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Médico, estudioso de religiões, física quântica,
psicologia transpessoal, tanatologia, integrante da UNIPAZ, teósofo, professor
do Curso de Pós-Graduação em YOGA da UNIFOR e integrante do Círculo de
Meditação de Fortaleza.). O Dr. Cláudio
Azevedo irá proferir um seminário sobre meditação no próximo dia 24/01/02. A equipe da Terra Espiritual entrevistou o Dr.
Cláudio sobre meditação e abaixo reproduzimos o teor da entrevista.
TE – Por que é tão difícil principalmente para nós
ocidentais, o hábito de meditar?
CA – Com
certeza é pela falta de hábito. Mas essa dificuldade existe tanto para ocidentais
quanto para orientais, indistintamente. O que acontece é que do lado de lá
(Índia, Tibete, Japão, etc.) eles praticam mais e são iniciados nessa prática
em mais tenra idade. A espiritualidade e a busca de Deus está muito mais
evidente e, por exemplo, para os hindus à consciência religiosa é dado o nome
de conhecimento elevado, acima do conhecimento científico, considerado um
conhecimento provisório. A dificuldade, na realidade, está associada à imersão
da humanidade nesse nosso mundo de ilusão. Quando se fala de ilusão, não se
fala apenas de ilusão de valores, capitalismo, consumismo, etc., mas também de
níveis mais profundos de ilusão: o mundo ilusório das emoções e o mundo
ilusório dos pensamentos. Afirmar que são mundos ilusórios não é dizer que não
são importantes e devem ser negados. Negar nossas sensações, emoções e pensamentos
é negar aquilo que nos faz humanos. As palavras-chave são desapego e entrega.
Deve-se amar, mas amar sem apegos (entregar-se), pode-se desejar, mas desejar
sem apegos (entregar-se à Providência Divina), pode-se e deve-se pensar e
raciocinar, mas sem apegar-se a dogmas e "pré-conceitos", fugir sempre
de definições prévias irrevogáveis. Meditar, falando de forma muito simplória e
resumida, é desapego e entrega. Meditar é buscar entrar em contato com um lado
nosso que é divino e que não é composto de nossas sensações, emoções nem de
nossos pensamentos. Meditar é buscar Aquele que transcende todos os conceitos e
emoções, que não pode ser descrito porque o finito (o homem mortal) não pode
definir o infinito (o homem imortal). Essa parte imortal humana é Aquela que é
una com Deus, com o Vazio, com Brahman, com o Espírito Santo, com o Cristo,
etc., muitos nomes para a mesma Energia: "Acaso não reconheceis que Cristo
Jesus está em vós?" (II Cor 13:5).
TE – Quais as técnicas que podemos empregar para
meditar?
CA – A
verdadeira meditação começa quando se somam as técnicas. Todas as técnicas são
formas de se buscar transcender as ilusões da mente com seu jogo de apegos,
desejos, repulsas, reações emocionais, sensações associadas, etc..
As técnicas buscam silenciar
o nosso interior, com seus barulhos emocionais e mentais, múltiplos pensamentos
encadeados e incessantes. É atrás desse barulho que se encontra o Vazio, Aquele
que somos e do qual estávamos esquecidos: EU SOU AQUELE QUE SOU (Ex 3:14). Na
hora em que a mente já está silenciada por si mesma, e por isso mesmo não há
mais necessidade de técnicas, encontramos Deus, e a nossa comunhão com ele é o
início da verdadeira meditação.
TE – A meditação pode contribuir para que sejamos
mais felizes? Como?
CA – Depende
do que se conceitua como felicidade. Se partirmos do pressuposto de que temos
uma eternidade para nos enganarmos, encarnação após encarnação, então se pode
buscar a felicidade até no prazer dos sentidos. Não haveria nada de mal nisso
conquanto que se busque o prazer com sabedoria e buscar com sabedoria é
observar as reais causas dessa busca e observar se quando obtemos esse prazer,
quando conquistamos os nossos objetos de desejo, surge uma felicidade duradoura
ou temporária. Quem reprime seus desejos os joga ao inconsciente e eles
continuam agindo, em surdina nos sabotando. Quem os satisfaz com sabedoria
percebe-os insuficientes em preencher a nossa busca mais íntima. Pode-se buscar
fama, riqueza, poder e sucesso, contanto que seja com sabedoria, moderação e
ética, até que se constate que também são insuficientes em nos preencher o
vazio interior. É nessa hora que começa a verdadeira trajetória renunciante
pela constatação íntima de que prazer e sucesso não saciam as ânsias mais íntimas
do homem. Então o homem busca satisfação e felicidade na certeza do dever
cumprido, que traz reconhecimento, respeito e gratidão. Mas nem isso lhe traz
satisfação plena e íntima. Então nasce a transformação consciente da vontade de
ter, em vontade de dar, da vontade de ser servido, em vontade de servir, da
vontade de ser reconhecido, em vontade de reconhecer. Virtude não é algo que se
pratica, mas algo que se tem. Quem pratica virtudes é porque não as tem. Mas o
homem sempre quer mais, e ele descobre que quer o infinito, a felicidade
infinita, a bem-aventurança infinita. Somos os únicos animais que podem
conceber uma idéia, mesmo que vaga, do infinito. O infinito é o Absoluto.
Inicia-se o trilhar da verdadeira busca, a busca da união ou unicidade com o
Infinito.
TE – No espiritismo falamos que o ponto de partida
para o crescimento é o autoconhecimento, o ato de meditar leva a um
conhecimento maior de si mesmo?
CA – Não é
só o espiritismo que afirma isso. Todas as tradições espirituais afirmam o
mesmo. Falo sobre isso no livro "Yoga e as Tradições Sapienciais", e
falarei mais minuciosamente no volume 2 de Órion que deverá ser lançado em outubro
desse ano. A verdadeira busca religiosa começa com o autoconhecimento e termina
com a percepção direta da Verdade. Quando se fala que temos que melhorar, a
pessoa que realmente o quer logo pergunta "o que eu tenho que melhorar?"
E não é perguntando a outros que descobriremos o que temos que melhorar, é
olhando para si mesmo que descobriremos. "Amarás o teu próximo como a ti
mesmo" (Lv 19:18, Mt 22:39, Mc 12:31 e Lc 10:27), disse o Cristo ser o
segundo maior mandamento, abaixo apenas do amor a Deus. Essa frase condiciona o
amor ao próximo ao amor a si próprio. Para amar o próximo devo amar primeiro a
mim mesmo. Mas como amar algo ou alguém a quem não se conhece?. Só se ama e
conhece o outro quando se ama e se conhece a si mesmo. O amor, verdadeiro e
incondicional, compreende o outro sem reservas, coloca-se no lugar dele, respeitando-o.
Amar é saber escutar e interpretar, é olhar o outro e saber vê-lo em seu
íntimo, sem teorias e sem "pré-conceitos". Para isso necessitamos
saber nos escutar e interpretar, olhar e ver o nosso íntimo, sem teorias e sem
"pré-conceitos". Amar a si mesmo e amar o outro são a chave para se
amar o "totalmente outro", o Alguém que está além de mim e do outro.
Quando não nos conhecemos e conseqüentemente não amamos ao outro, conseguiremos
apenas suportar a nós mesmos e ao outro, pelo temor de Algo que está além de
mim e do outro. Conhecer-se é observar, desde os nossos processos físicos (o
respirar, os movimentos externos e os internos do corpo como os movimentos dos
membros, o bater do coração e os movimentos do trato gastrintestinal) até as
nossas sensações, sentimentos, emoções e pensamentos, buscando entender-lhes o mecanismo.
Silenciarmo-nos externamente para ouvirmo-nos internamente. E isso é meditação.
TE – Vemos muitas pessoas buscando exageradamente uma
maior qualificação acadêmica e profissional, mas com pouco ou nenhum
conhecimento sobre si. Isto é uma fuga inconsciente ou é o estilo de vida
ocidental?
CA – É uma
conseqüência da ilusão, da tripla ilusão, em que estamos mergulhados. Não há
nada errado no Universo, tudo ocorre a seu tempo. Viemos aqui para acordar para
nos libertarmos das ilusões. É o nosso ego inferior que vive essas ilusões.
Para o budismo enquanto houver alguma forma de apego haverá reencarnação e a
libertação das ilusões (Buda era conhecido como o Liberto, aquele que se
libertou de todas as ilusões) é a chave à libertação. Dizer que isso não ocorre
no mundo oriental é fechar os olhos à americanização de valores dos japoneses,
aos conflitos entre a Índia e o Paquistão, etc.. A humanidade quase toda vive
na ignorância de que existe um plano real, sutil fora dos nossos pensamentos,
emoções e sensações, que é acessado quando temos uma simples intuição, ou
insight. E a meditação é uma fórmula geral para se perceber isso.
TE – Atualmente o ritmo da vida moderna faz com que
as pessoas se queixem de falta de tempo. Como as pessoas podem meditar ante
tantos afazeres?
CA – O que
acontece é que desde a mais tenra idade começa a formação de nosso ego inferior,
com seus desejos, repulsas e apegos. E é esse ego, formado à base de
condicionamentos (se eu fizer isso obterei aquilo, se eu fizer aquilo vou sentir
dor) e que se envolve com a própria dor ou com o próprio prazer, que acha que
tem o comando e que pode viver independentemente de sua alma (o Ego Superior),
quem deseja maior qualificação acadêmica e profissional é que diz que não tem
tempo para meditar, pois isso não dá status e nem reconhecimento. O autoconhecimento
nos mostra a verdadeira causa de nos queixarmos da falta de tempo. Tem-se tempo
para reuniões, para o trabalho, para comer, para beber, para ir ao banheiro,
para escovar os dentes, para fofocar, para o lazer em geral, festas, aniversários,
etc.. Será que não se tempo para silenciar-se durante 15 minutos ao acordar e
antes de dormir? É o ego, na sua ânsia de sobreviver, que inventa toda a
espécie de desculpas para não "morrer". Deixar de lado
"aquilo" que pensávamos que éramos é uma tarefa hercúlea. Como
encarar de frente que aquilo que sempre achei que era não sou eu? Como encarar
de frente que meu ego é uma ilusão gerada pelos meus condicionamentos na ânsia
infantil de prazer, que trago à vida adulta? Nessa perspectiva é perfeitamente
justificável o medo e as desculpas. Tudo tem o seu tempo, se ainda há desculpas
é porque ainda não é a hora.
TE – A meditação está ligada à religiosidade?
CA – A
palavra religião, assim como a palavra yoga, têm o significado de religar-se a
Algo ou Alguém a que estávamos ligados e que por algum motivo nos desligamos.
Se a intenção é buscar a "re-união" com Aquilo que é divino em nosso
interior, a meditação estará irremediavelmente ligada à religiosidade. Se a
intenção for outra, se conseguirão outras ligações, seja com a saúde física,
emocional ou mental. A dimensão da intenção é a dimensão de nossa alma e é o
estado evolutivo dela que dirá a nossa verdadeira intenção.
TE – Sendo a meditação uma forma de educar a mente,
você acha que deveria ser ensinada nas escolas?
CA – Esse
ponto não cabe contestações. É incrível como o homem atingiu grandes patamares
do conhecimento sobre o macrocosmo (astronomia) e sobre o microcosmo (física
quântica), mas sobre a ciência de si mesmo, o homem ainda está engatinhando.
Ainda se crê que somos um acaso da evolução, ocorrida somente nesse planeta,
que vem à existência após a união de duas células, vive com metas materiais,
que variam de acordo com a sociedade, e que vai sumir após a morte. Pouquíssimas
pessoas param para pensar sobre as questões de quem somos, de onde viemos, qual
a nossa meta e para onde vamos. Pior ainda, a maioria da população nem se
apercebe de que podem existir questionamentos como esse. A educação formal
esquece-se do conhecimento mais elevado, mas muitos educadores e filósofos já
se posicionaram sobre isso e muitas escolas, ditas "alternativas", já
ensinam, verdadeiramente, a ciência do "si mesmo".
TE – A mulher, por ser mais sensível do que o homem,
tem mais facilidade para meditar?
CA – Todos
temos um homem e uma mulher dentro de nós, todos temos um lado lógico e
racional e um lado subjetivo e intuicional. O próprio cérebro tem cada hemisfério
dedicado a uma tarefa dessa. Os artistas e poetas em geral, independente de seu
sexo biológico, têm o seu lado feminino mais desenvolvido. Realmente,
desenvolver o nosso lado intuitivo é facilitar o alcance de nossa consciência a
estados alterados de consciência que nos possibilitam a experiência mística do
divino em nós.
TE - O que é Órion?
CA – Órion
é um deus da mitologia grega que é representado em nosso céu como uma constelação.
Essa figura imaginária possui um cinturão que é formado por três estrelas em
linha reta: as Três Marias. A constelação de Órion é considerada o berçário
estelar da Via-Láctea, onde mais astros jovens têm sido identificados. Mas a
escolha do nome para os livros se deveu ao fato de órion significar algo como
um "estouro de luz", que foi o que senti quando comecei a investigar
o conhecimento espiritual.
TE – Como nasceu esta idéia?
CA – Como
minha forma de estudar, aprendida no curso de medicina, é fazendo resumos,
diante da quantidade de informações novas que me chegavam, comecei a fazer
resumos por tópicos. Cada livro que lia me chamava outros através de sua bibliografia
e assim o resumo foi crescendo e o meu fascínio também.
Esse fascínio foi tanto que
em um momento de introspecção decidi que deveria repassá-los a todos os meus
amigos, familiares, enfim todos. Então nasceu a idéia do livro.
O que no início era apenas
um livro se transformou em três volumes, ante a quantidade de informação nos
resumos. Órion é o meu resumo particular que compartilho com todos os que lêem.
TE – Pediríamos agora que você deixasse uma mensagem
para os leitores.
CA – Repito
o final do prefácio de meus livros: "O conhecimento nunca será esgotado
nem completado, pois a única coisa eterna que há é a mudança. Tudo está em
constante mudança. É uma Lei Natural. Tudo consiste em ciclos que se alternam".
"O que sabemos é uma
gota; o que ignoramos é um oceano".
Isaac Newton (1.643-1.727)
Mas a gota que sabemos pode
nos revelar o oceano. Com a mente aberta, e desejosa de conhecer, caminhemos o
caminho formado pelo nosso olhar, até que não haja mais olhar e nem caminho...
Boa viagem e fiquem em Deus
TE – Obrigado.
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