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A palavra Kabbalah vem
do hebraico, e significa “aquilo que é recebido”. A cabala é um sistema
metafísico ou místico pelo qual os eleitos conhecerão Deus e o Universo. Este
sistema eleva-los-á acima do conhecimento comum e leva-los-á a compreender o
significado profundo e o plano da criação. Estes segredos são imanentes na
sagrada escritura, embora não se destinem a ser entendidos pelos que
interpretam o texto literalmente. O Velho Testamento é um livro de símbolos; as
suas narrativas são o manto que cobre revelações divinas. “Ai daqueles que
tomam o manto pela lei”. Para estes, tais relatos singelos constituem a verdade
total. Se assim fosse não poderíamos chamar à Sagrada Escritura o Livro dos Livros; se os homens sábios de hoje
se reunissem e elaborassem em conjunto um livro semelhante, seria sem dúvida
mais coerente, menos obscuro e menos chocante.
As letras hebraicas em
que estão escritos os textos sagrados não são apenas signos inventados pelo
homem para registrar fatos, eventos e pensamentos. As letras e os números são
reservatórios de poder divino. “Os números e caracteres imutáveis”, diz
Agrippa, “exalam a harmonia de Deus, sendo consagrados com o auxílio divino.
Por esse motivo, as criaturas do alto temem-nos e as da terra tremem perante
eles”. A tarefa do cabalista consiste em desvendar este significado oculto
através de métodos transmitidos pela tradição. As verdades assim obtidas estão
em conformidade com os princípios estabelecidos pelos fundadores da cabala. Mas
quem eram estes fundadores? A história e a lenda discordam sobre esta questão.
Lemos em textos cabalísticos que Deus em pessoa deu a conhecer a cabala em
tempos bíblicos: Adão recebeu do anjo Raziel um livro cabalístico e através
desta sabedoria foi-lhe possível vencer a angústia causada pela sua queda e
recuperar a dignidade. O Livro de Raziel chegou às mãos de Salomão que submeteu
a terra e o inferno graças a ele. Numa outra narrativa, o Livro Yetzirah é
atribuído a Abraão; porém a opinião dominante é a de que Moisés recebeu no
Sinai a chave para a interpretação mística das Escrituras. Ninguém
anteriormente a Esdras (século V a.C.) fizera tais interpretações. Cerca de
meio século após a destruição de Jerusalém, o rabino Akiba escreveu o Livro
Yetzirah e o seu discípulo, o rabino Simão bar Yohai, compôs o Zohar. Eis tudo
o que interessa saber sobre a lenda, sempre dada ao maravilhoso, ainda que não
erre inteiramente ao situar a origem da cabala na época pré-cristã. Cento e
cinqüenta anos antes de nossa era existia em Israel uma cosmogonia baseada em
letras. É igualmente provável que o clero hebraico cuidasse das tradições orais
à semelhança do que faziam os sacerdotes de outras nações. Que estas tradições
empíricas existiam a par das escrituras é o que podemos concluir por Esdras
quando se refere à revelação feita a Moisés: “Estas palavras”, diz Deus,
“revelarás e estas ocultarás” (II, 14:5,6).
Não encontramos
vestígios de uma época tão venerável nas numerosas obras da cabala, mas muitas
das suas idéias estão latentes nos textos apocalípticos escritos nos séculos I
e II da nossa era. Todavia, a origem de uma doutrina cabalística bem definida
deverá ser situada numa época mais recente. Durante o período demarcado pelos
fins do século VI d.C. e primeira metade do século XI, as influências neoplatônicas
e pitagóricas transformaram a maior parte do saber num sistema metafísico de
caráter especulativo. Tal mudança ocorreu não na Palestina, mas na Babilônia,
onde os Geonim – presidentes da academia judaica – deliberavam sobre questões
religiosas. Os indivíduos dignos a quem fossem revelados os segredos eram
conhecidos por Mekkubalin. O mais antigo livro cabalístico, o Livro Yetzirah
(formação) surgiu no período atrás referido. A palavra cabala, no entanto, não
aparece na literatura antes do século XI, e o Livro Zohar (luz) parece ser um
produto da fase final do século XIII, época em que a cabala deu origem a uma
vasta literatura. O Zohar era e é considerado o livro sagrado, o pilar da
sabedoria cabalística, devendo a sua configuração atual ao famoso Moisés de
Leon (1250 – 1305).
A cabala denuncia a
influência da filosofia e esoterismo gentílicos nas idéias fundamentais de que
o plano da arquitetura do mundo pode ser entendida pelo homem e que o ser
divino pode ser compreendido (ainda que não inteiramente) através da
especulação. A noção cabalística de que o mundo foi edificado com base em
números e letras proveio da filosofia grega. No Timeu, Platão debruça-se sobre
as dimensões em que o universo está construído. Os filósofos neopitagóricos
entendiam os números e letras como seres divinos dotados de poderes
sobrenaturais. Estranha à antiga teologia hebraica é também a noção cabalística
dos Sefirots, manifestações da existência de Deus na criação. Eles têm
afinidades com as inteligências neoplatônicas, intermediários entre o mundo do
inteligível e o mundo material.
Os dez Sefirots estão
contidos em Adão Kadmon, o homem primordial a quem São Paulo provavelmente faz
alusão quando afirma: “Deus criou um Adão celeste no mundo espiritual e um Adão
terreno, de barro, destinado ao mundo material”. (I Cor. 15:45-50.) E num livro
sagrado hebraico, o Midrash, afirma-se que este primeiro Adão é Messias cujo espírito é sempre presente. Esta
noção de que as coisas e os seres existem como idéias antes de serem materializados
fora já expressa por Platão e Zoroastro. Além disso, aparentado com a doutrina
zoroastriana é também o cabalístico Em Soph, a divindade ilimitada e
ininteligível de que emanaram os Sefirots, tal como todas as coisas emanaram do
zoroastriano Zrvan Akaran, o deificado espaço-tempo.
Existem outras
afinidades entre a doutrina da cabala por um lado e as doutrinas gnósticas, as
doutrinas da escola de Alexandria, a filosofia de Fílon e a dos estóicos por outro.
Os cabalistas primitivos, como não quisessem ignorar ou não pudessem resistir a
tais influências, tiveram de enfrentar o problema de encontrar a forma de
aceitá-las sem violentarem as escrituras existentes, que haviam sido inspiradas
por Deus e não podiam conseqüentemente ser alteradas. A solução que encontraram
foi “ler” nos textos antigos as idéias que desejavam encontrar neles e afirmar
que tais idéias tinham estado ocultas desde o princípio nas Sagradas
Escrituras. Para o provarem, recorriam a meios tais como a alteração do valor
das letras ou a substituição de uma letra por outra, formando deste modo novas
palavras de acordo com os preceitos cabalísticos. Tal procedimento pode servir
igualmente bem às mais variadas doutrinas e, na realidade, fora já utilizado na
interpretação do Talmude. Além disso, das práticas bibliomânticas às operações
mágicas não vai senão um passo. A cabala prática é uma simples forma de magia,
tendo em vista obter efeitos prodigiosos através do poder da palavra falada.
Apenas aqueles que
estavam determinados a serem dignos do conhecimento – os que possuíam os
motivos e ideais mais puros – eram escolhidos para estudar a cabala. No livro
Yetzirah, os iniciandos descobriam uma teoria expandida da criação do universo.
De acordo com ele, o mundo espiritual era formado por dez esferas, os Sefirots
(sefirot é um termo relacionado com a
palavra hebraica sappir, traduzida
livremente como “safira”, e interpretada como o esplendor de Deus). Cada um
dos Sefirots representava uma força ou aspecto diferente de Deus, tal como o
amor, o poder ou o entendimento. Dizia-se que esses aspectos emanaram, ou se
desdobraram de Deus. Posto que os Sefirots incorporavam todos os aspectos da
criação. Geração e decadência. Elas representavam o próprio universo.
Ligando as dez esferas
há 22 caminhos, que correspondem às 22 letras do alfabeto hebraico, e, juntas,
as esferas e os caminhos constituem a “árvore da vida”, a representação visual
da criação. O Yetzirah detalhava também os significados místicos de cada letra
do alfabeto hebraico e perscrutava um sistema de interpretações ocultas de
várias combinações de letras.
Através da meditação e
da oração. Os devotos procuravam escalar a árvore da vida, experimentar as
Sefirots e explorar a relação entre a humanidade e o universo – em resumo,
atingir a iluminação divina mediante a ascensão.
Uma espécie de guia que
descrevia a paisagem a ser explorada nessa viagem espiritual era o Zohar. Esse
texto de ensinamentos, central para os que estudam a sabedoria mística antiga,
era um comentário místico sobre o Pentateuco. Continha uma mistura de
histórias, poesia, comentários e visões baseadas em idéias e símbolos
cabalísticos.
A árvore de Sefirots
encontra-se no coração da cabala, e é o seu símbolo mais representativo e
multifacetado. Os Sefirots são os dez números primordiais que, combinados com
as vinte e duas letras do alfabeto hebraico, representamo plano de criação de
todas as coisas superiores e inferiores. São os dez nomes, atributos ou poderes
de Deus, e formam um osganismo palpitante a que se chama “o rosto místico de
Deus” ou o “corpo do universo”. Assenta nos três pilares da misericórdia
(direita), da severidade (esquerda) e do equilíbrio central. O pilar central
forma a espinha dorsal através da qual o orvalho divino flui para o ventre. Na
criação apenas são visíveis os efeitos dos sete Sefirots inferiores , já que a
tríade superior atua fora do tempo e para lá da compreenção. No sistema dos
quatro mundos, corresponde ao mundo da luz divina (Aziluth), separado por um
véu das duas tríades inferiores do mundo do trono (beriah) e do mundo dos anjos
(Yetzirah). O Sefirot mais baixo, Malchut, é identificado com Assia, o
protótipo espiritual do mundo material.
As Sefirots
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Kether
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Coroa suprema
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vontade inicial
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Hocmah
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sabedoria
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semente de todas as coisas
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Binah
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Inteligência
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Matriz superior
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Hesed
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Amor
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Piedade, bondade
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Geburah
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severidade
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Poder punitivo
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Tiphereth
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generosidade
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esplendor, beleza
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Netzah
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persistência
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vitória
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Hod
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Magnificência
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majestade
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Yesod
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Fundamento
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O princípio de tudo quanto
flui para os seres inferiores
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Malcht
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reino
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A morada de Deus na criação
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Galeria:
Clique na foto para ampliar.
Árvores
de Sefirots
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