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A.Merci Spada Borges

Esse Espírito abnegado há cento e seis
anos no plano espiritual, prossegue incansável, distribuindo consolo e ajuda às
almas aflitas, nos dois planos da Vida. Quando encarnado, fé do amor, da
caridade, da abnegação e da renúncia exemplos para todas as gerações.
Em 29 de agosto de 1831 o pequeno
rincão cearense, Riacho do Sangue acolhia uma alma de escol. Desde a infância
já se preocupava com os estudos e dedicava-se à meditação.
Aos vinte anos, com auxílio de
familiares e de amigos, viajava para o Rio de Janeiro onde se matricula na
Faculdade de Medicina.
Vontade inquebrantável, honesto e
digno, dedicou-se aos estudos, lecionando humanidades para manter-se. Jamais
assumiu qualquer compromisso ou freqüentou lugares que contrariassem a moral. O
auxilio Espiritual, de que sempre se fez merecedor, nunca lhe faltou,
manifestando-se nas horas mais cruciantes. O jovem Bezerra venceu cinco anos de
árduas dificuldades.
Com vinte e cinco anos Bezerra se
Doutora. Dois anos depois completa o sonho de sua vida. Contrai matrimônio com
Maria Cândida de Lacerda. A felicidade o acompanhou por cinco anos. Pela
esposa, luta, trabalha, ganha posição, sem nunca deixar de atender aos necessitados.
A vida lhe sorri, dois filhinhos enriquecem os seus dias.. Mas quão breves
foram esses dias! A dor atinge esse Espírito resignado quando a esposa querida
retorna ao plano espiritual.
Era preciso prosseguir. O trabalho era
intenso, a miséria alheia batia constantemente à sua porta, ninguém de despedia
sem auxílio, sem uma palavra amiga, sem o socorro imediato; carinhosamente foi
cognominado O MÉDICO DOS POBRES. Constantemente era visto percorrendo o morro,
os casebres levando aos seus habitantes o bálsamo da dor, apaziguando o
sofrimento e a fome de muitas famílias.
Mais tarde, casa-se com a irmã de sua
falecida esposa, Cândida Augusta de Lacerda, com quem tem mais sete filhinhos. Nove
ao todo. Sua vida era dedicada à família, à Medicina e aos desfavorecidos da
sorte. Muitas vezes se esquecia de si mesmo para viver Jesus. A maioria das
consultas que fazia não era cobrada e, às vezes, tirava do próprio sustento
para pagar os medicamentos de seus clientes.
Houve um período de tranqüilidade
econômica em sua vida quando exerceu o cargo de Cirurgião-Tenente no Corpo de
Saúde do Exército.
Mas ao abraçar a política surgiu um
impasse: ou o cargo no Exército ou a Política; e para não decepcionar o seu
povo escolheu a Política.
Por vários anos ocupou a presidência da
Câmara Municipal da Corte, e, como tal, orientou a administração da cidade,
como um Prefeito dos tempos atuais.
Foi também deputado por dez anos,
dedicando à vida política cerca de 24 anos.
Parlamentar atuante e digno fez da
política, não o trampolim de seus interesses, mas a estrada luminosa de auxílio
ao povo, aos mais necessitados e à sua pátria, sempre exercendo a Medicina. Dizia
ele: “O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher à
hora, de inquirir se é longe ou perto”.
A dor não escolhe sua vítima e como tal
foi caluniado, insultado, injustiçado, mas tudo suportou com paciência, coragem
e resignação.
Certa feita um amigo presenteou-o com
um livro diferente: “O Livro dos Espíritos”. Leu-o com avidez, ficou intrigado,
era a primeira edição traduzida para o português, não conhecia o assunto,
todavia, à medida que ia lendo percebia que todo o conteúdo do livro já era de
seu conhecimento. Sim, afirmava: “Parece que eu já era espírita de nascença”.
No entanto, sua entrada para a Doutrina
Espírita deu-se como acontece com muitos espíritas, pelas portas da dor.
Um de seus filhos, “moço de grande
inteligência e coração bem formado”, foi acometido de loucura, segundo os
melhores médicos do Rio de Janeiro. Assim sendo, fora aconselhado a interná-lo
em um manicômio devido aos riscos que representava em meio à família.
Dr. Bezerra de Menezes narra em seu
livro “A Loucura Sob Novo Prisma”:
“Foi ante a contingência de uma
separação mais dolorosa do que a própria morte que resolvemos atender a um
amigo que há muito nos instava para recorrermos ao Espiritismo.”.
E assim, através de um médium, um
Espírito consultado revelou-lhe: Obsessão.
A partir de então, buscando a cura do
filho querido, o “médico dos pobres”, que tanto se preocupara com a saúde
física de seus doentes, passou a dedicar-se também à cura da alma de seus
semelhantes.
“Apóstolo verdadeiro do Cristo deu-se
por inteiro à causa do espiritismo colocando a sua vida a serviço do Amor.”.
O século XIX chega a seu termo; novas páginas
aguardam registros dos acontecimentos do século nascente.
Mil e Novecentos – Uma multidão de
assistidos aguarda em prece a desencarnação daquele que lhe deu tanto amor. 11
de abril, 1900, o Médico dos Pobres, após dias de agonia, despede-se das vestes
carnais.
Ao ser acordado no Plano Espiritual por
Celina, a mensageira de Maria Santíssima, é visitado por amigos e trabalhadores
das lides espíritas, Ouve então murmúrios vindos de fora. Amparado por Celina,
é levado até a sacada:
“Vê uma multidão de Espíritos que lhe
acenam com lágrimas nos olhos”.
- Quem são Celina? (...) Não conheço a
ninguém. Quem são?
- São aqueles a quem você consolou sem
nunca perguntar-lhes o nome. São aqueles Espíritos atormentados que chegaram às
sessões mediúnicas e as suas palavras caíram sobre eles como um bálsamo numa
ferida em chaga viva; são os esquecidos da Terra, os destroçados do mundo. “São
eles que o vêm saudar no Pórtico da Eternidade.”.
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