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Entrevista com Sérgio Luis Alves de Sousa

 

                     Advogado e funcionário público, o médium Sérgio Luis Alves de Sousa estuda a Doutrina Espírita há 21 anos, tendo neste período encabeçado importantes iniciativas dentro do movimento cearense. Expositor e evangelizador, Sérgio Luis já publicou três livros psicografados, entando o seu último "Sempre há uma Luz" entre os mais vendidos da sua editora.

Entrevistado pela Terra Espiritual, Sérgio Luis falou um pouco da sua trajetória e compartilhou seus pontos de vista que reproduzimos abaixo:

 

TE - Como você começou na Doutrina Espírita?

SL -  Acredito que a Doutrina já estava inserida em meu contexto psicológico, desde pequeno. Tanto é que, mesmo crescendo em família católica, não conseguia aceitar os “mistérios da fé”, dogmas e preceitos da religião originária. Estudando em colégio de padres salesianos, uma vez fui expulso de sala, por questionar e mesmo discordar dos professores, nas aulas de religião. Obter a cura para minha esposa, à época, acometida por sério problema ginecológico, foi o estopim que nos conduziu a procurar os préstimos das curas espirituais, então realizadas pelo saudoso Edson Queiroz. O médium atuava com o espírito Adolf Fritz. As cirurgias se dariam no Centro Espírita Amor ao Próximo (Messejana), dirigido pelo Cel. Edynardo e sua esposa Maria Assunção Costa Weyne. Como Edson Queiroz partira antes, decidimos conhecer a Doutrina Espírita a convite do casal Weyne. Lá, estudamos os primórdios basilares dessa maravilhosa codificação e permanecemos por dez anos, nos dividindo nas diversas tarefas da casa, inclusive a mediúnica.

TE - Como surgiu seu primeiro livro?

SL - Nunca esteve em meus planos, como aprendiz da mediunidade, escrever livros, principalmente psicografados. Há um chavão fluente no meio Espírita:
“quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece”. Muito embora não me
sentisse pronto, creio que o primeiro livro surgiu quando a Espiritualidade julgou que estivesse suscetível ou predisposto a recebê-lo. No ano de 1987, surgiu um primeiro trabalho: “Em busca do eterno amor”, resultado de lento e gradual processo de amadurecimento, em anos de aquisição de conhecimentos, fortalecimento emocional (adquirido nos trabalhos assistenciais), calhamaços de mensagens escritas por sofredores (na prática mediúnica), bem como o lapidar constante do cinzel da própria vida. O livro inicial não veio por méritos, ou porque fosse alguém especial,  possuidor de dons fantásticos. Mais prudente seria afirmar: “por compromissos”. A mediunidade, como ferramenta de trabalho, tem propósitos de educar, burilar e auxiliar no resgate de pretérito indelével, reajustando-nos perante desafetos, não só do próprio médium, como também de terceiros (encarnados ou não), que podem ser beneficiados pela incessante prática do bem à serviço do Cristo redivivo.

TE - Na sua opinião, por que a produção de livros espíritas no Ceará ainda é tão pequena?

SL - Apesar de ser o berço do nobiliárquico Bezerra de Menezes, hoje na pátria espiritual, a “terra da Luz” caminhou a passos de quelônios durante muitos anos, não só em termos de livros espíritas. Vislumbro que, devido a um temor esculpido por questões religiosas e culturais, valorizando sempre o que vem de fora, tenhamos estagnado no tempo, preferindo as lembranças deixadas pelos precursores, esquecendo que os mesmos, enfrentando detratores e opositores, conseguiram levar adiante a bandeira doutrinária. Outrossim, optamos por absorver a cultura: “o que é de fora é melhor”, sem que tomássemos nas mãos o arado. Desse modo, seguimos passos de terceiros, não sendo capazes de caminhar sem “muletas”. Sem intenção de preterir escritores de livros doutrinários, históricos ou de crônicas, conforme dados obtidos pelo Centro de Documentação Espírita do Ceará, fundado por valorosos pares, antes de “Em Busca do Eterno Amor”, só tivemos uma única produção mediúnica, nos anos 50, lançada somente em 1986, intitulada: “Almas Errantes”. Certamente a Espiritualidade já tentou investidas perante médiuns que, por não estarem se conectarem aos propósitos ou não se julgarem aptos, resolveram deixar verdadeiras obras às traças, bolor e poeira das gavetas. Nos resta ousar nesse e noutros terrenos. Alegar ‘humildade’ para não divulgar a Doutrina, equiparará qualquer obreiro que se diz Espírita, à enxada recostada na parede, na qual, com o passar do tempo, inevitavelmente, brotará ferrugem e desagregação. Divulgar é preciso! Coragem, ousadia e perseverança, também! Saindo do lado puramente individual, atendo-se ao aspecto corporativo, o movimento Espírita ainda caminha dividido em blocos. No mais das vezes, não se encontra apoio, divulgação e incentivo, a não ser que o trabalhador seja bastante conhecido dos centros de decisão.

TE - Que orientações você dá a quem deseja publicar um livro espírita pela primeira vez?

SL - Munir-se de precaução para fazer uma auto-análise das obras que produz ou recebe dos espíritos. As editoras têm uma linha editorial. Se um livro não estiver condizente com o modus operandi, certamente será descartado. Agir com prudência, solicitando às pessoas mais abalizadas e próximas,  para lerem o boneco do livro, elaborando seus pareceres. Se um livro não puder ser aceito pelos que estão mais próximos, que se dirá da massa? Ouvir críticas é importantíssimo! Nem todo relato dos espíritos pode ou deve ser publicado. Vejamos se os escritos têm cunho moral, coletivo e generalizado. Se o médium tem pretensões de receber valores referentes a direitos autorais, para aplicá-los em obras assistenciais, deve procurar uma editora que ainda admita tal possibilidade. Além de raros os editores honestos, alguns não pagam na mesma medida que vendem. Há um consenso atual entre os produtores de livros Espíritas: o de reter todos os direitos autorais, sob o pretexto de elevados custos de produção, de que as obras não pertencem aos médiuns e seria uma afronta ao princípio da humildade lhes entregar valores. No mais das vezes, fornecem uma centena de livros que, se o médium não for palestrante ou não peregrinar casas espíritas para tentar vendê-los em consignação, certamente serão os mesmos pratos suculentos para traças. O médium deve preparar-se para o descrédito, descaso, discriminação, dificuldades (os DDD’s) e, sobretudo, sugiro fugir às léguas daqueles que o bajulam, pois, muitas vezes, são comentários revestidos de desdém ou inveja. Produzir livros espíritas, requererá dos pretendentes a escritores o galgar de verdadeiro calvário, além de exigir-lhe segurança, honestidade, conhecimentos e bons propósitos. Que o façam de cabeça erguida, consciente de cumprirem o dever e a pequena tarefa que abraçaram, lembrando sempre que o Mestre Galileu suportou muito mais em sua espinhosa missão.

TE - Atualmente tanto os livros, como os eventos espíritas, devido aos preços, estão ficando pouco acessíveis às camadas menos favorecidas financeiramente. O Espiritismo está se elitizando?

SL - Não creio! As pessoas é que estão elitizando o Espiritismo! Está provado ser possível editar livros com baixo custo de produção e obter lucro para continuidade das atividades editoriais. Infelizmente, o mercantilismo às portas dos templos ainda existe! Está provado que, uma edição de 5.000 volumes, por exemplo, se paga, automaticamente, com a venda de 1.000 ou 1.500. O resto é lucro que vai só para os editores. Quanto aos eventos podem ser igualmente realizados com baixa carga de custos. A questão é que, para realizar certames Espíritas adotou-se conduta de trazer expositores de outros estados, sob o pretexto de que isso aglomerará mais fiéis. Detecto uma imprecisão nessa política de atrações. Quem deseja realmente conhecer a Doutrina Espírita vai às palestras, recorre aos livros e procura se engajar em atividades benemerentes. Os Centros Espíritas precisam de trabalhadores seguros e conhecedores da Doutrina, aumentando a carga de reuniões doutrinárias, de estudo e prática do evangelho. O que se gasta em congressos vultuosos, alugueres, passagens, transporte, hotéis e alimentação, poder-se-ia aplicar na divulgação dos valores da casa, na aquisição de livros para doar a quem não pode comprar, reverter as lautas mesas dos eventos em quilos de alimentos a necessitados e assistidos etc. Aliás, já tive oportunidade de ouvir lamentos de pessoas simples que se acanham a entrar numa casa Espírita, por vergonha de suas parcas condições financeiras ou de apresentação. Um programa de incentivo aos mais necessitados, no sentido de doar livros usados ou mesmo adquirir e repassar livros novos a quem não pode pagá-los, seria bem vindo. Decerto que, no hodierno, as condições materiais são outras, mas é preciso recordar que Jesus não tinha, senão, o relento para ministrar suas palestras, o exemplo para cativar corações e as palavras para pescar almas.

TE - Além do trabalho literário, que outras atividades você desenvolve dentro do movimento espírita?

SL - Me recolho à atividade mediúnica no Grupo Espírita Horizonte da Vida. Por outro lado, juntamente com outras companheiras de ideal, mantemos um simplório trabalho no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, mantido pelo Lar Antônio de Pádua, situado na desvalida comunidade da Pavuna (Serra de Aratanha). Lá, assistimos entre 15 a 20 jovens, numa experiência que gira em torno de vivências, ressaltando os valores humanos, respeito mútuo, solidariedade, convivência, perdão e harmonia, sempre pautada no Evangelho de Jesus. Além disso, quando convidado, ministro palestras públicas dentro e fora de centros espíritas. recentemente, fui convidado para atuar junto à Pastoral do Menor, o que me foi grata surpresa. “O Espiritismo não será a religião do futuro, mas o futuro das religiões (L. Denis)”.

TE - Quais as contribuições e desafios que o Espiritismo trouxe à sua vida?

SL - Fui conduzido a encarar-me diante do espelho da vida, e nele pude avistar-me como ser humano eterno, imperfeito e falível. Possibilitou-me recursos para continuar na árdua jornada da batalha moral contra meus próprios defeitos e vícios, que são meus maiores desafios, nesta e nas existências posteriores.

TE - Nos livros que você psicografa, a fé, o amor e a esperança são temas constantes. Você acha que essas são as maiores carências da humanidade atualmente?

SL - Perfeitamente! Se assim não o fosse, a Espiritualidade não rebateria nessas teclas como o tem feito ao longo dos séculos. Contudo, hei de reconhecer que também carecemos de conhecer. Por que? A ignorância nos tem conduzido a desmandos terríveis, bem como provocado incontáveis males ao psiquismo da humanidade, enquanto aldeia global. Sempre estive à cata de conhecer o desconhecido, o aparentemente absurdo, imponderável ou mesmo “sobrenatural”, buscando-lhes a origem, a causa, a razão. Por isso as pessoas sentem falta de conhecimento. Têm fé “por ouvir dizer” e não sabem a razão de suas crenças, nem questionam os “porquês”. Se as pessoas se permitissem conhecer e analisar as atuais conjunturas científicas, filosóficas e transcendentais, certamente, não teríamos guerras fratricidas em nome da fé, não proliferariam o desamor e a ausência de esperança.

TE - No livro "Sempre há uma Luz" vemos o caso de Ruggeri Rubens, que desencarnou pela AIDS. O que você poderia nos dizer sobre o impacto que os excessos na área do sexo causam ao espírito?

SL - A sexualidade reflete a intensa força criadora da qual somos possuidores. Nos possibilita estarmos aqui, momentaneamente, habitando um corpo que recebe toda nossa carga psicossomática. Energia benéfica, se pautada em bons sentimentos e afeições puras. Grilhão poderoso que nos acrisola em amargas reencarnações de reparação, se a utilizarmos desmedidamente. O sexo tem sido encarado pela humanidade como diversão abjeta, pautada no simples prazer do orgasmo físico e na conquista de múltiplos parceiros. Como em tudo que nos cerca, toda transgressão abusiva é seguida de reflexos que nos desorganizam a estrutura fisio-psíquica, gerando miasmas, doenças e cristalizações deletérias, que retornam à origem, ou seja, a nós.  Grassam, na psicosfera do planeta inúmeras formas-pensamentos oriundas dos mais variados excessos, não só no campo da sexualidade, mas em todas as áreas do comportamento humano. Essa a razão do surgimento das enigmáticas viroses, do reaparecimento de antigas doenças, criações nossas; afinal, pensamento é energia criadora em ação.

TE - Agora em abril, se ainda estivesse encarnado, Chico Xavier estaria completando mais um aniversário. Como você vê o movimento espírita brasileiro sem a presença física do Chico?

SL - Ainda há uma tendência bem humana de endeusamento das criaturas. Chico Xavier é, e continuará sendo, um ícone moral notável que aportou em nosso mundo, mostrando-nos que somos capazes de superar nossas vicissitudes e imperfeições, nos colocando a serviço da melhoria do planeta. Não só os Espíritas, como os milhões de católicos, protestantes, budistas, umbandistas etc, que a ele recorreram nas frias noites de Uberaba, sentiram-se um tanto órfãos com sua partida. Graças à misericórdia divina, a fase do ‘chorar’ passará, cedo ou tarde, e dará lugar ao reconhecimento que deveremos continuar a jornada, nos espelhando na incomparável obra moral, científica e filosófica deixada pelos espíritos através de sua incomparável mediunidade. Nos conscientizaremos, por fim, acerca da revolução individual que cabe a cada um promover: vencer a si mesmo!

TE - Por que ainda encontramos tanta desunião dentro do movimento espírita?

SL - Individualismo, segregação, egoísmo, vaidade, inveja... Isso existe? Claro que sim! Não é o fato de sermos Espíritas que nos torna santificados de momento a outro. É preciso reconhecer que, como qualquer ser humano, os Espíritas têm defeitos e lhes recai maior parcela de responsabilidade na busca da alteridade, dentro e fora da casa Espírita. Sempre ressalto nas palestras: ser Espírita não é estar limitado às paredes de um centro. Enquanto existirem sentimentos antagônicos, partidarismos e ideologias pessoais ou grupais, a casa Espírita será como qualquer lugar da terra, prevalecendo discórdias, separatismos e desvirtuamento do real sentido da doutrina: “Amai-vos!” É lamentável a desunião, mas faz parte do processo de depuração natural do joio e do trigo. Aqueles que não são munidos de boa vontade, despojamento, perseverança e sentimento fraterno, visando somente promoção e proveito pessoal, logo se desvanecerão de suas intenções malsãs, vítimas de suas próprias armadilhas.  Restarão os que “foram chamados” e se mostraram “escolhidos”.

TE - Quais seus projetos atuais?

SL - No campo espiritual, estar predisposto à captação de novas mensagens dos pacificadores do planeta, exercendo a mediunidade visando auxiliar as pessoas; transcrever novos trabalhos literários em pauta; realizar palestras e procurar espaços para contribuir com a divulgação do Espiritismo com minhas habilidades. No campo pessoal, continuar na peregrinação sem tréguas pelo autoconhecimento, tentando melhorar-me a cada passo. No campo terreno, estudar para concursos, aprimorar-me nos estudos, participar de cursos de terapias alternativas e formar-me em psicologia, além de lecionar história em algum colégio. Em suma, ser melhor a cada dia, aprendendo a amar, compreender e perdoar, pois sem isso, nos distanciamos cada vez mais do caminho: perfeição!

TE - Pediríamos que você deixasse uma mensagem final aos leitores.

SL - Gostaria de concitar aos leitores que meditassem acerca do real sentido de estarmos aqui, o que trazemos na bagagem ou o que nos resta de vícios. Analisemos o que poderemos fazer para utilizar nossas aptidões e capacidade a bem do mundo e das pessoas, detectando as formas de lidarmos com nossos erros. Nos perdoando, compreendendo e amando, seremos capazes de amarmos, compreender e perdoarmos os outros. Não afirmo isso sob uma ótica egoística, mas no sentido de conhecermo-nos e aceitarmo-nos. Quando o Mestre da Judéia nos disse: “toma a tua cruz e segue-me”! Não nos conclamou: “dá-me a tua cruz que eu a carregarei”. Portanto, o que desejo aos leitores é que portem suas cruzes, ou seja, suas vidas, da melhor maneira possível, buscando aprimoramento moral, conhecendo as artes, as ciências, as opiniões, as pessoas e, sobretudo, a si mesmo. Agradeço aos organizadores deste maravilhoso site, bem como os leitores pela oportunidade.

TE - Obrigado.

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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