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Escritor,
estudioso, médium, palestrante e divulgador da Doutrina Espírita, Amílcar Del
Chiaro Filho é um trabalhador incansável do Espiritismo. Apesar das várias
adversidades que enfrentou na vida desde a infância, sempre seguiu em frente em
busca da construção de um futuro melhor.
Além de todas essas atividades Amílcar ainda
encontra tempo para manter o site Amílcar Website (www.guarulhos.tur.br/sol), onde através
de vasto conteúdo fornece informações e esclarecimentos sobre o Espiritismo.
Esta
semana a equipe Terra Espiritual teve a oportunidade de entrevistá-lo e
reproduz abaixo o teor da entrevista.
TE - Como foi
que o senhor se tornou espírita?
ACF - Meu pai foi espírita e desde pequeno ouvi alguma
referência sobre reencarnação e manifestações de espíritos, mas não foi este o
fator determinante, porque saí de casa muito cedo, aos sete anos, para ser
internado num Asilo Colônia para hansenianos, onde fiquei até os 16 anos. O
Espiritismo aconteceu em minha vida já em São Paulo, atendendo o convite de uma
irmã, Norma Del Chiaro. Isto foi ali por 1954. Na segunda semana que fui ao
Centro Espírita inscrevi-me como sócio, retirei O Livro dos Espíritos
emprestado da Biblioteca do Centro, e nunca mais parei de estudar. Logicamente
precisei de alguns anos para que o conhecimento se sedimentasse em meu íntimo.
TE - Quais foram
seus primeiros obstáculos, ao seguir o Espiritismo, e como senhor os superou?
ACF - Não tive grandes obstáculos, inclusive porque foi
uma época em que morei sozinho, às vezes em pensões e às vezes no próprio local
de trabalho. Nesta fase da minha vida era metalúrgico, trabalhava em
"torno de repuxo" numa pequena metalúrgica, e à noite armava minha
cama no salão da metalúrgica e dormia. A princípio eu era muito crédulo em
relação ao Espiritismo, acreditando em tudo que via ou ouvia, me encantava com
livros que só alguns anos depois percebi que não tinha nenhuma qualidade. Encantava-me
com oradores, mas pouco a pouco fui desenvolvendo o meu senso crítico.
Logicamente continuo admirando autores e oradores, mas sempre usando o bom
senso.
TE - Quando
e como o senhor descobriu a sua mediunidade?
ACF - Na primeira fase no Espiritismo, embora estudasse
bastante, mas sem participar nenhum curso, e sim como autodidata, eu apenas
freqüentava o Centro sem me empenhar ou me compromissar. Em 1958 casei-me e vim
morar em Guarulhos e participar de um grupo familiar de Espiritismo. Na época
Guarulhos tinha um único Centro Espírita organizado, com estatuto e registrado
em cartório, mas o Centro ficava no interior do antigo Sanatório Padre Bento,
que abrigava hansenianos. A cidade tinha alguns grupos familiares que depois
vieram se transformar em Centros Espíritas. Foi nesta época que comecei a
sentir os primeiros sinais de mediunidade e me dediquei a educá-la,
aprimorá-la. Nesta época o Sanatório Padre Bento passou por grandes
transformações, ficando liberada a entrada e saída pela portaria. O Centro
Espírita, que existe até hoje e se chama Discípulos do Evangelho, estava
passando por uma crise forte porque seus dirigentes já idosos não tinham
condições de manter o Centro. Algumas pessoas receberam alta e mudaram-se para
outros locais e alguns desencarnaram. Esses acontecimentos me levaram a assumir
a direção do Centro, e juntamente com um irmão, hoje desencarnado, mantivemos o
Centro aberto. Nesta fase minha mediunidade tomou contornos claros e me ajudou
muito, mas nos momentos que estava dirigindo reuniões, separava completamente a
minha responsabilidade pessoal da mediunidade.
TE - Que
recomendações o senhor daria aos médiuns iniciantes para que possam utilizar
adequadamente este talento?
ACF - Em primeiro lugar muito estudo. Conhecer
profundamente a obra kardequiana é de vital importância. Lembrar sempre que
desenvolver mediunidade é desenvolver sentimentos. Outra coisa importante é
saber que o Espiritismo não lhe exige nenhuma santidade, mas apenas
honestidade, lealdade e conhecimento. Allan Kardec afirmou na Revista Espírita
que, em Espiritismo, antes de crer é preciso compreender. Confiar nos espíritos
protetores, porém, compreender que eles são limitados, não sabem tudo e podem
se enganar. Não ter receio de questionar autores consagrados, expositores,
dirigentes ou médiuns, quando não compreender ou não aceitar determinadas
coisas. Mas, acima de tudo amar muito. O amor é a grande energia que pode mudar
o mundo.
TE - E
para os médiuns que não desejam trabalhar sua mediunidade o que o senhor
recomendaria?
ACF - Existem muitos médiuns que nem mesmo sabem que são
médiuns. Não podemos encarar a mediunidade como punição, nem problema, porque
na maioria das vezes é solução. As pessoas que não querem cultivar a
mediunidade deveriam compreender que eles queiram ou não, são médiuns, pois
esta é uma faculdade natural do ser humano. Conhecendo a mediunidade pode-se
ter controle sobre ela. Repudiando-a, somos dominados por ela. Mais do que ser
médium é preciso ser bom, honesto, leal, capaz de amar até mesmo quando não se
é amado.
TE - Qual
deve ser o comportamento dos pais ao descobrirem que seus filhos, já na
infância, possuem mediunidade?
ACF - Os pais devem encarar o fato com naturalidade.
Logicamente a criança não tem condições de exercer a mediunidade em plenitude,
por isso é preciso controlar a faculdade mediúnica com passes, ambiente sadio
no lar. É preciso que se trate com a máxima naturalidade a mediunidade para que
a criança perceba que não é nada de excepcional. Mas é preciso, também, tomar
cuidado para não se bajular a criança por causa da mediunidade, para que ela
não a utilize como instrumento de opressão sobre os pais e familiares.
TE - O que o
senhor acha da opinião de alguns estudiosos que acreditam que todos os
fenômenos mediúnicos são resultados do inconsciente coletivo?
ACF - Os que falam isto tentam explicar sem explicar. A
mediunidade está plenamente comprovada e somente os negadores sistemáticos e os
que tenham interesse em negá-la se apegam a qualquer explicação que deixe de
fora os espíritos. Desde Pierre Janet até os dias de hoje, muita água já passou
por baixo da ponte, mas alguns psiquistas e alguns parapsicólogos continuam com
suas idéias cristalizadas como se estivessem ainda no século XIX-.
TE - Que
mudanças o Espiritismo trouxe para sua vida?
ACF - O Espiritismo mais do que trazer mudanças na
minha, me deu a vida de presente. Minha vida sempre foi muito sofrida,
especialmente a partir do três anos de idade. Pobreza, doenças, sofrimentos
físicos e morais de grande intensidade. Separação da família, discriminação,
preconceitos. Nada disto me levou à revolta ou descrença, mas a uma certa
indiferença pela vida e pelos valores estabelecidos. Havia sempre uma
indagação: por quê? O Espiritismo foi como a luz do sol na manhã nublada da
minha vida. Antes eu apenas vivia. Hoje eu existo e sei que posso mudar a minha
vida.
TE - Nas
suas obras literárias, notamos que a valorização da vida e a superação das
adversidades são temas de destaque. O senhor acha que as pessoas, atualmente,
estão sem fé na vida?
ACF - Esta é uma questão em que não se pode generalizar.
Muitas pessoas estão à deriva na vida, mas muitas outras são exemplos de
dignidade e fé. Os meus livros procuram despertar a fé, o entusiasmo pela vida.
Entusiasmo tem em si a raiz grega THEOS, que significa Deus. Quem vive com
entusiasmo tem Deus dentro de si. A valorização da vida é muito importante. Eu
faço uma palestra sobre a valorização da vida que começa com uma citação de Léo
Buscáglia: “A vida é um presente que Deus nos deu. A forma como vivemos é o
nosso presente a Deus. Que sua vida seja maravilhosa, emocionante”.
TE - Como
surgiu a idéia de criar seu próprio site na Internet?
ACF - Foi a bondade de um amigo. Eu tenho um amigo que
se chama Ronaldo Viegas que tem uma empresa que cria HP comerciais. Ele é
espírita e um dia estávamos conversando na secretaria do Centro Espírita e ele
disse: Vamos criar um site na Internet para você? A princípio relutei, mas
acabei aderindo. Esta Página ele não cobra nada, e juntamente com os seus
funcionários se dedicam a fazê-la bonita e eficiente. Ela me dá muito trabalho
para estar sempre atualizada, mas vale a pena.
TE - Além
dos livros e da Internet, que outras atividades o senhor desenvolve dentro do
movimento espírita?
ACF - Sou articulista e já escrevi para vários jornais e
revistas espíritas. Atualmente não tenho escrito muito para a imprensa escrita,
mas pretendo fazê-lo novamente. Mantive colunas em jornais da grande imprensa
da nossa cidade. Num deles por dez anos e outro por seis anos. Sou radialista
da Rede Boa Nova de Rádio há 27 anos. No momento faço a produção e apresentação
dos programas Sol Nas Almas e Gente Como A Gente. Este último é sobre o mundo
da pessoa portadora de deficiências. Participo da equipe do Diálogos Espíritas,
com o Éder Fávaro, e do Conversa Amiga Com Você e Ação Dois Mil, também com o
Éder. Sou produtor do Quem Pergunta Quer Saber e Campanha Boa Nova Pela Paz.
Escrevo radionovelas e tenho algumas aparições em televisão. Sou delegado da
CEPA 0 - Confederação Espírita Panamericana, para Guarulhos. Sou presidente do
Grupo de Estudos e Pesquisas Espíritas Herculano Pires, da cidade de Guarulhos
e faço palestras. No ano de 2003 fiz em média 10 palestras por mês, fora do
Grupo que participo.
TE - Como
o senhor vê o movimento espírita atualmente no Brasil?
ACF - Está muito dividido. Em alguns setores há um certo
engessamento, e Espiritismo é liberdade. Ele deveria ser o maior movimento
democrático do mundo, mas não é. Infelizmente quando se pensa diferente
separa-se, mas não deveríamos nos separar pelas poucas coisas que pensamos
diferentes, e sim nos unir por tudo aquilo que pensamos iguais. Eu tenho um
imenso amor ao Espiritismo, mas não o julgo como o melhor caminho, o único ou o
mais perfeito. Ele é para mim um excelente caminho porque o escolhi, mas tenho
sempre em mente que o caminho é extático e o caminhante tem que ser dinâmico.
TE - Na sua visão, porque o Espiritismo ainda não
conseguiu se expandir muito em outros países?
ACF - São vários os motivos: tradição, intelectualidade
exacerbada, descrença, orgulho. A Europa sofreu duas guerras mundiais que
arrefeceu a fé, dando oportunidade à criação da teologia radical da morte de
Deus. Além disso, a situação religiosa é ainda parecida com a do tempo do Padre
Alta, em Paris, que escreveu um livro intitulado: O Cristianismo do Cristo e o
dos Seus Vigários. Contudo, se o Espiritismo não se expandiu nesses países, as
idéias espíritas tem tomado conta das conversas, da literatura, do cinema, do
teatro e até da imprensa.
TE - Este
ano estamos celebrando o bicentenário de Kardec. O senhor acha que ele ainda
continua atual?
ACF - Extraordinariamente atual. Os novidadeiros, os
reformadores que pensam que conhecem Kardec, porém mal leram as suas obras... É
verdade que algumas coisas, especialmente ligados às ciências, pois a ciência
do século XIX era muito atrasada em comparação com a atualidade, mas nas
questões doutrinárias, os alicerces não podem e não precisam de atualização.
Para os novidadeiros só há um remédio: Kardec neles!
TE - Quais
são seus projetos atuais?
ACF - Na minha idade os projetos são para os dias
próximos. Mas com certeza quero continuar estudando. Estou com mais um livro no
prelo, completando o 8º e um que acabei de escrever e que uma amiga minha está
revisando, será o 9º - Temos um projeto para o programa Sol Nas Almas. Criei
com a minha equipe um Simpósio Sol Nas Almas, para atender instituições
espíritas que queiram. Tenho o projeto de continuar vivo, ou encarnado, porque
tenho muitas coisas a fazer.
TE - Gostaríamos
que o senhor deixasse sua mensagem aos leitores da Terra Espiritual.
ACF - Com muita prazer. — A vida é uma sonata de amor
escrita por Deus na pauta do arco-íris – O sol faz a regência – A lua tange a
harpa – As estrelas formam o coral – Vocês fazem o contracanto. — Muito
obrigado pela oportunidade
TE - Obrigado
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