|
Fusão da religião grega com a
antiga religião do Egito, as crenças do hermeticismo estavam contidas em um corpo de textos conhecido como Corpus Hermeticum. Essa obra, de autor
desconhecido, recebeu esse nome devido ao personagem principal, Hermes
Trimegisto (Hermes, o Três Vezes Grande). Alguns ocultistas alegavam que o
autor era o próprio Trimegisto, um sábio egípcio que viveu no tempo dos faraós
e foi contemporâneo de Moisés. Outros o associaram ao deus grego Hermes, cujo
equivalente egípcio, Toth, era o escriba dos deuses e senhor dos livros
sagrados.
O Corpus Hermeticum é apresentado na forma de diálogos entre
Trimegisto, Toth e diversas outras deidades egípcias, inclusive Ísis. Os
estudiosos salientam que pouca coisa do texto é de fato original; na verdade,
grande parte da visão do mundo dos herméticos é baseada na filosofia de Platão.
Os herméticos viam o mundo em termos de luz e trevas, bem e mal, espírito e
matéria. Do mesmo modo que seus contemporâneos, os gnósticos, os praticantes pregavam
um dualismo mente-corpo, e a salvação através da possessão do conhecimento
verdadeiro e divino.
Da quantidade colossal de
obras escritas atribuídas a Hermes Trimegisto não foram muitas as que
sobreviveram, para além de quatorze breves textos escritos em grego e uma série
de fragmentos preservados por autores cristãos. Tais obras exprimem noções
místicas e filosóficas próprias desta época primitiva. A mais conhecida dentre
elas intitula-se Poimandres, o Bom
Pastor, da qual alguns passos apresentam uma semelhança notável com o Evangelho
de São João, enquanto que outros fazem lembrar o Timeu de Platão. Também
poderemos vislumbrar nelas reflexos do pensamento judaico, tal como é expresso
por Fílon. Além destes escritos, atribuem-se a Trimegisto alguns tratados de
magia, cujo tema fulcral é a astrologia e onde a alquimia é tratada de um modo
um tanto ou quanto vago.
Os livros herméticos foram
considerados pelos alquimistas como um legado que Hermes lhes fez dos segredos
que estavam dissimulados em alegorias, a fim de que a preciosa sabedoria não
fosse cair em mãos profanas. Somente os sábios eram capazes de se orientar
neste labirinto místico. O passo de Hermes mais freqüentemente citado, o credo
dos adeptos, era a inscrição descoberta numa placa de esmeralda ”nas mãos da
múmia de Hermes, num fosso recôndito, onde jazia o seu corpo enterrado”,situado
segundo a tradição, na grande pirâmide de Gizé. O documento tem o nome de
“Placa de Esmeralda” e está por demais intimamente relacionado com a alquimia
para não o reproduzirmos na íntegra:
“ É verdade, sem falsidade e
extremamente real: aquilo que está no alto é igual àquilo que está em baixo,
para perpetrar os milagres de uma coisa. E, como todas as coisas derivaram de
uma, pelo pensamento de uma, assim todas as coisas nascem desta coisa, por
adoção. O sol é o seu pai, a lua é a sua mãe. O vento trouxe-a no seu ventre, a
terra é a sua arma. Eis o pai de toda a perfeição do mundo. A sua força e poder
são absolutos quando transformados em terra: tu separarás a terra do fogo, o
sutil do grosseiro, suavemente e com cuidado. Ela ascende da terra até ao céu e
desce de novo à terra para receber o poder das coisas superiores e inferiores.
Por este meio, tu terás a glória do mundo. E, devido a isto, toda a obscuridade
fugirá de ti. No interior disto está o poder, o mais poderoso de todos os
poderes. Pois ela superará todas as coisas sutis e penetrará todas as coisas
sólidas. Assim foi criado o mundo. A partir disto existirão e surgirão
adaptações admiráveis cujos meios para atingi-las estão aqui. E, por esta
razão, chamo-me Hermes Trimegisto, possuindo as três partes da filosofia do
mundo. O que eu disse sobre as operações do sol já se realizou”.
Os alquimistas reconheciam
nestas alegorias as várias fases do processo de fabricação do ouro, ainda que a
ambiguidade dos termos se prestasse a infinitas interpretações.
Textos
de Hermes:
- A
Chave
- Um
Discurso da Mente para Hermes
- Poimandres
Fontes:
Seitas
Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido.
Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992.
Seligmann,
Kurt. História
da Magia. Lisboa:
Edições 70, 1948.
|