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Entrevista com Aristides Barros

 

                A arte de trabalhar com teatro de bonecos faz parte da cultura teatral, mas dentro do movimento espírita ainda é pouco utilizada. Aritisde Barros, ou Tide para os amigos, descobriu a Doutrina Espírita em 1989 e também descobriu o seu talento para ser bonequeiro*. Aliando o Espiritismo ao teatro de bonecos ele divulga a mensagem consoladora através da sua arte encantado pessoas de todas as idades , contagiando-as com o "Riso de Deus" (nome do seu teatro de bonecos) . 

                A equipe da Terra Espiritual encontrou com ele durante o IX Congresso Espírita do Estado do Ceará e o entrevistou. Abaixo segue o teor da conversa:

 

TE - Aristides, O que representa para você este trabalho de divulgação da Doutrina Espírita através do teatro de bonecos?

AB - Para mim o teatro de bonecos possui uma dimensão muito grande porque é uma boa parte da minha vida e eu pretendo levá-la adiante enquanto saúde tiver. Isso falando de um modo apaixonado (risos), mas o teatro de bonecos é na verdade um veículo de divulgação do Espiritismo, do cristianismo e é um excelente veículo, porque atinge da infância até a 3ª idade, atinge os encarnados e os desencarnados, porque o teatro de bonecos exerce uma fascinação na plástica, com os bonecos. Encanta aquele que vê, encanta as crianças e é possível trabalhar o texto para atingir as mais diversas idades e os mais diversos temas, e de uma forma lúdica, de uma forma bem leve. É uma maneira de levar uma mensagem séria, uma mensagem reveladora de uma forma contagiante. Não digo que seja a maneira ideal, ou a melhor, mas é uma maneira. E nós devemos nos cercar de todos os meios possíveis para atender a verdadeira caridade para com o Espiritismo que é divulgá-lo.

O teatro de bonecos, salvo engano, foi a primeira manifestação teatral registrada, então ele acompanha boa parte da história da humanidade. O teatro de bonecos é também uma ferramenta utilizada pelos pedagogos, pois pedagogicamente ele é muito bom, visto que como é uma modalidade de teatro ele imita a vida. As pessoas se vêem ali, principalmente algumas peças, como por exemplo uma que eu apresento que fala sobre drogas, e algumas pessoas que passaram, ou estão passando, por aquele drama que eu mostro através do Zé Pretinho, que é o personagem, se enxergam no boneco. Então eu vejo este canal como de suma importância, uma ferramenta que vai ser boa ou má de acordo com a maneira que for utilizada.

Hoje, infelizmente, o teatro de bonecos é pouco trabalhado, pouco explorado na arte espírita e eu digo isto porque não tenho conhecimento de outro artista de bonecos espírita, que trabalho com temática espírita, pelos menos aqui no Ceará,

TE - E como nasceu essa idéia de desenvolver este trabalho com bonecos?

AB - Ah! Agora você foi buscar uma lembrança boa. Logo que eu conheci o Espiritismo, que foi no Centro Espírita João Evangelista, tinha uma equipe neste centro que dava assistência a um outro centro espírita chamado Maria de Nazaré, na Pavuna, uma localidade próxima de Fortaleza, e eu fui convidado para integrar esta equipe e eu fui. Lá existiam muitas crianças e nós íamos realizar uma festinha, se não me engano era a festa das crianças, e ninguém sabia o que fazer, mas eu lembrei que no colégio onde estudei, o Colégio Redentorista, existiam uns fantoches, porque era um colégio católico, administrado por padres e a Igreja Católica, principalmente os Jesuítas, eles catequizaram muito com o teatro de bonecos, isto é marcante na História da catequização indígena no Brasil. E os bonecos foram utilizados para contas histórias do Evangelho, histórias do Cristo. Então o colégio tinha fantoches porque a pedagogia deles utiliza este recurso com as crianças e eu pedi alguns emprestados e lá fomos nós para a festa das crianças. A princípio éramos três, chegamos no local, ficamos num cantinho, estendemos um lençol e ficamos os três espremidos movimentando os bonecos sem a menor noção de como as coisas funcionavam. Bolamos uma estorinha e a coisa aconteceu. Isto foi em 1989 e de lá para cá virou vício (risos) ou virtude, virou paixão e eu não baixei mais, ou seja, depois que levantei os bonecos eu não os baixei mais. Continuo e procuro me aprimorar, pois ainda tenho muito que aprender no mundo do teatro de bonecos. Eu me especializei muito na arte dos fantoches, dos bonecos de luva, que é o que eu gosto.

Depois desta primeira experiência na Pavuna, resolvemos montar um grupo de teatro de bonecos. Combinamos que faríamos apresentações em aniversários e o dinheiro que arrecadássemos daríamos para a evangelização. Então montamos o grupo Pé de Meia, mas com o tempo cada um foi se ocupando, viajando, trabalhando, cuidando de outras coisas e o grupo se desfez. Mas eu continuei e como eu tinha que me virar sozinho, tive que aprender a movimentar as peças só. Eu tive que me esforçar, aprender algumas técnicas, fui assistir aos profissionais, pois até então, apesar de já trabalhar com bonecos há algum tempo, eu nunca tinha assistido a nenhum teatro de bonecos na minha vida. E graças a Deus e ao apoio muito grande da Providência Divina tudo tem dado certo.

TE – Como é a receptividade do público espírita?

AB – È um público muito bom, muito fácil de se cativar, é um público muito aberto e é um público muito inteligente. As piadas que colocamos, por mais sutis, ele captam e até as crianças compreendem. Mas para isso existe todo um trabalho de interpretação, pois algumas pessoas vêem o boneco se mexendo e acham que o bonequeiro* está parado só movendo as mãos, mas não é assim. É preciso vivenciar a cena. Se o boneco chora o bonequeiro está chorando porque o boneco tem a sua face fixa. Os bonecos, principalmente os que eu utilizo que são de papel marche, tem o semblante fixo, porém durante a peça o público jura que ele está rindo, ou chorando, de acordo com o que o artista de boneco, o bonequeiro faz. Então não dá para ficar igual a uma estátua lá dentro. É uma diversão para mim, é um aterapia, é muito bom. No teatro de bonecos eu canto, eu danço, eu rio e eu choro.

TE – O que representa na sua vida a Doutrina Espírita?

AB – Para mim é como um farol a iluminar o que eu me propus a fazer antes de reencarnar. A Doutrina Espírita é o farol que ilumina o caminho que eu quero pisar. É a minha orientadora maior e me fez ver o valor real do cristianismo, fez me enxergar que apesar dos meus defeitos eu posso me trabalhar, aperfeiçoar-me e que eu posso encontrar a minha felicidade trabalhando pela felicidade dos outros. Então, atuar no teatro de bonecos, na Doutrina Espírita para mim é maravilhoso, porque s”ao as minhas duas grandes paixões.

A Doutrina Espírita trás a sua concepção de Deus de uma forma tão bela que dá o riso as pessoas, e no trabalho com bonecos no teatro de bonecos “Riso de deus”, que já se chamou Pé-de-Meia, já se chamou Vaga-Lume eu tenho o cuidado, de mesmo quando não estou me apresentando no meio espírita, de não atingir, não ferir a Doutrina Espírita, para que o meu trabalho não negue a Doutrina Espírita.

E hoje , graças a Deus, tenho a felicidade de ter este trabalho no teatro de bonecos, dentro da Doutrina Espírita, e aliado a isso os amigos que eu encontrei, a minha família maravilhosa e a minha filha, que tem 7 anos já me ajuda, já quer fazer bonecos também.

TE - Como é o equilíbrio entre o trabalho e a família?

AB – Em tudo que a gente faz na vida, voltado par ao bem, o apoio da família, com certeza,  dá mais força ao trabalho, dá mais estrutura. No  lar maravilhoso onde vivo, somos todos espíritas e isto facilita muito porque nós espíritas temos o dever de trabalhar bastante. Então, quando preciso viajar para fazer alguma apresentação ou para fazer um seminário e minha esposa não pode acompanhar, ou vice-versa, o outro compreende porque sabe que é para a Doutrina Espírita. A minha filha está na evangelização, recebendo a sua educação espírita, então ela sabe que nós estamos envolvidos em alguma atividade espírita e isso facilita, não que não existam dificuldades, mas facilita muito, porque o lar espírita é um lar que tem Jesus no centro, e onde está o Cristo tudo corre bem.

TE – Pediríamos que você deixasse a sua mensagem final

AB – A mensagem que quero deixar não é minha, eu tirei da Doutrina Espírita, é o serviço no bem, mesmo com nossos defeitos, com os erros que a gente cometeu ou venha a cometer, nunca abandone o serviço no bem. Onde quer que esteja, persista! Sou um cara que errou muito, erro ainda, mas eu pretendo continuar, porque é trabalhando, é estudando, é vivendo que a gente vai se aprimorando. E eu desejo a todos que estão lendo esta entrevista que todos os dias de suas vidas vocês tenham,pelo menos, um momento para darem um riso de Deus.

 

TE – Obrigado.

 

* Bonequeiro: Expressão do Ceará que representa a pessoa encrenqueira e também é usada para se referir ao profissional que trabalho no teatro de bonecos.

 

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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