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O
mesmo século XII que assistiu ao zelo religioso expressado nas cruzadas, foi
também, paradoxalmente, uma época de crescente desilusão com a Igreja católica
e com as maneiras terrenas do clero. Desde suas origens humildes como uma entre
as muitas seitas do Império romano, a Igreja tornara-se uma instituição de
riqueza e privilégio. Com freqüência, padres e bispos viviam no luxo, ao mesmo
tempo que se entregavam a práticas
espúrias tais como perdoar pecados em troca de dinheiro. Em grande parte, foi
como reação contra o fausto e o esplendor indecoroso da Igreja que o catarismo
se enraizou, primeiramente no norte da Itália, e depois por todo o sul da
França.
Com
medo da repressão da Igreja, os primeiros cátaros mantiveram sua fé em segredo.
Em pouco tempo, porém, a seita atraiu tantos seguidores, que pôde passar a agir
abertamente sob a proteção de senhores feudais poderosos, capazes de desafiar o
papa. No sul da França, o catarismo e outro movimento vagamente semelhante,
conhecido como waldensianismo, tornaram-se, na prática, as religiões oficiais.
As
teologias cátara e católica estavam em nítido conflito. Do ponto de vista
católico, a salvação vinha através do sofrimento físico de Jesus, um ser
espiritual que havia ingressado na carne de modo a redimir a humanidade
morrendo na cruz. Segundo os cátaros, a redenção da humanidade não vinha da
morte de Cristo, e sim do exemplo de vida que levou à terra. Os cátaros negavam
também que o mundo físico imperfeito pudesse ter sido criado por um Deus
perfeito; tal como os gnósticos e maniqueístas antes deles, os cátaros
rejeitavam a visão bíblica da criação e, com efeito, todo o Antigo Testamento.
Um cátaro alcançava a salvação mediante o conhecimento da verdadeira origem e
destino da humanidade e através da renúncia ao mundo satânico da carne, de uma
vida de abstinência e pobreza.
Ao
contrário dos católicos, os cátaros acreditam na reencarnação; se uma pessoa
fracassasse em uma vida, alegavam, teria a oportunidade de ter sucesso em
outra. Rejeitavam o batismo, a cruz como símbolo, a confissão individual e
todos os ornamentos religiosos.Os serviços eclesiásticos eram simples e podiam
ser realizados em qualquer parte. Consistiam de uma leitura do evangelho, um
sermão breve, uma bênção e a Oração do Senhor. A abordagem “de volta ao básico”
da liturgia feita pelos cátaros antecipou a simplicidade de algumas das seitas
protestantes de épocas posteriores.
O
catarismo tinha duas classes, ou graus. Os leigos eram conhecidos como crentes.
Não se exigia que seguissem as rígidas regras de abstinência reservadas para os
perfecti, ou bonhommes (homens bons) eleitos, que formavam a hierarquia da
igreja cátara. Qualquer pessoa que desejasse juntar-se aos perfecti, homem ou mulher, teria que enfrentar um período de prova
nunca inferior a dois anos. Durante esse tempo, a pessoa renunciava a todos os
bens terrenos, vivia comunalmente com outros perfecti e se abstinha de vinho e carne. Para evitar as tentações
da carne, os iniciandos não podiam ter qualquer contato com o sexo oposto e
faziam um voto de jamais dormir nus. No final do período de prova, o noviço
recebia o consolamentum, um rito que
combinava características de batismo, confirmação e ordenação, conduzido em
público diante de uma grande congregação. Nesse rito, o iniciando respondia a
uma série de perguntas feitas por um veterano da igreja, e depois prometia
viver uma vida de pobreza, abstinência e obediência a Deus e aos evangelhos.
A
Igreja Católica fez o que pôde para combater a expansão da heresia cátara. Em
primeiro lugar, tentou atrair os cátaros de volta ao rebanho despachando
missões de catequese formadas por monges cistercianos, lideradas pelo chefe da
ordem, o futuro São Bernardo de Clairvaux. Os monges fizeram poucas conversões,
e a recalcitrância dos hereges desanimou Bernardo, cujos esforços para
alcançá-los foram respondidos por vaias e apupos pelas ruas de Toulouse.
As
regiões cátaras do sul da França estavam sob o controle político do conde
Raymond VI de Toulouse, também seguidor da fé cátara. O diálogo entre as autoridades
cátaras e as católicas interrompeu-se quando um escudeiro do conde assassinou
um enviado especial do papa Inocêncio III a Toulouse. O assassinato deixou o
papa tão enraivecido que ele, literalmente, não conseguiu falar durante dois
dias. Então, ele declarou que os cátaros eram “piores que o próprio sarraceno”
(termo cristão para os mulçumanos) e convocou uma cruzada para varrer a heresia
de uma vez por todas. Seu apelo foi respondido com presteza por muitos
cavaleiros franceses, levados a agir por diversas razões. Tratava-se da
primeira cruzada dirigida contra o inimigo na Europa, de modo que não exigia
nem o tempo, nem as despesas necessárias para uma cruzada na Terra Santa.
Também, além da salvação prometida a todos os que se unissem à cruzada por quarenta
dias pelo menos, os recrutas podiam contar com a posse dos despojos materiais
do território conquistado.
A
cruzada (Albigense) foi lançada em 1209, com vinte mil cavaleiros montados à frente de um
enorme exército. Em sua primeira grande vitória, os cruzados tomaram a cidade
de Beziers e massacraram quase todos os habitantes, entre eles muitos que se
consideravam católicos leais. Quando perguntaram ao legado papal como
distinguir entre hereges e católicos, dizem que ele respondeu: “Matem-nos a
todos. Deus se encarregará dos seus”.
Contudo,
a fé cátara era forte e as legiões papais enfrentaram um a longa luta. Quase
quarenta anos se passaram antes que os cruzados esmagassem a última resistência
armada e células secretas de fiéis cátaros sobreviveram por mais meio século.
Uma medida do peso do catarismo sobre seus seguidores pode ser vista na
disposição destes para o martírio. Milhares de perfecti.,diante da opção entre a morte e a conversão ao
catolicismo, negaram-se a renunciar a sua fé. Morreram, às vezes de fome,
acorrentados às paredes de calabouços, mas em geral queimados publicamente em
grandes piras. Diante da perseguição e da tortura, alguns optaram pelo rito
cátaro da Endura, uma forma santificada de suicídio pelo jejum.
Assim, por mais um quarto de
século se estenderia esta guerra e em 1243 o arremedo de resistência da região
havia cessado quase que completamente. Dentre os pontos que ainda resistiam, o
mais importante foi Montségur. Sitiada durante dez meses e resistindo
bravamente, capitulou em março de 1244.
Mesmo parecendo exterminado, o catarismo não morreu. Grupos isolados
continuaram a exercê-lo influenciando vários outros grupos que depois chegaram
ao Languedoc: valdenses, hussitas, adamitas, anabatistas e os camitas, que
depois se refugiaram em Londres no início do século XVIII.
Os intelectuais modernos têm por hábito considerar os cátaros como sendo
sábios, místicos ou "iniciados" detentores de segredos cósmicos. Isto
fortalece o poder de uma lenda que diz respeito a um TESOURO CÁTARO.
Entretanto, esta lenda parece ter foros de realidade.
Naquela época corria a notícia de que os cátaros possuíam um fabuloso tesouro
místico, muito mais importante do que a riqueza material. No cerco de
Montségur, isto é fato, se tem a notícia de que dois fugitivos, dois perfecti, desceram
o monte na calada da noite, arriscando as suas vidas para salvarem um precioso
tesouro. Foram bem sucedidos!
Presumia-se que este fabuloso tesouro estava escondido em Montségur e depois de
salvo nunca mais se ouviu comentários a seu respeito. O fato é que pelo menos
vinte, dos que vigiavam Montségur e que pertenciam à milícia invasora,
tornaram-se perfecti, devido à impressão neles provocada por algo que
presenciaram num festival organizado pelos cátaros, numa trégua que lhes foi
concedida devido ao seu fornecimento de reféns , para que pudessem comemorar um
certo dia 14 de março.
A história e a religião dos
cátaros estão sendo cada vez mais conhecidas. É até possível falar de uma
renovação, pois suas idéias estão refazendo seu caminho. Com relação a isso,
não há dúvida de que uma releitura do Novo Testamento, à luz da exegese cátara,
pode trazer uma nova e bela iluminação à compreensão do cristianismo. No
alvorecer do terceiro milênio, os cristãos talvez se interessem em buscar nos cátaros
algo da essência de sua religião de origem.
Fontes:
http://www.jornalinfinito.com.br/series.asp?cod=77
Seitas
Secretas – Coleção Mistérios do Desconhecido.
Rio de Janeiro: Abril Livros, 1992.
Revista
“O Rosacruz” nº246
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