|
Nascido em berço espírita, o coronel da reserva César
Reis é um atuante trabalhador da causa espírita. Além de ser presidente do Lar
Fabiano de Cristo, cargo que ocupa desde 1994, é também presidente do Instituto
de Cultura Espírita do Brasil, membro do Serviço Espírita de Informações,
médium, palestrante e autor de vários livros sobre a doutrina.
O
Cel. César reis esteve em Fortaleza no dia 12/12/03 para o lançamento do 1º
Movimento Paz e Bem, ocasião em que proferiu a palestra Dialética da Paz e do
Bem. Antes da sua apresentação a equipe da Terra Espiritual conversou com ele,
colhendo valioso cabedal de conhecimentos que transcrevemos abaixo:
TE – Coronel
César Reis, inicialmente gostaríamos que o senhor falasse um pouquinho do Lar
Fabiano de Cristo?
CR –
O Lar Fabiano de Cristo é uma instituição de assistência Social, uma das
maiores do Brasil, uma instituição espírita fundada em 1958 e que tem como fundamento
o trabalho em favor da família. É um trabalho de promoção humana, portanto é um
trabalho de educação. Nós estudamos as causas que produzem as situações de
miséria da família e elaboramos um conjunto de ações que serão oferecidas a
todos os elementos da família para que num prazo de cerca de cinco anos a
família se recupere. A família recuperada quer dizer a família que rompeu a
cadeia da miséria, vai viver pobremente mas com dignidade. Isso é um processo
que leva um tempo e passa pela miséria material, que é a parte da fome que tem
que ser atendida, habitação, que tem que ser melhorada, miséria sócio-afetiva
que é a questão dos direitos de saúde e atendimento de suas necessidades, dos recursos
que a coletividade coloca a disposição, também a questão dos vícios, das
drogas, do alcoolismo e ainda a questão das obsessões, então nós trabalhamos
essas quatro vertentes ao mesmo tempo e esse conjunto de coisas é que permite
que a família se recupere, então nós fazemos isso, como eu disse, desde 1958 e
o lar hoje está no Brasil inteiro, o total da obra de Fabiano de Cristo
ultrapassa 100.000 (cem mil) pessoas amparadas em todo o país. Nós somos um
órgão de educação básica da UNESCO. Eu tenho levado esse modelo, a convite da UNESCO,
à paises da África, da Ásia e da América latina, terceiro mundo e além disso
esse ano nós ganhamos o prêmio beneficiente, que é o maior prêmio de assistência
social que existe no Brasil e pela primeira vez foi oferecida a uma instituição
do tamanho do Lar Fabiano de Cristo, são sempre instituições pequenas mas nós
tivemos essa graça.
TE – Como
está a família brasileira?
CR –
A família brasileira está com dificuldades, porque ela tem sido muito torpedeada
por uma série de valores equivocados, uma série de falhas, há um processo
franco de desagregação, no entanto eu acho que nós estamos passando de uma fase
antiga em que a família era meramente formal para uma outra família que
ultrapassa esses limites da formalidade, onde o amor, a relação, é mais forte
do que própria estrutura. Antigamente a gente super valorizava a estrutura, a
pessoa tinha que ser casada, tinha que ter documento, tinha que ter papel,
tinha que ter cerimônia, tudo isso e muitas vezes a vida familiar era infernal,
mas em nome dessa estrutura a coisa se mantinha mas era apenas nominal. Hoje
não se valoriza tanto a estrutura, se valoriza a relação. Quer dizer, as
pessoas se amam, as pessoas se respeitam, se toleram e com isso cria-se uma
nova visão da família e toda essa fase de transição de um momento para o outro
é delicada e por isso há um processo de desagregação difícil, muita
incompreensão por parte dos meios de comunicação, muita dificuldade, inclusive
das religiões, mas eu acho que nós estamos caminhando numa direção melhor do
que aquele em que estávamos, nós tínhamos uma família muito calcada em
determinados padrões de hipocrisia, nós estamos caminhando para uma família
mais verdadeira. Agora os mementos de passagem são sempre delicados e difíceis.
TE – Qual tem sido o papel do espiritismo na
construção dessa nova família?
CR – O
Espiritismo dá muita importância a família, porque nós sabemos que uma família
não se forma por acaso, para além das questões da genética e da hereditariedade
existem questões espirituais de grande relevo que são levadas em conta para que
o espírito possa reencarnar dentro de uma família, então a família, do ponto de
vista espírita, ela tem toda uma conotação espiritual muito além daquela
meramente social, então é isso que nós valorizamos muito. E como é um encontro
de espíritos, às vezes espíritos muito amigos, que se juntam para um
crescimento, às vezes até inimigos, mas que se juntam para um novo entendimento,
é um grande encontro de corações, um grande encontro de experiências, um grande
encontro de inteligências e, sobretudo um grande encontro de esperanças para que
desses encontros todos possam sair criaturas melhores e mais felizes. Nesse
sentido o Espiritismo valoriza muito a família e isso é feito com muita
justiça.
TE – Num país com fortes raízes católicas, com grande
percentual da população protestante e com pouca informação sobre o espiritismo
ainda há muita rejeição ao espiritismo? A aceitação do espiritismo tem sido uma
coisa natural?
CR – O que
a gente percebe é que há uma ânsia pelo espiritismo. Senão vejamos, quando uma
novela coloca temas espíritas ela tem uma audiência fantástica. Há uma ânsia e
essa ânsia não é apenas, digamos assim, popular decorrente dos meios de
comunicação, há uma ânsia científica pelo espiritismo. O espiritismo está na
essência das coisas, mas é uma coisa que vai se plantando gradativamente. Nós ainda
estamos numa fase, digo nós humanidade, em que valorizamos muito o mito,
valorizamos muito o mágico, o sobrenatural e o espiritismo acaba com tudo isso.
O espiritismo não precisa do culto externo, não precisa do altar, não precisa do
cerimonial, não precisa do dogma, não precisa de nada disso. O que o espiritismo
propõe é uma maneira de viver, praticamente, no dia-a-dia em estado de
caridade, de compreensão, de solidariedade. Não se precisa de palavra mágica,
não se precisa de intermediário, não se precisa de nada disso. Isso é uma coisa
ainda avançada, então o que nós estamos é que como no Brasil ainda há pouca
educação, pouco estudo, pouca reflexão graças a essas religiões muito calcadas
no mito, no mágico, nessa, chamada, salvação de fora para dentro enquanto o
espiritismo propõe uma salvação de dentro para fora, é a caridade que salva e a
caridade é uma coisa que brota dentro do homem, enquanto que a Bíblia ou a Igreja
são autoridades construídas pelo homem, com os problemas do homem, as
dificuldades do homem, é de fora para dentro, mas vai levar um tempo para você
substituir essa autoridade, que nós estamos viciados nela, que é de fora para
dentro por uma autoridade que nasce de dentro para fora e nesse espaço é que o
espiritismo se encontra, é uma proposta, eu diria assim, ainda difícil de ser
compreendida por muitas pessoas mas é nosso papel perseverar, é nosso papel
divulgar isso, e sobretudo é nosso papel, através da nossa vivência,
exemplificar isso.
TE – Como o senhor bem falou, nós gostamos do mito,
do ícone. Como o senhor vê as perspectivas do espiritismo após o desencarne de
Chico Xavier, que foi um grande ícone do espiritismo no Brasil e no mundo?
CR – Naturalmente
que nós todos temos que reconhecer que o Chico Xavier teve um papel
absolutamente essencial na estruturação do espiritismo no Brasil. O Brasil é o
maior espírita do mundo e sem dúvida isso se deve muito a Chico Xavier, não só
pelo que ele escreveu, pelos mais de 400 livros que ele escreveu, mas pelo seu
exemplo de vida, pela sua dedicação, pela sua humildade, pela sua modéstia,
então com muita justiça ele se transformou num verdadeiro padrão, ícone, mas
temos que tomar cuidado para ele não virar um santo, nos termos da igreja por
aí, aliás, ele mesmo se rebelou muitas vezes quanto a isso, temos que tomar
cuidado para não trazer para dentro do espiritismo essa reflexão de outras
religiões, ou seja, vamos homenagear o Chico pelo trabalho, pela sua dedicação,
pelo seu amor, pelo seu exemplo, vamos tentar extrai disso, sabendo que ele é
um homem como nós todos, ensinamento pra a nossa própria vida, nesse sentido o
próprio espiritismo, como qualquer outra atividade humana, não abre mão dessas
criaturas excepcionais. Um Dr. Bezerra, o próprio Allan Kardec, não é só o que
ele escreveu, o bm senso encarnado, aquela competência de fazer aquelas coisas
que ele fez, aqueles livros todos, então isso para não são ícones no sentido
santificado que a gente vê por aí afora, mas são assim luzeiros, no sentido de que
eles abrem caminhos e iluminam a nossa trajetória e nesse sentido merecem o
nosso respeito, nossa admiração e o nosso amor.
TE – Qual a sua avaliação sobre este 1º Movimento Paz
e bem?
CR – Na
verdade acho extraordinário. Paz e bem era a saudação dos franciscanos, os franciscanos
faziam três propósitos na vida: Propósito da obediência, o propósito da
castidade e o propósito da pobreza. E a grande característica dos franciscanos
é que eles rompiam com os padrões tradicionais da Igreja, que eram padrões
conservacionistas, eram padrões ligados a domínio, a poder, a mando, essa a
Igreja do tempo de Francisco, então Francisco sai com seus seguidores na
direção do miserável. A Igreja dele era aquela escola do servir e a saudação
era paz e bem, era como se fosse uma senha que abria as portas para que as pessoas
pudessem servir mais e servir melhor, bom o espiritismo adotou uma estrutura,
até certo ponto, jesuítica, porque ele trouxe para dentro da sua organização
aquela visão vertical, aquela visão de quem alguém que manda, alguém que decide,
valorizando muita a questão estrutural e quando se fala paz e bem no meio espírita
nós estamos falando dessa visão franciscana, quer dizer o espírita sair na direção
do irmão, é sair para servir, como faziam os seguidores de Francisco, eles iam
lá recuperar a casa das pessoas, cantar com as pessoas, plantar com as pessoas,
era a Igreja no mundo. Eu acho que esse Movimento Paz e Bem no movimento
espírita tem mundo haver com isso, é levar o movimento espírita da direção do
nosso irmão, seja ele rico ou pobre, mas é o nosso irmão a quem nós vamos servir,
acho que é esse o sentido e eu estou muito feliz por participar desse encontro.
TE – Gostaríamos agora de pedir que você deixasse a
sua mensagem?
CR – O
movimento espírita, a Doutrina Espírita, como dizia Herculano Pires, é uma
filosofia prática, então tudo que nós fizermos, que é absolutamente necessário,
tem sair dos livros, tem que sair da nossa cabeça e tem que entrar no nosso
coração, no nosso olhar, nas nossas mãos, ou seja, nós não podemos fazer do
espiritismo apenas um diletantismo cultural, ele é ação, ele é movimento no
bem, nesse sentido se insere esse nosso encontro de paz e bem, mas é uma lição
para a nossa vida, para o nosso dia-a-dia trabalhar aprendendo e servindo,
servindo e aprendendo. Espiritismo é uma proposta de vida para ser vivenciado
24 horas por dia, todos os dias.
TE – Obrigado.
|