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Entrevista com Marcel Mariano

 

  

Espírita desde 1981, o baiano Marcel Mariano é bacharel em direito, professor licenciado em história, assessor jurídico da 1ª vara da infância e da juventude de Salvador, médium, palestrante nacionalmente conhecido, trabalhador do Núcleo Espírita Francisco de Assis (NEFAS) e vice-presidente da Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB).

 Marcel esteve em Fortaleza nos dias 17 e 18/01/04 para proferir palestra, bem como o seminário O Evangelho e a Auto-estima. Com sua gentileza característica ele conversou com a equipe da Terra Espiritual e abaixo segue a íntegra da conversa.

 

TE – Qual a importância da auto-estima para o ser humano?

 

MM – Joanna de Ângelis, em diversas obras da coleção psicológica, enfatiza que o homem moderno esta profundamente atacado por cinco grandes adversários, o que ela chamou os verdugos da alma, que são: o medo, a ansiedade, a depressão, a angústia e a solidão. Esses cinco inimigos estão fazendo parte da conjuntura sócio-psicológica da criatura hodierna e para reverter esse quadro é necessário buscarmos o remédio, o antídoto dentro de nós mesmos. Então a solidão pode ser curada pela solidariedade, porque toda pessoa solidária ela jamais é solitária, o medo pode ser vencido pelo conhecimento, só se tem medo daquilo que se desconhece, no momento em que você passa a conhecer uma coisa, ou algo, ou alguém, você deixa de ter medo. A angústia pode ser vencida através do serviço ao próximo, de uma vida rica de valores. Naturalmente que a baixa auto-estima se insere naquelas pessoas que perderam o ideal, que perderam o objetivo de vida. Há muitas pessoas que diariamente trabalham, são empresários, dão 14, 16 horas de trabalho, mas eles automatizaram o trabalho, eles não estão sabendo porque trabalham. Eles trabalham para ganhar dinheiro, mas não usufruem desse dinheiro, eles nunca viajam, eles nunca tiram férias, se tornaram verdadeiras máquinas de produzir riqueza e como robôs, autômatos eles acabam rumando para a desencarnação sobre grande processo de angústia. É preciso, portanto, resgatar a auto-estima, é quando você se valoriza, você se permite pausas na atividade alienante dos nossos dias, do ganha-pão, da robotização que estamos vivendo e se permite também usufruir. Há quanto tempo muita gente não vai a um zoológico? Há quanto tempo a pessoa não vai a um cinema? Não assiste a uma peça de teatro? Nós conhecemos pessoas que nunca ouviram a uma música clássica e já estão aos sessenta anos de idade. Elas nunca ouviram Mozart, Beethoven, nunca tiveram a oportunidade de ouvir Luigi Boquerini ou um dos grandes compositores clássicos. Então isso é perda do sentido da existência, conseqüentemente a fragilização da auto-estima. É fundamental, portanto, o indivíduo se valorizar e o espiritismo é a grande ponte que faculta a ele encontrar através da psicologia transpessoal núcleos ou ganchos onde ele possa ser digno dele mesmo.     

 

TE – Como o Evangelho se insere nesse processo de resgate da auto-estima?

 

MM – Porque a mensagem de Jesus está calcada no amor. Ele foi a criatura mais evoluída que passou pela Terra e que possuía a maior auto-estima que se conhece, porque Ele se valorizava. Quando o chamaram de bom mestre Ele disse; “por que me chamas de bom, bom só o Pai que está no Céu”, Ele rejeitou o título de bom, mas quando disseram que Ele era mestre Ele disse: “Eu Sou mestre mesmo”, porque vocês estão reconhecendo que o meu conhecimento supera o de vocês. Então são dois momentos aparentemente paradoxais em que num Ele rejeita o título de bom, transferindo para Deus, temos aí um Jesus utilizando a humildade, demonstrando a profunda humildade de que era dotado e no outro Ele reconhece que era mestre mesmo em Israel, Ele tinha um conhecimento que superava todo o conhecimento da época, Ele não se aprisionou ao farisaísmo dogmático, nem as querelas religiosas de sua época. Então através da utilização do amor, de um Evangelho bem decantado, de um Evangelho que supera a letra que mata e se estrutura num espírito que vivifica. Nós poderemos encontrar diversas passagens, que vão ser abordadas no nosso seminário Evangelho e Auto-estima, em que o indivíduo pode se utilizar para ser feliz. E o amor é a grande proposta para robustecer e oxigenar a auto-estima fazendo o indivíduo atingir a plenitude.  

 

TE – O senhor acha que a humanidade já está compreendendo melhor o amor que Jesus veio ensinar?

 

MM – O Espírito Joanna de Ângelis escreveu uma obra chamada “Amor Inbatível Amor”, e recentemente, no ano passado em 2003, ela fez publicar um chamado “Garimpo de Amor”, onde em mais de 30 mensagens o Espírito Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, faz uma larga análise social, antropológica, mesológica, religiosa do próprio amor, desse sentimento ainda muito incompreendido na Terra. Se nós perguntarmos aos jovens o que é o amor eles dirão que o amor se faz num motel, é que eles compreendem que amor é sexo. Uma grande quantidade de pessoas entende o amor como expressão de sexo e o sexo como expressão do amor. Nós deveremos compreender que o sexo foi feito para vida, não a vida para o sexo e que os animais fazem sexo, mas não se amam (com ênfase). Isso é fundamental à compreensão. Então o amor está muito malbaratado nos nossos dias porque está sendo muito compreendido como vinculação carnal, a vinculação sexual das genitálias, mas a pessoa se vincula pela genitália e logo após descarta o objeto que supunha amar, são as paixões (com ênfase). É preciso, portanto, que as religiões, os religiosos, a psicologia, trabalhem novos valores do amor a fim de resgatarmos esse sentimento na sua real significação. O amor é estado profundo, libertador, não aprisiona o indivíduo e não é atingido pelas paixões.

 

TE – O senhor falou em juventude e educação, como o senhor avalia o atual processo educativo do nosso jovem?

 

MM – O nosso jovem anda profundamente aturdido. Nós que somos professor há vinte anos temos acompanhado quando o nosso aluno saía do colégio no terceiro ano, do chamado básico, para tentar o vestibular, ele não sabia nem para qual área optar, e vimos vários alunos nossos optarem por áreas absolutamente conflitantes como direito e medicina e não saberem o que queriam, se uma área das ciências humanas ou das ciências exatas ou das ciências médicas, das ciências biológicas. O jovem, portanto, está bastante aturdido do ponto de vista de buscar uma identificação social, através de uma profissão. Encontramos o jovem aturdido nas artes, ele julga que esta música mercadológica e ululante dos nossos dias é expressão artística, quando na verdade é apenas barulho que lhe aturde e lhe agride os ouvidos, porque ele desconhece o que seja realmente as notas musicais bem trabalhadas por um artista. E ele está profundamente conflitado dentro de casa, por observar a ausência de diálogo com os pais, os conflitos amorosos, o aturdimento através da televisão e da mídia que o bombardeiam não lhe dando muitas vezes opção de escolha. Aturdido, o jovem ao invés de agir, ele reage, porque ele quer espaço, ele quer se desafogar. Esse fenômeno não é de hoje, é dos anos sessenta. O movimento hippie o que foi? Foi uma contestação. O jovem sentindo-se agredido pela chamada sociedade de consumo, dos engravatados, dos homens que portavam as maletas 007, dos executivos, saiu pela vida tocando violão, deixando o cabelo crescer estilo black power, adotando a maconha, o sexo e o amor livre como expressão de uma vida de liberdade que se transformou numa vida de libertinagem, porque toda liberdade não regida pela responsabilidade vira depravação, vira promiscuidade. Então é preciso resgatar os valores de uma educação legítima calcada no diálogo, conversar com o jovem, orientá-lo para o bem. Como diria o Espírito Estevão, pela psicografia do médium Júlio César Grande Ribeiro, “Evangelize, coopere com Jesus, a criança e o jovem reclamam direção no bem.”

 

TE – O espiritismo está atuando eficientemente na educação do jovem ou pode ser feito algo mais?

 

MM – As casas espíritas, quando bem orientadas, estão trabalhando através da evangelização da mente infantil e da mente juvenil a fim de que ela conheça o Evangelho pela ótica da Doutrina Espírita, porque sendo uma doutrina que é ciência, é filosofia e é religião, propicia ao jovem um equilíbrio na compreensão dos valores da vida, para que ele cresça harmoniosamente e ele vá se percebendo uma pessoa emboscada no corpo, ele não é o corpo ele está, e quem está, cedo ou tarde terá que desembarcar deste veículo de carne e seguir adiante. Ele vai compreendendo, portanto, que a morte é um fenômeno transitório, absolutamente natural como contrapeso da vida e que ele deve prosseguir trabalhando para encontrar a si mesmo, para se equacionar. Então o trabalho das casas espíritas é voltado para trazer para a mente juvenil e a mente infantil a mensagem de Jesus pelos vitrais da Doutrina Espírita, propiciando que a nossa juventude, que a nossa infância, caminhem tranqüilas pelas ruas serenas da confiança, da paz, do equilíbrio e do progresso.

 

TE – A televisão tem apresentado uma programação com valores muito distorcidos alegando que é o que as pessoas gostam de assistir. Na sua opinião são as pessoas que gostam de assistir esses programas ou a televisão que induz as pessoas a gostarem desse tipo de programação?

 

MM – Recentemente eu estive lendo um artigo da lavra do já desencarnado cardeal arcebispo primaz da Bahia Dom Lucas Moreira Neves. Este homem invulgar, dedicado ao bem escreveu um artigo, oportunamente, em que ele acusava a televisão brasileira de estar promovendo a criação uma geração de debilóides, de pessoas absolutamente desvestidas e destituídas de senso crítico. As palavras de Dom Lucas no seu artigo, que causou grande impacto na época em que foi publicado, possui uma conotação de verdade muito dura de ser aceita, mas é uma verdade. Anuímos com aquele texto, em que o digno representante da Igreja romana, o arcebispo, na época primaz, porque era o titular da paróquia da Bahia, ele colocou realmente essa situação de que a televisão está invadindo os nossos lares e nos deseducando. Há muito tempo que a televisão brasileira perdeu o seu sentido educativo, hoje ela é uma máquina de entretenimento e de fabricação de ilusões, porque perdeu a finalidade de educar, de passar valores nobres. As novelas estão cada dia mais sensuais, os corpos estão cada dia mais desnudos exibindo precocemente a nudez de adolescentes e crianças em programas que são um verdadeiro atentado à dignidade e à moral. Agora também tenho que concordar e me curvar à evidência de que só temos uma TV degradada porque nós temos telespectadores também sentados na frente do vídeo. No momento em que o telespectador passar a ter uma outra consciência crítica, e aprender a desligar a televisão diante de programas ruins, os donos das televisões serão obrigados a mudar a grade de programação elevando o nível das suas programações.

 

TE – Qual o caminho para nos tornarmos um país mais evangelizado?

 

MM – Recordo a figura de Chico Xavier, quando um jornalista em Uberaba lhe fez uma pergunta semelhante e ele respondeu de maneira sintética de que cada um deve cumprir o seu dever. Enquanto estivermos no clima da insubordinação, do desrespeito às leis, de insurreição contra aquilo que está estatuído legalmente por leis ou pela estrutura do estado, nós estaremos colaborando para que o estado se transforme num verdadeiro caos e a vida social num grande conflito. Se cada um cumprir com os seus deveres e trabalhar para a sociedade se tornar melhor. A pessoa se tornando melhor, acredito que estaremos no rumo de tornar o Brasil o coração do mundo e a pátria do Evangelho. Que só será se o fizermos.

 

TE – Para concluirmos, pediríamos agora para o senhor deixar sua mensagem final para os leitores.

 

MM – A nossa mensagem é de agradecimento ao nobre entrevistador, muito digno e generoso e a todos aqueles que nos vão ler as modestas opiniões fruto de uma experiência de apenas 20 anos de pregação espírita, de militância na Doutrina. Foi através da Doutrina que se nos abriu os olhos para a compreensão de uma vida, e convidar aos leitores a conhecer o Espiritismo, a examinar os seus fundamentos, os seus postulados, fazer uma leitura da obra kardequiana e tirar as suas próprias conclusões, porque ler não significa aderir a um postulado, não se lê o Dalai Lama e se fica budista, não se lê o capital e se torna marxista, capitalista, comunista, a pessoa deve ter opiniões próprias. Ao invés de criticar o Espiritismo e de acusá-lo, por que não conhecê-lo? Depois de conhecê-lo e que teremos opiniões realmente seguras para emanar a cerca desta Doutrina. Agradecer a todos aqueles que vão nos ler ou nos ouvir e desejar a todos votos de paz e um feliz 2004.

 

TEMuito Obrigado.

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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