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Entrevista com Paulo da Silva Neto Sobrinho

 

                     Bacharel em ciências contábeis e administração de empresas, funcionário público aposentado e militando no movimento Espírita desde 1987, Paulo da Silva Neto Sobrinho, autor do livro A Bíblia à Moda da Casa, é um expositor experiente e colaborador de várias instituições espíritas, além de escrever artigos para vários sites, inclusive para a Terra Espiritual, contribuindo assim para a disseminação do conhecimento espírita.

Entrevistado pela Terra Espiritual, Paulo Neto falou sobre vário temas ligados ao Espiritismo. Abaixo reproduzimos sua opiniões:

 

TE - Por que o senhor resolveu ser espírita?

PN -  Por volta de meados de 1986, uma pessoa do meu relacionamento sentia insuportáveis dores de cabeça, recomendaram-lhe que fosse a um centro de umbanda. A essa época nós dois não tínhamos o menor conhecimento de qualquer filosofia que praticasse o mediunismo e por não sabermos é que acabamos por bater à porta de uma Casa "Kardecista".

Identificada a causa do problema como sendo de origem espiritual proveniente de espíritos vingativos. Daí marcaram um dia específico para se realizar uma reunião de desobsessão especificamente para ela. Nessa reunião de tratamento além dos médiuns participaram a paciente e eu.

Da platéia comecei a observar as manifestações, as conseqüentes orientações e pensei: o que esse pessoal ganha se isso tudo for uma encenação ou que não exista de fato os espíritos? Será que sem público isso teria algum sentido? Não teriam algo mais importante para fazerem do que ficar aqui uns fingindo receber espírito outro conversando com ele? Não vendo sentido algum nisso, tive que concluir que a coisa era realmente séria.

Passei, então, a estudar os livros da codificação e neles encontrei respostas para indagações íntimas que vieram a ajudar-me na compreensão de tanta dor e sofrimento nesse mundo. Os argumentos lógicos, o incentivo ao questionamento e o é proibido proibir foram os fatores importantes que me levou a resolver ser um Espírita.

TE - O Espiritismo é uma religião?

PN - Num estudo que fiz buscando a resposta a essa questão, percebi que pelas obras básicas se pode perfeitamente chegar à conclusão que sim, ou seja, o Espiritismo é uma religião. Quando foi revelado a Kardec a respeito de sua missão (30.04.1856), o espírito manifestante, diz: "... Não haverá mais religião, e dela será necessária uma, mais verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Os seus primeiros fundamentos já estão colocados... Tu, Rivail, a tua missão aí está..." (OP, IDE, pág. 267).

O próprio Kardec diz isso claramente no discurso perante a Sociedade Espírita de Paris, em 01.11.1862, em comemoração do dias dos mortos.

O que percebi foi que a idéia inicial de levá-lo à conta de uma ciência foi algo deliberado, cumprindo programação dos espíritos superiores, que necessitando que o Espiritismo germinasse disse ser ele uma ciência, não uma religião. Isso foi feito primeiro, para atrair os intelectuais e segundo, para não ser abortado, pois fatalmente era o que aconteceria se viesse como uma nova religião.

Isso não quer dizer que não reconheça o valor do aspecto científico do Espiritismo. Mas como numa casa a base apesar de ser de fundamental importância na sua construção, após o término da obra é o que não é visto.

TE - No seu livro A Bíblia à moda da casa, o senhor faz um estudo profundo sobre o texto bíblico. Como devemos interpretar a Bíblia?

PN - A visão que tenho hoje da Bíblia é completamente diversa da que tinha antes de iniciar meus estudos. Embora muitos ainda a querem ver como um livro cheio de simbolismo, do qual se deve tirar o significado, percebi que a realidade é bem diferente. É um livro que narra a história político-religiosa do povo hebreu. Suas páginas estão eivadas de superstições, lendas, mitologias e coisas impossíveis de acontecer perante as leis naturais, ou seja, seus autores colocaram a visão que tinham dos fatos. Poucas coisas se poderia atribuir a uma revelação divina, no Antigo Testamento, por exemplo, talvez só sobrariam os Dez Mandamentos, enquanto que no Novo Testamento somente os ensinamentos de Jesus sintetizados no Sermão da Montanha (Mt 5, 6 e 7). Apesar de todo o respeito que se deve dar a ela, isso não a coloca como "inerrante", como dizem por aí.

Poder-se-ia até, para salvar alguns textos, buscar um simbolismo, como por exemplo, no caso de Adão e Eva como o primeiro casal humano, entretanto, conforme pude observar os autores bíblicos não tiveram essa intenção, apenas registraram o que acham como acontecido ou do que ouviram a respeito do assunto.

TE - A Bíblia condena o Espiritismo?

PN - Essa frase é dita de modo afirmativo pelas outras correntes religiosas, entretanto, qualquer pessoa de bom senso poderá observar que não há nenhuma condenação, até mesmo porque o Espiritismo só surgiu em 18.04.1857, não podendo por esse motivo estar proibido num livro escrito a cerca de 1.700 anos antes. Estudiosos do hebraico, como Severino Celestino, nos diz que essa palavra também não existe nessa língua.

Mas infelizmente algumas traduções da Bíblia aparecem os termos Espiritismo, Espírita e Médium, neologismos criados por Kardec em 1857, fato que inegavelmente  leva a se concluir que vergonhosamente adulteraram os textos bíblicos, forçando, dessa forma, a suposta condenação do Espiritismo.

Entretanto, deve-se reconhecer que existe sim a proibição de evocar os mortos, mas somente para fins de adivinhação, significado da palavra necromancia, coisa que com certeza nós os espíritas não fazemos, daí não se aplicar ao Espiritismo. Percebendo que utilizavam a comunicação dos mortos para esse fim foi que Moisés resolveu proibi-la. Aliado esse abuso, outro fator importante influiu nessa decisão de Moisés é que consideravam os seres espirituais como se fossem deuses. A necessidade de se implantar a idéia de um Deus único, justifica a proibição que visava eliminar a concorrência entre os vários deuses e o Deus único.

Penso que se fosse realmente algo proibido por Deus Jesus não teria conversado com os espíritos Moisés e Elias, junto ao monte Tabor, já que com isso estaria infringindo uma legislação divina. A meu ver, esse fato, dá-nos plena liberdade de conversar com os mortos, já que Jesus ao fazer isso liberou implicitamente a proibição de Moisés.

TE - Qual deve ser a postura do espírita em relação a membros de outras escolas do pensamento religioso que criticam a Doutrina Espírita?

PN - A minha posição pessoal em relação aos que atacam a Doutrina Espírita é que se deveria refutar todos os ataques, óbvio que alguns não merecem ser comentados, deixando clara a posição do Espiritismo. Entretanto, deve-se evitar cair em argumentos de baixo nível, se igualando aos que atacam como se vê principalmente na Internet.

Vou mais longe, pois acho que esse deveria ser o posicionamento dos órgãos representativos do Movimento Espírita, deveriam eles, com muito mais competência, fazer os contra-argumentos.

Dentro de minhas possibilidades tenho feito isso. Muitas pessoas estranham, pensando que estou querendo converter esse ou aquele detrator. O meu alvo não é exatamente o contraditor, mas o público que possa ler os argumentos e daí tirar suas próprias conclusões. Graças a Deus, que tenho tido resposta positiva quanto a isso.

TE - Atualmente, os livros ainda são o principal meio de divulgação do pensamento espírita. Num país onde poucos têm acesso a leitura, o livro é o melhor meio de divulgar o Espiritismo?

PN - Com certeza penso que o livro não é o melhor meio de divulgação, pois é restrito a uma camada da população. Os que não sabem ler, os "mobralizados", os de rendimentos que mal dá para a subsistência como iriam ter acesso ao livro? O melhor meio é promover a divulgação através dos meios de comunicação em massa: rádio e TV, já que por esse meio ocorrerá quase uma universalização da divulgação. Mas apesar dos esforços de alguns, o Movimento Espírita ainda não se conscientizou disso. E, aqui se me permitem, quero dar os parabéns ao Aluney Elferr, ao Alamar Régis e a FEAL pelo desejo de levar adiante essa idéia, mesmo sem o apoio que todos nós espíritas deveríamos dar-lhes.

TE - Como o senhor vê iniciativas de divulgação através de outras mídias como a Rede Visão e a Rede Boa Nova?

PN - Como já antecipei a resposta, apenas poderia sugerir que as pessoas formadoras de opinião do Movimento Espírita poderiam muito bem adotar essa idéia e ajudar a Rede Visão e a Rede Boa Nova a consolidar definitivamente o projeto de divulgação do Espiritismo, todos nós sairíamos ganhando. Acredito que a padronização de determinados procedimentos adotados nas Casas Espíritas ajudaria na unificação de maneira natural como fruto desse projeto de divulgação. Fico a imaginar se um desses autores famosos do Movimento doasse integralmente a renda de um livro a um projeto como esse viabilizaria a consolidação do projeto tão importante como esse.

TE - O Brasil possui vários colégios católicos e protestantes. O senhor não acha que deveríamos ter também colégios espíritas?

PN - Poderia ser algo de interessantíssimo, já que a proposta Espírita de Educação é mais abrangente que as que se encontram por aí. Buscando formar o homem cultural e moralmente, pode um colégio Espírita trazer uma contribuição considerável ao modelo educacional vigente. Entretanto, nunca se deverá fazer deles fonte de proselitismo.

TE - Dentro do movimento espírita existem algumas ramificações, temos os que defendem a pureza doutrinária, outros que defendem o pensamento de Roustang, entre outros. Como o senhor vê essas vertentes? A Unificação do movimento espírita é uma necessidade?

PN - Enquanto houver respeito mutuo não haverá problema algum. Não é bom para o Movimento quando essas vertentes quiserem se impor umas às outras. Nunca se poderia deixar de levar em consideração que: "os meus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem".

TE - Na sua visão, quais são as perspectivas do movimento espírita no Brasil e no mundo?

PN - Li num livro, cujo título não me vem à memória, algo mais ou menos assim: "As idéias novas vão se infiltrando na cultura, não porque sejam verdadeiras, mas por que os opositores vão gradativamente morrendo e as novas gerações que surgem já não terão resistência a essas idéias por ter convivido com elas.". Assim, acho que é o que acontecerá com o Espiritismo, Ouso até afirmar que em pequena escala isso já está ocorrendo. A força maior do Espiritismo é que não fere a lógica e à razão, por isso vem cada vez mais conquistando adeptos, principalmente entre as pessoas mais instruídas.

TE - Quais os principais obstáculos a vencer no trabalho de expansão do Espiritismo?

PN - O principal obstáculo, a meu ver, é a ignorância popular a respeito do que é verdadeiramente o Espiritismo. Tirar as idéias já incutidas de que o que fazemos é proibido por Deus ou que somos partidários de satanás é o maior desafio atual. Não seria difícil mudar isso em tempo relativamente curto, mas como não apoiamos nenhum projeto de divulgação Espírita nos meios de comunicação de massa a coisa irá caminhar muito lentamente.

TE -
Para aqueles que desejam conhecer mais sobre a Doutrina Espírita que livros o senhor recomendaria?

PN - Não há como fugir: os que compõem as obras básicas. Entretanto, entre elas incluiria a Revista Espírita (de 1858 a 1863) órgão pelo qual Kardec expunha antecipadamente suas idéias. É nelas que, por exemplo, vamos encontrar o Kardec que fazia questão de refutar os ataques dos contraditores do Espiritismo.

TE - Pediríamos que você deixasse uma mensagem final aos leitores.

PN - Gostaria não de deixar propriamente uma mensagem final mas fazer um apelo. Quero apelar a todos os Espíritas que se identificam completamente com os princípios da Doutrina Espírita e que por esse motivo pensam que eles possam ser úteis a outras pessoas que se unam em apoio aos projetos de divulgação Espírita nos meios de comunicação de massa.

Agradeço a Terra Espiritual essa oportunidade de poder expressar o que penso.

E rogo a Jesus que possa iluminar o caminho de todos nós, para que possamos colocar espontaneamente os princípios da Doutrina Espírita em nossas ações diárias, já que eles nada mais são que os ensinamentos de Jesus de maneira clara, que fica até difícil protestarmos ignorância como justificativa em não aplicá-los.

TE - Obrigado.

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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