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Canadense cria aconselhamento filosófico para
substituir psicanálise e vende livros para tratar pessoas com depressão

Tânia Nogueira
O canadense Lou Marinoff é o fundador e expoente máximo do movimento
de aconselhamento filosófico, uma prática que ele desenvolveu há pouco mais de
uma década e hoje reúne mais de 500 filósofos no mundo todo que cobram para
ajudar as pessoas com questões éticas. Ele começou por acaso. Até os 20 e
tantos anos esse canadense de Montreal, hoje com 53, tocava em bandas de rock e
ensinava música clássica para viver. Com pouco mais de 30, formou-se em Física.
Conseguiu, então, uma bolsa na Universidade de Londres para fazer doutorado em
Filosofia da Ciência. Depois de formado, aos 40 anos, arrumou emprego como
professor de Filosofia na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver. A
vida corria sem nenhuma novidade para o integrante de uma geração que pregava paz,
amor e um tanto de sossego. Mas, como estava ligado a um instituto de ética
aplicada dentro da universidade, começou a ser chamado para dar entrevistas a
jornais e revistas sobre temas polêmicos, como aborto, transplantes e
ambientalismo. E as pessoas que o viam na mídia passaram também a procurá-lo
para discutir problemas pessoais e pedir conselhos. Autor do best-seller Mais
Platão, Menos Prozac, que vendeu 500 mil exemplares nos Estados Unidos, e
de Pergunte a Platão (Editora Record), recém-lançado no Brasil, ele
defende a dialética socrática como método para buscar soluções de vida e diz
que muitos psicólogos dão diagnósticos baseados em interesses econômicos.
|
Lou Marinoff
|
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Divulgação
|
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Formação
Doutor
em Filosofia da Ciência pela Universidade de Londres
Carreira
Foi
guitarrista de rock e professor de música clássica. Hoje, dá
aconselhamento filosófico
Posição atual
Presidente
da Associação Americana de Orientadores Filosóficos e professor de Filosofia
no City College de Nova York, noa EUA
|
ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor dá a entender que muitas vezes psicólogos e
psiquiatras exageram em diagnósticos de doenças mentais por questões
financeiras e que só conseguem receber dinheiro dos planos de saúde se disserem
que o cliente está doente. É isso mesmo?
Lou Marinoff -
Nós todos trabalhamos para viver. Até aí tudo bem. Não vou entrar muito em
aspectos econômicos da profissão de cada um. Mas acho que a psicologia e a
psiquiatria definitivamente entraram na área de atuação dos filósofos. Isso é o
resultado da falta de conhecimento filosófico na educação que as pessoas
receberam nos últimos cem anos. Graças a isso, qualquer problema dos seres
humanos tem de ser abordado por um psicólogo. Aí esses profissionais
diagnosticam uma série de questões como se fossem psicológicas. Mas não são.
Esse é um ponto. O outro é que nos Estados Unidos - e eu só posso falar pelos
países que conheço - muitos dos psicólogos querem uma relação longa de
co-dependência com seus pacientes. Para isso, há um motivo econômico. O
paciente se torna emocionalmente dependente do terapeuta e o terapeuta se torna
financeiramente dependente do paciente. Pior que isso é a questão dos seguros.
Nos EUA, essas empresas controlam quase tudo na vida das pessoas. Se você tem
um seguro de saúde e quer ver um psicólogo, a única forma de ele ser pago pelo
convênio é se fizer um diagnóstico qualquer.
ÉPOCA
- Isso vale mais no caso dos psiquiatras?
Marinoff -
Não, estou falando de psicólogos.
ÉPOCA
- Nos Estados Unidos, os planos de saúde cobrem tratamento psicológico?
Marinoff -
Sim, eles cobrem desde que haja o diagnóstico de uma doença. Já existe a
premissa de que todo mundo é doente. Agora, os profissionais estão pressupondo
que todas as pessoas têm uma doença mental. Não se parte de uma premissa dessa!
O que é isso? Somos todos doentes? E isso faz da sociedade uma sociedade doente?
ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre doença e mal-estar e diz que a
filosofia poderia ajudar em casos de mal-estar. Como?
Marinoff -
Em inglês, nós temos um bom jeito de fazer essa contraposição. Para se opor à
palavra disease (doença) eu uso o termo diseasy (neologismo que
significa 'não-à vontade'). Se você tem um problema médico, então, é uma
doença. Mas se você apenas se sente desconfortável, infeliz, não-realizado,
como se alguma coisa não estivesse bem, então, você está passando por uma
situação que não é fácil. Filosofia não ajuda no caso de doenças. Se você tem
um braço quebrado, não vamos consertá-lo. Se tem um problema mental, também
não. Mas a maioria de nós está bem de forma geral, somos funcionais. E a
questão é: o que há de errado em sua vida? Há sempre algo errado. Nesse caso, a
filosofia pode ajudá-lo. Todo mundo tem uma filosofia de vida. Essa é a
questão. Dentro de você, em algum lugar, há um filósofo. Nosso papel como
conselheiros filosóficos é colocá-lo em contato com esse filósofo, para ver que
filosofia está conduzindo sua vida. Aí você talvez consiga conduzir melhor as
coisas.
|
''Boa parte
dos problemas no mundo hoje é causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma.
Veja o caso dos fanáticos religiosos''
|
ÉPOCA
- Como assim?
Marinoff -
Nós somos governados por muitas forças diferentes. Precisamos comer, beber e
dormir. Temos necessidades biológicas, psicológicas e emocionais, mas também
somos governados por princípios. Acredite ou não, pelo menos algumas pessoas
são guiadas por eles. Esse é o sistema operador, sua filosofia de vida. Isso
precisa de um checkup de tempos em tempos, como todo o resto.
ÉPOCA
- O senhor chama os princípios de uma pessoa de filosofia, isso não seria a
moral?
Marinoff -
Desculpe, filosofia inclui moral e ética. Todo mundo as tem. Ou quase todo
mundo. Temos de entender como isso funciona. No passado longínquo, muito antes
das religiões organizadas, os filósofos se perguntavam o que é certo, o que é
bom. Inclui moralidade, inclui também o sentido de sua vida, os valores, o
senso de realização e o que é seu dever. #Q#
ÉPOCA
- Como podemos distinguir entre um problema psicológico, psiquiátrico ou
filosófico?
Marinoff -
O indivíduo tem de tomar essa decisão por si próprio. Se alguma coisa está
errada com você, o que você faz? Tem de buscar ajuda e conselhos, mas algumas
vezes tem de perguntar para mais de uma pessoa. Mesmo quando vai ver um médico,
normalmente, você tem de buscar uma segunda ou uma terceira opinião. Para saber
se você tem de se orientar com um psicólogo, um filósofo, o ideal é conversar
com ambos. Claro que, quando treinamos um conselheiro filosófico, nós temos
critérios rigorosos para estabelecer quais casos devem ser tratados por nós
mesmos, quais devem ser encaminhados para um médico, um psicólogo ou até um
padre. Algumas vezes há áreas cinzentas, questões que podem ser abordadas tanto
por filósofos quanto por psicólogos. Nesses casos, cabe ao indivíduo escolher
quem pode ajudá-lo mais.
ÉPOCA
- Quais são os problemas que mais levam as pessoas a procurar um conselheiro
filosófico?
Marinoff -
Algumas pessoas nos procuram porque querem agir da melhor maneira possível em
uma determinada situação. Questões éticas ou morais. Essa é uma área muito
grande. Outra área é realmente o sentido da vida. As pessoas estão sempre
buscando um sentido para sua vida e nem sempre encontram. Isso não é uma
questão de depressão. É uma questão de realização, o que é um ponto muito
filosófico. Também temos muita gente com problemas de relacionamento. Nos
Estados Unidos o índice de divórcios é muito alto. As pessoas têm problemas de
relacionamento e nem sempre é uma questão psicológica. É uma questão de
compromisso, de dever e de lealdade. Sempre há aspectos filosóficos.
ÉPOCA
- Os filósofos não são, na maioria, pessoas exatamente felizes. Eles são almas
inquietas, cheias de dúvidas, procurando pelo bem, pela verdade. Por que o
senhor acha que a filosofia poderia trazer paz de espírito para alguém?
Marinoff -
É verdade. Mas você não tem de viver infeliz, como Friedrich Nietzsche (filósofo
alemão, autor de Assim Falou Zaratustra, que ficou incapacitado por um
colapso nervoso em 1889), para entender as idéias dele. Você pode aprender
das pessoas e não necessariamente repetir seus erros. Os filósofos entram em
áreas muito escuras da mente, muito duvidosas. Esse é um grande desafio. Eles
são muito corajosos por explorar esses territórios. A maioria das pessoas não
quer isso, quer segurança. Elas querem acreditar em algo certo. Os
questionamentos as deixam nervosas. Mas é só enfrentando nossas dúvidas que
podemos crescer como seres humanos. A maioria das pessoas não precisa
confrontar suas dúvidas 24 horas por dia, como os filósofos. Mas fazer isso uma
vez por semana por uma hora é bom. É preciso abrir um pouco de espaço para
isso. As pessoas não precisam se tornar filósofos, mas acho que elas podem usar
a filosofia para melhorar sua vida. Boa parte dos problemas no mundo hoje é
causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma. Veja o caso dos fanáticos
religiosos. Uma pontinha de dúvida pode nos impedir de fazer coisas terríveis.
ÉPOCA
- Fazer o que é certo significa ser mais feliz?
Marinoff -
Sim, no fim, se você fizer o que é certo, você será mais feliz. Mas, se você
quiser realizar qualquer coisa na vida, é preciso esforço. Esse é um problema.
As pessoas estão buscando soluções muito rápidas: 'Eu vou tomar essa pílula e
vou ser feliz'. Isso não funciona sempre. Esse é um ponto em que eu acho que a
filosofia pode ajudar. Se as pessoas têm medo de questionar o que elas
acreditam, se têm medo de fazer o que Sócrates chamava de examinar a vida, elas
vão viver com medo. E, se elas vivem com medo, elas não são felizes. A dúvida é
uma forma de libertação. Mas realmente não é fácil. Justamente por isso, não é
para todo mundo. Não estou dizendo que todo mundo deve tentar um aconselhamento
filosófico. Apenas aquelas pessoas que sentem que devem fazê-lo.
ÉPOCA
- Como funciona a terapia?
Marinoff -
A idéia principal é fazermos um diálogo, como Sócrates ensinava. Algumas vezes,
os clientes querem ler a respeito de um filósofo, e nós indicamos. É realmente
um centro de educação. Não é médico nem psicológico. A pessoa aprende a
descobrir que tipo de filósofo ela é e que tipo de filosofia pode ajudá-la a
melhorar sua vida.
ÉPOCA
- O senhor disse que usa um método socrático de diálogo. Sócrates não dava
respostas, não apontava caminhos. O senhor dá?
Marinoff -
Eu não sou totalmente socrático, isso é verdade. Eu realmente dou algumas
respostas, mas o mais importante é tentar levar o cliente a encontrar as
próprias respostas ou fazer as próprias perguntas. As pessoas nos procuram
porque estão precisando de ajuda. Elas querem algo de nós. Se tenho uma idéia
que acho que pode ajudá-las, é claro que vou sugerir. Mas nós não dizemos o que
elas devem fazer. Se devem mudar de emprego ou acabar um casamento.
ÉPOCA
- O senhor faz uma lista de filósofos preferenciais, batizada de Parada de
Sucessos das Idéias. Karl Marx não está lá. Por quê?
Marinoff -
Porque acho-o prejudicial. E também não uso Marx em meus aconselhamentos. Mas,
se alguém chegar para mim dizendo que é marxista e precisa de ajuda para
ajustar melhor suas idéias a sua vida prática, vou indicar um conselheiro que
trabalhe com Marx. Com certeza, há muitos.
|
''Nos EUA,
se você tem um seguro de saúde e quer ver um psicólogo ou psicanalista, a
única forma de ele ser pago pelo serviço é se fizer um diagnóstico qualquer''
|
ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor fala que o filósofo já teve e já perdeu o papel de
orientador na sociedade. Por quê?
Marinoff -
Em toda a história da humanidade, os filósofos estiveram envolvidos com a vida
pública, tanto civil quanto política. Nos últimos cem anos, a filosofia
desapareceu desse cenário. Em parte, pelo avanço da Ciência. No Ocidente, pelo
menos. A partir do século XIX, as pessoas pensaram que podiam saber tanto a
respeito dos seres humanos quanto de átomos e moléculas. Elas tinham falsas
esperanças. Acharam que podiam ver o homem por uma lente mais científica que
filosófica. É isso que leva a essa idéia de que você pode tomar uma pílula para
resolver qualquer problema. Mas isso não é satisfatório. As pessoas ainda
querem conversar.
ÉPOCA
- O senhor encontra muita resistência a seu trabalho?
Marinoff -
Enorme. Eu estou proibido de dar aconselhamento no campus da universidade onde
ensino (o City College em Nova York). Tudo por causa de pressões de psicólogos,
principalmente. É uma disputa por reserva de mercado de trabalho, uma guerra
por território. Os psicólogos são muito protecionistas. Eles nos sabotam. Têm
muito poder político. Não vão aos tribunais, porque não têm o que alegar. Pela
Constituição, ninguém pode me impedir de conversar. Há algo chamado liberdade
de expressão. Mas nos atacam na imprensa.
ÉPOCA
- E a comunidade filosófica? O que acha de seu trabalho?
Marinoff -
Alguns dizem que isso não é filosofia. Mas há uns 60 anos, quando começaram a
surgir as terapias modernas, os teóricos da área também diziam que aquilo não
era psicologia. E cresce o número de filósofos que se unem a nós, que buscam
treinamento para se tornar um conselheiro.
ÉPOCA
- Seus livros não costumam ser classificados mais como auto-ajuda que como
filosofia?
Marinoff -
Tentaram classificar meus livros como auto-ajuda, mas a maior prova de que isso
não é verdade é que eles não venderam muito bem nos Estados Unidos nem no
Canadá. Venderam melhor na Europa e na América Latina, mercados muito mais
exigentes. Meus livros não são auto-ajuda. São filosofia pop, como Alain de
Bottom, Tom Morris e Christopher Phillips.
O canadense Lou Marinoff é o fundador e expoente máximo do movimento
de aconselhamento filosófico, uma prática que ele desenvolveu há pouco mais de
uma década e hoje reúne mais de 500 filósofos no mundo todo que cobram para
ajudar as pessoas com questões éticas. Ele começou por acaso. Até os 20 e
tantos anos esse canadense de Montreal, hoje com 53, tocava em bandas de rock e
ensinava música clássica para viver. Com pouco mais de 30, formou-se em Física.
Conseguiu, então, uma bolsa na Universidade de Londres para fazer doutorado em
Filosofia da Ciência. Depois de formado, aos 40 anos, arrumou emprego como
professor de Filosofia na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver. A
vida corria sem nenhuma novidade para o integrante de uma geração que pregava paz,
amor e um tanto de sossego. Mas, como estava ligado a um instituto de ética
aplicada dentro da universidade, começou a ser chamado para dar entrevistas a
jornais e revistas sobre temas polêmicos, como aborto, transplantes e
ambientalismo. E as pessoas que o viam na mídia passaram também a procurá-lo
para discutir problemas pessoais e pedir conselhos. Autor do best-seller Mais
Platão, Menos Prozac, que vendeu 500 mil exemplares nos Estados Unidos, e
de Pergunte a Platão (Editora Record), recém-lançado no Brasil, ele
defende a dialética socrática como método para buscar soluções de vida e diz
que muitos psicólogos dão diagnósticos baseados em interesses econômicos.
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Lou
Marinoff
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Formação
Doutor
em Filosofia da Ciência pela Universidade de Londres
Carreira
Foi
guitarrista de rock e professor de música clássica. Hoje, dá
aconselhamento filosófico
Posição atual
Presidente
da Associação Americana de Orientadores Filosóficos e professor de Filosofia
no City College de Nova York, noa EUA
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ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor dá a entender que muitas vezes psicólogos e
psiquiatras exageram em diagnósticos de doenças mentais por questões
financeiras e que só conseguem receber dinheiro dos planos de saúde se disserem
que o cliente está doente. É isso mesmo?
Lou Marinoff -
Nós todos trabalhamos para viver. Até aí tudo bem. Não vou entrar muito em
aspectos econômicos da profissão de cada um. Mas acho que a psicologia e a
psiquiatria definitivamente entraram na área de atuação dos filósofos. Isso é o
resultado da falta de conhecimento filosófico na educação que as pessoas
receberam nos últimos cem anos. Graças a isso, qualquer problema dos seres
humanos tem de ser abordado por um psicólogo. Aí esses profissionais
diagnosticam uma série de questões como se fossem psicológicas. Mas não são.
Esse é um ponto. O outro é que nos Estados Unidos - e eu só posso falar pelos
países que conheço - muitos dos psicólogos querem uma relação longa de
co-dependência com seus pacientes. Para isso, há um motivo econômico. O
paciente se torna emocionalmente dependente do terapeuta e o terapeuta se torna
financeiramente dependente do paciente. Pior que isso é a questão dos seguros.
Nos EUA, essas empresas controlam quase tudo na vida das pessoas. Se você tem
um seguro de saúde e quer ver um psicólogo, a única forma de ele ser pago pelo
convênio é se fizer um diagnóstico qualquer.
ÉPOCA
- Isso vale mais no caso dos psiquiatras?
Marinoff -
Não, estou falando de psicólogos.
ÉPOCA
- Nos Estados Unidos, os planos de saúde cobrem tratamento psicológico?
Marinoff -
Sim, eles cobrem desde que haja o diagnóstico de uma doença. Já existe a
premissa de que todo mundo é doente. Agora, os profissionais estão pressupondo
que todas as pessoas têm uma doença mental. Não se parte de uma premissa dessa!
O que é isso? Somos todos doentes? E isso faz da sociedade uma sociedade doente?
ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre doença e mal-estar e diz que a
filosofia poderia ajudar em casos de mal-estar. Como?
Marinoff -
Em inglês, nós temos um bom jeito de fazer essa contraposição. Para se opor à
palavra disease (doença) eu uso o termo diseasy (neologismo que
significa 'não-à vontade'). Se você tem um problema médico, então, é uma
doença. Mas se você apenas se sente desconfortável, infeliz, não-realizado,
como se alguma coisa não estivesse bem, então, você está passando por uma
situação que não é fácil. Filosofia não ajuda no caso de doenças. Se você tem
um braço quebrado, não vamos consertá-lo. Se tem um problema mental, também
não. Mas a maioria de nós está bem de forma geral, somos funcionais. E a
questão é: o que há de errado em sua vida? Há sempre algo errado. Nesse caso, a
filosofia pode ajudá-lo. Todo mundo tem uma filosofia de vida. Essa é a
questão. Dentro de você, em algum lugar, há um filósofo. Nosso papel como
conselheiros filosóficos é colocá-lo em contato com esse filósofo, para ver que
filosofia está conduzindo sua vida. Aí você talvez consiga conduzir melhor as
coisas.
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''Boa parte
dos problemas no mundo hoje é causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma.
Veja o caso dos fanáticos religiosos''
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ÉPOCA
- Como assim?
Marinoff -
Nós somos governados por muitas forças diferentes. Precisamos comer, beber e
dormir. Temos necessidades biológicas, psicológicas e emocionais, mas também
somos governados por princípios. Acredite ou não, pelo menos algumas pessoas
são guiadas por eles. Esse é o sistema operador, sua filosofia de vida. Isso
precisa de um checkup de tempos em tempos, como todo o resto.
ÉPOCA
- O senhor chama os princípios de uma pessoa de filosofia, isso não seria a
moral?
Marinoff -
Desculpe, filosofia inclui moral e ética. Todo mundo as tem. Ou quase todo
mundo. Temos de entender como isso funciona. No passado longínquo, muito antes
das religiões organizadas, os filósofos se perguntavam o que é certo, o que é
bom. Inclui moralidade, inclui também o sentido de sua vida, os valores, o
senso de realização e o que é seu dever. #Q#
ÉPOCA
- Como podemos distinguir entre um problema psicológico, psiquiátrico ou
filosófico?
Marinoff -
O indivíduo tem de tomar essa decisão por si próprio. Se alguma coisa está
errada com você, o que você faz? Tem de buscar ajuda e conselhos, mas algumas
vezes tem de perguntar para mais de uma pessoa. Mesmo quando vai ver um médico,
normalmente, você tem de buscar uma segunda ou uma terceira opinião. Para saber
se você tem de se orientar com um psicólogo, um filósofo, o ideal é conversar
com ambos. Claro que, quando treinamos um conselheiro filosófico, nós temos
critérios rigorosos para estabelecer quais casos devem ser tratados por nós
mesmos, quais devem ser encaminhados para um médico, um psicólogo ou até um
padre. Algumas vezes há áreas cinzentas, questões que podem ser abordadas tanto
por filósofos quanto por psicólogos. Nesses casos, cabe ao indivíduo escolher
quem pode ajudá-lo mais.
ÉPOCA
- Quais são os problemas que mais levam as pessoas a procurar um conselheiro
filosófico?
Marinoff -
Algumas pessoas nos procuram porque querem agir da melhor maneira possível em
uma determinada situação. Questões éticas ou morais. Essa é uma área muito
grande. Outra área é realmente o sentido da vida. As pessoas estão sempre
buscando um sentido para sua vida e nem sempre encontram. Isso não é uma
questão de depressão. É uma questão de realização, o que é um ponto muito
filosófico. Também temos muita gente com problemas de relacionamento. Nos
Estados Unidos o índice de divórcios é muito alto. As pessoas têm problemas de
relacionamento e nem sempre é uma questão psicológica. É uma questão de
compromisso, de dever e de lealdade. Sempre há aspectos filosóficos.
ÉPOCA
- Os filósofos não são, na maioria, pessoas exatamente felizes. Eles são almas
inquietas, cheias de dúvidas, procurando pelo bem, pela verdade. Por que o
senhor acha que a filosofia poderia trazer paz de espírito para alguém?
Marinoff -
É verdade. Mas você não tem de viver infeliz, como Friedrich Nietzsche (filósofo
alemão, autor de Assim Falou Zaratustra, que ficou incapacitado por um
colapso nervoso em 1889), para entender as idéias dele. Você pode aprender
das pessoas e não necessariamente repetir seus erros. Os filósofos entram em
áreas muito escuras da mente, muito duvidosas. Esse é um grande desafio. Eles
são muito corajosos por explorar esses territórios. A maioria das pessoas não
quer isso, quer segurança. Elas querem acreditar em algo certo. Os
questionamentos as deixam nervosas. Mas é só enfrentando nossas dúvidas que
podemos crescer como seres humanos. A maioria das pessoas não precisa
confrontar suas dúvidas 24 horas por dia, como os filósofos. Mas fazer isso uma
vez por semana por uma hora é bom. É preciso abrir um pouco de espaço para
isso. As pessoas não precisam se tornar filósofos, mas acho que elas podem usar
a filosofia para melhorar sua vida. Boa parte dos problemas no mundo hoje é
causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma. Veja o caso dos fanáticos
religiosos. Uma pontinha de dúvida pode nos impedir de fazer coisas terríveis.
ÉPOCA
- Fazer o que é certo significa ser mais feliz?
Marinoff -
Sim, no fim, se você fizer o que é certo, você será mais feliz. Mas, se você
quiser realizar qualquer coisa na vida, é preciso esforço. Esse é um problema.
As pessoas estão buscando soluções muito rápidas: 'Eu vou tomar essa pílula e
vou ser feliz'. Isso não funciona sempre. Esse é um ponto em que eu acho que a
filosofia pode ajudar. Se as pessoas têm medo de questionar o que elas
acreditam, se têm medo de fazer o que Sócrates chamava de examinar a vida, elas
vão viver com medo. E, se elas vivem com medo, elas não são felizes. A dúvida é
uma forma de libertação. Mas realmente não é fácil. Justamente por isso, não é
para todo mundo. Não estou dizendo que todo mundo deve tentar um aconselhamento
filosófico. Apenas aquelas pessoas que sentem que devem fazê-lo.
ÉPOCA
- Como funciona a terapia?
Marinoff -
A idéia principal é fazermos um diálogo, como Sócrates ensinava. Algumas vezes,
os clientes querem ler a respeito de um filósofo, e nós indicamos. É realmente
um centro de educação. Não é médico nem psicológico. A pessoa aprende a
descobrir que tipo de filósofo ela é e que tipo de filosofia pode ajudá-la a
melhorar sua vida.
ÉPOCA
- O senhor disse que usa um método socrático de diálogo. Sócrates não dava
respostas, não apontava caminhos. O senhor dá?
Marinoff -
Eu não sou totalmente socrático, isso é verdade. Eu realmente dou algumas
respostas, mas o mais importante é tentar levar o cliente a encontrar as
próprias respostas ou fazer as próprias perguntas. As pessoas nos procuram
porque estão precisando de ajuda. Elas querem algo de nós. Se tenho uma idéia
que acho que pode ajudá-las, é claro que vou sugerir. Mas nós não dizemos o que
elas devem fazer. Se devem mudar de emprego ou acabar um casamento.
ÉPOCA
- O senhor faz uma lista de filósofos preferenciais, batizada de Parada de
Sucessos das Idéias. Karl Marx não está lá. Por quê?
Marinoff -
Porque acho-o prejudicial. E também não uso Marx em meus aconselhamentos. Mas,
se alguém chegar para mim dizendo que é marxista e precisa de ajuda para
ajustar melhor suas idéias a sua vida prática, vou indicar um conselheiro que
trabalhe com Marx. Com certeza, há muitos.
|
''Nos EUA,
se você tem um seguro de saúde e quer ver um psicólogo ou psicanalista, a
única forma de ele ser pago pelo serviço é se fizer um diagnóstico qualquer''
|
ÉPOCA
- Em seu livro, o senhor fala que o filósofo já teve e já perdeu o papel de
orientador na sociedade. Por quê?
Marinoff -
Em toda a história da humanidade, os filósofos estiveram envolvidos com a vida
pública, tanto civil quanto política. Nos últimos cem anos, a filosofia
desapareceu desse cenário. Em parte, pelo avanço da Ciência. No Ocidente, pelo
menos. A partir do século XIX, as pessoas pensaram que podiam saber tanto a
respeito dos seres humanos quanto de átomos e moléculas. Elas tinham falsas
esperanças. Acharam que podiam ver o homem por uma lente mais científica que
filosófica. É isso que leva a essa idéia de que você pode tomar uma pílula para
resolver qualquer problema. Mas isso não é satisfatório. As pessoas ainda
querem conversar.
ÉPOCA
- O senhor encontra muita resistência a seu trabalho?
Marinoff -
Enorme. Eu estou proibido de dar aconselhamento no campus da universidade onde
ensino (o City College em Nova York). Tudo por causa de pressões de psicólogos,
principalmente. É uma disputa por reserva de mercado de trabalho, uma guerra
por território. Os psicólogos são muito protecionistas. Eles nos sabotam. Têm
muito poder político. Não vão aos tribunais, porque não têm o que alegar. Pela
Constituição, ninguém pode me impedir de conversar. Há algo chamado liberdade
de expressão. Mas nos atacam na imprensa.
ÉPOCA
- E a comunidade filosófica? O que acha de seu trabalho?
Marinoff -
Alguns dizem que isso não é filosofia. Mas há uns 60 anos, quando começaram a
surgir as terapias modernas, os teóricos da área também diziam que aquilo não
era psicologia. E cresce o número de filósofos que se unem a nós, que buscam
treinamento para se tornar um conselheiro.
ÉPOCA
- Seus livros não costumam ser classificados mais como auto-ajuda que como
filosofia?
Marinoff -
Tentaram classificar meus livros como auto-ajuda, mas a maior prova de que isso
não é verdade é que eles não venderam muito bem nos Estados Unidos nem no
Canadá. Venderam melhor na Europa e na América Latina, mercados muito mais
exigentes. Meus livros não são auto-ajuda. São filosofia pop, como Alain de
Bottom, Tom Morris e Christopher Phillips.Lou Marinoff
Platão
contra Prozac
Canadense cria aconselhamento filosófico para
substituir psicanálise e vende livros para tratar pessoas com depressão
Tânia Nogueira
O canadense Lou Marinoff é o fundador e expoente máximo do movimento
de aconselhamento filosófico, uma prática que ele desenvolveu há pouco mais de
uma década e hoje reúne mais de 500 filósofos no mundo todo que cobram para
ajudar as pessoas com questões éticas. Ele começou por acaso. Até os 20 e
tantos anos esse canadense de Montreal, hoje com 53, tocava em bandas de rock e
ensinava música clássica para viver. Com pouco mais de 30, formou-se em Física.
Conseguiu, então, uma bolsa na Universidade de Londres para fazer doutorado em
Filosofia da Ciência. Depois de formado, aos 40 anos, arrumou emprego como
professor de Filosofia na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver. A
vida corria sem nenhuma novidade para o integrante de uma geração que pregava paz,
amor e um tanto de sossego. Mas, como estava ligado a um instituto de ética
aplicada dentro da universidade, começou a ser chamado para dar entrevistas a
jornais e revistas sobre temas polêmicos, como aborto, transplantes e
ambientalismo. E as pessoas que o viam na mídia passaram também a procurá-lo
para discutir problemas pessoais e pedir conselhos. Autor do best-seller Mais
Platão, Menos Prozac, que vendeu 500 mil exemplares nos Estados Unidos, e
de Pergunte a Platão (Editora Record), recém-lançado no Brasil, ele
defende a dialética socrática como método para buscar soluções de vida e diz
que muitos psicólogos dão diagnósticos baseados em interesses econômicos.
ÉPOCA -
Em seu livro, o senhor dá a entender que muitas vezes psicólogos e psiquiatras
exageram em diagnósticos de doenças mentais por questões financeiras e que só
conseguem receber dinheiro dos planos de saúde se disserem que o cliente está
doente. É isso mesmo?
Lou Marinoff -
Nós todos trabalhamos para viver. Até aí tudo bem. Não vou entrar muito em
aspectos econômicos da profissão de cada um. Mas acho que a psicologia e a
psiquiatria definitivamente entraram na área de atuação dos filósofos. Isso é o
resultado da falta de conhecimento filosófico na educação que as pessoas
receberam nos últimos cem anos. Graças a isso, qualquer problema dos seres
humanos tem de ser abordado por um psicólogo. Aí esses profissionais
diagnosticam uma série de questões como se fossem psicológicas. Mas não são.
Esse é um ponto. O outro é que nos Estados Unidos - e eu só posso falar pelos
países que conheço - muitos dos psicólogos querem uma relação longa de
co-dependência com seus pacientes. Para isso, há um motivo econômico. O
paciente se torna emocionalmente dependente do terapeuta e o terapeuta se torna
financeiramente dependente do paciente. Pior que isso é a questão dos seguros.
Nos EUA, essas empresas controlam quase tudo na vida das pessoas. Se você tem
um seguro de saúde e quer ver um psicólogo, a única forma de ele ser pago pelo
convênio é se fizer um diagnóstico qualquer.
ÉPOCA -
Isso vale mais no caso dos psiquiatras?
Marinoff -
Não, estou falando de psicólogos.
ÉPOCA -
Nos Estados Unidos, os planos de saúde cobrem tratamento psicológico?
Marinoff -
Sim, eles cobrem desde que haja o diagnóstico de uma doença. Já existe a
premissa de que todo mundo é doente. Agora, os profissionais estão pressupondo
que todas as pessoas têm uma doença mental. Não se parte de uma premissa dessa!
O que é isso? Somos todos doentes? E isso faz da sociedade uma sociedade doente?
ÉPOCA -
Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre doença e mal-estar e diz que a
filosofia poderia ajudar em casos de mal-estar. Como?
Marinoff -
Em inglês, nós temos um bom jeito de fazer essa contraposição. Para se opor à
palavra disease (doença) eu uso o termo diseasy (neologismo que
significa 'não-à vontade'). Se você tem um problema médico, então, é uma
doença. Mas se você apenas se sente desconfortável, infeliz, não-realizado,
como se alguma coisa não estivesse bem, então, você está passando por uma
situação que não é fácil. Filosofia não ajuda no caso de doenças. Se você tem
um braço quebrado, não vamos consertá-lo. Se tem um problema mental, também
não. Mas a maioria de nós está bem de forma geral, somos funcionais. E a
questão é: o que há de errado em sua vida? Há sempre algo errado. Nesse caso, a
filosofia pode ajudá-lo. Todo mundo tem uma filosofia de vida. Essa é a
questão. Dentro de você, em algum lugar, há um filósofo. Nosso papel como
conselheiros filosóficos é colocá-lo em contato com esse filósofo, para ver que
filosofia está conduzindo sua vida. Aí você talvez consiga conduzir melhor as
coisas.
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''Boa parte
dos problemas no mundo hoje é causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma.
Veja o caso dos fanáticos religiosos''
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ÉPOCA -
Como assim?
Marinoff -
Nós somos governados por muitas forças diferentes. Precisamos comer, beber e
dormir. Temos necessidades biológicas, psicológicas e emocionais, mas também
somos governados por princípios. Acredite ou não, pelo menos algumas pessoas
são guiadas por eles. Esse é o sistema operador, sua filosofia de vida. Isso
precisa de um checkup de tempos em tempos, como todo o resto.
ÉPOCA - O
senhor chama os princípios de uma pessoa de filosofia, isso não seria a moral?
Marinoff -
Desculpe, filosofia inclui moral e ética. Todo mundo as tem. Ou quase todo
mundo. Temos de entender como isso funciona. No passado longínquo, muito antes
das religiões organizadas, os filósofos se perguntavam o que é certo, o que é
bom. Inclui moralidade, inclui também o sentido de sua vida, os valores, o
senso de realização e o que é seu dever. #Q#
ÉPOCA -
Como podemos distinguir entre um problema psicológico, psiquiátrico ou
filosófico?
Marinoff -
O indivíduo tem de tomar essa decisão por si próprio. Se alguma coisa está
errada com você, o que você faz? Tem de buscar ajuda e conselhos, mas algumas
vezes tem de perguntar para mais de uma pessoa. Mesmo quando vai ver um médico,
normalmente, você tem de buscar uma segunda ou uma terceira opinião. Para saber
se você tem de se orientar com um psicólogo, um filósofo, o ideal é conversar
com ambos. Claro que, quando treinamos um conselheiro filosófico, nós temos
critérios rigorosos para estabelecer quais casos devem ser tratados por nós
mesmos, quais devem ser encaminhados para um médico, um psicólogo ou até um
padre. Algumas vezes há áreas cinzentas, questões que podem ser abordadas tanto
por filósofos quanto por psicólogos. Nesses casos, cabe ao indivíduo escolher
quem pode ajudá-lo mais.
ÉPOCA -
Quais são os problemas que mais levam as pessoas a procurar um conselheiro
filosófico?
Marinoff -
Algumas pessoas nos procuram porque querem agir da melhor maneira possível em
uma determinada situação. Questões éticas ou morais. Essa é uma área muito
grande. Outra área é realmente o sentido da vida. As pessoas estão sempre
buscando um sentido para sua vida e nem sempre encontram. Isso não é uma
questão de depressão. É uma questão de realização, o que é um ponto muito
filosófico. Também temos muita gente com problemas de relacionamento. Nos
Estados Unidos o índice de divórcios é muito alto. As pessoas têm problemas de
relacionamento e nem sempre é uma questão psicológica. É uma questão de
compromisso, de dever e de lealdade. Sempre há aspectos filosóficos.
ÉPOCA -
Os filósofos não são, na maioria, pessoas exatamente felizes. Eles são almas
inquietas, cheias de dúvidas, procurando pelo bem, pela verdade. Por que o
senhor acha que a filosofia poderia trazer paz de espírito para alguém?
Marinoff -
É verdade. Mas você não tem de viver infeliz, como Friedrich Nietzsche (filósofo
alemão, autor de Assim Falou Zaratustra, que ficou incapacitado por um
colapso nervoso em 1889), para entender as idéias dele. Você pode aprender
das pessoas e não necessariamente repetir seus erros. Os filósofos entram em
áreas muito escuras da mente, muito duvidosas. Esse é um grande desafio. Eles
são muito corajosos por explorar esses territórios. A maioria das pessoas não
quer isso, quer segurança. Elas querem acreditar em algo certo. Os
questionamentos as deixam nervosas. Mas é só enfrentando nossas dúvidas que
podemos crescer como seres humanos. A maioria das pessoas não precisa
confrontar suas dúvidas 24 horas por dia, como os filósofos. Mas fazer isso uma
vez por semana por uma hora é bom. É preciso abrir um pouco de espaço para
isso. As pessoas não precisam se tornar filósofos, mas acho que elas podem usar
a filosofia para melhorar sua vida. Boa parte dos problemas no mundo hoje é
causada por pessoas que não têm dúvida nenhuma. Veja o caso dos fanáticos
religiosos. Uma pontinha de dúvida pode nos impedir de fazer coisas terríveis.
ÉPOCA -
Fazer o que é certo significa ser mais feliz?
Marinoff -
Sim, no fim, se você fizer o que é certo, você será mais feliz. Mas, se você
quiser realizar qualquer coisa na vida, é preciso esforço. Esse é um problema.
As pessoas estão buscando soluções muito rápidas: 'Eu vou tomar essa pílula e
vou ser feliz'. Isso não funciona sempre. Esse é um ponto em que eu acho que a
filosofia pode ajudar. Se as pessoas têm medo de questionar o que elas
acreditam, se têm medo de fazer o que Sócrates chamava de examinar a vida, elas
vão viver com medo. E, se elas vivem com medo, elas não são felizes. A dúvida é
uma forma de libertação. Mas realmente não é fácil. Justamente por isso, não é
para todo mundo. Não estou dizendo que todo mundo deve tentar um aconselhamento
filosófico. Apenas aquelas pessoas que sentem que devem fazê-lo.
ÉPOCA -
Como funciona a terapia?
Marinoff -
A idéia principal é fazermos um diálogo, como Sócrates ensinava. Algumas vezes,
os clientes querem ler a respeito de um filósofo, e nós indicamos. É realmente
um centro de educação. Não é médico nem psicológico. A pessoa aprende a
descobrir que tipo de filósofo ela é e que tipo de filosofia pode ajudá-la a
melhorar sua vida.
ÉPOCA - O
senhor disse que usa um método socrático de diálogo. Sócrates não dava
respostas, não apontava caminhos. O senhor dá?
Marinoff -
Eu não sou totalmente socrático, isso é verdade. Eu realmente dou algumas
respostas, mas o mais importante é tentar levar o cliente a encontrar as
próprias respostas ou fazer as próprias perguntas. As pessoas nos procuram
porque estão precisando de ajuda. Elas querem algo de nós. Se tenho uma idéia
que acho que pode ajudá-las, é claro que vou sugerir. Mas nós não dizemos o que
elas devem fazer. Se devem mudar de emprego ou acabar um casamento.
ÉPOCA -
O senhor faz uma lista de filósofos preferenciais, batizada de Parada de
Sucessos das Idéias. Karl Marx não está lá. Por quê?
Marinoff -
Porque acho-o prejudicial. E também não uso Marx em meus aconselhamentos. Mas,
se alguém chegar para mim dizendo que é marxista e precisa de ajuda para
ajustar melhor suas idéias a sua vida prática, vou indicar um conselheiro que
trabalhe com Marx. Com certeza, há muitos.
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''Nos EUA,
se você tem um seguro de saúde e quer ver um psicólogo ou psicanalista, a
única forma de ele ser pago pelo serviço é se fizer um diagnóstico qualquer''
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ÉPOCA -
Em seu livro, o senhor fala que o filósofo já teve e já perdeu o papel de
orientador na sociedade. Por quê?
Marinoff -
Em toda a história da humanidade, os filósofos estiveram envolvidos com a vida
pública, tanto civil quanto política. Nos últimos cem anos, a filosofia
desapareceu desse cenário. Em parte, pelo avanço da Ciência. No Ocidente, pelo
menos. A partir do século XIX, as pessoas pensaram que podiam saber tanto a
respeito dos seres humanos quanto de átomos e moléculas. Elas tinham falsas
esperanças. Acharam que podiam ver o homem por uma lente mais científica que
filosófica. É isso que leva a essa idéia de que você pode tomar uma pílula para
resolver qualquer problema. Mas isso não é satisfatório. As pessoas ainda
querem conversar.
ÉPOCA - O
senhor encontra muita resistência a seu trabalho?
Marinoff -
Enorme. Eu estou proibido de dar aconselhamento no campus da universidade onde
ensino (o City College em Nova York). Tudo por causa de pressões de psicólogos,
principalmente. É uma disputa por reserva de mercado de trabalho, uma guerra
por território. Os psicólogos são muito protecionistas. Eles nos sabotam. Têm
muito poder político. Não vão aos tribunais, porque não têm o que alegar. Pela
Constituição, ninguém pode me impedir de conversar. Há algo chamado liberdade
de expressão. Mas nos atacam na imprensa.
ÉPOCA - E
a comunidade filosófica? O que acha de seu trabalho?
Marinoff -
Alguns dizem que isso não é filosofia. Mas há uns 60 anos, quando começaram a
surgir as terapias modernas, os teóricos da área também diziam que aquilo não
era psicologia. E cresce o número de filósofos que se unem a nós, que buscam
treinamento para se tornar um conselheiro.
ÉPOCA -
Seus livros não costumam ser classificados mais como auto-ajuda que como
filosofia?
Marinoff -
Tentaram classificar meus livros como auto-ajuda, mas a maior prova de que isso
não é verdade é que eles não venderam muito bem nos Estados Unidos nem no
Canadá. Venderam melhor na Europa e na América Latina, mercados muito mais
exigentes. Meus livros não são auto-ajuda. São filosofia pop, como Alain de
Bottom, Tom Morris e Christopher Phillips.
Agradeçimentos :

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