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Espírita desde criança,
o Dr. nubor Orlando Facure é médico, especialista em
neurologia, diretor do Instituto do Cérebro de Campinas, e ex-professor titular
de neurocirurgia da UNICAMP, pesquisador, escritor e expositor espírita.
O Dr. Nubor desenvolve estudos pioneiros aliando a medicina aos conhecimentos espíritas
e tem colhido resultados maravilhos com
este trabalho.
A equipe da Terra
Espiritual teve oportunidade de entrevistá-lo e abaixo transcreve o teor da
conversa.
NOF - Antes de responder às
perguntas dessa entrevista, quero deixar à todos meu endereço na internet, onde
alguns assuntos aqui questionados estão desenvolvidos mais amplamente: www.geocities.com/nubor_facure/
TE - Como
o senhor descobriu o Espiritismo?
NOF - Nasci
em Uberaba numa família católica em 1940 e logo aos 7 anos de idade nossa mãe
nos encaminhou a todos para a Doutrina Espírita. Permitiu-nos, assim, a misericórdia
divina, que fizéssemos companhia aos mais destacados pioneiros espíritas da
nossa querida Uberaba.
Freqüentei
o “Centro Espírita Uberabense” assistindo as aulas de evangelização para
crianças e mais tarde as reuniões do “Centro de Estudos” e as “litero-musicais”
nas noites de sábado. Convivemos aí com inúmeros companheiros de doutrina e
abnegados professores que nos sentimos no dever de reverenciá-los sempre, pelo
muito que nos ensinaram. Creio ter sido um projeto carinhoso da espiritualidade
o privilégio de ter reunido no mesmo “centro espírita” Dr Inácio Ferreira, “seu” Lilito Chaves, Cleber Novais, Manoel Roberto, Carlos Pepe,
Antônio de Paiva, Odilon
Fernandes, Elias Barbosa, Weimar de
Oliveira, D. Maria Modesto, Euritimia Cravo e Marlene Rossi. Todos eles
produziram momentos de história e de esforço pessoal dignos de constar das
páginas mais nobres do Espiritismo.
A
partir dos anos sessenta a cidade passou a acolher o médium Chico Xavier a quem
tivemos o privilégio de conhecer de perto. Meu pai construiu a casinha simples
e o “centro” onde Chico e Waldo Vieira
foram morar nos permitindo, assim, testemunhar momentos inesquecíveis. Minha
mãe, minha irmã e eu iniciamos ali as primeiras aulas de evangelização das
crianças do bairro. Ouvi, algumas vezes,
o Chico, lendo páginas do evangelho na portas dos casebres pobres
que percorríamos na “peregrinação”.
Aquela voz particular nos ressoa até hoje nos ouvidos. Ele sempre apontava os
céus e pronunciava o nome de Jesus quando alguém em desespero lhe perguntava
sobre seus problemas. Acompanhei conversas longas, pela madrugada a fora, na
sala de visitas do Chico. Era ele mesmo a fonte inesgotável de casos curiosos
que ele tinha vivenciado. Freqüentemente, alguém insistia que deveríamos estar
sempre juntos, desfrutando da sua presença, ao que ele ensinava-nos que os
moirões da cerca precisam se distanciar para cumprir sua função. Mesmo que
ligados por arame farpado a lavoura seria mais bem protegida.
TE - Quando
o senhor percebeu que poderia unir os conhecimentos espíritas ao seu trabalho
como médico?
NOF - Para
mim, a ordem a que você se refere foi o inverso. Fui sempre espírita em
primeiro lugar. A Medicina e especialmente a neurologia me serviram de campo de
trabalho e, reverencio a Deus a benção de poder atuar nessa área. Trata-se de
uma especialidade que me aproximou, muito, do mais íntimo e complexo que existe
no ser humano, o cérebro e a mente. Creio que atendi quase duzentos mil
pacientes e realizei perto de sete mil cirurgias neurológicas. Meu maior
empenho foi incluir a existência do espírito tanto em minhas aulas como
professor na UNICAMP, onde lecionei por trinta anos, como no atendimento aos
meus pacientes. Orgulho-me de ter instituído na vida acadêmica brasileira, o
primeiro curso de pós-graduação – Cérebro/Mente, com enfoque nitidamente
espiritualista, que desenvolvemos na Neurologia da UNICAMP nos anos noventa.
TE - Como
é possível distinguir o ponto onde termina o campo da medicina e começa o campo
espiritual?
NOF - Vejo
essa distinção como desnecessária,
prejudicial e arbitrária. Nunca fez parte das minhas preocupações e
transito por esses dois domínios, sintonizado em total harmonia. Procuro
respeitar, sempre, o ponto de vista religioso de todos pacientes. Entretanto,
aprendi, com minha experiência pessoal,
que, haverá sempre lugar para uma palavra bem colocada, chamando a atenção dos
pacientes para considerarem a espiritualidade. É fácil falarmos sobre a
existência da Alma, da imortalidade, das Leis divinas de ação e reação, da força
da oração, da incorruptível justiça de Deus, da presença de Espíritos que nos
acompanham, atraídos por nossa disposição de fazer o bem e o prejuízo de
contrariar os princípios de amor ao próximo que de uma forma ou de outra nos
farão colher suas conseqüências.
TE - O que falta para que
a ciência passe a aceitar as manifestações espirituais?
NOF - O
problema não é da Ciência, mas, dos homens que pensam representa-la. Já temos
comprovações mais do que suficientes. A argumentação científica que comprova a
existência da Alma e suas manifestações fora do cérebro é rotineira em qualquer
centro espírita sério.Os casos de
reencarnação comprovados e descritos na literatura científica, já se
contam aos milhares. As mensagens dos espíritos desencarnados nos trazem
detalhes pessoais irrefutáveis. Os fenômenos de expressão física podem ser
testemunhados a luz do dia e as “cirurgias espirituais” realizadas em nosso
pais desafiam qualquer incrédulo.
Penso, que ainda deve haver um custo moral muito alto,
para que o cientista irredutível, possa abdicar da sua presunção arrogante e se
entregar às verdades que a espiritualidade nos revela. A mudança de paradigma
foi quase sempre traumática na história da humanidade. Muitos foram condenados
por admitirem o heliocentrismo, a explosão da estrelas, as órbitas elípticas
dos astros, a origem comum para homens e animais inferiores, a evolução das
espécies entre tantas outras afirmações que exigiram mudanças de interpretação
do mundo. Admitir a espiritualidade exige, porém, um esforço adicional porque
tende a incluir a própria mudança interior de cada um de nós. Parece que, mesmo
que inconscientemente, nem todos querem assumir esse custo. Ele exige
desprendimento que a maioria não que renunciar.
Tanto essa quanto a questão anterior merecem um adendo.
Já estão em funcionamento alguns movimentos de nível universitário incluindo a
espiritualidade como perspectiva de estudo no meio científico. Essas luzes já
se acenderam, ainda que tenuamente, com mais força no exterior do que em nosso
pais, que se intitula espiritualista por natureza, onde só recentemente
começaram a se esboçar os primeiros passos.
TE - O senhor acredita no
crescimento da chamada neuroteologia?
NOF - Associar
a fé e a espiritualidade aos mecanismos de atividade dos neurônios é uma visão
acanhada de um processo complexo de atuação mente/cérebro. A Teoria inserida na
Doutrina Espírita é muito mais ampla e merece todo nosso esforço para a
compreendermos cada vez melhor. Os estudos da fisiologia cerebral de hoje estão
mesmo produzindo deslumbramentos que a mídia tem pressa em divulgar.
Entretanto, faltam ao neurocientista, conhecimentos fundamentais como a
existência do perispírito e das experiências em múltiplas vidas, que faz da
cada um de nós um mosaico de desigualdades.
TE - Como surgiu a idéia
de criar o Instituto do cérebro e quais os objetivos do instituto?
NOF - Criamos
o Instituto do Cérebro em 1987 a partir de um Congresso realizado por
professores de física, matemática e química
sobre “Mente e Matéria”. Fui convidado para falar sobre “cérebro e
mente”, ficando a partir daí cada vez mais comprometido com o estudo desse
tema. Com um grupo de médicos e psicólogas criamos o Instituto do Cérebro.
Nossa intenção era poder trazer para a prática médica um conceito mais
abrangente do ser humano com a visão holística que se iniciava na época. O que
fizemos de novo, foi incluir a existência do espírito como sinônimo de mente,
para podermos estudá-la como uma entidade organizada e possível de ser
reconhecida por nós.
TE - Que
resultados o senhor vem obtendo no Instituto aliando a medicina e o
conhecimento espiritual?
NOF - Posso
lhes garantir que fomos pioneiros nessa abordagem e hoje colhemos os frutos
saudáveis que essa postura nos permitiu. Já podemos perceber nos dias de hoje,
uma procura espontânea por parte dos próprios pacientes, pela interpretação
transcendente que o espiritismo pode oferecer para as causas do seu sofrimento.
Por outro lado, já destaquei o quanto as Universidades americanas estão
empenhadas na inclusão da espiritualidade na terapia. Devemos lembrar, entretanto,
que temos, no espiritismo, uma interpretação muito mais esclarecedora do que
qualquer outro ambiente científico ou religioso possa propor. Cabe-nos a obrigação
de trabalharmos com afinco para pô-la em prática.
TE - Em que estágio se encontra a
neurologia em relação ao estudo de mediunidade?
NOF - No
ambiente acadêmico são escassos os estudos sobre a mediunidade. Fora do meio
espírita esse tema não é bem visto como objeto de estudo ou pesquisa. Cabe a
nós, médicos espíritas conduzirmos os esforços para produzir trabalhos que
preencham os pré-requisito que a Ciência de hoje exige para aceitar a
publicação das pesquisas. Há anos venho divulgando meus estudos sobre a neurofisiologia
da mediunidade e sei que nenhuma revista médica da ciência oficial aceitaria
meus artigos para publicação. Estou, no momento, com um artigo, que escrevi
sobre o “corpo mental”, já aprovado para publicação em uma revista médica
importante.Tive que dar a ele um enfoque tradicional, evitando qualquer palavra
que denotasse vinculação direta com a Doutrina espírita. Mas, o artigo tem
claros propósitos espiritualistas, quem souber ler vai perceber isso em suas
entrelinhas.
TE - Qual
sua posição com relação ao uso das células-tronco embrionárias? O senhor
considera aborto o seu uso?
NOF - Para
aquelas células que repousam nos frízer dos laboratórios de fertilização há
anos, não me agrada a idéia de que ali a espiritualidade permitiria estarem
confinados uma legião de espíritos que por alguma razão não teriam merecido
reencarnarem.
Minha percepção de renascimento me faz crer que esse
processo não é exclusivamente biológico mas, implica em um contexto de
reencontro espiritual mais complexo.
Faço esses comentários na condição de aprendiz que ainda
não conhece as respostas a questões de tamanha complexidade. Sei que no meio
espírita as opiniões ainda são discordante e não quero contribuir para trazer
mais confusão às mentes dos amigos que possam nos ler nessa entrevista. Penso que
a Espiritualidade está deixando em nossas mãos um dilema de tamanha gravidade,
para aprendermos a buscar com mais empenho as portas do mundo espiritual que
existe ao nosso redor. Quem sabe se essa dúvida martirizante não nos fará
pensar melhor o significado e o valor da vida de cada um de nós.
TE - Falando
em aborto, muitas pessoas defendem o aborto dos fetos anencéfalos. Qual sua
posição à respeito?
NOF - Até
em animais de experimentação nos quais foi retirado todo o cérebro, podemos
perceber que persiste neles toda a atividade automática. Um cão nessas
condições pode caminhar, coçar seu pelo, alimentar-se normalmente quando estimulado.
Não há porque interpretar o anencéfalo como desprovido de vida espiritual. Os
núcleos diencefálicos e o tronco cerebral que persistem no anencéfalo, têm
ligação com o “chacra” coronário estabelecendo um vínculo espiritual significativo.
Reconheço o peso psicológico que essa situação traz à mulher nessa gestação
atípica mas, é menos grave que a angústia da consciência que nos cobrará com a
dúvida de ter assassinado um inocente.
TE - Como o senhor vê o
futuro da relação medicina e espiritualidade?
NOF - Em
diversos centros universitários o caminho já está aberto. Aguardamos progressos
importantes nessa associação. Precisamos, porém, insistir que o paradigma
espírita tem muito mais a ensinar à Medicina do que qualquer outra posição
religiosa ou não e o médico espírita não deve abrir mão do que já conhece.
Devemos tomar muito cuidado para, à pretexto de aceitar e divulgar a espiritualidade
no meio universitário, não sermos coniventes com distorções doutrinárias
inaceitáveis. Adiar o compromisso com a pureza doutrinária já foi motivo de
muito sofrimento na história do nosso passado espiritual.
TE - O
que mudou na sua vida após o Espiritismo?
NOF - Já disse no princípio da entrevista que, minha
estória de vida dentro do espiritismo teve início aos sete anos de idade. Foi
dentro da doutrina que caminhei por toda vida.
TE - Quais seus projetos
atuais?
NOF - Mantermos
em atividade constante todo projeto que desenvolvemos há 17 anos no Instituto
do Cérebro.
TE - Pediríamos para o
senhor deixar uma mensagem para os nossos leitores.
NOF - A
melhor mensagem é a mensagem espírita. O fato de a termos a disposição
para o estudo e a prática que ela
sugere, nos põe na posição de abençoados pela misericórdia divina. TE – Obrigado.
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