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Entrevista com o escritor e educador Marcus Alberto de Mario

 

Marcus Alberto de Mario nasceu em São Paulo, em 1955. Desde a adolescência manteve contato com o Espiritismo, tendo sido levado pela primeira vez a um Centro Espírita por seus pais. Na juventude passou a integrar os quadros da USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Em 1977, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou da fundação da Instituição Espírita Pedro de Camargo e iniciou o seu trabalho como escritor e educador.

Viaja pelo país realizando palestras, treinamentos e seminários. Exerceu a função de Assessor de Comunicação Social Espírita da USEERJ – União das Sociedades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro. É diretor do IBEM – Instituto Brasileiro de Educação Moral e integra o GEPE - Grupo de Estudo e Pesquisa Espírita.

A equipe da Terra Espiritual conversou com Marcus Alberto e abaixo transcrevemos o teor da conversa.

 

TE - Como o senhor conheceu o Espiritismo e quando resolveu tornar-se espírita?

MAM - Posso dizer que venho de berço espírita por parte de minha mãe, que desde a infância teve a manifestação de seus dons mediúnicos e foi encaminhada ao Centro Espírita. Já pré-adolescente comecei a acompanhá-la e ler as obras espíritas que me pareceram lógicas e naturais. Nunca questionei o ensino espírita, pelo contrário o absorvi de imediato. Como meu pai também passou a estudar o Espiritismo e trabalhar no Centro Espírita, tudo ficou em família, com harmonia.

TE - Em que, o fato de ter abraçado o Espiritismo jovem, tornou sua adolescência diferente e influenciou sua personalidade?

MAM - De fato, não posso negar essa influência na formação de meu caráter. Fiz um elo entre minhas tendências naturais, a educação recebida e os conceitos do Espiritismo, moldando desde cedo minha personalidade no campo do trabalho cooperativo, da solidariedade e do amor ao próximo. Lembro-me que sempre era procurado pelos colegas de escola para opinar sobre questões da vida, e todos, sabendo da minha maneira de pensar e agir, respeitavam-me na hora das brincadeiras, o que não impedia que formássemos uma turma unida e cheia de vida.

TE - Qual a importância da família no processo educativo da criança?

MAM - Deus, ao confiar os filhos aos pais dá-lhes uma sagrada missão a cumprir, que é a de, através dos bons exemplos e das seguras orientações, propiciar-lhes a educação moral. Essa competência é dos pais, que devem interagir com a escola e com os grupos sociais em que transitam seus filhos. Socialmente falando, a família é a base da estrutura social humana e se constitui num agente educativo da maior importância. Quando a família falha no processo de desenvolvimento das virtudes dos filhos e transformação de suas más tendências, toda a sociedade humana sofre com essas conseqüências.

TE -  Numa sociedade cada vez mais competitiva, onde os pais passam cada vez menos tempo em casa, como os pais podem contribuir com a educação e o desenvolvimento de seus filhos?

MAM - Os pais devem analisar quais são os seus valores de vida e quais são suas prioridades existenciais, pois a educação dos filhos não pode ser feita de forma virtual, mas presencial. Não serão os filhos mais importantes do que muitas outras ocupações sociais? Assim entendemos que o maior espaço de convivência possível deve ser estruturado, e nesse tempo de interação entre pais e filhos, a qualidade do relacionamento é fundamental. Mesmo porque necessitamos formar uma nova geração que compreenda que a competição deve ser substituída pela cooperação.

TE - Como o senhor avalia o atual modelo educativo existente nas escolas?

MAM - Generalizar uma análise não é o melhor caminho, pois ao lado de um ensino tradicional também encontramos experiências muito positivas, mas é fato que ainda as escolas estão muito preocupadas com a instrução, com a transmissão de conhecimentos e com a formação de competências e habilidades que propiciem o acesso ao ensino superior e a conquista de uma boa e rentável profissão. O trabalho escolar de integração entre o desenvolvimento cognitivo e o emocional, vendo no educando um ser integral, ainda está longe de ser regra geral, mas se os educadores tiverem boa vontade, diante dos avanços pedagógicos e científicos atuais, isso poderá, mais cedo do que se pensa, tornar-se realidade.

TE - O que pode ser feito para aprimorar a educação nas escolas?

MAM - Precisamos introduzir o amor pedagógico, a sensibilização dos sentimentos, o desenvolvimento da espiritualidade do educando, a integração com a família. Tudo isso requer uma mudança na filosofia que rege a educação, que deve ser espiritualizada, e uma nova formação dos educadores, para que compreendam a vida de outra maneira, pois a educação deve dar ao educando ideais nobres, formando seu caráter para que ele caminhe no bem, pensando não apenas em si mesmo, mas também nos outros. Todos aqueles que possuem uma visão espiritualista da vida, e principalmente os espíritas, devem trabalhar para entregar à escola cursos de capacitação, materiais de reflexão, novos conteúdos e atividades educacionais que levem a essa transformação.

TE -  Qual deve ser o perfil do educador?

MAM - O educador deve ser uma pessoa que ama o que faz, que acredita nos bons resultados de seus esforços. Deve ter visão de profundidade e ideais elevados. Deve ser um amigo do educando e uma parceiro dos pais e responsáveis. Deve sentir a escola como uma extensão de si mesmo.

TE - Já existem muitas escolas católicas, protestantes, entre outras. Por que não se vê escolas espíritas?

MAM - Porque o Espiritismo ainda é um desconhecido para os próprios espíritas, que ignoram os ensinos básicos contidos na Codificação e teimam em fazer doutrina ao modo próprio. É comum ainda encontrarmos dirigentes de Centros Espíritas que não leram por completo "O Livro dos Espíritos". É o Espiritismo doutrina de educação e o Centro Espírita deve ser uma escola do espírito e isso está longe da realidade que encontramos. Por falta de visão, de reconhecer a missão que a doutrina deve realizar na transformação moral dos homens, é que não temos a escola espírita, salvando-se raras exceções.

TE - Como nasceu o IBEM e com que objetivo?

MAM - O IBEM - Instituto Brasileiro de Educação Moral é uma organização educacional sem fins lucrativos nascida do desejo de vários companheiros(as) em promover junto às escolas a educação moral, através de um projeto com base espiritualista, onde os princípios da doutrina espírita e o pensamento de Pestalozzi estruturam toda uma gama de processos pedagógicos. O objetivo principal é capacitar os educadores e transformar a escola para que a educação das crianças seja realmente integral.

TE - Qual tem sido a aceitação das pessoas a proposta do IBEM?

MAM - Muito boa. Tenho tido a oportunidade de realizar cursos, oficinas e seminários em escolas públicas e particulares e a interação, o desdobramento do trabalho e os depoimentos não deixam margem para duvidar que o caminho é mesmo o da educação moral. Muitas escolas e secretarias de educação estão utilizando nossa proposta pedagógica, assim como professores, individualmente.

TE - O senhor poderia nos explicar o que é a pedagogia da sensibilidade e em que ela melhora o processo de aprendizado?

MAM - A Pedagogia da Sensibilidade, desenvolvida pelo IBEM, trabalha a teoria e a prática da educação moral e formação do caráter do homem, considerando-o um ser integral - inteligência e sentimento - criado por Deus para um fim superior na vida. Sua base está em três princípios: educação com amor, educação com exemplo e educação com experiência própria. Estuda e desenvolve os valores humanos, promovendo a sensibilização dos sentimentos e a compreensão da vida, fazendo com que o educando tenha atitudes conscientes de valorização de si mesmo e dos outros. Sua aplicação modifica substancialmente o processo ensino-aprendizagem.

TE - Que outras técnicas o senhor utiliza no IBEM?

MAM - Utilizamos técnicas de sensibilização dos sentimentos, vivências de solidariedade, exercícios de vida, práticas de bondade, jogos cooperativos, jogos para estimulação das relações interpessoais e atividades que façam o educando pensar.

TE - Qual o papel da pedagogia dentro da Doutrina Espírita?

MAM - "O Livro dos Espíritos", no parecer de J. Herculano Pires, é o maior  compêndio sobre educação que a humanidade possui e sua estrutura didática revela uma pedagogia incomparável, que vai desde a concepção de Deus até o Espírito puro. A pedagogia sistematiza o conhecimento educacional e dá-lhe direcionamento prático, por isso nossa visão sobre o Espiritismo só será completa quando tivermos um olhar pedagógico sobre a doutrina.

TE - Como o senhor vê o futuro da Doutrina Espírita?

MAM - A tendência natural é que a doutrina espírita seja cada vez mais conhecida e praticada, interagindo com outras religiões no campo da verdade e da ética. Não será, como nos lembra Kardec, a religião do futuro, pois não pretende substituir nenhuma religião existente, mas levará a humanidade à sua transformação moral, paulatina e segura. Hoje a mídia de comunicação já elabora sobre os princípios doutrinários, ensaiando vôos mais altos, e o livro espírita está em todas as livrarias do país. É o progresso natural das idéias.

TE - Quais seus projetos atuais?

MAM - Tenho dezessete livros publicados e estou trabalhando em vários outros projetos literários, além de peças de teatro. Desenvolvo, na área empresarial, consultoria sobre afetividade, convivência e espiritualidade na empresa. E faço planos para o crescimento do IBEM, ao mesmo tempo em que, junto com outros companheiros desenvolvo o Projeto Humanizar através do desdobramento em seminários e oficinas do documento "A Humanização do Centro Espírita".

TE - Pediríamos que deixasse uma mensagem aos nossos leitores.

MAM - Não pode haver pensamento mais grandioso, consolador e ao mesmo tempo estimulador do que a realidade do espírito imortal e a continuidade da vida após a morte. Nossa fé em Deus deve nos impulsionar sempre à frente, porque tudo na vida tem a sua razão de ser, e o amor divino sempre nos acompanha. A vida é educação, pois estamos sendo preparados para as conquistas imperecíveis que as virtudes, e somente elas, podem nos dar. Amemo-nos, compreendamos o próximo e façamos todos os esforços possíveis em nossa auto-educação, ou reforma íntima, para que possamos encontrar a paz e a felicidade, transformando o mundo terreno para todo o sempre.

TE – Obrigado.

 

 

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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