Os líderes illuminati
e os locais de reunião das lojas recebiam nomes secretos tomados dos tempos
antigos. Os membros eram estimulados a espionarem-se e a fazer relatórios para
seus superiores.
A maçonaria, para
Weishaupt, oferecia um campo de recrutamento já pronto. Sabia o bastante sobre
os maçons para ter a certeza de que tais livre-pensadores seriam receptivos a
sua mensagem e acrescentou ao mapa organizacional dos illuminati várias fileiras
que permitiriam que os maçons se juntassem a eles. Da Bavária, os illuminati
difundiram-se com rapidez para a Áustria, Suíça, Boêmia, Itália e Hungria,
atraindo milhares de membros, muitos deles maçons. Então, em 1794, a grande
aventura de Weishaupt começou a azedar.
Um novo soberano
muito mais conservador, o duque Carlos Teodoro, tomou o poder na Bavária e
imediatamente emitiu um edito que proibia todas as sociedades sem autorização.
Um segundo edito, no ano seguinte, citou explicitamente os maçons e os illuminati
e isso foi o bastante para Weishaupt, que fugiu da capital, Munique, e procurou
refúgio em Regensburg. O colapso final ocorreu quando os homens do duque
atacaram a casa de um ex-membro dos illuminati e acharam diversos documentos
incriminatórios, inclusive cartas escritas com o código misterioso. Entre os
escritos confiscados havia alguns que, para a época, inclinavam a balança do
livre-pensamento perigosamente para o lado da ilegalidade e da imoralidade:
tratados em defesa do suicídio, descrições de experiências químicas, uma
revelação de que Weishaupt procurara um aborto para uma mulher que ele havia
engravidado. Os papéis foram publicados por uma comissão governamental, e a
lenda negra nasceu.
Os illuminati
tornaram-se a sensação da Europa. Até 1790, mais de cinqüenta obras sobre o
grupo haviam sido publicadas, detalhando esquemas diabólicos e as práticas
pagãs da ordem e, com freqüência, implicando nelas os maçons, para completar o
serviço. Diversos escritores especulavam que os illuminati não tinham se
dissolvido, mas apenas passado para a clandestinidade.
Quando o grande
levante de 1789 destronou a monarquia e a igreja na França, muitas pessoas,
assustadas com um mundo que lhes parecia estar escapando ao controle, procuraram
por um culpado. Os maçons e a Ordem dos Illuminati eram candidatos
convenientes, até lógicos. As pessoas não haviam deixado de notar que o símbolo
maçônico do triângulo aparecera nos emblemas de grupos revolucionários
franceses, nem que alguns destacados líderes da revolta, como Lafayette e o
duque de Orléans eram de fato maçons. O que não estava sendo levado em conta
era que, ao mesmo tempo em que alguns maçons assaltavam a Bastilha, outros
davam seu apoio à ordem estabelecida. Para alguns, a prova da cumplicidade
maçônica estava no sempre persuasivo conde Cagliostro. De sua cela em uma
prisão italiana, ele subitamente anunciou ter conhecimento de uma conspiração
mundial de illuminati e maçons. Isso parece ter sido uma tentativa desesperada
- e fracassada - do conde para obter clemência.
O que hoje em dia
se chama teoria da conspiração surgiu na avalanche de livros, folhetos e
artigos denunciando os illuminati e ligando-os a uma lista cada vez maior de
supostos conspiradores. O escopo das acusações reflete-se no título de um livro
contra os illuminati publicado em 1797: Provas de uma Conspiração contra Todas
as Religiões e Governos da Europa, Perpetrada em Reuniões Secretas de Maçons, Illuminati
e Sociedades de Leitura, Colhidas de Boa Fonte. O livro foi um sucesso de
vendas internacional e, trinta anos depois, quando os maçons foram implicados
no desaparecimento de William Morgan de Batávia, muitos americanos tiveram a
idéia de tirar um exemplar poeirento do Provas de uma Conspiração da prateleira
e folheá-lo de novo.
O pânico anti-illuminati
atingiu seu auge na virada do século XIX, e numerosas figuras políticas
americanas importantes, que por acaso também eram maçons, viram-se na Berlinda.
Quando um ministro luterano escreveu a George Washington expondo seus temores,
Washington respondeu que sabia dos "nefandos e perigosos planos e
doutrinas dos illuminati", mas que tinha a certeza de que a maçonaria
americana não estava envolvida. Thomas Jefferson leu Provas de uma Conspiração
e outros folhetos anti-illuminati, e não lhes deu importância. "Posto que
Weishaupt vivia sob a tirania de um déspota e dos sacerdotes, sabia que a
cautela era necessária até mesmo para difundir informações, e os princípios da
moralidade pura", escreveu Jefferson. “Isso deu a suas opiniões um ar de
mistério, e serviu de fundamento para que o banissem (...) e é o pretexto dos
delírios contra ele (...) Se Weishaupt houvesse escrito aqui, onde o segredo
não é necessário em nossos esforços para tornar os homens sábios e virtuosos,
ele não teria pensado em qualquer esquema secreto para tal propósito”.
Muitos americanos
pareciam fazer o mesmo raciocínio de Jefferson, e o espectro da aliança illuminati
- maçons nunca se agigantou tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes. Apesar
disso, desde então, o nome dos illuminati faz aparições ocasionais nas obras de
teóricos da conspiração da periferia política americana. Do mesmo modo que
alguns maçons queriam acreditar que eram os herdeiros espirituais dos cavaleiros
das Cruzadas, alguns americanos querem crer que a obra iniciada pelos illuminati
está sendo continuada pela Comissão Trilateral, pela diretoria do Banco Central
ou por humanistas seculares. George Johnson observou que Provas de uma Conspiração,
com 170 anos de idade, foi reimpresso em 1967 pela John Birch Society, que
aparentemente considerava os illuminati como um perigo claro e presente. De
acordo com um grupo alternativo, relata George Johnson, "o símbolo da
conspiração dos illuminati aparece nas costas da nota de um dólar: um olho que
tudo vê sobre uma pirâmide, zombando de nós com sua mensagem oculta a cada vez
que pagamos um dólar, em uma rede concebida para manter-nos nas trevas".
Para melhor
entendermos a força tanto do movimento illuminati quanto da reação a ele
contrária, referimo-nos aos estatutos dos illuminati bávaros, redigido em 1781,
em que os arquitetos dessa sociedade supersecreta prometiam ser "tão
clandestinos quanto possível, pois tudo o que é oculto e secreto tem uma
atração especial para os homens; atrai o interesse dos de fora e reforça a
lealdade dos de dentro".
Fontes:
Seitas
Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido.
Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992.
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