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Entrevista com Nilton Sousa

 

 

                          Bastante conhecido no meio espírita cearense Nilton Sousa é professor de história e milita na Doutrina Espírita há 14 anos realizando trabalhos de grande importância para a divulgação e o crescimento do movimento espírita no estado. Médium dedicado, palestrante, escritor de vários livros, dentre os quais destacamos “Contos do Invisível” e colaborador do jornal Gazeta Espírita, Nilton foi também fundador do Lar de Clara e um dos idealizadores do 1º Movimento Paz e Bem que aconteceu em dezembro de 2003, ocasião na qual a equipe da Terra Espiritual conversou com ele.

 

TE – Nilton, como é o desafio de iniciar uma obra como o Lar de Clara?

 

 CR – É um desafio de fé, porque afinal de contas na ocasião nós tínhamos apenas e tão somente o terreno e nós recebemos muitas orientações dos espíritos, nossos companheiros espirituais, e numa ocasião o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcante nos orientou a iniciarmos a evangelização infantil por afirmar haver na região do mangue, na região do sítio Guaié, como é conhecida a localidade que nos assistimos, muitas crianças. Então nós perguntamos ao Dr. Bezerra de Menezes: “mas como iniciar o trabalho, se nós não temos recursos?” ele disse: “não se preocupem. Iniciem o trabalho e isso acabará desencadeando todo um processo de ajuda, todo um processo de inspiração a quantos estejam comprometidos com a obra.” Então nós iniciamos um trabalho de evangelização para cerca de 80 crianças na época, isso em 1999 e hoje o trabalho cresceu bastante. 

 

 TE – Como podemos colaborar para mudar o cenário de episódios lamentáveis envolvendo jovens e crianças?

 

 NS – A educação espírita. A Doutrina Espírita, ela é completa no sentido de fornecer ao homem subsídios basilares a fim de que ele possa se autotransformar, a fim de que ele possa se educar moralmente, reconhecendo quem ele é, de onde ele vem, para onde ele vai, neste sentido as crianças que recebem a educação espírita acabam tendo um norte em suas existências e acabam tendo discernimento no tocante a essas questões capitais da sociedade, questões que nós temos visto na própria TV, nos jornais, nos noticiários.

 

TE – Qual a maior motivação que faz vocês superarem tantos desafios?

 

NS – Nós diríamos que a maior motivação está numa recomendação feita por Paulo de Tarso a Allan Kardec numa mensagem intitulada “Fora da Caridade não há Salvação” o lema do Lar de Clara é PAZ e BEM, essa é uma saudação franciscana. Nós sabemos que existe um elo entre o grupo franciscano e a proposta espírita da vivência plena da caridade, do amor ao próximo, de estender o manto do bem na direção dos semelhantes. A maior motivação é exatamente enxergar sorrisos onde antes havia tristeza, enxergar a alegria onde antes havia o desespero, então a nossa gratificação é muito maior do que aquilo que a gente pensa oferecer na condição de instrumento.

 

TE – Como você vê o crescimento do movimento espírita aqui no Ceará?

 

NS – Nós temos visto com muito bons olhos, porque afinal de contas a Doutrina Espírita, ela se propaga silenciosamente, nós não temos utilizado a metodologia do proselitismo religioso, não nos compete tal coisa, até por causa das próprias recomendações de Allan Kardec que nos impelem a uma espontaneidade, então os indivíduos que queiram conhecer a Doutrina Espírita têm o seu ponto de divulgação através dos congressos, através dos eventos, como este evento, o 1º Movimento Paz e Bem, promovido pelo Lar Beneficiente Clara de Assis em parceria com o Lar Fabiano de Cristo e a federação Espírita do Estado do Ceará. Então a divulgação da Doutrina Espírita, ela existe. A consciência dos nossos irmãos espíritas tem aumentado paulatinamente no sentido do compromisso de difundir cada vez mais este ideal; de difundir sem impor, mas oferecendo a criatura humana subsídios para o seu processo de autotransformação e de melhoramento da nossa sociedade.  

 

TE – Atualmente o mundo vive vários conflitos armados. Como proceder para realizar a mudança do mundo? Esta mudança vai acontecer?

 

NS – Segundo o Livro dos Espíritos, as guerras ocorrem em função da imperfeição humana, enquanto há imperfeição moral haverá inevitavelmente conflitos, litígios. Na medida em que a criatura humana começar a despertar para a paz nós teremos necessariamente o fim desses confrontos armados. Nós viramos o milênio com uma guerra, uma guerra verdadeiramente fratricida dentro da perspectiva que somos todos filhos de um pai, de uma inteligência cósmica que nos criou e nos compreendemos que somente a alavanca do bem é capaz de manter essa paz junto à sociedade, porque na medida que eu ofereço o subsídio da profissionalização, na medida que eu ofereço o subsídio da caridade norteadora, da caridade que ensina, da caridade que eleva não da caridade que humilha, não da caridade paternalista. Na medida que eu ofereço essa caridade aos indivíduos que nos são assistidos, nos rompemos primeiro com o ciclo de miséria e com o desencadeamento de todo um desespero moral, interior dessa mesma criatura, no sentido de traçar rotas de confronto, rotas de violência, rotas no campo da criminalidade, da marginalização, dos vícios de todo jaez. Então nos percebemos que o bem é uma alavanca verdadeiramente efetiva de transformação do mundo e nós acreditamos que a pacificação do coração humano só é possível através do exercício pleno da caridade em todos os níveis: a caridade moral, a caridade espiritual, a caridade social e assim sucessivamente.

 

TE – É possível corrigir aqueles que já se perderam no caminho da criminalidade?

 

NS – Nós temos ouvido no jargão popular a idéia de que pau que nasce torto morre torto, mas nós temos percebido que os condicionamentos da criminalidade são verdadeiramente muito fortes até em virtude do grau evolutivo da nossa comunidade planetária, entretanto na medida que há dedicação, ensino, na medida em que há todo um investimento no descondicionamento dessa criatura mostrando-lhe uma outra dimensão de valor próprio, no sentido do trabalho em prol do seu semelhante ou no sentido da descoberta de valor próprio, nós reconhecemos que essa criatura humana desperta para um outro caminho deixando de lado o homem velho.

 

TE – Gostaríamos agora de pedir que você deixasse a sua mensagem?

 

NS – Aos espíritas, que nós nos unamos cada vez mais, que sejamos um pouco mais corporativistas, que nos demos as mãos verdadeiramente, porque precisamos sobretudo, unir os nossos esforços para que sejamos mais fortes. Essa recomendação não é nossa, é recomendação do nosso irmão Bezerra de Menezes, é recomendação de inúmeros companheiros que labutam na Doutrina Espírita. Eu lembraria aqui Francisco Cândido Xavier que foi um verdadeiro eixo de articulação dos povos, das comunidades humanas, tratando a todos sem nenhum preconceito, unindo os espíritas em torno da mediunidade com Jesus, mas também nos dando o exemplo profícuo de caridade, de amor ao próximo, de devotamento e de abnegação, creio que ele seja, nesta altura, neste momento histórico, um dos grandes marcos da vivência plena da Doutrina Espírita em nossos dias. Devemos seguir esse modelo, devemos seguir essa rota, pois ela com certeza há de nos conduzir a luz e fará com que a Doutrina Espírita se espalhe cada vez mais em todos os corações. E aqueles que não são espíritas nós oferecemos uma proposta, a proposta de trabalharmos no bem independente da raça, da cor, do credo. Uma proposta de estabelecermos um elo entre todos nós, entre todas as religiões, porque reconhecemos que existe um ponto de encontro entre todas as filosofias religiosas que é a prática do bem. Você não consegue enxergar uma diferenças específica no gesto de uma madre Teresa de Calcutá, no gesto de um Chico Xavier, nós reconhecemos ali o gesto da alma que superou-se a si mesmo na dimensão do amor ao próximo, verdadeiramente, plenamente. Essa é a nossa mensagem aos nossos leitores. Muita paz e muito obrigado pela oportunidade. 

 

TEObrigado.

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

  

 

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