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Para um
aluno de História, uma pergunta das mais complicadas seria indagar sobre a
relação entre as tradições dos carvoeiros das florestas da Alemanha no século
XVIII e a desesperada luta dos libertários italianos no século XIX para criar
uma nação unificada na península dos Montes Apeninos. O nome comum a ambos os
grupos, "carbonários", é a pista. A palavra significa
"carvoeiros", e, no contexto da política liberal e nacionalista do
século XIX, a queima do carvão veio a simbolizar a purificação das idéias e a
propagação dos ideais de liberdade, moralidade e progresso.
Originalmente,
os Carbonários eram membros de uma guilda, uma espécie de sindicato ou associação
de trabalhadores de uma determinada categoria, que provavelmente começou a
existir na Idade Média, mais ou menos à mesma época da franco-maçonaria.
Enquanto os rituais dos maçons se baseavam no ofício de pedreiro, os dos
carbonários, que incluíam não apenas carvoeiros, mas também lenhadores da
floresta, carpinteiros e artesãos em madeira, se remetiam aos ofícios
associados ao corte da lenha e ao trabalho em madeira. Os membros em cargos
mais elevados recebiam alcunhas baseadas em nomes de árvores, como “irmão
Carvalho” ou “irmão Olmo”; sua mesa de reuniões conhecida como O Cepo e suas
cadeiras eram montes de gravetos. Tal como ocorria entre os maçons, os seus
membros usavam aventais de couro vermelho, e, em suas reuniões ordinárias,
cercavam-se de objetos aos quais atribuíam valor simbólico: machados, serras,
pedaços de madeira de tamanhos variados e coroas de folhas de carvalho.
O motivo pelo
qual essa sociedade masculina, baseada em um ofício tradicional, veio a
transformar-se em uma sociedade secreta com forte orientação política nunca foi
totalmente esclarecido. O que se sabe é que essa mudança se efetuou entre 1807
e 1812 no sul da Itália, quando um certo Marghella, que era ministro da policia
no Reino de Nápoles e da Sicília, tornou-se um patrono dos carbonários. Nessa
época, quem estava à frente do reino era o ousado Joachim Murat (1767 – 1815),
um dos principais generais de Napoleão, assim como cunhado do imperador.
Marghella
tinha como objetivo a unificação da Itália sob o regime de monarquia
constitucional, para depor governantes estrangeiros como Murat. Ele convenceu
os carbonários a aderir a seus planos, e foi provavelmente essa mudança que os
transformou numa sociedade que seguia rígida organização militar, com membros
armados, e que passou a exercer poderosa influência política no decorrer dos
anos seguintes. Muitos historiadores estão convencidos de que os carbonários se
envolveram em quase todas as rebeliões mal sucedidas que sacudiram o
reino de Nápoles e da Sicília até 1835. Esses primeiros movimentos de
libertação foram por fim sufocados por volta de 1850, mas o sonho da unificação
italiana permaneceu. Essas idéias se propagaram ao longo de toda a península e
acabaram sendo postas em prática por homens como Camillo Cavour, o primeiro ministro
do Estado nortista do Piemonte, e o famoso líder guerrilheiro Giuseppe
Garibaldi.
Mesmo na França, onde era conhecida como
"Charbonnerie", a sociedade dos carbonários se tornou uma associação
política. Seus membros apoiavam a criação de uma monarquia constitucional na
Itália, mas na França defendiam a
volta da república, principalmente depois de 1820, quando os reis Bourbons
combatiam violentamente os ideais liberais. O ramo francês dos carbonários pode
ter tido um papel importante nas revoluções de 1830 e 1848, mas isso ainda não
foi confirmado.
Sabe-se, contudo, que.eles deram assistência a
Napoleão III – o sobrinho de Napoleão Bonaparte -, ajudando-o a chegar ao
poder. Na Itália, por volta de 1870, assim que a nação italiana nasceu, os
carbonários desapareceram do cenário político, o mesmo acontecendo com a "Charbonnerie"
francesa.
Fontes:
Balthazar, Jean et al (redatores). Os últimos mistérios do mundo. Rio de
Janeiro: Reader’s Digest, 2003.
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