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Entrevista com Dr. Francisco Cajazeiras

 

 

Médico e professor universitário, o Dr. Francisco Cajazeiras é um dos mais queridos trabalhadores do movimento espírita do Ceará. Militando há 16 anos na Doutrina Espírita, o Dr. Cajazeiras é um pesquisador dedicado, autor de vários livros, onde aborda, sempre de forma muito clara e acessível, vários temas de relevância  para aqueles que desejam compreender melhor a Doutrina dos Espíritos. Orador de destaque, preocupa-se muito com a divulgação do conhecimento espírita e profere palestras em várias casas espíritas por todo o estado. Atualmente preside o Instituto de Cultura Espírita do Ceará (ICE) e é colaborador atuante da FEEC (Federação Espírita do Estado do Ceará).

 

TE – Dr. Cajazeiras, onde é que a medicina e o espiritismo podem se complementar?

 

FC – Com certeza, quando os médicos entenderem o espírito, compreenderem o que significa o espírito, e a visão espírita do espírito é muito esclarecedora, porque o espírito não é mais uma coisa abstrata, passa a ser um ser circunscrito. Então quando os médicos e a medicina entenderem melhor isso, com certeza vai se amplificar o benefício às pessoas, aos pacientes no tratamento, na terapêutica, no diagnóstico, em tudo vai influenciar. Allan Kardec já dizia que a descoberta do perispírito pela ciência já ia dar um grande impulso para a medicina, então é realmente um casamento perfeito. Infelizmente, ainda existem muitos obstáculos, no entanto, as pessoas perguntam muitas vezes como é que eu sendo médico sou espírita. Eu quero dizer que muitos médicos são espíritas, aliás, não apenas de hoje, na história mesmo do espiritismo, do espiritualismo vamos encontrar muitos médicos trabalhando nessas pesquisas, então não é uma coisa tão absurda. Inclusive já existe uma tradição de muitos médicos que são espiritualistas, que são espíritas, e hoje em dia nós temos a Associação de Médicos Espíritas do Brasil (AME), por exemplo, que tem mais de 40 anos de fundação em São Paulo, e cada vez mais se alastra no Brasil inteiro.   

 

TE – Hoje a medicina reconhece que muitas das doenças físicas são decorrências dos males psíquicos, como se dá este processo?

 

FC – A ciência vem se aproximando do que o espiritismo já fala há muito tempo, daquilo que os espíritos já trouxeram em termos de ensinamentos, de princípios sobre esta interação muito complexa entre corpo, perispírito e espírito no homem encarnado. Os cientistas acabam descobrindo pouco a pouco, ratificando aquilo que os espíritos já diziam há muito tempo. O problema das emoções, hoje, é indiscutível. As emoções levam a alterações no corpo físico e do ponto de vista espiritual, nós entendemos que as emoções são sentidas pelo espírito. O corpo físico é o instrumento de expressividade da emoção, porque é exatamente o princípio inteligente quem sente, não é o corpo em si que sente, o corpo na verdade é o instrumento dessas sensações. Então as emoções são emoções do espírito, que está ligado através do perispírito ao sistema nervoso, que causa alterações no sistema nervoso e conseqüentemente, através disso, alterações no corpo físico levando à doença.     

 

TE – Seguindo essa linha dos distúrbios psíquicos, e falando do tema da sua palestra no CONECE, quais as conseqüências que o sentimento de culpa pode trazer para a pessoa humana e para o seu desenvolvimento?

 

FC – Os sentimentos e as emoções negativas cada vez mais levam ao adoecimento do corpo e dos vários órgãos, por exemplo, alguém que guarda uma mágoa, um ressentimento prolongadamente. Hoje em dia há estudos que comprovam que doenças do coração, doenças como câncer, doenças como depressão, muitas vezes estão relacionadas com essas mágoas, esses ressentimentos e também com a culpa, porque a culpa é um sentimento negativo. Se formos analisar a culpa ela tem um objetivo, nenhum desses sentimentos é carente de objetivos. O problema é que nós acabamos nos deixando aprisionar pela culpa. A culpa tem por objetivo nos levar à reflexão sobre atitudes negativas, uma postura indevida que a gente tomou. A gente diz: “puxa vida, eu errei.” É assim que a culpa tem sentido, o objetivo é esse, mas quando a pessoa se deixa prender por este sentimento de culpa, que é um sentimento que rebaixa e muitas vezes é até seguido de uma agressividade, então nesse caso aí muitas doenças vão aparecer tendo como foco central a culpa, a mágoa e o ressentimento. Então a culpa adoece. E tem mais uma coisa, além de adoecer no hoje, ela adoece em outras encarnações, muitas vezes a pessoa nasce com uma culpa no inconsciente e vai ter mil problemas inclusive depressões, a pessoa às vezes não sabe porque tem uma sensação de culpa que não sabe nem o que é, é uma culpa do passado que ela não conseguiu superar. Muitas vezes a culpa tem haver com o orgulho e a agressividade.

 

TE – E como proceder para superar essa culpa?

 

FC – A primeira coisa que tem que se fazer é exatamente compreender o que se é. Naquilo que Jesus dizia: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo.” Observem que nessa relação de amor que Jesus nos ensina Ele coloca o auto-amor, o amor pelo próximo e o amor a Deus, ou seja, ninguém pode amar ao próximo sem amar-se verdadeiramente, nem pode amar a Deus sem amar ao próximo, existe uma inter-relação nesse amor. Quando eu me conheço, me compreendo, sei que sou um espírito que tem um destino de felicidade, então eu já passo, primeiro, a me compreender caminhante. Se eu me compreendo caminhante eu acabo me perdoando. Perdoando-me exatamente porque eu entendo que sou uma criança, ainda, no que diz respeito ao futuro. E a gente não perdoa as crianças? “Ah! Ele fez isso porque ele é criança.” Então quando eu começo a entender isso eu acabo com o orgulho, porque nós pensamos que somos a coisa melhor que existe no universo, na verdade nós somos um projeto da coisa melhor que existe no universo que é o ser perfeito, próximo de Deus, mas nós ainda estamos a caminho, nós ainda somos imperfeitos, nós ainda temos muita dificuldade,  isso faz com que às vezes a gente seja orgulhoso. E quando você é orgulhoso você se acha a coisa mais importante, só que você sabe muito bem que tem os seus defeitos, todos nós sabemos e nós não suportamos isso, não nos perdoamos por isso, daí se eu compreendo essa coisa do meu futuro, se eu me compreendo num caminhar, o que é que vai acontecer? Eu vou passar a ter mais humildade, deixar o orgulho de lado, mas sem me anular, sem me colocar como sendo a pior pessoa, ir para o outro lado, não, eu sou um ser perfectível, filho de Deus com um destino de felicidade e estou caminhando. Então eu começo a me perdoar, vou poder perdoar o outro e então a paz vai se fazer. A paz íntima, a paz de cada um e esse é o meu tema no nosso congresso.     

 

TE –Muitas vezes é mais fácil perdoar um estranho do que exercitar o perdão no seio familiar. Como é que as pessoas devem proceder para vivenciar o perdão com os familiares?

 

FC – O grande problema com relação à família é porque dentro daquela nossa característica de orgulho, alguém que não é importante para nós não nos afeta, mas alguém que temos como importante para nós quando faz uma coisinha de nada a gente diz; “puxa, mas ele fez isso comigo?”. Porque eu dou valor, eu valorizo aquela pessoa, então o mínimo que ela faça repercute em mim de forma muito difícil, dolorosa. Por isso é que eu digo que este encontro, este congresso tem uma importância muito grande, porque ele fala de ação espírita na transformação do mundo, ou seja, na construção da paz. E o espiritismo, sem nenhuma necessidade de projetismo, no seu conteúdo doutrinário a partir do que ele trás como princípio, ele permite que nós possamos fazer uma outra idéia, inclusive da família. A família é uma reunião de espíritos, espíritos que estão caminhando na busca de Deus e que estão caminhando mais próximos, estão tendo oportunidades múltiplas, e essas oportunidades tem feito com que esses espíritos tenham participado de vários grupos, ora como pai, ora como mãe, ora como filho, ora como irmão, ora como esposa, ora como marido e olha como isso permite um leque tão grande, que você passa a entender o porquê até das dificuldades do outro. Compreendendo isso, que hoje eu sou pai, mas fui filho em outra reencarnação ou posso ser filho numa próxima encarnação, então eu já começo a ver as ações do meu filho de forma diferente, porque eu não me coloco unicamente na posição de pai, mas na posição de um amigo, de um companheiro que momentaneamente está assumindo uma função. E esse conhecimento da família, essa visão da família dessa forma, onde a reencarnação permite ampliar esse sentido da família, então faz com que a gente possa compreender melhor, tolerar melhor, relacionar-se melhor.

 

TE – Falando em paz, que é o tema do congresso, como o senhor vê esse caminhar da humanidade em direção a paz e em que podemos contribuir?

 

FC –Toda a humanidade anseia pela paz, porque sendo seres perfectíveis todos nós somos o que eu chamo de teofílicos, ou seja, nós temos afinidade por Deus e, portanto nós nos dirigimos, mesmo quando não sabemos, para Deus, mesmo quando negamos Deus nós buscamos Deus, mesmo quando não temos consciência de buscá-Lo, nós estamos buscando. Porque quem não quer ser feliz? Todo mundo quer ser feliz, o único problema é que muitas vezes a gente não sabe o que é ser feliz ou não sabe onde encontrar a felicidade, então nessa felicidade nós temos um elemento imprescindível que é a paz, a pacificação. Uma das nossas grandes agonias é exatamente não sermos pacificados, então temos ansiedade, temos problemas íntimos emocionais porque não estamos pacificados. Ora, significa dizer que todos nós estamos buscando, de uma ou de outra forma. E o que fazer, então, para ajudar nessa construção da paz mundial? Muitas vezes nós clamamos: “Ah! Esse mundo é violento, esse mundo não tem paz, eu não suporto esse mundo.” Mas nós esquecemos que o mundo é o resultado das nossas atitudes. A paz mundial vai ser, exatamente, resultante da paz de cada um. Na construção da paz mundial a nossa melhor ajuda vai ser a busca de aprimoramento, de aperfeiçoamento, de pacificação interior. Por isso aquela coisa da culpa, do perdão e do autoperdão é o princípio, é a base da transformação do homem para transformar o mundo. Tem até uma estória muito interessante de uma criança que tinha um quebra-cabeça do mundo e o pai querendo se livrar da criança que estava perguntando muito disse ao filho: “meu filho vá brincar com o seu quebra-cabeça.”  E o pai pensou: “ele não entende o que é o mundo, então vai demorar muito.” Daqui a pouco o menino voltou e disse: “pronto pai, resolvi.” E o pai perguntou: “Resolveu? Como é que você conseguiu montar o mundo inteiro tão rápido?” e o garoto respondeu: “ Foi fácil, do outro lado tinha a figura de um homem e então eu fui fazendo o homem e fiz o mundo.” É transformando o homem que se transforma o mundo.

 

TE – Gostaríamos agora de pedir que o senhor deixasse a sua mensagem.

 

FC – Quando a gente trabalha no sentido de melhorar, quando a gente busca sair de nós mesmos para encontrarmos o próximo, a partir de uma vontade íntima, de uma necessidade íntima, a gente vai somando esforços no sentido de formar uma grande família, ou pelo menos de compreender-se uma grande família. Uma grande família que tem um destino semelhante, um destino igual. Isso permite que a gente possa dar passos importantes na construção da paz mundial e conseqüentemente da fraternidade universal. Agora, enquanto a gente não constrói a própria paz, enquanto a gente está a caminho, se bem que nós estamos no momento certo de darmos os passos decisivos para a construção da paz, a gente pode contar com a paz de Jesus: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou (com ênfase) a minha paz.” Jesus sabendo das nossas inquietudes, das nossas dificuldades, Ele nos deixa a sua paz e isso fica muito bem caracterizado no capítulo sexto do Evangelho Segundo o Espiritismo, no consolador prometido. O espiritismo é o consolador prometido por Jesus, é Jesus voltando. É por isso que o sexto capítulo é chamado de Cristo consolador, é Jesus em nós, trazendo a sua paz para os momentos de angústia, de ansiedade, de aflição enquanto nós não construímos a nossa própria paz.

 

TE – Obrigado.

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Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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