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Ao
mesmo tempo que estavam abraçando os cultos mediterrânicos dos mistérios, os
romanos tentavam esmagar uma seita pagã que grassava no extremo norte de seu
império. Nas florestas da Gália (atual França) e nas brumosas Ilhas Britânicas,
as tribos célticas veneravam um panteão de deuses rústicos e espíritos dos
bosques. Os sustentáculos dessas crenças eram os druidas. Estes parecem ter
desempenhado um papel abrangente na sociedade céltica. De acordo com as poucas
fontes literárias gregas e romanas que chegaram até nós, os druidas eram
sacerdotes e filósofos, educadores, árbitros e curandeiros. Eles não só
supervisionavam todas as observâncias rituais e religiosas, como também,
segundo Júlio César em seu Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a
Guerra Gálica), de 51 a.C., eles estudavam "as estrelas e seus
movimentos, o tamanho do universo e da terra, a natureza das coisas, o poder
dos deuses imortais". Como depositários dos conhecimentos culturais em
uma sociedade sem escrita, os druidas passavam a vida inteira memorizando as
leis e os épicos célticos. Seu poder político era pelo menos equivalente ao do
rei, que eles mesmos escolhiam entre os membros da família real, e a quem
aconselhavam em questões de estado e de guerra. Ocasionalmente, serviam como
comandantes nas batalhas embora por lei não fossem obrigados a prestar serviço
militar, nem a pagar impostos. Conheciam as ervas e plantas usadas para tratar
diversas doenças e praticavam numerosos métodos de adivinhação; dizia-se de um
druida irlandês chamado Fingen que ele era capaz de diagnosticar a doença de um
homem pela fumaça que saía da chaminé do enfermo. Relata-se que os druidas
também instruíam crianças sobre as tradições culturais e costumes da orem
druídica para que algum dia elas pudessem juntar-se à seita. Aparentemente, os
druidas eram recrutados entre os membros das classes superiores da sociedade
celta e passavam por três níveis, ou graus, de autoridade: vates, os que
praticavam a adivinhação; bardos, recitadores de poesia sagrada; e druidas,
encarregados das cerimônias rituais. Todos eles vieram a ser conhecidos; de
maneira geral, como druidas. Eles escolhiam um dia por semana para a
observância religiosa e presidiam quatro festivais sazonais por ano. Tal como
os seguidores de Mitra, os celtas comemoravam o solstício de inverno no dia 25
de dezembro; diz-se que os ritos de iniciação eram realizados durante essa
cerimônia e também nas que celebravam o solstício de verão e os equinócios de outono e de primavera. A grande comemoração
anual de Beltane, ou dia de Maio, celebrava a ressurreição do sol.
Realizavam-se banquetes rituais e faziam-se danças; e, segundo uma fonte, à
meia-noite, em um bosque sagrado iluminado por fogueiras, um iniciando
recriava a morte e o renascimento simbólicos de Hu, o deus do sol dos druidas.
Segundo Plínio, o Velho, os momentos de certas cerimônias
druídicas eram determinados pela rara aparição de visco crescendo no tronco de
um carvalho. Um druida vestido com um manto branco escalava a árvore e, com
uma foice de ouro, libertava a planta parasítica, na qual se acreditava estar
o espírito do carvalho, uma árvore sagrada. Seguia-se um grande banquete e dois
touros brancos eram sacrificados.
Muitos festivais druídicos eram ritos de fertilidade
agrícola, e os sacrifícios animais faziam sem dúvida parte deles. É quase
certo, porém, que durante alguns rituais - às vésperas de uma batalha, ou
quando uma pessoa importante ficava doente - os druidas sacrificavam seres
humanos também. César afirmou que os pagãos
construíam enormes gaiolas de vime com formas humanas, abarrotavam-nas de vítimas
e ateavam fogo aos ramos. Embora os ofertados aos deuses fossem, quase sempre,
criminosos condenados, explicou ele, vítimas inocentes eram sacrificadas se
houvesse poucos malfeitores. Certas fontes asseveram que os druidas
sacrificavam até seus próprios pares, se preciso. O autor clássico Deodoro
Sículo também relatou cenas de sacrifícios humanos. "Quando tentam a
adivinhação de questões importantes, realizam um costume estranho e incrível,
pois matam um homem com uma facada acima da cintura." Depois que a vítima
caía morta, prosseguiu Deodoro, "previam o futuro pelas convulsões de
seus membros e pelo derramamento de seu sangue".
Alguns historiadores duvidam da precisão de tais relatos:
César, muito provavelmente, enfeitou a descrição dos selvagens célticos para
justificar as Guerras Gálicas, e é provável que os outros relatos não sejam de
autoria de testemunhas oculares. Apesar disso, outras autoridades acreditam
que as velhas narrativas históricas não se afastam demais da verdade. Com
certeza, a descoberta, em 1984, dos restos do Homem de Lindow na turfeira de
Cheshire reforçou a hipótese de que os druidas de fato faziam sacrifícios
humanos. As autoridades romanas na Gália e na Bretanha toleravam este e outros
ritos religiosos druídicos, mas temiam o poder político dos druidas entre as
tribos subjugadas. No ano 54 de nossa era, foi emitido um decreto abolindo a religião druídica, e sete anos depois
foi lançada uma campanha para eliminar
os últimos vestígios da seita pagã. Um confronto final teve lugar em Anglesey,
uma ilha ao largo da costa noroeste do País de Gales, bastião do druidismo.
Segundo o célebre historiador romano Tácito,
quando os barcos romanos chegaram à praia, druidas de longas barbas, bem como mulheres vestidas de
negro, saltaram com tochas dos bosques, gritando, uivando, lançando pragas
contra os invasores. Infelizmente, toda essa fuzilaria verbal mostrou-se
impotente contra o aço das espadas curtas dos romanos; os guerreiros abateram
tudo e todos os que encontraram em seu caminho. Nem mesmo as árvores do bosque
sagrado - que Tácito descreveu como manchado pelo sangue dos cativos - foram
poupadas.
A carnificina de Anglesey, bem como a conversão dos celtas ao cristianismo, eliminou
efetivamente a influência druídica no mundo antigo.
Só no País de Gales e na Irlanda o druidismo sobreviveu até a Idade Média, na
tradição bárdica de memorizar poemas épicos. Os tempos modernos, contudo,
assistem a um renascimento da seita. Hoje, seus seguidores limitam-se a lutar
pela promoção das idéias e princípios da civilização céltica. No entanto,
alguns grupos dissidentes mantêm o que afirmam ser as tradições místicas dos
druidas. Engalanados em mantos brancos, esses druidas, bardos e vates
contemporâneos, recriam as cerimônias iniciáticas e os festivais sazonais -
sem, é claro, os sacrifícios humanos - em Stonehenge e em outros locais semelhantes
em toda a Inglaterra. As seitas modernas parecem atraídas por esses megálitos,
e muitas delas acreditam que os antigos druidas foram os que erigiram as colunas
em Stonehenge. Tais colunas, porém, são pelo menos mil anos mais antigas que a
chegada dos primeiros druidas à Bretanha. E muito embora seja quase certo que
os druidas tenham usado esse monumento como observatório para marcar a chegada
das estações, essa antiga seita parecia preferir a privacidade dos bosques
sagrados para conduzir os ritos clandestinos de sua fé pagã.
Por volta do ano 300 de nossa era, o cristianismo havia
substituído o druidismo e as antigas religiões dos mistérios, como religião
oficialmente reconhecida do Império Romano. Os bretões pareceram abraçar o
novo sistema de crenças com mais alarde do que outras nações, talvez porque o
cristianismo primitivo tivesse características em comum com o druidismo: a
imortalidade da alma, a crença nos milagres e, segundo alguns estudiosos, a fé
na reencarnação.
Fontes:
Seitas
Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido.
Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992.
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